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Número 532 - 25 de abril de 2005

Não é certo que o papa Bento XVI será
apenas a continuidade do cardeal Ratzinger






Considerado um intelectual brilhante, tanto quanto um feroz defensor da doutrina da Igreja, Joseph Ratzinger, eleito para continuar o papado de João Paulo II, pode surpreender

Impressionante o poder do papa João Paulo II. Mesmo morto e enterrado conseguiu fazer o sucessor. O cardeal Joseph Ratzinger, eleito papa Bento XVI, foi durante mais de 23 anos o braço direito de Karol Wojtyla nas questões ligadas à doutrina. O jornalista John Allen Jr. que escreveu uma biografia do cardeal Ratzinger refere-se a ele como “o arquiteto intelectual do papado de João Paulo II”.

Foi o responsável, na condição de prefeito (ministro) da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício da Inquisição) do Vaticano, pelo severo enquadramento de mais de 150 teólogos “rebeldes” mundo afora, dentre eles os responsáveis pela Teologia da Libertação na América Latina. Cumpriu com tanto afinco sua missão que era chamado pela imprensa especializada de “panzerkardinal” (uma alusão às temidas divisões blindadas panzer do exército nazista) e de “rottweiller de Deus”.

Um dos punidos pelo cardeal Ratzinger com o “silêncio obsequioso”, a deposição da cátedra e a proibição de escrever, falar e viajar, o teólogo brasileiro Leonardo Boff, expoente da Teologia da Libertação, que conheceu o novo papa em Munique antes dele assumir em Roma a Congregação convidado que foi por João Paulo II, diz a seu respeito o seguinte:

“Foi meu professor no doutorado de teologia na Europa. Ajudou-me a publicar minha tese de doutorado, arrumando editora e pagando a edição. Era extremamente gentil, fino, mas tem o defeito de não ter cordialidade do pensamento. Tem o pensamento duro, dissipador, um excesso de certeza que não se abre ao aprendizado. Sua consciência é dura, desprovida de misericórdia. Espero que, como papa, seja mais próximo do professor que tive do que do cardeal que conheci depois.”

Leonardo Boff, Istoé, 27.04.2005

Em virtude desta atuação, de um modo geral, toda a imprensa já antecipa que o resultado do papado de Bento XVI será, na melhor das hipóteses, uma continuidade, mais conservadora ainda, do período João Paulo II.

Todavia, antes dos julgamentos apressados, é importante considerar alguns aspectos relevantes da questão. O principal deles é que o tempo da Igreja Católica não é o tempo deste mundo. Ela contempla a eternidade e tem demonstrado, ao logo da sua história, um notável senso de perpetuidade baseado, justamente, na capacidade de conservar e de aceitar, com cautela, mudanças quando elas se tornam inevitáveis.

“A igreja é uma instituição de mais de 2.000 anos. (…) O seu segredo se encontra provavelmente no fato de apenas lentamente ter incorporado exigências que se tornaram imprescindíveis com o decorrer do tempo. A sua sabedoria consiste precisamente no seu conservadorismo, na manutenção de suas instituições, na sua organização jurídica e na sua abertura cautelosa às mudanças. Essas não podem ser abruptas (…) Uma igreja que mudasse constantemente, confundindo a moda com as exigências do tempo, sucumbiria rapidamente.”

Denis Rosenfield, filósofo da UFRS, FSP, 20.04.2005

Portanto, ainda é cedo, apesar das evidências pretéritas, para dizer se foi um erro dos cardeais eleger um par conservador. Pode não ter atendido aos anseios imediatos da mídia mas pode ter ido ao encontro das necessidades atuais da Igreja. Além do mais, é preciso sempre considerar a possibilidade de superação daqueles que assumem grandes desafios. Bento XVI pode surpreender como surpreendeu João XXIII, tido como conservador e eleito como ele, pela idade avançada, para um mandato de transição. Vamos ver.

Número 531 - 18 de abril de 2005

Sociedade retoma ideal de Tiradentes e
faz governo retroceder no aumento de tributos






O recente recuo do governo federal em relação ao aumento de impostos proposto na Medida Provisória 232 representou uma vitória história da sociedade civil organizada brasileira

No dia 21 de abril o Brasil homenageia os 213 anos da Inconfidência Mineira, um movimento de insubordinação contra a dominação portuguesa expresso, sobretudo, pelo repúdio à cobrança do “Quinto” (20%) sobre a principal produção da província mineira: ouro. O movimento, violentamente reprimido, ficou marcado pelo martírio daquele que viria a se transformar no símbolo da luta pela liberdade e pela independência do país: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

“O Quinto era tão odiado pelas pessoas que foi apelidado de ‘O Quinto dos Infernos’, dado ao seu custo altíssimo.”

Emerson Costa Leite

O texto de onde a citação acima foi retirada circula da internet e é atribuído a Emerson Costa Leite (”contador com especialização em Direito do Trabalho e Previdenciário e analista de negócios do sistema de folha de pagamento Winner”) e tem o título de “Dois Quintos dos Infernos”.

