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Por um Bairro do Recife todo caminhável!

“Um exemplo muito bom que pode servir de referência é o chamado Boulebard Rio Branco cuja pedestrianização a prefeitura inaugurou no final do ano passado. E se todo o bairro fosse daquele jeito ali?”

O Bairro do Recife hoje é uma ilha, embora tenha começado como um pequeno povoado portuário na ponta do istmo que ia desde o sopé das colinas de Olinda até o estuário dos rios Capibaribe, Beberibe, Jordão, Tejipió e Jiquiá, de frente para a linha dos arrecifes que protege a costa da “fúria do mar” e propicionou à localidade excelentes condições para o aportamento de navios, desde os primórdios da colonização, no início dos anos 1500.

A região virou ilha com a abertura de uma passagem do Rio Beberibe direto para o mar, hoje junto ao Terminal de Açúcar, durante os trabalhos inconclusos de construção de uma base naval (que terminou sendo transferida para a cidade de Natal), no final da década de 1940. Uma área importante do bairro ainda é ocupada por atividades portuárias, mas a maior parte é destinada a atividades comerciais e de serviços que tiveram um grande incremento após a instalação do Porto Digital lá no início dos anos 2000.

Pois é, justamente, neste território hoje insular que acontece no mês de novembro a segunda versão do festival Rec’n’Play que, dentre outros temas, conforme pode ser visto em matéria desta edição da Algomais, vai tratar de cidades inteligentes. Na versão do ano passado, tive oportunidade de coordenar no próprio festival uma oficina sobre a caminhabilidade no bairro (inclusive com caminhada guiada) e uma das conclusões a que chegamos foi que a cidade inteligente é caminhável ou, então, não é inteligente!

Este ano proponho que a discussão se amplie para avançar em direção a uma primeira proposta de caminhabilidade radical da parte que não é porto na ilha do Recife. Um exemplo muito bom que pode servir de referência para isso é o chamado Boulebard Rio Branco cuja pedestrianização a prefeitura inaugurou no final do ano passado. E se todo o bairro fosse daquele jeito ali?

A justificativa para isso é que muita gente já circula por lá e as distâncias no bairro são perfeitamente percorríveis a pé, desde que, claro, a condições de caminhabilidade (como regularidade do piso, acessibilidade, sombra, fachadas ativas, etc.) sejam garantidas. Isso, sem excluir os carros como pode ser visto no Boulevard Rio Branco.

Parece ousado? Mas para que uma coisa possa vir a ser implantada, algum tipo de antecipação “sonhática” precisa existir. Como disse o escritor francês Victor Hugo: “Nada como o sonho para construir o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã”.

*Artigo publicado na edição 152 da revista Algomais (www.algomais.com)

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Preparados para qualquer cenário

“Afinal, a melhor forma de prever o futuro é criá-lo.”

O futurista norte-americano Peter Schwartz, especialista em construção de cenários para o planejamento empresarial, fala o seguinte em relação à previsão do futuro: “simplesmente não é possível prever o futuro; um velho provérbio árabe diz que aquele que prevê o futuro mente, mesmo quando acerta”. Corroborando essa ideia, outro futurista, esse holandês, Arie P. de Geus, responsável durante muito tempo pelo planejamento estratégico da Shell, avança no tema ao dizer que, na verdade, além de não ser possível prever, “não importa qual será o futuro pois a única pergunta relevante é: o que faremos se tal cenário acontecer?”

Diante do resultado desta eleição presidencial no Brasil, dado o alto grau de incerteza que a caracterizou e, portanto, da rigorosa impossibilidade de antecipar com razoável grau de previsibilidade qual será o futuro do novo governo, a alternativa é seguir a recomendação de P. de Geus e, na prática, preparar-se para qualquer cenário que possa vir a acontecer.

Para isso, vale a pena atentar para o que diz o indiano Vijay Govindarajan, que foi consultor chefe de inovação da General Eletric, repetindo o que também disse certa vez Peter Drucker: “não peço que adivinhem o futuro, mas que o imaginem; afinal, a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Para imaginar o futuro, do ponto de vista pessoal e/ou organizacional, a partir do que pode acontecer como resultado da ação do futuro governo eleito, podemos fazer o exercício de tentar caracterizar algumas tendências de peso que podem condicionar a sua atuação.

