A sociedade já mostrou que pode,
agora é “sustentar o fogo” pelo Ficha Limpa
Depois da aprovação-relâmpago do Projeto de Lei no Senado, mesmo com as dúvidas sobre a aplicação imediata, é preciso manter a vitoriosa pressão cidadã por moralidade e ética na política

De uma forma absolutamente surpreendente, o Senado Federal aprovou no mesmo dia (19.05.10), por unanimidade, na Comissão de Constituição e Justiça e no plenário, o Projeto de Lei denominado de Ficha Limpa. Fez-se isso por acordo de lideranças, passando na frente de toda a extensa pauta legislativa da casa. Por que aconteceu coisa tão inusitada, impensável mesmo?
“A votação da lei da Ficha Limpa nesta quarta-feira foi uma vitória da ética na política. Ainda maior foi o exemplo de como o poder direto do povo consegue hoje penetrar, pressionar, conduzir os parlamentares. Foram milhões de assinaturas e dezenas de milhões de mensagens que conduziram o Congresso a decidir conforme a população queria e não apenas conforme os desejos e os temores dos parlamentares. Por meses, o Brasil esteve nas ruas e praças virtuais.”
Cristovam Buarque, senador PDT/DF
Toda essa relevante pressão, todavia, não conseguiu impedir uma emenda “de redação” proposta pelo senador Francisco Dornelles que, na prática, transfere os efeitos da Lei para a eleição de 2012, livrando a cara dos “fichas sujas” na próxima eleição.
“Se o texto original do projeto tivesse sido aprovado na íntegra pelo Congresso, Maluf e outros tão enrolados quanto ele não poderiam, concorrer em outubro. Na versão de Dornelles, porém, só valerão as condenações futuras proferidas em segunda instância. A alteração ganhou o apelido de ‘emenda Maluf’ (como se fosse possível emendar Maluf).”
Leonardo Coutinho, Veja, 26.05.10
Além deste percalço, pelo que tudo indica uma “pegadinha” do senador Dornelles para beneficiar o deputado do seu partido, há ainda uma discussão sobre se a Lei pode ou não retroagir (já que não é para beneficiar). Independente disso, é praticamente unânime o entendimento dos analistas sobre o avanço da nova Lei que subiu à sanção presidencial, como expressa de forma eloqüente e otimista o juiz presidente da Associação dos Magistrados do Brasil (AMB).
“Essas questões sobre retroatividade e a validade, se é para este ano ou só para daqui a dois anos, vão ser decididas pelo Supremo. Mas só a aprovação já é um avanço, a gente não pode desconhecer. É uma grande vitória da democracia e da sociedade (…) Os costumes vão mudar. Ninguém vai mais se utilizar do cargo eletivo, de um cargo público conseguido através de um voto popular, para enriquecimento ilícito, para malversação do dinheiro público. As pessoas vão ter mais zelo, mais cuidado no exercício dessa atividade pública.”
Mozart Valadares, presidente da AMB
Mais importante do que as pegadinhas e os questionamentos sobre a aplicação da Lei é, de longe, a sua própria aprovação. Agora, resta à sociedade civil organizada e aos cidadãos conscientes “sustentar o fogo” na guerra contra a imoralidade na política.
“Ante as resistências à ficha limpa, que ainda se delineiam, aqui e ali, a opinião pública deve seguir a recomendação traçada pelo almirante Barroso aos seus comandados na Batalha do Riachuelo: ‘Sustentai o fogo que a vitória é nossa!’ (…) Mantenhamos a pressão popular firme e inarredável e os obstáculos que ainda restam também serão superados, abrindo caminho para que a honestidade e a retidão se tornem o padrão fundamental de conduta na política brasileira.”
Antonio Carlos Pannunzio, deputado PSDB/SP





