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Número 799 - 14 de junho de 2010

Lição da British Petroleum:
onde estão os “poços” que podem vazar?

A tragédia ambiental do Golfo alerta para os riscos que rondam as empresas e para a importância de procurar saber onde estão os “poços” que podem vazar e arriscar a sobrevivência

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Chega a ser inacreditável o que aconteceu no Golfo do México com o terrível vazamento do poço da British Petroleum, a terceira maior companhia petrolífera do mundo, a segunda privada, atrás apenas da Exxon. As estimativas dão conta de que já foram lançados ao mar mais de 100 milhões de barris de petróleo, naquele que já está sacramentado como o pior desastre ambiental da história dos EUA. É difícil entender como uma empresa que perfurou milhares de poço ao longo de sua história esteja correndo o risco de desaparecer por conta de apenas um deles.

“A BP, no momento, não luta apenas para conter seu vazamento no Golfo do México e reparar o colossal desastre ecológico que provocou; também luta, simplesmente, pela própria sobrevivência.”

J. R. Guzzo, revista Exame, 16.06.10

Desde que o desastre se iniciou, a BP já perdeu 35% do seu valor de mercado pela queda do preço das ações em bolsa. As estimativas são de que a empresa já gastou US$ 1 bilhão de um prejuízo que pode chegar a pelo menos US$ 23 bilhões. Sem que ninguém saiba quando o vazamento vai parar… Não há empresa no mundo que suporte um desaforo desse tamanho. E como se não bastassem os danos financeiros, as perdas de imagem são de dificílima recuperação.

“A BP enfrenta uma das piores situações que uma empresa pode encarar. Há semanas, sua operação no Golfo do México não para de sangrar petróleo. As imagens apocalípticas de praias imundas e animais encharcados de óleo, num momento em que a consciência ambiental nunca foi tão grande, são de fato destrutivas (…) a própria BP alegou, depois de algum tempo, que não estava preparada para enfrentar um desastre de tamanha proporção. A conseqüência disso é que, dia após dia, sua imagem corporativa é corroída, numa corrente que vai da mídia tradicional a redes sociais.”

João Werner Grando, revista Exame 16.06.10

E para piorar a história, a BP foi uma das primeiras companhias de petróleo do mundo a investir na construção de uma imagem que se pretendia correta do ponto de vista ambiental. Nesta linha passou a se identificar como uma empresa de energia e não de petróleo. Adotou o slogan Beyond Petroleum (além do petróleo), tentando dar outra conotação às iniciais BP. A própria logomarca da empresa foi mudada para um girassol amarelo e verde… Agora, a cobrança vem a galope como expressa a opinião do vice-presidente da consultoria Davis Brand Capital.

“A BP está pagando o preço por ter criado uma aura verde que nunca passou de balela. Somente 1% da receita da empresa vem de energia limpa. Não há nada de Beyond Petroleum nisso.”

Bryan K. Oekel, revista Exame, 16.06.10

Se não quebrar ou for adquirida por outra do setor a “preço de banana”, a BP sobreviverá completamente arranhada e num tamanho bem menor.

“Há, também, a possibilidade de que a BP só consiga sobreviver como uma empresa menor, caso se veja obrigada a vender parte de suas operações para fazer caixa.”

J. R. Guzzo, revista Exame, 16.06.10

Ou seja, praticamente de um dia para o outro, uma das maiores empresas do mundo, com um faturamento anual na casa dos US$ 250 bilhões, se vê metida numa enrascada que pode lhe custar a vida. O vazamento de um poço se transforma numa catástrofe ambiental, num prejuízo financeiro monumental e num dano de imagem irreparável. Uma lição preciosa para empresas de todos os tipos e tamanhos que devem se fazer a pergunta: onde estão os “poços” que, se vazarem, podem comprometer minha sobrevivência?

Número 798 - 07 de junho de 2010

Arrecadação recorde e o direito de
ter destacado o imposto pago na nota fiscal

O atingimento de meio trilhão de reais de arrecadação projeta um recorde em 2010 e chama a atenção para a necessidade de se deixar claro na nota fiscal quanto pagamos de impostos

GH 798

Na quarta-feira da semana passada (02.06.10) o “impostômetro” da Associação Comercial de São Paulo ultrapassou a marca de R$ 500.000.000,00 de impostos arrecadados no Brasil em 2010, 22 dias antes do que no ano passado. Isso projeta uma arrecadação de R$ 1,24 trilhão, 13% superior à de 2010 e representando 36% do PIB. Mais um recorde que o presidente Lula logo se apressou a defender.

“Tem gente que diz: ‘No meu país a carga tributária é de 9%, 10% (do PIB)’. Quem tem carga tributária de 10% não tem Estado. Os países que têm carga tributária baixa não têm condições de fazer absolutamente nada de política social. Está cheio de exemplos aí para a gente ver: os Estados que têm as melhores políticas sociais têm a carga tributária mais elevada. Os Estados Unidos, a Alemanha, a França, a Suécia, a Dinamarca.”

Presidente Lula

Como não é raro acontecer com os discursos presidenciais, também aqui são necessários reparos. O primeiro é que não existe país sério com carga tributária de 10%. O segundo é que a carga tributária norte-americana está em torno de 28% do PIB. O terceiro e mais importante é que nos demais países com a carga tributária semelhante à brasileira, os serviços próprios do Estado (saúde, educação, segurança) e os investimentos em infraestrutura estatais são infinitamente superiores aos brasileiros. Donde a irônica comparação do economista Delfim Netto.

“Por isso, costumo dizer que nós vivemos na Ingana: um país que cobra impostos como a Inglaterra e oferece serviços de Gana.”

