O Recife que precisamos

Uma cidade maltratada, beirando o colapso, com gravíssimos problemas de mobilidade urbana, centro histórico abandonado, calçadas intransitáveis, patrimônio público degradado. Há saída para o Recife?  “Sim”, diz o consultor Francisco Cunha, sócio-fundador da TGI Consultoria em Gestão e integrante do Observatório do Recife (ODR). Algumas medidas essenciais para reverter o caos urbano que acomete a cidade foram apresentadas por ele na palestra O Recife que Temos e o Recife que Precisamos, durante a última reunião mensal da Rede Gestão.

Arquiteto e urbanista, Francisco conhece profundamente o Recife, não só pela formação profissional, aliada à prática de 25 anos em consultoria empresarial, mas também como caminhante regular, com mais de 2 mil quilômetros andados a pé pelas ruas da cidade. Seu diagnóstico é que o Recife caminha para o colapso, está prestes a perder a sua “alma” e tornar-se igual a qualquer outra cidade ruim, sem personalidade própria. Na palestra, ele apresentou diversos dados que constam de um relatório produzido pelo Observatório do Recife com uma radiografia do quadro atual e sugestões de intervenção para tratar os problemas mais graves.

A situação atual, segundo ele, é resultado de uma malsucedida combinação de fatores, como o intenso processo de urbanização das cidades brasileiras e o privilégio à política partidária/eleitoral em detrimento da gestão da cidade no período pós-redemocratização no Brasil, fenômeno particularmente intenso no Recife. “O que vimos foi a falência do planejamento e do controle urbanos no Brasil, com desmantelamento das estruturas de planejamento da RMR, como a Fidem, e da Prefeitura do Recife. Há décadas que, por exemplo, não há concurso para arquiteto ou urbanista na Prefeitura”, disse.

À falta de planejamento, soma-se, como agravante, o crescimento acelerado da economia de Pernambuco nos últimos anos, com forte pressão sobre a historicamente frágil infraestrutura do Recife, catalisando o fenômeno de deterioração urbana da cidade. E, ainda, fatores como a explosão da venda de carros no Brasil, com a entrada de mais de 60 mil veículos particulares no Recife por ano. “Com o novo ciclo de crescimento acelerado de Pernambuco, a coisa piorará muito se só pouquíssimo continuar sendo feito como agora”, alertou.

Francisco acredita que há saídas possíveis para o problema, embora o quadro seja grave e o desafio, muito exigente. O Recife que Precisamos, segundo ele, passa por cinco medidas essenciais: (1) retomada do controle urbano, (2) restabelecimento imediato do planejamento de longo prazo, (3) enfrentamento do travamento da mobilidade, (4) recuperação do centro da cidade e (5) revitalização do Rio Capibaribe.

Para o consultor, retomar o controle urbano eficiente e tempestivo, com a participação efetiva da população, é absolutamente fundamental para o restabelecimento, inclusive, da ordem pública e da autoridade da gestão municipal. “Essa área da administração pública municipal requer uma total reformulação, que inclui, inclusive, tratamento de choque para determinadas questões cruciais.” Uma medida de impacto defendida por ele é a criação da Secretaria das Calçadas para, no prazo de um ano, trazer civilização às calçadas recifenses. Outra ação sugerida é a transformação do centro do Recife em patrimônio da humanidade durante a próxima gestão municipal.

Todos os candidatos à Prefeitura estão debatendo as questões apresentadas no relatório produzido pelo Observatório do Recife em encontros promovidos pela CDL-Recife. “Para ser prefeito do Recife hoje é preciso ser apaixonado pela cidade e mobilizar o reapaixonamento do recifense com determinação, foco e ousadia”, defendeu.

Outra medida importante, a mobilização da sociedade, também está no foco das entidades. Em setembro, a revista Algomais irá lançar a campanha O Recife Que Precisamos, com o objetivo de ampliar a conscientização e o engajamento da população.  A ideia é promover uma ampla discussão nas redes sociais sobre os problemas e soluções para o Recife, coletando assinaturas para o relatório do ODR, que será entregue ao prefeito eleito. “Não podemos assistir passivamente ao que está acontecendo com o Recife”, assinala Francisco. “Quanto mais pessoas engajadas, maior a possibilidade de mudança.”

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