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A sórdida pelada shakesperiana sem Capitão

Veja a primeira parte da análise aqui: Toda derrota é anterior a si mesma

“Em futebol, é pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural.” (Nelson Rodrigues, 1912-1980, cronista e dramaturgo pernambucano).

Desde a postagem anterior que eu deveria estar calado sobre futebol, afinal tinha feito uma promessa de não tratar do tema. Como se não bastasse, todo mundo na copa e, em especial, depois da goleada humilhante tomada da Alemanha, está falando e escrevendo sobre o assunto. E como se isso não fosse suficiente, eu deveria prestar atenção na advertência de Nelson Rodrigues: “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. Mas não, a imprudência me impele e seguir adiante e, agora, falar sobre os fatores “internos” da derrota.

Posso argumentar a favor da minha quebra de promessa que, afinal, não foi uma derrota qualquer. Segundo o correspondente da Veja em Paris, Antonio Ribeiro: essa foi “a mais elástica goleada sofrida pela Seleção Brasileira no espaço de um século. A maior derrota em uma semifinal na história das 20 copas. O resultado mais vexatório apresentado por um país anfitrião. E o improvável mesmo nas peladas de várzea: tomar 5 gols em menos de meia hora.” Perdão, Nelson, mas não me contenho mais uma vez e vou me aventurar a opinar sobre as razões “de dentro” da derrota humilhante.

Como faz muito tempo que não acompanho futebol (além de jogar, acompanhei tudo sobre o assunto, mais ou menos dos 10 aos 25 anos e até treino do Sport frequentava, imaginem…), não sabia dos detalhes, mas achava alguma coisa estranha naquele time do Brasil que começou a copa ganhando mas sem convencer, pelo menos a mim.

Primeiro achei estranho o time, além do goleiro e do centroavante, ser de jogadores muito jovens. Perguntei aos entendidos: por que Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Robinho e outros jogadores com mais experiência (afinal, isso é uma copa do mundo onde experiência vale muito) não foram convocados? Os entendidos não sabiam… Depois achei estranho que o time jogasse sem meio de campo, as bolas saiam da defesa para o ataque através de chutões para a frente. Perguntei aos entendidos o porquê e eles também não sabiam. E o time empatando e vencendo e não convencendo… Até que vem a disputa dos pênaltis e todo mundo começa a chorar… Até o capitão sentado na bola, desolado, rezando para não cobrar pênalti. O capitão! Sem falar no goleiro, também chorão… Bom, passamos, apesar do choro. Mas ficou a impressão de um bando de meninos misturadamente mascarados (o caso flagrante de Neyma que, apesar de talentosíssimo, não podia levar um empurrão que voava em câmara lenta para a “loucuuuuura” de certos narradores televisivos) e amedrontados, no ultrapassadíssimo esquema dos garotos do tiozão (ou dos tiozões já que o chatíssimo do Parreira também estava na jogada). E pra mim, o pior, depois da flagrante manifestação de fraqueza de Thiago Silva, sem capitão.

Mas, aí, chega a Alemanha que aprendeu a lição da derrota em seu próprio país e fez o dever de casa direitinho. Não deu outra: o castelo de cartas desabou de forma desastrosa… Só foi de sete porque, tenho certeza, por que o técnico alemão no intervalo mandou maneirar e, até, deixar o Brasil fazer o gol de honra. Não fora isso, o placar passava de dez!

Um modelo paternalista caduco (no dias de hoje, “família Scolari”, me poupe), um time de jovens sem experiência copa do mundo, emocionalmente desequilibrado, um técnico teimoso e paralisado diante da hecatombe de cinco gols em 30 minutos, uma equipe sem capitão. Receita de tragédia diante de um adversário forte. Se fosse uma empresa, já teria falido.

O que mais me chamou a atenção na saraivada de gols foi a ausência de um capitão que dissesse algo assim: “somos um time penta campeão ou um prato de papa?“. Saudades de Dunga que é um técnico muito ruim, mas foi um excelente capitão.

Leia as demais análises acerca da seleção sob a ótica da Gestão em: Gestão na Copa

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Toda derrota é anterior a si mesma

Tinha prometido a mim mesmo não falar de futebol nesta Copa. Afinal, estou tentando bravamente entender cada vez menos deste cada vez mais frequentemente frustrante “violento esporte bretão”. Todavia, depois da inacreditável derrota de hoje, vejo-me irresistivelmente compelido a quebrar minha promessa.

