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“Que país é este?”

“Tenho muita curiosidade de saber o que pensaria Francelino do País nos dias de hoje. Que pergunta faria?”

A pergunta do título foi formulada por Francelino Pereira (1921-2017), político nascido no Piauí mas que fez carreira em Minas Gerais onde foi governador e senador, além de presidente nacional da Arena, partido de apoio ao regime militar nas décadas de 1960/70/80. Francelino inquiria, então, sobre a falta de confiança de boa parte da opinião pública acerca da sinceridade do presidente Ernesto Geisel em levar adiante a abertura política prometida. Em meio ao ambiente de radicalização da época (situação x oposição), a pergunta virou uma espécie de meme usado principalmente pelos humoristas, em especial no jornal mais crítico da época, O Pasquim. Transformou-se até em título de uma música do Legião Urbana…

Tenho muita curiosidade de saber o que pensaria Francelino do País nos dias de hoje. Que pergunta faria? Afinal, o que diria observando o ambiente político dos últimos cinco anos? Um afluxo inusitado e surpreendente de gente na rua protestando contra a qualidade dos serviços públicos que se requeria fossem “padrão Fifa” (as famosas “jornadas de junho de 2013); uma eleição presidencial ultrapolarizada; uma crise que muitos dizem ser a pior da história documentada e que começa apenas timidamente a se reverter, projetando mais uma década perdida de crescimento econômico; uma operação policial/judicial que levou à barra dos tribunais e à cadeia figuras importantes do cenário empresarial e político nacional, devendo ampliar em muito seu espectro de atuação; o segundo impeachment de um presidente da República em menos de 25 anos; um vice-presidente que assume e se mantém com a maior taxa de desaprovação da história conhecida; uma tremenda radicalização política pelas redes sociais e que começa a manifestar-se nas ruas, ameaçando jogar o País numa espiral de violência e incerteza política sem precedentes; uma classe política completamente desacreditada; uma suprema corte que se transformou numa fonte perene de insegurança jurídica; e, por último, mas não menos importante, a eleição presidencial mais incerta desde a redemocratização…

Tenho a impressão de que Francelino ficaria pasmo, sem ter o que dizer diante da magnitude dos fatos recentes… Daí, a enorme  importância de, penso, os não radicais buscarmos conservar e cultivar o bom senso e evitar, ao máximo, radicalizações. O futuro do País está sendo seriamente jogado nas próximas eleições. Neste cenário, não eleger nenhum populista é absolutamente vital!

*Artigo publicado na edição 146 da revista Algomais (www.algomais.com)

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Prioridade para o pedestre recifense

“No final do mês passado, a Prefeitura do Recife, por intermédio do Instituto Pelópidas Silveira (ICPS), divulgou as propostas de Políticas Setoriais do Plano de Mobilidade Urbana do Recife, discutidas em audiência pública no dia 28.03.”

Do documento consta expressamente a priorização para o fluxo e a segurança do pedestre e do ciclista e para o transporte público de passageiros, além do desestímulo ao uso do transporte individual motorizado (carros e motos) como principal meio de locomoção na cidade. Trata-se da primeira vez que diretrizes dessa natureza são formalizadas em um documento com status de pré-projeto de lei. Um marco histórico!

A ironia do destino é que, no dia anterior, os meios de comunicação divulgaram o resultado do Índice 99 de Tempo de Viagem (ITV 99) que, pelo segundo ano consecutivo, apontou o Recife como tendo o pior trânsito das 10 maiores capitais brasileiras nos deslocamentos em horários de pico da manhã (7h às 10h) e da noite (17h às 20h). E, ainda que essas medições feitas por meio de aplicativos de transporte mereçam ser olhadas com reservas quando determinam rankings de desempenho, o fato é que o Recife tem aparecido com frequência em colocações comprometedoras no quesito travamento de trânsito… O que, aliás, não é novidade, dada a sua estrutura viária antiga (em muitos locais plurissecular), lançada antes do advento dos veículos motorizados e sem alternativas físicas de ampliações significativas…

Enfrenta o Recife, no que diz respeito ao trânsito, um problema elementar de física aplicada: não pode uma rede limitada de vias ser acrescida continuamente de veículos sem que venha a travar!

