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Games de derrubar governos:
é hora de prestar muita atenção nas notícias

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Mais rápido do que era possível antecipar há uma semana, o rastilho de pólvora da revolta popular avança célere pelos regimes fortes, para não dizer ditaduras, no mundo árabe (incluindo Líbia e Marrocos) e, até bem mais além, na China.

“Difícil saber até onde essa história vai. E pelo visto vai longe.”

Ricardo Amorim, economista, Manhattan Connection

O que há em comum em todos os casos é a participação dos jovens e o uso das novas mídias, entre elas, com destaque, a internet. Os jovens, pelo que dão conta as muitas notícias divulgadas sobre os tumultos, estão indo às ruas em busca de novas esperanças e novos horizontes econômicos que governos envelhecidos de décadas, têm dificuldade de lhes oferecer. E, ao contrário do que temem os analistas, não parece que o radiscalismo islâmico esteja sendo determinante.

“…a revolução nas comunicações da última década mudou a política. (…) Muitas sociedades islâmicas possuem populações jovens com acesso à nova tecnologia da informação e com uma visão de mundo mais global. Muitas possuem facções islâmicas moderadas e construtivas. E apesar de grupos radicais e fundamentalistas islâmicos obviamente existirem, eles frequentemente ganham força ao se transformarem em alvo dos regimes domésticos e por análises ocidentais ansiosas que os projetam como agentes centrais.”

Jonas Gahr Store, UOL/Mídia Global, Oslo

Na maioria dos lugares onde estão havendo as manifestações pro mudanças, a população jovem ultrapassa os 50% da população. Independente da classe de renda, pertencem à Geração Y que tem acesso às novas mídias desde cedo. Muitos foram criados jogando games e, com certeza, estão transplantando a experiência dos jogos para a a vida real, ajudando na derrubada de governos mas, ao que parece, sem a influência determinante do radicalismo.

“Eles se sentem inferiorizados em relação a seus pares no Ocidente, mas – nisso está a diferença – não acreditam que obedecer a um mulá e fazer determinados gestos ou balbuciar certas frases escritas há séculos vá levá-los a seu objetivo. (…) Diz o cientista político americano Paul Scham, da universidade de Maryland: ‘Os jovens podem até derrubar regimes e emplacar representantes no poder, mas em nenhum país do mundo haverá um governo de jovens.”

Duda Teixeira, Revista Veja, 23.02.11

E aí está uma incógnita desses novos movimentos: o que vai acontecer depois da derrubada dos ditadores? Na Tunísia o blogueiro virou ministro e no Egito o exército tomou conta da situação, dissolveu o parlamento e suspendeu a constituição. Não se sabe ainda se já religou a internet. O que vem depois?

“As ditaduras do passado e do presente sempre usaram a limitação das comunicações e a censura para manter a população sob controle. Hoje, qualquer adolescente ligado à grande rede pode fazer suas palavras ganharem o mundo em segundos, ignorando a vontade de quem está no poder.”

Bom Dia Brasil, Rede Globo, 03.02.11

A diferença está aí. Com as novas mídias, a internet e os jovens, os tempos são outros. Parece que está sendo testada uma espécie de game de derrubar governos autoritários e envelhecidos. O que vem depois é que não se sabe. Uma nova era de influência da tecnologia na política parece estar se iniciando agora sob os nossos olhos. É hora de ficar alerta e prestar muita atenção no que está acontecendo e nas notícias.

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A internet e a queda das ditaduras:
após Tunísia e Egito que outras mais virão?

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Depois de 18 dias nas ruas, a população do Cairo derrubou a ditadura de 30 anos do presidente Hosni Mubarak. Isso aconteceu menos de um mês depois que movimento revolucionário semelhante, derrubou o ditador da Tunísia.

“Tem sido chamada de Revolução de Jasmim; todavia outros classificam-na de Revolução do Facebook, dos Twitters, do correio electrônico e dos blogs que durante semanas mobilizaram os protestos através da Tunísia contra o regime autocrático do presidente Ben Ali (…) esta foi a primeira revolução cibernética do mundo, no mundo da Internet na África.”

Paulo Oliveira, Voz da América, www.voanews.com

Um fato emblemático desta situação fortemente influencida pelas novas tecnologias, em especial pela tecnologia internet, foi a nomeação de um blogueiro tunisiano para um cargo semelhante ao de ministro de estado.