Uma dessas tendências que parece irreversível é a de se tratar de frente a questão do déficit público com medidas efetivas de contenção sob pena de vermos a dívida pública fugir ao controle e tornar arredios os credores, o que certamente produziria fuga de capitais, desacerto das contas públicas e descontrole inflacionário. Um cenário de caos que deve, portanto, ser enfretado pelo novo governo, independente do que foi dito (ou silenciado) durante a campanha eleitoral, sob pena de, não o fazendo, ver o seu grau de governabilidade se estreitar drasticamente. Afinal, não é descabido dizer que foi a inflação descontrolada que derrubou Dilma Rousseff…

Desenhar cenários alternativos para subsidiar o planejamento do próximo ano é, portanto, tarefa inescapável deste final de ano eleitoralmente atribulado. De tédio, com certeza, não padeceremos.

*Artigo publicado na edição 151 da revista Algomais (www.algomais.com)

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Não ao voto raivoso!

“Na atualidade, as democracias não terminam vitimadas por golpes de estado, como foi no passado, mas com o lento e constante enfraquecimento das instituições.”

Atribui-se a Ulisses Guimarães a afirmação de que “não se pode fazer política com o fígado”. Essa frase sempre me impressionou bastante desde que tomei conhecimento dela, muitos anos atrás. Nos dias que correm, neste período pré-eleitoral, lembrá-la me parece ainda mais necessário.

A disputa política nacional transformou-se numa verdadeira guerra de acusações e insultos que termina por comprometer a qualidade do voto e colocar em risco o próprio futuro da democracia, duramente conquistada no Brasil.

Sim, é verdade que as imperfeições do regime democrático são enormes mas não se inventou ainda coisa melhor, como bem destacou o grande Winston Churchill: “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”. E no Brasil, país enorme, diverso e conflituoso, a democracia é irrecorrível. Sem ela, com o seu sistema de freios e contrapesos, nosso destino seria o caos. O problema é que, com a política sendo feita “com o fígado” e o consequente voto raivoso, a democracia sofre e pode sucumbir.

Não por acaso, foi recentemente lançado e está sendo bastante discutido no Brasil o livro Como as Democracias Morrem dos pesquisadores da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. O livro mostra que, na atualidade, as democracias não terminam vitimadas por golpes de estado, como foi no passado, mas com o “lento e constante enfraquecimento das instituições”. Enfraquecimento este substancialmente ajudado pelo voto raivoso.

É perfeitamente compreensível que o eleitor brasileiro se sinta traído pela classe política em face dos desmantelos administrativos, da crise política, da crise ética, da crise econômica… Todavia, o fígado e a raiva são péssimos conselheiros quando se está buscando, de forma responsável, colocar as coisas nos eixos novamente como o País, e todos nós, merecemos e precisamos.

Tenho 40 anos “de janela” observando a vida política nacional (há mais de 30 anos de forma profissional na consultoria) e todas as vezes em que vi prevalescer o fígado na politíca e o voto raivoso sendo colocado na urna, o resultado foi simplesmente trágico. Por isso, faço daqui meu humilde apelo: na hora de votar evitemos a raiva e pensemos qual candidato pode, de fato, contribuir para a resolução dos problemas e para a preservação da democracia. Fora disso, infelizmente, continuaremos mirando perigosamente o abismo.

*Artigo publicado na edição 150 da revista Algomais (www.algomais.com)

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A calçada é parque também!

“A iniciativa tem o objetivo de privilegiar a mais ampla “janela” que o Rio Capibaribe tem, depois do centro da cidade, que é justamente ali, onde se convencionou chamar de Cais da Jaqueira.”

A propósito da discussão que se instalou no Recife sobre a ampliação da calçada do Parque da Jaqueira que dá para a Avenida Rui Barbosa, um aspecto foi inicialmente esquecido ou ocultado: não se estava “reduzindo” o parque com o recuo da cerca porque a calçada passará a ser do parque também. Logo, o parque será ampliado, e não reduzido, com a calçada que antes estava “fora” dele (ver, a propósito, reportagem nesta edição da Algomais).