Daí, a grande importância de políticas públicas que priorizem os demais meios de deslocamento que não os individuais motorizados (a pé, de bicicleta e transporte público), sempre considerando que, em termos de mobilidade, o importante é o deslocamento de pessoas e não, necessariamente, de veículos, conforme, inclusive, pode ser conferido na boa matéria sobre o tema publicada nesta edição da Algomais.

Esse é, aliás, um debate muito difícil por causa da longa hegemonia do transporte individual motorizado no planejamento das nossas cidades. Por isso, é preciso que se tenha muita calma nesta hora porque, infelizmente, inexistem soluções mágicas.

*Artigo publicado na edição 145 da revista Algomais (www.algomais.com)

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Um problema de segurança nacional

“O Brasil é o maior consumidor de crack, o segundo de cocaína e o principal local de passagem de drogas no mundo.”

Infelizmente no nosso País o problema da segurança pública transformou-se num problema de segurança nacional.

Em recente participação no programa Globo News Painel, a propósito da intervenção federal no setor de segurança do Estado do Rio de Janeiro, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, do alto de sua experiência de primeiro comandante da missão de estabilização da ONU no Haiti, disse, com todas as letras, que o Brasil estava caminhando a passos largos para se transformar num “narco-país”. É o maior consumidor de crack, o segundo de cocaína e, hoje, o principal local de passagem de drogas no mundo. Isso sem produzir nenhum grama de cocaína nem fabricar fuzis militares ou metralhadoras, fartamente utilizados pelos traficantes no País inteiro.

Segundo informações da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, a maioria absoluta dos chamados CVLI (Crimes Violentos Letais e Intencionais), os assassinatos, no Estado está relacionada ao tráfico de drogas, assim como, também, a maioria dos chamados CVP (Crimes Violentos Contra o Patrimônio), roubos e assaltos, são de celulares para troca por droga.

Daí a grande importância, já muitíssimo atrasada, do tratamento do tema com uma abordagem nacional e a mais unificada possível. E, daí também, a importância da intervenção federal no Rio de Janeiro e da criação do Ministério da Segurança Pública.

O secretário de Segurança Urbana do Recife, Murilo Cavalcanti, profundo conhecedor do enfrentamento da violência a partir da exitosa experiência da Colômbia, é taxativo ao afirmar: “a situação atual do Rio de Janeiro é a mesma de Medellín na década de 1980”. E mais: “o enfrentamento do problema da segurança pública no Brasil, dada a gravidade que assumiu, depende tanto da atuação articulada da indispensável ‘mão social’ como, também, da ‘mão dura’ da ordem estatal”. Uma “mão” só não resolve mais.

Então, não há, em tese, do que discordar das medidas recentemente tomadas pelo governo federal, torcendo para que a coisa seja feita pelos responsáveis da forma mais profissional possível, ainda que, no momento, sob inescapável influência eleitoral. Mas é melhor começar e deixar pelo menos o problema estruturado para os próximos governantes do que não fazer nada e ver o crime organizado avançar cada vez mais sem enfrentamento inteligente e minimamente articulado. Torçamos, então!

*Artigo publicado na edição 144 da revista Algomais (www.algomais.com)

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A velocidade é o problema

“Esta é a principal causa de mortes no trânsito, sendo o seu limite e controle a forma mais fácil e rápida de o número de mortos nas ruas.”

Embora não seja especialista em trânsito, nos mais de 20 anos de consultoria em estratégia e gestão prestados a empresas de transporte de passageiros e ao sindicato do setor, terminei aprendendo por osmose. Além disso, depois que há mais de 10 anos me tornei caminhante e militante da causa da mobilidade a pé na cidade, passei a estudar o assunto e a cotejá-lo com a realidade. E quando fui convidado para falar regularmente sobre mobilidade na CBN Recife, passei a confrontar esse conhecimento com a situação de outras cidades do Brasil e do mundo.

Depois de tudo isso, a conclusão a que cheguei foi a seguinte: a velocidade é a principal causa de mortes no trânsito, sendo o seu limite e controle a forma mais fácil e rápida de reduzir drasticamente o número de mortos e feridos nas ruas.