“Talvez a maior surpresa, especialmente para os internautas, tenha sido a nomeação de Slim Amamou – blogueiro, ciberativista e colaborador do Global Voices – como Secretário Nacional de Esportes e Juventude.”

pt.globalvoicesonline.org

As duas revoluções já passariam para a história pelo que conseguiram em termos de rapidez e de resultados. Com a contribuição da internet e das mídias sociais, então, se apresentam como pioneiras absolutas. Já estão sendo chamadas de “Revoluções 2.0”, preocupando os outros países árabes e até a China.

“Todas as pesquisas que contemplavam a palavra ‘Egito’ foram bloqueadas de portais chineses como o Sina.com e Sohu.com – sites comparáveis ao Twitter. Os resultados que continham o nome do país mostravam frases dizendo que os resultados não podiam ser encontrados ou não estavam de acordo com as regras. Segundo a Reuters, isso apenas demonstra a preocupação do governo chinês com a repercussão dos protestos no Oriente Médio.”

olhardigital.uol.com.br

Além da Tunísia e do Egito, parecem estar a perigo os governantes da Argélia, Marrocos, Líbia, Jordânia, Síria, Iêmen e até Berlusconi na Itália… Todos, nesse momento, com as barbas de molho. Sem falar do Irã que, não obstante ter “saudado” a revolução egípcia, reprimiu violentamente em 2009 manifestações populares contra a segunda eleição, ao que parece fraudada, do presidente Ahmadinejad, amplamente reportadas pela internet, inclusive com a morte de uma manifestante em Teerã divulgada em vídeo para o mundo pelo Twitter?

“Não há mais sombra de dúvida: o Oriente Médio está mudando de época. O que começou como uma revolta numa cidade do interior da Tunísia já se transformou num movimento revolucionário regional. (…) As reivindicações destas multidões, sem lideranças claras, composta sobretudo de jovens urbanos mais educados, são as mais básicas possíveis: oportunidades de emprego, liberdades individuais e de expressão, e o fim de regimes velhos, corruptos e autoritários.”

Alfredo Valladão, www.portugues.rfi.fr

É certo que a internet sozinha não derruba governos mas ajuda bastante a conseguir esse objetivo quando há uma vontade forte nesta direção como foram os casos da Tunísia e do Egito. A revolução que a internet vem protagonizando na sociedade e na economia chega agora com força na política. Aguardemos os próximos capítulos.

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Diferente do seu antecessor, o grande desafio inicial da presidente Dilma é político

Outsider da política profissional, a presidente Dilma Rousseff está diante de um desafio político que terá que superar a contento dentro do prazo tradicional dos primeiros 100 dias de governo

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Existem pessoas que passam a vida inteira tentando ser presidente da República e não conseguem. Outras, entre as quais a presidente Dilma Rousseff, nunca tinham pensado sequer nesta alternativa até que o cavalo selado passou nas suas frentes e elas montaram. Neste rol estão também José Sarney e Itamar Franco, só para ficar nos mais recentes. Diz-se que Antônio Carlos Magalhães, um que sempre sonhou com a presidência sem que tivesse sequer chegado perto de consegui-la, gostava de citar uma frase de Napoleão.

“Política é destino.”

Napoleão Bonaparte, 1769-1821, imperador francês

Uma coisa, todavia, é ser bafejado pela sorte e conseguir chegar na presidência, outra bem diferente é se sair bem nela. A história das administrações bem sucedidas parece conferir à economia um papel fundamental, pelo menos no que diz respeito à presidência da República. A esse respeito, é clássica a resposta atribuida ao estrategista da campanha de Bill Clinton, em 1992, a quem perguntaram qual devia ser o tom da estratégia de campanha do candidato.

“É a economia, estúpido.”

James Carville, consultor político norte-americano

Apesar de Dilma Rousseff, no que diz respeito à conjuntura internacional, enfrentar uma situação mais desfavorável do que o seu antecessor (ver GH/809), na média deve lidar com uma situação econômica sem maiores problemas dentre os quais um ajuste fiscal no início do governo. Se não deve enfrentar grandes problemas econômicos, então, o “x” da questão passa a ser político.

“Do ponto de vista econômico, as  perspectivas são boas. O caminho está pronto. É óbvio que haverá um ajuste fiscal e isso até poderá beneficiá-la. Do ponto de vista político, ela  tem um desafio: a constituição de uma personalidade política e a capacidade de governar. Em tese, se a gente comparar o governo Lula com o governo Dilma, ela terá mais facilidade no Congresso. A questão é: Dilma não tem a liderança de Lula. O desafio dela é político.”

