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Na conversão, a preferência é do pedestre!

“E isso também vale para as calçadas, inclusive no que diz respeito à saída de veículos dos lotes particulares.”

No dia 23 de setembro passado o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) completou 20 anos de promulgação. Apesar de ser o que poderíamos chamar de um “monumento ao carrocentrismo”, traz um conceito de grande importância, ainda que, infelizmente, muito pouco observado. No artigo 29, parágrafo segundo, diz expressamente: “em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”.

Sim! Todos os que estão no trânsito são responsáveis pela “incolumidade” do pedestre e, como decorrência deste postulado, na conversão (ao dobrar o veículo em mudança de direção, à direita ou à esquerda), sempre deve ser dada preferência de passagem, pelo motorista que está dobrando, ao pedestre que está atravessando e ao ciclista que está cruzando a rua transversal, exista ou não faixa de pedestres. A redação do parágrafo único do artigo 38 do CTB é claríssima: “Durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas”.

E isso também vale para as calçadas, inclusive no que diz respeito à saída de veículos dos lotes particulares. O artigo 36 do CTB é explícito: “O condutor que for ingressar numa via, procedente de um lote lindeiro a essa via, deverá dar preferência aos veículos e pedestres que por ela estejam transitando.”

Simples assim, mas de raríssima observação. Há mais de 10 anos andando sistematicamente dentro da cidade do Recife, por infindáveis quilômetros de calçadas e atravessando milhares de ruas, dá para contar nos dedos das mãos as vezes em que esse princípio da prioridade ao pedestre foi observado voluntariamente comigo. Das vezes em que aconteceu, de fato, foi por imposição minha.

Recentemente, participando de uma audiência pública na Câmara Municipal do Recife, convocada e presidida pelo vereador Jayme Asfora, ouvi dele a leitura de um requerimento ao plenário solicitando que o poder executivo municipal providenciasse a colocação de placas indicativas em locais de cruzamento no Recife com os dizeres: “Na conversão, a preferência ao pedestre é obrigatória. Artigo 38 do Código de Trânsito Brasileiro”. Soube que o requerimento foi aprovado e encaminhado à Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano municipal. Um pequeno grande passo civilizatório. Vamos cumprir!

*Artigo publicado na edição 139 da revista Algomais (www.revistaalgomais.com.br)

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O pedestre atravessa como? Voando?

Só outro dia me dei conta: Praticamente não é possível ir da Zona Norte à Zona Sul, e vice-versa, a pé”.

Apesar de já ter percorrido uma boa parte do Recife a pé (cerca de 7 mil km nos últimos 10 anos dentro da cidade – o equivalente a ida e volta a Florianópolis), só outro dia me dei conta de uma coisa estranhíssima: praticamente não é possível ir da Zona Norte à Zona Sul, e vice-versa, a pé.

A não ser que se vá caminhando até Afogados e, de lá, pela Imbiribeira até o cruzamento com a Antônio Falcão/General Mac Arthur, depois direto até a praia. A outra alternativa é ir até a Praça do Marco Zero, pegar um barco, atravessar até os arrecifes e ir por cima do molhe até o Pina. Existe uma terceira que é ir por dentro de Joana Bezerra até a Avenida Sul e cruzar por baixo da linha do metrô, numa passagem pra lá de esquisita, até o Cabanga.

Fora isso, se a tentativa for pelo mesmo percurso dos carros, o infeliz pedestre terá que cruzar a pé o Viaduto Cinco Pontas e o Cais José Estelita até o Cabanga ou arriscar a vida por cima do Viaduto Capitão Temudo, disputando espaço com veículos motorizados que passam chutados. Neste último caso, se conseguir chegar vivo até a Ponte Paulo Guerra, terá que arriscar a vida mais uma vez, pulando a mureta de concreto e atravessar correndo a entrada da Via Mangue para alcançar, pulando outra mureta, o prosseguimento da calçada da ponte, literalmente arrancada neste trecho. O curioso é que no local picharam na mureta: “O pedestre atravessa como? Voando?” (e até para ter acesso ao shopping RioMar ele teria que voar porque a calçada é interrompida por outra mureta para além da qual projeta-se um precipício de uns dois andares de altura).

A ficha dessa situação absurda de uma cidade que não se conecta para o pedestre só caiu recentemente quando me vi, mais uma vez, em meio a esse quadro absolutamente surrealista, muito mais quando me dei conta de que, tanto o alargamento do Capitão Temudo quanto a construção da Via Mangue, se deram praticamente um dia desses… Ambos sem calçada e sem preocupação com o pedestre (e com o ciclista também). Pelo que sei, a calçada e a ciclovia da Via Mangue foram acrescentadas depois do projeto pronto e aprovado quando alguém disse: “oi, cadê a calçada?”