No tempo em que eu pensava, como a maioria dos brasileiros, que entendia alguma coisa de futebol, cheguei a escrever uma artigo em louvor de Felipão como grande responsável pelo penta campeonato. Para isso, me vali do grande cronista e dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) que, dentre centenas de frases geniais, perpetrou essa: “toda grande vitória é anterior a si mesma”.
Naquela época, Filipão e seu estilo deram conta do desafio. Hoje, não mais.

Lembro de Nelson agora, com um ajuste por antítese de sua frase: “toda grande derrota é anterior a si mesma“.

Sim, essa derrota vem de longe. Vem do inacreditável amadorismo a que foi relegado o futebol no Brasil desde então, enquanto os adversários (em especial os europeus) avançaram (e muito!). Vem da ideia hoje maluca que improvisação, “inventividade”, malandragem, paternalismo, por si sós, conseguem superar o trabalho duro, o treinamento, a estratégia, a preparação, a experiência.

Tomara que essa derrota humilhante sirva para abrir os olhos de algumas pessoas para o fato de que ou mudamos no futebol (e em muitas outras coisas também) ou vamos ser ultrapassados já, já na titulação inédita que conquistamos, em tempos heróicos, pelos países adversários que já entenderam, há muito tempo, que futebol é coisa importante demais para ser deixado exclusivamente por conta da cartolagem (e, no nosso caso, que cartolagem!).

Na Europa, que salvo uma zebra deve levar essa Copa, futebol é um assunto empresarial, muito bem e profissionalmente administrado (vide o Barcelona!). O resto, como dizia Millôr Fernandes sobre a imprensa submissa, é “armazém de secos e molhados“. Torçamos pelas boas lições da derrota.

Valei-nos, Nelson!

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Lições da derrota na Copa: o que se deve evitar do “estilo” Dunga

Como a derrota tem o dom de iluminar os erros, a desclassificação do Brasil na Copa é uma boa oportunidade de refletir sobre o que deve ser evitado no dia a dia da gestão organizacional

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Depois do fiasco brasileiro na Copa da África do Sul, muito se tem falado sobre as razões da derrota. Assim como praticamente todo mundo tinha uma opinião sobre a escalação adequada da seleção brasileira, agora quase todos têm uma hipótese sobre os motivos do fracasso. Afinal, já se disse à exaustão que somos um país de 190 milhões de técnicos de futebol… A escuta dessas hipóteses e uma análise comparativa do ocorrido com alguns preceitos da gestão empresarial, apontam o que se poderia chamar de erros de condução do processo que, do ponto de vista geral, podem ser considerados muito danosos para o gerenciamento estratégico. Foram eles:

1. Improvisação 

Com Dunga aconteceu uma coisa muito comum no dia a dia da gestão: a promoção de um bom profissional da condição de gerenciado para gestor, sem que ele estivesse minimamente preparado para isso. Dunga tinha deixado a carreira de jogador (avaliado como “empenhado”, “valente”, “determinado”, ainda que, segundo alguns críticos, “limitado” do ponto de vista das habilidades técnicas) quando foi chamado para ser técnico da seleção brasileira. Improvisação pura. Um tiro no escuro, irresponsável. Afinal, segundo disse com muita propriedade Nelson Rodrigues, a seleção é “a pátria em chuteiras” e, como tal, merece todo o respeito, não podendo ser lugar de improvisações de comando.

2. Rigidez

Talvez por conta de suas inevitáveis limitações em relação aos conhecimentos requeridos para um técnico da seleção brasileira, Dunga adotou a rigidez dos esquemas táticos que veio, na Copa, se mostrar desastrosa. No momento em que se tornou mais necessária a flexibilidade para mudar o esquema, após o primeiro gol da Holanda no jogo da desclassificação, o time se desarrumou mas não flexibilizou a rigidez: defesa “boa”, meio de campo indefinido e privilégio aos contra-ataques. Quando a defesa “forte” falhou, o esquema todo veio abaixo.