“De acordo com o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), a carga tributária brasileira deverá chegar ao final deste ano a 38% do PIB. Praticamente 2/5 (dois quintos) de nossa produção. Calcula-se que a nossa capacidade tributária é de 24% do PIB; ou seja, estamos arcando com um peso muito maior do que suportamos carregar.”

Emerson Costa Leite

Foi, justamente, a consciência aguda deste peso excessivo que levou a sociedade organizada, por meio de manifestações as mais diversas (caravanas, abaixo-assinados, passeatas, anúncios etc.), a pressionar o Congresso Nacional para rejeição da parte da Medida Provisória 232 que aumentava a carga tributária das empresas prestadoras de serviços.

Com certeza da derrota, o governo federal voltou atrás e substituiu a malfadada medida por outra que apenas reajusta a tabela do imposto de renda, há muito defasada.

Com isso, deve ter caído a ficha para o governo: não é mais possível aumentar impostos para resolver os problemas fiscais e de caixa do país. A sociedade está exaurida e deu um basta enfático à velha prática de elevar as alíquotas dos tributos existentes ou criar outros, sempre que as contas públicas ameaçam não fechar.

“O movimento atual contra os impostos é significativo pelo fato de ter brotado espontaneamente. É algo incomum na história recente do país.”

Boris Fausto, historiador da USP

Trata-se, sem dúvida, da afirmação da consciência e da força da opinião pública esclarecida e da sociedade organizada numa atuação madura e eficaz. Herdeira da Conjuração Mineira e de vários outros movimentos ocorridos na época colonial mas, também, das principais revoluções da civilização ocidental.

“Em momentos decisivos da história da humanidade, situações de ruptura, como a Revolução Francesa, a Revolução Russa e a Revolução Americana, estiveram calçadas fundamentalmente na insatisfação popular com os impostos, taxas e carga fiscal excessiva, lançados por impérios aos súditos.”

Editorial Revista Dinheiro, 23.02.2005

Ao fazer o governo voltar atrás, a sociedade mostrou, de forma pacífica e organizada, o valor da democracia. Materializou os ideais atribuídos a Tiradentes e seus companheiros. Agora, o governo só poderá melhorar seus resultados pelo aumento da fiscalização e/ou pela eficientização dos seus gastos. O assunto continua em um próximo GH.

Número 530 - 11 de abril de 2005

Vale a pena observar o que faz a
Igreja Católica para manter-se tão influente






A morte e a sucessão do papa João Paulo II recolocam para o mundo questionamentos sobre a impressionante capacidade de permanência influente da Igreja Católica ao longo dos séculos

João Paulo II, mesmo depois de morto, continuou arrebatando multidões, consolidando o título de maior comunicador da era global. A população de Roma (2,7 milhões de habitantes) dobrou durante seu velório e mais de um milhão de pessoas passaram pela frente do corpo exposto na Basílica de São Pedro. Ao enterro compareceram mais de 200 chefes de estado e de governo e a missa de corpo presente foi assistida por uma multidão estimada em 500 mil pessoas na Praça de São Pedro e nos arredores do Vaticano.

Em meio a essa gigantesca mobilização, todavia, o que o mundo também observou impressionado foi a precisa organização das cerimônias fúnebres e a rígida normatização do ritual de escolha do sucessor, aperfeiçoada pelo próprio João Paulo II, mas que tem pelo menos 700 anos de idade.

Uma pergunta que se recoloca diante da visualização dessas imagens: que instituição é essa que mantém suas tradições e, ao mesmo tempo, consegue sobreviver há tanto tempo e de forma tão intensa? Uma instituição que conheceu altos e baixos mas que desenvolveu ao longo do tempo uma impressionante capacidade de sobreviver às adversidades e de influir, não raro de forma decisiva, nos destinos da civilização ocidental.

Conta a lenda que o líder soviético Stálin, na conferência de paz de Yalta que tratou da redivisão da Europa depois da vitória dos aliados na 2a Guerra, em 1945, teria respondido assim a uma pergunta sobre se não se deveria consultar o papa Pio XII acerca de uma determinada questão que estava sendo discutida:

“O papa? Quantas divisões tem o papa?”

Joseph Stálin, 1879-1953, líder soviético

Na época desta pergunta o papa não contava com nenhum contingente militar além dos menos de cem integrantes da alegórica Guarda Suíça com seus uniformes desenhados por Michelangelo e suas lanças de enfeite. Todavia, por ironia do destino, décadas depois, seria o papa, ainda sem nenhum poder militar, um importante protagonista na derrocada do império soviético com suas incontáveis divisões blindadas e seu enorme arsenal bélico, inclusive atômico.

Evidente que, para isso e para as inúmeras outras intervenções políticas e sociais da Igreja no último quarto de século, pesou a dimensão moral e midiática do papa João Paulo II. Todavia, por trás dele estava todo o peso do prestígio da Igreja Católica.

Um prestígio construído como resultado de uma impressionante saga que começou de forma singela numa remota província conquistada pelo Império Romano, chegou à capital, foi ferozmente perseguida, vicejou nas catacumbas romanas, foi assumida oficialmente pelo império, sofreu o cisma protagonizado pela igreja ortodoxa, protagonizou os horrores da inquisição, foi alvo da reforma luterana, fez a contra-reforma e terminou firmando-se como uma das referências espirituais da humanidade.

