O papel dos pais no processo de sucessão

A empresa familiar se constitui como um cenário propenso à vivência de dilemas, em especial no que se refere ao processo sucessório. E um desses dilemas tem ligação direta com um erro clássico que pode tornar mais difícil a sucessão: quando o herdeiro se comporta mais como sucessor do pai do que como sucessor do negócio.

Este é um desvio ainda muito comum nas famílias empresárias, principalmente quando os herdeiros estão sendo preparados diretamente pelos próprios pais. A dificuldade é administrar a tendência de o sucessor se preocupar mais em atender as expectativas dos pais e colocar em segundo plano as da empresa e as dos demais familiares que também são sócios e proprietários. E, na ânsia por uma validação e pelo reconhecimento de sua competência, os herdeiros podem acabar atropelando processos e desconsiderando o que é essencial à longevidade do negócio.

Assim, alinham decisões só com o pai ou a mãe e deixam de combinar com os pares, não tratam assuntos importantes com seus gerentes imediatos e ignoram que existe uma estrutura de gestão e governança que precisa ser respeitada. Além disso, é comum que os pais tenham a tendência de proteger os filhos, tomar partido, não deixar errar, e isso não vai ajudar em nada na formação de um sucessor.

Os pais podem até serem conselheiros e fornecer apoio emocional, mas é preciso ter equilíbrio e, principalmente, respeito à hierarquia definida na governança. Afinal, é o futuro do negócio e do legado da família que está em jogo.

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O desafio de formar herdeiros

Quando falamos em sucessão, um dos principais desafios encontrados pelas empresas familiares é a formação dos herdeiros para que possam dar continuidade ao legado construído pela família. Mas engana-se quem pensa que essa formação só deve ser iniciada quando o neto, filho, sobrinho etc. estiver com idade e maturidade suficientes para começar a trabalhar no negócio.

A formação de um herdeiro tem início já em sua educação básica, mas deve ir muito além disso. É claro que escolher boas escolas e incentivar a formação superior e especializações é importante, mas alguns valores devem ser construídos desde a primeira infância.

Um valor essencial de ser passado para jovens herdeiros é o cuidado com o dinheiro. Saber lidar com suas próprias finanças é condição indispensável para que, no futuro, eles possam cuidar do caixa da empresa com mais responsabilidade. Além disso, tão importante quanto saber lidar com o financeiro é ter conhecimento cultural e aprender a respeitar e se relacionar com as diferenças – pessoas diferentes, raças diferentes etc.

Aprender a conviver com situações mais desconfortáveis e a mediar conflitos são noções importantes a serem passadas para os herdeiros de uma empresa familiar, que também devem ser ensinados a serem socialmente responsáveis, a terem cuidado com o meio ambiente e com as comunidades locais.

A história da família e da empresa também deve ser ensinada desde cedo, assim como os valores que as regem. Da mesma forma, o papel do negócio e sua importância na sociedade devem ser repassados para todos, para que, desde cedo, fortaleçam os laços e entendam a responsabilidade que irão assumir no futuro.

Herdeiros devem ser estimulados, ainda, a terem uma visão diferente de mundo e a valorizar o trabalho para muito além de uma fonte de renda. Eles devem entender que o lucro é importante sim, mas que sozinho não vai fazer diferença. O mundo atual cobra muito mais do que apenas cifras.

Pode parecer complexo e desafiador, mas esses são valores que podem ser ensinados dentro de casa, no dia a dia. E, para além de formar cidadãos mais responsáveis, vão ajudar na formação de indivíduos com maior capacidade para inovar e levar o legado da família empresária ao futuro de forma mais sustentável.

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Como aprender mais sobre empresas familiares

O tema “empresa familiar” é exigente e, quanto mais estudamos sobre ele e observamos a realidade das famílias empresárias, mais nos damos conta da complexidade dessas organizações e dos problemas que elas enfrentam. E é justamente por essa amplitude e peculiaridades que muitas famílias empresárias estão constantemente em busca de conhecimento e capacitações para que possam gerir melhor seus negócios e lidar com os desafios que lhes são impostos. Mas qual seria a melhor forma de estudar sobre empresas familiares?

É muito comum que as famílias empresárias procurem cursos, livros, artigos e cases sobre o tema visando conseguir uma orientação mais direta, uma resposta pronta para suas necessidades. E realmente existe muito conteúdo interessante para ser consumido por quem está em busca de soluções para seu negócio. Entretanto, a experiência mostra que muitas vezes a teoria contradiz a prática.

Só essas publicações mais genéricas não vão dar a visibilidade completa necessária para quem está buscando aperfeiçoar processos ou saídas para problemas antigos ou recorrentes, principalmente quando falamos de empresas familiares. Só quem vive no dia a dia sabe das forças e dores dessas organizações e têm realmente lugar de fala para ensinar sobre o tema.