3. Teimosia

Dunga sempre demonstrou uma atitude teimosa seja em relação às convocações, à concentração dos jogadores, aos esquemas táticos, à relação com a imprensa etc. Independente da razão, um técnico da seleção brasileira de futebol não pode brigar com a imprensa, em especial com a da televisão que, na Copa, passa a ser o veículo de integração dos corações e das mentes nacionais. Existe uma diferença grande entre perseverança (boa) e teimosia que é o risco que se corre.

4. “Patotismo”

Uma seleção nacional de futebol, como o nome mesmo diz, deve tratar de abrigar/acolher os melhores jogadores de nacionalidade brasileira, não apenas aqueles que fazem parte da “patota” do treinador como ficou evidente nesta Copa. Dunga privilegiou os seus fiés seguidores em vez de convocar os melhores.

5. Mau Humor

Segundo Madre Tereza de Calcutá, o mau humor é “o pior dos defeitos”. A coisa mais rara de se ver nesta Copa foi um riso de Dunga… É claro que este permanente estado de espírito mal humorado, chegando às raias da beligerância, contamina a equipe fazendo com que até jogadores tranqüilos chegassem ao descontrole mal humorado como foi o caso de Kaká e Robinho.

6. Arrogância

Para culminar e piorar tudo, uma atitude arrogante e antipática de “dono da verdade” terminou colada ao treinador. Ruim para todos porque desperta uma perversa e não desprezível torcida pelo fracasso do arrogante…
A derrota tem o dom de iluminar amargamente os erros e os defeitos. Provavelmente se o Brasil tivesse ido adiante, os defeitos e os consequentes danos à gestão estratégica que eles provocam teriam sido encobertos e talvez até tivesse sido festejado um certo “estilo Dunga” de comando… Como isso não aconteceu, resta tirar as lições da derrota e refletir sobre o que de prejudicial para a gestão existe no mau desempenho do nosso infeliz treinador, procurando evitar a reprodução dos erros cometidos no dia a dia da nossa gestão organizacional.

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Lições da Copa do Mundo para o dia-a-dia dos negócios

 

Com o final da Copa do Mundo e a vitória da Itália, ficam mais evidentes algumas lições da derrota da seleção brasileira. A primeira delas é a de que, ao contrário do que esperava o país.

“Nossa seleção não foi a pátria de chuteiras, como dizia o Nelson Rodrigues, foram as chuteiras sem pátria.”

Arnaldo Jabor, Rádio CBN, 04.07.06

A maioria dos jogadores convocados e dos que jogaram não atua no Brasil e, sim , em clubes europeus e estão distantes, tanto física quanto psicologicamente, do país. Pelo que mostraram as TVs, dos 23 convocados, apenas 4 ou 5 voltaram para o Brasil. O restante ficou na Europa, distante da frustração e da cobrança da torcida nacional.

“O povo todo estava de chuteiras, para esquecer os mensalões e os crimes, mas nossos craques não perderam quase nada com a derrota, tiveram apenas um mal momento entre milhões de dólares e chuteiras douradas pela Nike.”

Arnaldo Jabor, O Globo, 04.07.06

Embora esse fato faça parte da realidade do futebol, é preciso tratar melhor o assunto dada a importância que o futebol tem para o imaginário brasileiro (ver a respeito o GH/593). Na prática, o que se viu foi uma seleção “sem alma”, na expressão do cronista futebolístico Armando Nogueira (ver GH/594), em boa parte decorrente dessa “distância” dos jogadores da realidade nacional. A outra parte deveu-se à atuação apática do treinador Parreira.

“Todos sabem que quem ganha e perde partidas é a alma.”

Arnaldo Jabor, O Globo, 04.07.06

E faltou alma aos jogadores e à seleção. Na partida contra a França, nem parecia que estavam jogando uma partida de vida ou morte. Deixaram a França jogar e fazer o show, sobretudo Zidane que chegou a dar um “chapéu” em ninguém menos que Ronaldo Fenômeno que, de fenômeno naquele jogo não teve nada. Completamente diferente dos jogos finais, onde a alma dos finalistas esteve sempre presente, a começar pelo time de Portugal e por seu técnico.

“A alma de Portugal rosna na beira do gramado. Ela se chama Felipão.”