Na verdade, a iniciativa tem o objetivo de privilegiar a mais ampla “janela” que o Rio Capibaribe tem, depois do centro da cidade, que é justamente ali, onde se convencionou chamar de Cais da Jaqueira. Então, temos a “janela” e, defronte dela, o Parque da Jaqueira, sem praticamente nenhuma conexão entre esses dois extraordinários ativos ambientais da cidade. O projeto Parque Capibaribe, convênio entre a UFPE e a Prefeitura do Recife, identificando isso, propôs a conexão entre os dois “lados”, com a “engorda” da calçada junto ao Cais e, do lado do Parque da Jaqueira, a ampliação do passeio, transformando-o numa calçada-parque. Complementarmente, está prevista também naquele trecho, uma elevação do piso da Avenida Rui Barbosa, igualando-o ao nível das calçadas laterais, para facilitar a conexão e a travessia de pedestres e ciclistas, de um lado para o outro.

A ideia é, com essa conexão feita, interligá-la com o Jardim do Baobá, mais à frente em Ponte D’Uchoa, considerado o “Marco Zero” do Parque Capibaribe. E, assim, ir articulando trecho a trecho para ir formando, no conjunto, trechos maiores do Parque Capibaribe, recuperando pouco a pouco o rio para o usufruto da cidade, perdido depois que a urbanização terminou fazendo com que a cidade desse “as costas” para o Capibaribe. Ali, estamos tendo, justamente, uma oportunidade rara de avançar nesse “descortinamento”, fazendo com a Jaqueira, finalmente, dê a frente para o rio da integração municipal.

Trata-se, o que se está fazendo na Jaqueira, de um avanço civilizatório enorme que precisa ser compreendido e incentivado por todos
aqueles que querem o bem da cidade. Em sendo assim, todo o debate deve ser feito, o mais amplamente possível, mas tendo uma cidade melhor como objetivo final, sem reducionismos. E, ainda, no caso, com o “bônus” de um pôr do sol dos mais bonitos do Recife que poderá agora ser contemplado a partir de calçadas mais generosas e de um Parque de frente para um horizonte descortinado.

*Artigo publicado na edição 149 da revista Algomais (www.algomais.com)

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O WhatsApp e o mito dos grupos autogeridos

“Por conta da ampla disponibilidade dos recursos eletrônicos e, em especial, pela emergência da chamada economia do compartilhamento a ideia da autogestão voltou com força.”

Muitos dos conceitos relacionados à gestão organizacional têm uma vida cíclica e entram e saem de moda, de épocas em épocas, geralmente com uma nomenclatura diferente ou ajustada a cada rodada. A ideia de que os grupos ou equipes de trabalho podem prescindir de gerenciamento ou coordenação é um desses conceitos que vão e voltam ao longo do tempo.

Recentemente, por conta da ampla disponibilidade dos recursos eletrônicos e, em especial, pela emergência da chamada economia do compartilhamento (que alguns chamam de “uberização” da economia), a ideia da autogestão voltou com força. Justifica-se mais ou menos assim: pessoas competentes, responsáveis, geralmente trabalhando à distância, não precisam de ninguém para lhes dizer como proceder, podem se resolver sozinhas, usando a cooperação e o bom senso para isso.

Embora cooperação e bom senso sejam indispensáveis ao trabalho em equipe, a experiência do dia a dia lidando com a questão (que, no meu caso, já vai pra lá de 30 anos), mostra que, infelizmente, não são suficientes para garantir o cumprimento dos objetivos a que os grupos e as equipes de trabalho se propõem, cada um de per si.

Para que se tenha uma ideia disso, basta verificar o que acontece, guardadas as devidas proporções, com os onipresentes grupos de WhatsApp que são diferentes dos grupos de trabalho mas têm em comum um objetivo, uma razão de ser, ainda que uns mais, outros menos explícitos, geralmente menos. As experiências de autogestão dos grupos do aplicativo não raro são desastrosas… Postagens desfocadas, ofensivas, piegas, violentas… Amizades revisitadas e logo desfeitas… Relações familiares abaladas…

Tudo por falta de objetivos e regras definidas, ainda que mínimas, e explicitadas. Além disso, carecem da imprescindível coordenação (que nos grupos de trabalho são comumente mais denominados de “gerenciamento”) para fazer valer as regras, realizar a mediação dos inevitáveis conflitos e, principalmente, colocar em prática o sistema de consequências pelo descumprimento dos acordos. Até, em último caso, desligando o recalcitrante do grupo para sustentar e manter a continuidade do propósito estabelecido.

Pois é!, infelizmente, grupos de trabalho autogeridos, só existem como raríssimas exceções que apenas confirmam a regra.

*Artigo publicado na edição 148 da revista Algomais (www.algomais.com)

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