Felipão, o grande herói do pentacampeonato

 

Há quatro anos, dia 13.07.1998, o Gestão Hoje dedicou o seu número 178 a comentar a decepcionante derrota da seleção brasileira para a equipe nacional da França na final da Copa do Mundo daquele ano. O informativo começava com a extraordinária frase de Nelson Rodrigues.

“Toda grande vitória é anterior a si mesma.”

Nelson Rodrigues, 1912-1980, dramaturgo brasileiro

Como se tratava de uma derrota, o complemento acrescentado na frase foi: “toda grande derrota, também“.  As razões apontadas para aquela derrota foram, sobretudo, duas: o baixíssimo espírito de equipe e a fraqueza de comando.

Agora, em contraste, os pontos fortes são, justamente, o grande espírito de equipe conseguido e a firmeza de comando do técnico Luis Felipe Scolari, condições que, sem nenhuma sombra de dúvidas, antecederam a grande vitória conquistada.

O Felipão assumiu a seleção brasileira em meio a uma grave crise que ameaçava sua classificação (o Brasil corria o risco de, pela primeira vez na história, não conseguir chegar à Copa do Mundo). Iniciou com paciência e determinação (ou teimosia, segundo os seus críticos), mas sem arrogância, o trabalho que seria consagrado com o pentacapeonato, depois de uma campanha surpreendentemente exemplar.

Perguntado na coletiva de imprensa, após o término da partida com a Alemanha, sobre o segredo do sucesso do time, respondeu:

“Vibração, amizade, união, participação, doação a um objetivo.”

Luis Felipe Scolari, técnico brasileiro

Evidentemente, teve mais do que isso. Mas o  importante é que ele, coerentemente com o que vinha dizendo antes, enfatizou os aspectos, digamos coletivos, assim como destacou o estímulo da torcida. Outros fatores poderiam ser apontados, que dizem respeito mais às suas próprias características: capacidade de organização, conhecimento do “negócio”, autoridade, disciplina ordenadora (mas não punitiva), firmeza de convicção e, porque não destacar também, sorte (sim, sorte, aquele requisito que distingue o goleiro que vê a bola bater na trave e sair e o que a vê bater na trave e entrar).

“Sem sorte, não se chupa nem um chica-bom. Você pode engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha.”

Nelson Rodrigues

Mas, como destacam James Collins & Jerry Porras, autores do bom livro “Feitas para Durar” (Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1995), “a sorte favorece àqueles que são persistentes“. E a persistência de Felipão garantiu-lhe uma bonita campanha – um verdadeiro work in progress – respaldada pela montagem e pelo aperfeiçoamento progressivo de uma equipe onde conviveram grandes talentos como Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, sem estrelismos ou falta de colaboração. Pelo contrário, foi o espírito de colaboração que potencializou os talentos e permitiu um time quase impecável na final.

Um time que começou a Copa pouco articulado, com destaque negativo para a defesa que quase mata do coração toda uma nação mobilizada, conseguiu, à medida que avançava a competição, melhorar a ponto de transformar a originalmente fraca defesa, segundo a linguagem dos locutores, numa “muralha”. Mérito da competência técnica, da disciplina, da solidariedade.

Sem endeusamentos ou apelo a modismos, o exemplo de Felipão tem muito o que ensinar à prática gerencial nas nossas organizações e, por que não, nessa época de eleições, aos candidatos a gestores públicos pelo país a fora:

“Podemos, quando queremos e somos disciplinados.”

Luis Felipe Scolari

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