Armando Nogueira, Rádio CBN, 05.07.06

O outro aspecto deplorável foi a atuação do técnico Parreira que não esteve à altura do cargo, entre apático, arrogante e completamente míope do ponto de vista estratégico, como demonstra a impressionante frase cometida na entrevista após a derrota:

“Não nos preparamos para perder. Só nos preparamos para a vitória.”

Carlos Alberto Parreira, Rede Globo, 02.07.06

Essa simples frase é um misto de tolice, teimosia e estupidez estratégica. Só se preparar para a vitória, significa desprezar e desconhecer os adversários. Significa não se preparar para o pior cenário e ficar refém dos adversários, justamente por desconhecê-los e desprezá-los. No meio empresarial, uma atitude desse tipo é suicida. É impossível ter sucesso nos negócios sem um plano B.

“Todo empresário com os pés no chão tem um plano B pronto para ser acionado. Não houve análise dos pontos fortes e fracos dos concorrentes. Acreditamos que venceríamos porque queríamos. É um erro fatal no futebol e nos negócios.”

Pedro Eberhardt, presidente da Arteb, Dinheiro, 12.07.06

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Falta de paixão e teimosia foram os males que tiraram a seleção da Copa

 

Ao enfrentar o primeiro adversário de peso na Copa, a seleção brasileira mostrou todo o despreparo que vinha insinuando contra os fracos adversários anteriores à França. Resultado: uma derrota que humilha e revolta a torcida pela apatia, desinteresse e, mesmo, desleixo dos jogadores em campo.

“O que faltou à seleção brasileira foi atitude.”

Galvão Bueno, TV Globo, 01.07.06

Depois da derrota, todos os comentaristas esportivos, os que foram para a Alemanha, e os que ficaram fazendo a cobertura no Brasil, fizeram menção ao fato de ter faltado entusiasmo e garra ao time brasileiro.

“Essa foi uma seleção brasileira sem alma.”

Armando Nogueira, SporTV, 02.07.06

Sem atitude e sem alma, os jogadores passearam em campo, olhando o adversário jogar, sem esboçar reação, mesmo quando a seleção levou o gol no início de segundo tempo.

“Em 36 anos de futebol nunca vi uma seleção brasileira tão apática, tão inoperante. (…) Como é possível uma seleção brasileira, em jogo de Copa do Mundo, dar apenas dois chutes a gol? (…) Eu quero saber como é possível um time com a camisa da seleção brasileira entrar em campo com a postura de ontem. Uma equipe dorminhoca. Tinha de ter alguém para acordá-la. Faltou isso. Faltou muito mais. Faltou tudo. Faltou paixão, coração.”

Carlos Alberto Silva, ex-tecnico da seleção, 02.07.06

A ira da torcida se volta contra o técnico e os jogadores. Numa pesquisa on line no site da Folha de S. Paulo, Parreira aparece como o principal responsável pelo fracasso da seleção (51%), seguido pelos jogadores (37%) e pelos cartolas (6%).

“Parreira e as estrelas milionárias, (…) Não podiam ter feito isso com os brasileiros. Tinham a obrigação de nos respeitar. Podiam até perder, mas que tivessem lutado com garra, suando a camisa como o herói que sustenta a posição até a última gota de sangue.”

Joffre Neto, jornalista, Blog do Noblat, 02.07.06

Da “pátria em chuteiras” como Nelson Rodrigues chamava a seleção, sempre se esperará muito mais do que foi visto contra a França. E do técnico sempre se esperará mais do que frieza, arrogância e teimosia. Será sempre esperado, também, como dos jogadores, paixão e arrebatamento. Ficou muito evidente a diferença de estilos do técnico atual para o anterior que, hoje, leva paixão ao time de Portugal.

“Scolari como um leão à frente de sua ‘família’ lusa, gesticulando, gritando, jogando a partir do ‘banco de suplentes’ e Parreira passivo, com o olhar perdido, mastigando a língua, acompanhado pela expressão apática de Zagalo, enquanto o Brasil ia para o brejo. E ainda teve a coragem de dizer: ‘Não há do que se arrepender porque fiz tudo que queria fazer’! Ótimo, teimoso até o fim. Pois é, tinha razão outro europeu, Baltasar Gracián, o famoso jesuíta espanhol do sec. XVI: ‘toda teimosia é tola, e todo tolo é teimoso.’”

Joffre Neto, jornalista, Blog do Noblat, 02.07.06

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