O pedestre atravessa como? Voando?

Só outro dia me dei conta: Praticamente não é possível ir da Zona Norte à Zona Sul, e vice-versa, a pé”.

Apesar de já ter percorrido uma boa parte do Recife a pé (cerca de 7 mil km nos últimos 10 anos dentro da cidade – o equivalente a ida e volta a Florianópolis), só outro dia me dei conta de uma coisa estranhíssima: praticamente não é possível ir da Zona Norte à Zona Sul, e vice-versa, a pé.

A não ser que se vá caminhando até Afogados e, de lá, pela Imbiribeira até o cruzamento com a Antônio Falcão/General Mac Arthur, depois direto até a praia. A outra alternativa é ir até a Praça do Marco Zero, pegar um barco, atravessar até os arrecifes e ir por cima do molhe até o Pina. Existe uma terceira que é ir por dentro de Joana Bezerra até a Avenida Sul e cruzar por baixo da linha do metrô, numa passagem pra lá de esquisita, até o Cabanga.

Fora isso, se a tentativa for pelo mesmo percurso dos carros, o infeliz pedestre terá que cruzar a pé o Viaduto Cinco Pontas e o Cais José Estelita até o Cabanga ou arriscar a vida por cima do Viaduto Capitão Temudo, disputando espaço com veículos motorizados que passam chutados. Neste último caso, se conseguir chegar vivo até a Ponte Paulo Guerra, terá que arriscar a vida mais uma vez, pulando a mureta de concreto e atravessar correndo a entrada da Via Mangue para alcançar, pulando outra mureta, o prosseguimento da calçada da ponte, literalmente arrancada neste trecho. O curioso é que no local picharam na mureta: “O pedestre atravessa como? Voando?” (e até para ter acesso ao shopping RioMar ele teria que voar porque a calçada é interrompida por outra mureta para além da qual projeta-se um precipício de uns dois andares de altura).

A ficha dessa situação absurda de uma cidade que não se conecta para o pedestre só caiu recentemente quando me vi, mais uma vez, em meio a esse quadro absolutamente surrealista, muito mais quando me dei conta de que, tanto o alargamento do Capitão Temudo quanto a construção da Via Mangue, se deram praticamente um dia desses… Ambos sem calçada e sem preocupação com o pedestre (e com o ciclista também). Pelo que sei, a calçada e a ciclovia da Via Mangue foram acrescentadas depois do projeto pronto e aprovado quando alguém disse: “oi, cadê a calçada?”

O que dizer da mobilidade de uma cidade na qual o pedestre só consegue ir da Zona Norte à Zona Sul voando? No mínimo, que muita coisa precisará mudar para que o conceito de caminhabilidade das cidades desenvolvidas seja, de fato, adotado entre nós.

*Artigo publicado na edição 128 da revista Algomais (www.revistaalgomais.com.br)

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2 Comentários em "O pedestre atravessa como? Voando?"

  1. Paulo Guerra says:

    Eu vi essa semana uns turistas se arriscando para ir para o Recife Antigo pela ponte do Forte das Cinco Pontas. Não tem calçada, não tem prioridade, os semáforos não são para facilitar a travessia dos pedestres….. Tá tudo errado.

    Só me dei conta como as calçadas são ruins, quando meu filho nasceu. Eu não consigo andar com o carrinho com ele. Cenário desolador!

  2. Paulo Guerra,
    Vc tem toda razão!
    Vamos então lutar por calçadas melhores!
    Sugestão: veja no http://www.observatoriodorecife.org.br o Movimento Olhe Pelo Recife – Cidadania a Pé.
    Abraço.

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