Antônio Delfim Netto

Segundo o economista Paulo Rabello de Castro, a estrutura tributária brasileira é injusta, ineficiente, maliciosa e incompetente, exemplificando que um trabalhador que ganha até dois salários mínimos, entrega à União, aos Estados e aos municípios 40% ou mais de seu ganha-pão, em comparação a pouco mais de 10% de um cidadão no topo da pirâmide de renda.

“A ineficiência na arrecadação e a complexidade do sistema são um peso morto que rouba tempo e dinheiro do contribuinte sem levar vantagem para o poder público. Somos o campeão mundial em horas trabalhadas pagando impostos e temos o sistema mais distorcido do mundo. Nossos brilhantes legisladores foram empilhando siglas novas de tributos, de suposta vocação social, além das tradicionais (renda, consumo e propriedade). Há IOF, Cide, Cofins, PIS, ICMS, ISS, e IPI e outras, que poderiam ser aglutinadas num único tributo do tipo IVA (imposto sobre valor agregado), a ser repartido para os três níveis de governo (…) os impostos são escondidos nos preços do que se compra (…) A maioria dos cidadãos das classes C, D e E pensa que não paga nada de impostos e ganha bolsas, subsídios e aposentadorias ‘de graça’ dos políticos.”

Paulo Rabello de Castro, Época, 07.06.10

Um passo muito importante para ampliar a consciência da população sobre os impostos que paga embutidos nos preços dos produtos, é discriminar, destacando em cada nota fiscal, o valor do tributo  separado do preço, como acontece, por exemplo, nos EUA.

“Se houvesse algo semelhante no Brasil, o consumidor saberia que paga impostos até sobre itens básicos de alimentação. No arroz e feijão, são 15,3%; na carne bovina, 17,5%; no café, 20%; e na manteiga, 36%.”

José Fucs, Época, 07.06.10

Número 797 - 31 de maio de 2010

Impostos, crescimento e entraves,
uma rápida análise da conjuntura econômica

A economia brasileira cresceu em ritmo chinês no primeiro trimestre, mas não vai manter este compasso por conta dos entraves internos (impostos e infraestrutura) e da conjuntura externa

GH 797

Só na sexta-feira da semana passada (dia 28 de maio) foi que o contribuinte brasileiro deixou de trabalhar para pagar impostos. Foram 148 dias trabalhados para o fisco em 2010. Pelo menos é essa conta que faz o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), reforçando que, no mundo, só somos superados pela Suécia (com 185 dias) e a França (com 149 dias).

“Esse período vem aumentando no Brasil. Na década de 70, a média era de ‘apenas’ 76 dias, praticamente a metade da registrada atualmente. Para realizar os cálculos, o IBPT leva em consideração a tributação incidente sobre os rendimentos (salários, honorários etc.) formada principalmente pelo Imposto de Renda Pessoa Física, pela contribuição previdenciária (INSS e previdências oficiais) e pelas contribuições sindicais. Além disso, há impostos sobre o consumo (PIS, COFINS, ICMS, IPI, ISS etc.) e também sobre o patrimônio (IPTU, IPVA, ITCMD, ITBI e ITR). São incluídas ainda as taxas (limpeza pública, coleta de lixo e emissão de documentos) e contribuições (iluminação pública, por exemplo).”

Luis Artur Nogueira, EXAME.com

Curiosamente, também na semana passada foram divulgadas as projeções de crescimento do Brasil em 2010 e elas apontam para algo próximo a 10%, um ritmo chinês!.

“Se mantivesse o ritmo do primeiro trimestre – algo difícil de acontecer –, o país cresceria cerca de 10%, o triplo da média da última década, similar ao ritmo da economia chinesa. Na história recente, o Brasil só teve esse ritmo nos anos 70, durante o regime militar, e ele não se refletia, como hoje, em diminuição de desigualdade – o país crescia, e os pobres continuavam pobres.”

Marcos Coronato, Época, 31.05.10

Além disso, em abril houve recorde histórico de criação de empregos formais. A taxa de desemprego medida pelo IBGE nas maiores capitais recuou para 7,3%, a menor desde 2002 e uma das menores do mundo (a do Chile é 8%, a dos EUA 10% e a da Espanha 20%). Fora os altos impostos, tudo bem, então, com o crescimento? Infelizmente, não. Além dos tradicionais entraves internos complementares como a grave carência de infraestrutura (o que eleva a inflação), o ambiente econômico externo que parecia estar se recuperando lentamente depois do baque da crise de 2008, está em expectativa crescente depois da crise da Grécia e do nó em que se meteu a Zona do Euro. O alerta é de Nouriel Roubini, o Dr. Apocalipse, que antecipou a crise do subprime.

“Todo mundo será afetado. Os preços das commodities está caindo, a aversão ao risco está aumentando, os mercados de ações e de crédito estão passando por correções. Os mercados emergentes não terão recessão, mas sofrerão impacto negativo.”

Nouriel Roubini, Dinheiro, 02.06.10

Ou seja, o excepcional desempenho de crescimento do país em 2010 não vai se manter nem se repetir tão cedo, tanto por fatores externos quanto internos. Na verdade, estamos crescendo tanto por causa da bem sucedida reação à crise.

“O excepcional desempenho da economia brasileira em 2010 é ainda de natureza transitória. Deveu-se ao rápido desentupimento dos canais de crédito e à fulminante redução de impostos e juros, bem como à expansão dos gastos públicos em meio à crise. (…) o Brasil segue com carga tributária exorbitante, legislação trabalhista obsoleta, encargos sociais proibitivos.”

Paulo Guedes, Época, 31.05.10

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