Nessa trajetória, em termos de sobrevivência, cometeu mais acertos do que erros e constitui-se, sem sombra de dúvidas, numa referência para estudo da capacidade de permanência de uma organização através dos tempos. A Igreja Católica, ao longo de sua trajetória, tem pautado a continuidade pela tentativa constante de compatibilizar a conservação com, embora não pareça, a inovação. Ainda que seja uma inovação, se é que se pode dizer assim, pautada pela conservação.

“Um empreendimento que não inova, quer se trate de uma empresa ou de qualquer outra instituição, não sobrevive por muito tempo.”

Peter F. Drucker, guru dos gurus da Administração

Talvez seja essa a razão do seu sucesso de permanência: conservar o que considera essencial e fazer os ajustes de rota quando as circunstâncias requerem. Fez isso com João Paulo II e precisa fazer agora, também, na sua sucessão. Vamos observar o que acontece. Vale a pena.

Número 529 - 04 de abril de 2005

Karol Wojtyla, o papa midiático
que manteve a Igreja Católica no século 20






A morte de João Paulo II coloca a Igreja Católica diante do dilema de escolher um sucessor que, ao mesmo tempo, esteja à sua altura como comunicador e o supere como reformador religioso

 

 

 

Com a sucessão do seu 264o. papa, a Igreja Católica depara-se com um desafio considerável: substituir a contento aquele que foi o mais midiático dos seus representantes.

Ator na juventude, João Paulo II desenvolveu em seu pontificado de quase 27 anos, o terceiro mais longo da História da Igreja, uma notável capacidade de divulgação da fé católica usando com maestria incomum a mídia de massa, característica marcante do século 20. Do ponto de vista da comunicação, não é exagero dizer, ele trouxe a Igreja para a era global.

“Transformou uma Igreja bastante romana numa Igreja mundial.”

Débora Berlinck, Agência O Globo

Em sua viagens pelos cinco continentes (visitou nada menos que 132 países nos quais mobilizou mais de 300 milhões de católicos que acorreram ao seu encontro) Karol Wojtyla prestou um serviço inestimável à manutenção e à propagação da fé católica. Ao morrer deixa um contingente de mais de 1 milhão de católicos que sem ele teria, por certo, minguado bastante. Só num evento em comemoração ao Dia Mundial da Juventude, em Manila, capital da Filipinas, no ano de 1995, chegou a reunir 4 milhões de jovens diante do seu carisma.

“Nenhum dirigente nacional, nenhum pop star teve o impacto de sua presença, de sua roupa branca, de seus cabelos também brancos, desalinhados pelos ventos de todos os quadrantes da Terra, de sua voz majestosa.”

Carlos Heitor Cony, escritor, FSP, 03.04.2005

Além do desempenho desse relevante papel de divulgação, teve atuação destacada no desmoronamento do império soviético que combateu desde o início como militante católico e clérigo engajado em sua Polônia natal.

Esteve, também, no centro de todos os esforços do seu tempo pela paz mundial, sempre defendendo o fim dos conflitos bélicos. Na recente investida norte-americana contra o Iraque, dizem que chegou a cogitar a ida a Bagdá, antes da declaração de guerra, para desencorajar a investida de George W. Bush.

O contraponto de sua impressionante atuação para fora da Igreja foi um inusitado conservadorismo para dentro. Com mão de ferro unificou a doutrina e enquadrou todos os movimentos internos de liberalismo, dentre os quais a Teologia da Libertação latino-americana.

“Seria bom que o próximo papa restabelecesse o debate na Igreja. João Paulo II acabou com ele.”

Flavio Pierucci, sociólogo, USP, GloboNews, 03.04.2005

Como instituição duplamente milenar, um prodígio de perpetuação na adversidade, a Igreja Católica sempre soube encontrar os melhores caminhos para sua continuidade. Agora, mais uma vez, ela defronta-se com o futuro. Para isso, a conservação é tão necessária quanto o progressismo. João XXIII, foi um notório progressista sucedido por dois conservadores, Paulo VI e João Paulo II (já que o pontificado de 33 dias de João Paulo I, encerrado prematuramente com sua morte, não conta).

“João XXIII trouxe a Igreja para o século 20 e João Paulo II a manteve nele.”

Mario Sergio Cortella, teólogo da PUC-SP

Fazer a Igreja entrar no século 21 é a grande tarefa do sucessor de João Paulo II. Fazê-la elaborar, conforme expressão do jornal Valor Econômico de hoje, “respostas adequadas e eficientes para fenômenos como a liberdade moral, sexual, o aborto, o homossexualismo, o individualismo, o consumismo, a secularização (a perda de influência de instituições e preceitos religiosos para o mundo laico)”. Tudo isso, num mundo cada vez mais interligado pela mídia instantânea e pela internet. Uma tarefa e tanto que vamos acompanhar ao vivo nos próximos dias.

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