O que dizer da mobilidade de uma cidade na qual o pedestre só consegue ir da Zona Norte à Zona Sul voando? No mínimo, que muita coisa precisará mudar para que o conceito de caminhabilidade das cidades desenvolvidas seja, de fato, adotado entre nós.

*Artigo publicado na edição 128 da revista Algomais (www.revistaalgomais.com.br)

Olhe pelo Recife: movimento em defesa do pedestre

Na semana dedicada ao Pedestre, o Recife ganha um novo espaço de discussão para a melhoria das condições de circulação de quem anda a pé pela cidade. O Movimento Olhe pelo Recife – Cidadania a Pé foi lançado no último sábado (06), durante a 15ª Caminhada Olhe pelo Recife, que percorreu pontos históricos e turísticos do Recife Antigo, guiada pelo consultor e sócio da TGI, Francisco Cunha.

Esse é o primeiro grupo formalizado na cidade para tratar de temas ligados ao pedestre, com base nos Mandamentos do Pedestre Recifense. No Brasil, dois terços da população se locomove diariamente a pé pelas cidades e desses um terço de forma exclusiva.

“Há cinco anos iniciamos as caminhadas como uma forma de conhecer melhor a nossa cidade, explorando pontos históricos e turísticos e com a possibilidade de uma visão diferente do Recife. Agora a caminhada se transforma em Movimento e nossa missão é criar um espaço formal de discussão sobre a caminhabilidade segura e condições mínimas de circulação dos pedestres”, afirma Francisco Cunha, coordenador da comissão provisória do movimento, formado por mais de 100 integrantes.

A caminhada Olhe pelo Recife é uma iniciativa do Observatório do Recife, organização que atua desde 2009 e é formada por entidades da sociedade civil com a missão de propor, mobilizar e monitorar indicadores e metas que constituam uma agenda de desenvolvimento sustentável para o Recife. Entre os membros, a TGI Consultoria em Gestão, a Itamaracá Transportes e o CDL Recife.

 

 

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Pedestre, esse invisível

por Francisco Cunha, sócio da TGI Consultoria em Gestão

Toda a desconsideração existe simplesmente porque o pedestre não existe ou, então, é invisível.

Recentemente cheguei a uma conclusão terrível: o pedestre não existe no Recife. Ou, pelo menos, se existe é invisível.

Depois de andar a pé mais de 3.000 km (distância do Recife a São Paulo) dentro da cidade nos últimos sete anos, de ter-me indignado incontáveis vezes com o estado inqualificável das nossas calçadas, de ter aplicado centenas de multas cidadãs nos carros impunemente estacionados nos passeios públicos, de ter lançado um livro com Luiz Helvecio sobre a calçada como primeiro degrau da cidadania, de ter feito dezenas de palestras sobre a importância da caminhada e da cidadania deambulatória, me dou conta, subitamente, dessa coisa absolutamente obvia: toda a desconsideração existe simplesmente porque o pedestre não existe ou, então, é invisível.

Se não for assim, como explicar, por exemplo, que todos os carros que saem dos lotes em direção à rua passem por cima da calçada velozmente como se nem ela nem os pedestres que nela transitam existissem e parem, justamente, antes de entrar no leito da rua para não serem abalroados nem abalroarem os carros que já estão lá? Lógico que é porque os carros existem e são bem visíveis mas os pedestres não. Isso, apesar do Código de Trânsito Brasileiro ser explícito sobre a prioridade do pedestre na calçada e de existir uma Lei Municipal (17.467/2008) obrigando a afixação de placas em locais de entrada e saída de carros com os seguintes dizeres: “Atenção motorista. Pedestre na calçada tem prioridade”. Teria se existisse…

Outra questão: como explicar que além do enorme desrespeito que é estacionar carros sobre a calçada, agora a moda seja o tráfego em velocidade de motos e, mais recentemente, de bicicletas sobre os passeios do Recife, aumentando muito o risco de atropelamento do pedestre na própria calçada, um completo absurdo lógico?

Só pode ser porque as pessoas que fazem isso não acreditam na existência dos pedestres e, se acreditam, simplesmente, não os veem. Só pode ser isso, claro! Porque crer que eles veem e fazem o que fazem de propósito, como cheguei a pensar até ter tido enfim a clarividente revelação da invisibilidade, é demasiado desabonador.

Por isso, nesse primeiro artigo do ano, desejo a todos os leitores que, antes de qualquer outra qualificação relativa à mobilidade urbana, são em primeiro lugar pedestres (mesmo os mais radicais usuários de outros modais chegam, se podem, até eles a pé) e, sendo assim, fazem parte dessa avassaladora e invisível maioria, um excelente ano novo e pelo menos um pouco mais de visibilidade no Recife em 2014.

*Artigo publicado na edição 94 da revista Algomais (www.revistaalgomais.com.br).

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