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Número 792 - 26 de abril de 2010

A morte de Prahalad vai trazer
dificuldade ao pensamento criativo na gestão

C. K. Prahalad foi um pensador bastante original para a moderna gestão empresarial tendo, inclusive, avançado no raciocínio sobre a emergência da “base da pirâmide” social

GH 792

Com a notícia da morte este mês, aos 69 anos, de Coimbatore Krishnarao Prahalad, conhecido como C. K. Prahalad, consultor e escritor indiano, autor e co-autor de três clássicos da moderna literatura empresarial (“Competindo pelo Futuro”, com Gary Hamel; “A Nova Era da Inovação”, com M. S. Crishnan; e “A Riqueza na Base da Pirâmide”), o mundo da gestão empresarial ficou mais pobre. Prahalad foi um pensador original, autor de vários conceitos importantes.

“Prahalad desenvolveu vários dos conceitos mais fundamentais da gestão de empresas contemporânea, como as competências essenciais, a co-criação, a globalização distribuída (com as multinacionais optando por ter várias sedes), o foco nas próximas práticas (em vez de nas melhores práticas, trocando o passado pelo futuro) e a inovação inspirada pela demanda da base da pirâmide socioeconômica (para inclusão social pelo consumo e criação de novos mercados), entre outros.”

Adriana Salles Gomes, HSM Inspiring Ideas

Era fixado na ideia de competitividade e no futuro. Tinha, inclusive, algumas hipóteses que iam de encontro a alguns dos conceitos que viraram lugares comuns na gestão contemporânea como, por exemplo, a de que as organizações competitivas são aquelas que aprendem com as experiências do passado. Defendeu a idéia de que tão importante quanto “aprender” é, também, “esquecer” o que deu certo no passado porque se isso em parte não for feito, fica comprometida a capacidade de criação.

“Os executivos de sucesso da nova era serão os que souberem esquecer o passado, gerenciar o presente e criar o futuro.”

C. K. Prahalad

Procurou também dar ênfase à distinção entre a capacidade de pensar e a competência de fazer as coisas acontecerem, uma das grandes dicotomias da gestão de todos os tempos, em especial a partir do momento em que o planejamento ganhou autonomia como disciplina autônoma.

“Planejadores pensam no que vai acontecer de diferente, triunfadores determinam o que vão fazer de diferente.”

C. K. Prahalad

Todavia, apesar da importância das contribuições registradas nos livros anteriores, o grande aporte de Prahalad para o pensamento e o debate econômico e social contemporâneo, sintonizado com o fenômeno da emergência econômica e de consumo das massas, foi o livro “A Riqueza na Base da Pirâmide” no qual defende um olhar cuidadoso e economicamente sintonizado para a base da pirâmide social.

“Se pararmos de pensar nos pobres como vítimas ou como um fardo e começarmos a reconhecê-los como empreendedores incansáveis e criativos e consumidores conscientes de valor, um mundo totalmente novo de oportunidades se abrirá.”

C. K. Prahalad

Como indiano, Prahalad conhecia bem o potencial e o poder econômico das massas (a Índia tem quase 1 bilhão de pessoas na “base da pirâmide”) e conseguiu, de forma bastante criativa e instigante, enquadrar o problema como também uma solução para tratá-lo. Nesta abordagem, que terminou por ser a sua última de grande porte, exercitou na plenitude uma característica que certamente fará muita falta nesse nosso mundo repleto de “sacadas” mas muito carente de abordagens consistentes que permitam o pensamento criativo e, de fato, diferente.

“Prahalad fará falta. Ele trazia novas ideias às mesas dos executivos, provocava, fazia com que pensassem diferente.”

Adriana Salles Gomes, HSM Inspiring Ideas

Número 791 - 19 de abril de 2010

E quanto ao Brasil, o que
acontecerá nos “Próximos 100 Anos”?

No livro já comentado sobre o próximo século, George Friedman trata muito pouco da América Latina e do Brasil mas vale a pena refletir sobre o que ele diz acerca do nosso país

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A propósito do encontro do grupo de países emergentes denominado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), em Brasília na semana passada, vale a pena observar o que o escritor George Friedman diz acerca desses países, em especial sobre o Brasil, no excelente livro “Os Próximos 100 Anos”, comentado nos dois últimos números do Gestão Hoje (ver 789 e 790). Sobre a China e a Rússia, Friedman fala muito e em resumo diz que a China se fragmentará por volta de 2020. Já sobre a Rússia, diz que ela se recuperará, enfrentará mais uma vez os EUA, será derrotada e se fragmentará de novo, pouco depois de 2020. Curiosamente, pouco fala sobre a Índia e sobre o Brasil. A primeira referência ao Brasil é a seguinte:

“Países médios como Brasil e Coreia, verão suas populações estabilizarem-se na metade do século e diminuírem lentamente em torno de 2100.”

George Friedman

Já a segunda referência, contextualiza o Brasil, junto com a Argentina, na América Latina, comparando-a com a Europa. Ou melhor, comparando a Europa com a América Latina para evidenciar que a união européia, segundo a visão que é adotada no livro, não chegará a um nível tal de integração que ameace a hegemonia mundial norte-americana.

“A Europa comporta-se muito mais como a América Latina do que como uma grande potência. Na América Latina, o Brasil e a Argentina passam boa parte do tempo pensando um no outro, sabendo que seus efeitos no planeta são limitados.”