Para ilustrar, três exemplos recentes do final de janeiro publicados nos jornais: em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Recife. Em São Paulo: idoso atropelado e morto na faixa de pedestre. Causa primária apontada: o atropelador estaria praticando pega/racha. No Rio de Janeiro: carro sobe o calçadão de Copacabana atropela 18 e mata criança de oito meses. Causa primária apontada: o motorista, epilético, alegou crise ao volante. No Recife: caminhão sobe a calçada na Av. Rosa e Silva e esmigalha um poste de iluminação (eu vi o resultado depois porque na hora, felizmente, estava bem longe do local!). Causa primária apontada: o condutor estaria alcoolizado.

Três causas primárias diferentes e uma secundária comum que provocou as tragédias e os danos materiais: a velocidade acima do permitido e/ou modernamente aceitável. Uma prova pelo absurdo: se nos três casos as velocidades fossem, por exemplo, de 40 km/h os danos seriam infinitamente menores e talvez não tivessem havido mortes. A própria Organização Mundial de Saúde recomenda velocidade urbana máxima de 50 km/h.

Sei muito bem pelas reações que enfrento quando falo no assunto que a causa talvez seja a mais difícil que já defendi publicamente mas não posso me eximir depois que entendi a natureza do problema: é preciso reduzir as velocidades máximas permitidas e praticadas nas cidades brasileiras para reduzir o número de mortos e feridos no trânsito do País (cerca de 50 mil mortos, mais de 12 mil pedestres, uma tragédia monumental!). Infelizmente, enquanto isso não for feito, as tragédias continuarão.

*Artigo publicado na edição 143 da revista Algomais (www.algomais.com)

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O risco político para a retomada econômica

“Ninguém mais ouve ninguém e cada um diz (e escreve!) o que lhe vem à cabeça, sem se preocupar minimamente com a manutenção das condições do diálogo.”

Sim, é certo que a retomada econômica pós-recessão já se iniciou e que, em alguma medida, ela está descolada da crise política. Porém não de todo.

Do ponto de vista econômico, existe ainda um importante obstáculo de ordem fiscal a ser removido no meio do caminho da retomada: um déficit orçamentário federal expressivo somado à necessidade de um superávit primário vultoso. Trata-se, no conjunto (um mais o outro), da necessidade de um ajuste fiscal de mais de R$ 300 bilhões, sem o qual o teto da dívida pública não se estabiliza e, por conseguinte, a credibilidade das contas nacionais perante o mercado e os credores (inclusive internacionais) fica comprometida, comprometendo, por sua vez, a retomada.

Embora esse seja um obstáculo de natureza econômica, para ser removido requer ação de natureza política, o que confere grande importância ao resultado da próxima eleição presidencial. Se tivermos o azar de eleger um presidente populista que não esteja comprometido com esse ajuste fiscal essencial, vamos ver a partir de 2019, novamente, o filme da deterioração das contas públicas, junto com a retomada da inflação e a da subsequente recessão para baixá-la. Um déjà vu totalmente desnecessário.

Um complicador para uma escolha sensata de alguém comprometido com a arrumação das contas públicas, sem a qual a retomada econômica será comprometida, é o clima de radicalismo que se instalou no Brasil nos últimos anos. Um verdadeiro Fla x Flu político, jogo em que os envolvidos se xingam, não se ouvem e todos perdem, o País muito mais…

Nunca vi nada nem sequer parecido mesmo tendo entrado na faculdade em 1976, em plena ditadura militar. Fiz passeata e corri da polícia, mas assisti a muitos debates minimamente civilizados em que uma parte ouvia a outra. Discordava, mas ouvia. Hoje, a impressão que tenho é que ninguém mais ouve ninguém e cada um diz (e escreve!) o que lhe vem à cabeça, sem se preocupar minimamente com a manutenção das condições do diálogo…

Neste ano que se inicia, de retomada da economia e de eleições presidenciais, faço votos que os ânimos se apaziguem um pouco mais e possamos ter um pleito o menos radicalizado possível, com a eleição de um presidente comprometido com o indispensável ajuste das contas públicas. Que assim seja!

*Artigo publicado na edição 142 da revista Algomais (www.algomais.com)

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