Aldo Fornazieri, cientista político paulista

Esta constatação é reforçada pelo fato de Dilma ter tido, de fato, pouca experiência política e nenhuma eleitoral antes da candidatura à presidência.

“Dilma só ocupou postos de natureza técnica no governo. Isso não é impossível, mas se ela não souber, de maneira satisfatória, construir a sua liderança política – seja do bloco governista no Congresso, seja entre a própria  população –, então ela terá dificuldade.”

Aldo Fornazieri, cientista político paulista

Esse desafio é reforçado pelo fato de o destino ter caprichado e as circunstâncias terem favorecido a eleição para a suprema magistratura do país de uma outsider da política. Dilma, ao contrário de José Serra por exemplo, pelo fato de nunca ter aspirado à presidência, não fez carreira política nem moldou uma trajetória nesta direção. O resultado, portanto, ainda é um incógnita grande.

“No curso da história brasileira, poucas pessoas chegaram à Presidência da República com tão escassas informações sobre suas habilidades políticas e administrativas quanto Dilma Roussef.”

Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal

Tudo isso reforça a constatação de que o principal desafio da presidente Dilma é político. Seja do ponto de vista da política pragmática junto à classe política profissional, incluindo o Congresso Nacional (atualizado pela nova Legislatura neste 01.02.2011), seja no relacionamento com a população e a opinião pública, em especial pelo contraste com o seu antecessor, um mestre nesta arte. A construção desta persona política, pelo menos em seus contornos principais, terá que ser feita dentro do famoso prazo dos primeiros 100 dias de governo. É esperar para ver no que dá.

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Desafios internos do governo Dilma, uma prova de fogo que vai além da política

As primeiras movimentações da presidente Dilma mostram postura diversa do seu antecessor e sinalizam a necessidade de mais negociação, inclusive para enfrentar os desafios internos

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Com a posse da presidente Dilma Rousseff, o país deu mais um passo na direção da institucionalidade plena, configurando uma situação inédita pouco percebida em face da normalidade que aparenta.

“A posse da presidente Dilma significou um ineditismo: pela primeira vez desde 1930 três presidentes eleitos tomaram posse sucessivamente, sem interrupções e anormalidades. Tudo foi como tem que ser. É, enfim, a normalidade numa república tão cheia de sustos e sobressaltos.”

Miriam Leitão, O Globo, 09.01.11

Além disso, o ineditismo evidente de ser a primeira mulher presidente do Brasil. Uma mulher com características executivas e um estilo gerencial próprio que embora já se vá impondo, ainda terá que passar pelo teste político, um tipo de “terreno” que não é, reconhecidamente, o forte da presidente e que exigirá negociar muito mais do que estava acostumada a fazer.

“Essa negociação fica tensa quando os partidos começam a dividir o micro-espaço, o que começa a acontecer agora.  Ela vai ser mais pragmática e cobrar (…) resultados.Vai ter um governo mais gerencial, com metas, como na administração privada. (…). Ela tem fama de ser boa gestora, mas se em três meses não aparecerem resultados, a imagem começa a ser arranhada. Tem que administrar com o Congresso e com sua equipe.”

Antônio Flávio Testa, professor da UnB, Agência Estado

E isso tudo terá que ser feito considerando os obstáculos que precisarão ser transpostos no front interno (sobre os do front externos ver o GH/809, anterior), cuja sinopse é feita a seguir.

1.Desequilíbrio Fiscal

Desde o enfrentamento da crise de 2008/2009 com desoneração de automóveis e outros itens de consumo, emendando com o período eleitoral, houve um “afrouxamento” fiscal que terá que ser revisto já agora no início do novo governo.

2.Apreciação Cambial

O real é uma das moedas que mais se valorizou frente ao dólar no mundo e isso traz um prejuízo importante para os setores industrial e exportador. O novo governo já tomou algumas medidas, mas ainda insuficientes.

3.Juros Altos

Os juros reais brasileiros continuam sendo dos mais altos do mundo e isso terá que ser enfrentado no médio prazo para aumentar a competitividade nacional num mundo crescentemente globalizado.

4.Baixas Taxas de Poupança e Investimentol

Historicamente baixas, as taxas de poupança e investimento brasileiras (próximas a 18% do PIB em comparação com mais de 40% da China), terão que aumentar para garantir crescimento sustentado.

5.Carga Tributária Alta e Regressiva

O Brasil tem a mais alta carga tributária (36% do PIB) dos países emergentes. E além de alta e disfuncional, ainda é enormemente regressiva (os mais pobres pagam mais impostos). Isso terá também que ser enfrentado para aumentar a competitividade brasileira.