Por isso, uma alternativa complementar muito recomendada pelos especialistas para reforçar a escolha de soluções adequadas é trocar informações com outras famílias empresárias e conhecer experiências que deram certo ou não na história das organizações. Hoje, é possível participar de eventos e encontros bem estruturados que promovem a discussão sobre empresas familiares, promovidos por empresas especializadas em governança em empresas familiares.

Essas empresas têm o papel principal de fazer a curadoria dos temas e provocar o debate, mas os verdadeiros protagonistas da troca de conhecimentos que acontecem nessas ocasiões devem ser, de fato, aqueles que integram as empresas familiares. Por isso, é condição sine qua non para que se extraia o máximo de conhecimento desses encontros que a família empresária desapegue da resistência em expor informações, fazer perguntas e reflexões em voz alta.

As empresas familiares precisam compreender que os ganhos da troca são maiores do que possíveis constrangimentos. Afinal, todas cometem erros em suas jornadas. Histórias de sucesso ou mesmo tentativas que não deram certo são ricas e cheias de referências que servem de inspiração e que podem ter papel essencial na construção de um futuro mais sustentável para o negócio e para as famílias.

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O equilíbrio entre privacidade e transparência na empresa familiar

Não é incomum encontrarmos empresas familiares que, internamente, são cheias de segredos e temas confidenciais que não podem ser externados nem para sua equipe mais estratégica. Isso acontece principalmente porque, para muitas famílias empresárias, o hábito de reter informação é muito forte, principalmente quando já viveram casos de vazamento de dados ou têm receio de perder vantagens competitivas. De fato, é um medo válido, mas que pode trazer sérias consequências para o negócio.

A experiência mostra que a tendência de resguardar informações internas é bem mais forte naquelas empresas familiares que ainda não foram profissionalizadas. O problema, nesses casos, é que o fato de não compartilhar dados, impressões e constatações com as equipes deixa os profissionais sem “munição” para executarem suas tarefas da melhor forma.

Além disso, em uma empresa cheia de segredos, as pessoas ficam mais acuadas, não se sentem pertencentes nem confortáveis para questionar, o que acaba barrando a inovação e a criação de soluções novas para problemas antigos. E tudo isso vai impactar não só no andamento das tarefas, mas também na qualidade das entregas e no clima organizacional.

É preciso ter em mente que é possível sim, e necessário, compartilhar algumas informações estratégicas da empresa, tais como papéis e responsabilidades na governança, principais pontos dos acordos de sócios, políticas de entrada e saída, história da família, algumas informações financeiras e planos para atuação no mercado, entre outras.

Claro que alguns dados e fatos vão precisar ser preservados, por isso o ideal é analisar com frieza para decidir o que é, realmente, segrego e o que não é. Neste caminho, criar um plano de comunicação bem estruturado vai ajudar no equilíbrio entre privacidade e transparência.

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O acordo de sócios e a mediação dos conflitos na empresa familiar

Falamos anteriormente que uma das melhores formas de administrar os conflitos em uma empresa familiar, visando preservar a unidade da família empresária e a sustentabilidade do negócio, é estruturando um modelo de governança corporativa. No entanto, outra ferramenta muito importante para minimizar os atritos e essencial para organizações familiares de todos os portes é o acordo de sócios.

Isso porque raramente o contrato social de uma empresa prevê de forma clara e direta como os impasses societários devem ser resolvidos. Então, em qualquer que seja o modelo de sociedade empresarial, é preciso estabelecer um combinado e um compilado de regras que vão nortear a atuação de todos os envolvidos, seguido pelo comprometimento e pela formalização deste acordo.

Esse documento, tão importante quanto o contrato social em si, tem relevância não só moral, mas também tem valor de lei. Nele, podem constar desde questões mais internas da família até questões mais gerais da empresa e do negócio, tais como: regras para distribuição dos lucros, normas para entrada e saída de familiares na organização, diretrizes do plano de sucessão, regras para caso de falecimento, orientações para uso do patrimônio e retiradas financeiras, entre diversos outros temas.

Essa construção pode até contar com o apoio de especialistas para dar uma visão mais técnica ao acordo, mas é essencial que a família discuta internamente quais pontos são mais sensíveis e quais são os principais “gatilhos” para os conflitos. Afinal, cada empresa tem uma realidade e cada família empresária é única. Além disso, é preciso atentar para o momento ideal para a estruturação do acordo de sócios, que é, basicamente, antes das crises acontecerem. Ter esse documento em mãos na hora certa pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso do negócio.

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