O governo Dilma não aguenta
um repique inflacionário de dois dígitos

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A oportunidade das comemorações do dia 1º. de Maio foram usadas, tanto pelo governo quanto pela oposição, para tratar do problema da inflação que arrisca sair do controle do sistema de metas.

“A pressão inflacionária, que preocupa o governo, foi alvo de resolução política do Diretório Nacional do PT, divulgada anteontem, e também abordada em artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicado no jornal O Estado de S. Paulo ontem, em que o tucano acusa o governo petista de agir com ‘tibieza no controle da inflação, que pode cortar as aspirações de consumo das classes emergentes’.”

Portal Exame, 02.05.11

De fato, no Brasil, repete-se uma tendência mundial de subida da inflação em decorrência, principalmente, das altas dos preços dos alimentos, da energia e das commodities. Esse cenário, junto com a tendência de baixo crescimento, ainda decorrente da crise começada nos EUA que promoveu um esfriamento da demanda em nível  mundial, tem configurado uma situação próxima da chamada “estagflação”, talvez o mais danoso dos cenários econômicos.

“As pressões de custos de alimentos, energia e matérias-primas começam a ser repassadas ao longo da cadeia produtiva. Mais inflação e menos crescimento tornaram-se fenômeno global. E se o governo tem apenas um instrumento – a política de juros – o Banco Central sozinho não conseguirá conter a inflação e manter o ritmo de geração de empregos.”

Paulo Guedes, economista, O Globo, 18.04.11

O próprio Paulo Guedes fala, em outro artigo, do risco de o governo perseguir “duas lebres” (queda da inflação e manutenção do crescimento) com apenas um instrumento macroeconômico efetivo que é a taxa de juros manejada pelo Banco Central. Segundo ele, o risco é não conseguir nenhum dos dois objetivos e ficar numa situação complicada. Considerando o ano de 2011, “perdido”, formalmente o BC promete levar de novo a inflação para o centro da meta em 2012.

“A divulgação dos índices desta semana (6,6%) confirma que a escalada corrente dos preços ainda não deu trégua. Mas o que os indicadores não mostram é o risco para a inflação de 2012.”

Vivian Oswald, O Globo, 04.05.11

Independente da discussão sobre as causas da inflação no Brasil e das medidas adequadas para contê-la, o fato é que, no nível a que chegou, a situação não admite vacilos. Qualquer choque conjuntural adicional pode levar a inflação para níveis perigosos, inclusive o dos dois dígitos, com impacto psicológico como adverte o especialista em inflação da FGV:

“Se a safra recorde atual sofrer perdas com geadas ou estourar outra crise com exportadores de petróleo, a inflação pode beirar 8,5%. Daí para dois dígitos é um pulo.”

Heron do Carmo, Correio Brasiliense, 17.04.11

Num país com memória inflacionária como o Brasil que ainda mantém mecanismos formais de indexação, não assegurar o compromisso explícito com a queda dos índices, é um risco acentuado. O governo Dilma recebeu como herança um ajuste fiscal afrouxado pela crise e pela eleição, além de uma inflação perigosamente ascendente. Diferente do antecessor, o governo atual tem menos crédito inicial para errar. Se a inflação romper a barreira psicológica dos dois dígitos, vai ficar muito difícil reverter a situação e a probabilidade do governo “acabar” por falta de credibilidade não é desprezível. Por conta disso, o controle da inflação passou a ser uma questão de vida ou morte política para o governo Dilma. Torçamos para que isso seja compreendido pelos que decidem no governo.

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