6.“Apagão” da Infraestrutura

Com a infraestrutura (portos, estradas, aeroportos etc.) sucateada, é fundamental investir para que o crescimento econômico não traga consigo estrangulamento do escoamento e, por conseguinte, mais inflação fugindo da meta do Banco Central.

7.“Apagão” da Mão de Obra

Um dos mais cruciais entraves ao crescimento sustentado da economia é a falta de mão de obra capacitada. Para atacar esse problema terá que ser atacado também o grave problema da educação no país. O Brasil, com toda certeza, não será a única  potência iletrada do planeta.

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No cenário externo, o governo Dilma, ao contrário de Lula, vai ter ??vento de proa?

Diante de uma conjuntura internacional bastante mais adversa do que aquela enfrentada pelo seu antecessor, o governo Dilma Rousseff deve reforçar sua atenção para o mercado interno

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Prestes a receber o governo do já mítico presidente Lula, Dilma Rousseff deve se deparar com um cenário externo bem mais desfavorável do que o enfrentado por seu antecessor no início do mandato.

“Lula pegou o governo quando vinha ventania de popa. Dilma vai receber o governo com ventania de proa. A ajuda que o crescimento da economia mundial deu ao período Lula está terminando ou já terminou. Neste novo cenário, você vai precisar de muito mais força do mercado interno se quiser manter seu ritmo de crescimento para continuar a distribuir renda.”

Delfim Netto, Revista Época, 06.11.10

De fato, puxada pelo crescimento dos países desenvolvidos e da China, a economia mundial experimentou de 2003 a 2008 um período de aquecimento sem precedentes na história recente. Todavia, depois da crise do mercado imobiliário norte-americano que afetou dramaticamente o setor financeiro e “transbordou” para a Europa, o cenário mudou drasticamente, invertendo a mão do crescimento na direção dos emergentes, com a China passando a funcionar como locomotiva principal desta nova fase. Nela, o Brasil aumentou a sua dependência da economia chinesa.

“Hoje a China já é nosso maior parceiro comercial. Sozinha consome 36% de todas nossas exportações de produtos primários contra apenas 5% dos nossos produtos industrializados. Comparativamente, os EUA compram 7% de nossos produtos primários e 12% dos industrializados. (…) hoje nos encontramos na delicada situação de estar dentro de um avião que tem 3 de suas 4 turbinas avariadas e que para sair da grande zona de turbulência que tem pela frente depende da turbina que resta funcionando a todo vapor, além da ajuda proveniente do sopro de seus passageiros, para ficar no ar.”

Ricardo Dunshee, www.investimentosenotícias.com.br

A imagem do avião é muito interessante porque como que de repente a economia mundial passou a depender muito de uma das “turbinas”, a chinesa, em detrimentos das outras três, a norte-americana, a européia e a japonesa que estão, por hora, avariadas. Por isso, a demanda dos EUA para que a China desvalorize a sua moeda para dar maior competitividade aos produtos norte-americanos, é um problema menor face ao risco de uma desaceleração brusca da economia chinesa (problemas na única “turbina” que está “funcionando”).

“Um estouro da bolha chinesa faria o problema do yuan fraco parecer um estalinho de São João.”

Vinicius Torres Freire, jornalista Folha de S. Paulo

É, justamente, esse cenário internacional que a presidente Dilma vai enfrentar: EUA e Europa com sérios problemas de recuperação (alguns especialistas já falam em uma década de ajuste, mesmo tempo que já leva o Japão enfrentado problema semelhante). Começando por este, outros desafios se apresentam:

1. superar um ambiente mundial mais adverso que o do seu antecessor;
2. desatar o “nó” monetário-cambial-fiscal (juros altos, câmbio valorizado, gastos elevados);
3. manter o “tripé” da estabilidade (ajuste fiscal, câmbio flutuante, metas de inflação);
4. aumentar a competitividade brasileira (infraestrutura, educação, tributos); e
5. Entregar um país melhor ao sucessor.

Esses parecem ser os macrodesafios da presidente Dilma numa conjuntura internacional mais adversa. Sem ter muito o que fazer para enfrentar o cenário externo, os olhares da presidente e da equipe que acaba de formar se voltam “para dentro”, onde Delfim diz que o próximo governo terá que buscar forças para manter o crescimento e a distribuição de renda. Os entraves internos para isso são, justamente, o tema do próximo Gestão Hoje.

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