George Friedman

No que diz respeito à referência mais extensa feita no livro, o autor se refere ao Brasil como uma potência regional da América do Sul que progressivamente desenvolverá interesses não propriamente pacifistas. Poderá ser um aliado do México, seu rival em termos de liderança na América Latina quando ele, no final do século, desafiar a liderança dos EUA na América do Norte.

“O Brasil vai ser uma potência emergente especialmente importante, uma geração atrás do México na estabilidade demográfica, mas se movendo rapidamente nessa direção. O Brasil considerará uma aliança econômica regional com a Argentina, o Chile e o Uruguai, que irão caminhando a passos largos. Ele irá pensar nos termos de uma confederação pacífica, mas, como tantas vezes acontece, no devido tempo terá idéias mais agressivas. O Brasil com certeza vai ter um programa espacial na década de 2060, mas ele não será completo e não será ligado a uma necessidade geopolítica imediata.”

George Friedman

Já a última referência, reafirma a trajetória do Brasil como potência regional e explicita o papel que pode ter de solidariedade ao México.

“O Brasil, que terá se tornado uma importante potência por seus próprios méritos, fará alguns gestos de solidariedade ao México.”

George Friedman

As poucas referências ao Brasil parecem evidenciar que, segundo a visão do autor, o papel do Brasil no próximo século será importante mas pouco relevante para a dinâmica geopolítica mundial. Não se pode negar que fica um gostinho de “quero mais”. Por conta disso, aproveitando o momento sucessório nacional, talvez valesse uma recomendação ao próximo presidente eleito: contratar Friedman (que tem uma empresa de consultoria) para fazer uma projeção sobre as próximas décadas para o Brasil. Seria uma excelente oportunidade de jogar luz sobre o futuro do país no longo prazo.

Número 790 - 12 de abril de 2010

De que serve ler sobre futuros
incertos que não vamos chegar a conhecer?

Pensar de forma organizada e inteligente sobre o futuro, ainda que distante, como faz George Friedman, equivale a acender o “farol alto” e ajudar a tomar decisões importantes no presente

GH790

A respeito do Gestão Hoje da semana passada, um leitor fez um comentário que vale a pena reproduzir e comentar em virtude do questionamento transcendental que faz sobre o conteúdo exposto.

“Sem querer tirar os méritos das previsões do Sr. George Friedman, fico a perguntar qual percentual de previsões de futuros que já (…) aconteceu? Sei que deve ser baixíssimo, mas com certeza deram grandes lucros a seus editores. Fica aqui a pergunta: o que é que eu faço com previsões de um futuro que nem sei se vai acontecer e do qual nem vou participar?.”

Ronaldo Farias, leitor do Gestão Hoje

Ele referia-se ao tema do livro “Os Próximos 100 Anos – Uma Previsão para a o Século XXI” de George Friedman (Editora Best Business). Curiosamente, depois desse comentário, outro leitor postou mais um que, de certa maneira, responde à questão colocada pelo leitor anterior.

“Eis um tema fascinante. Vou ler este livro. Gosto de saber do passado, principalmente aquele em que não vivi. O mesmo penso sobre o futuro. (…) Nós que vivemos essas últimas duas décadas, somos privilegiados, mas ao mesmo tempo angustiados. Estamos todos sempre de prontidão, prontos a reagir. E-mail, Twitter, web, Facebook, SMS, Skype, câmeras de vídeo, celular, HDTV, TEF, GPS (alguém me disse hoje que GPS significa ‘Grupo de Pessoas Stressadas’. Achei muito emblemático). (…) Precisamos saber, ou pelo menos imaginar, para onde vamos, para diminuir esta ansiedade coletiva.”

Luiz Vieira, leitor do Gestão Hoje

O próprio autor do livro faz uma justificativa do porque dedicar atenção ao futuro e, a seu modo, responde à questão do leitor Ronaldo.

“Pessoas práticas focam no próximo instante e deixam os séculos para os sonhadores. Mas a verdade é que o século XXI se tornou uma preocupação muito prática para mim. Eu vou passar uma parte da minha vida nele. E no meu caminho até aqui, a história – suas guerras, suas mudanças tecnológicas, suas transformações sociais – mudou minha vida de maneiras muito surpreendentes. (…) Fazendo uma retrospectiva do século XX, havia coisas de que tínhamos certeza, algumas que eram prováveis, e outras, desconhecidas.”

George Friedman

Em última análise pode-se dizer que especular sobre o futuro, ainda mais de uma maneira inteligente como Friedman faz, ajuda a jogar luz sobre o que pode acontecer e, assim, se não diminuir pelo menos organizar a incerteza em relação a como proceder no presente. É como ligar o farol alto do carro quando se está numa estrada. Sem ele, só podemos ver o que está perto. Numa organização, sem a iluminação sobre o futuro, fica comprometida o que Gary Hamel chama de “a maior vantagem competitiva”.

“A maior vantagem competitiva que uma empresa pode possuir é uma visão de futuro.”

Gary Hamel, estrategista inglês

Isso se dá tanto do ponto de vista organizacional quanto pessoal. Sem a especulação organizada sobre o futuro geral (que é, em última análise, insondável por natureza) diminui muito a capacidade de organizar (planejar) o nosso futuro particular e, mesmo, como explicita o leitor Luiz Vieira, diminuir, com isso, a ansiedade natural provocada pela incerteza em relação a esse futuro. Ler análises bem feitas sobre o futuro, ainda que distante, ajuda bastante a alargar os horizontes e a pensar “fora da caixa” (para usar uma expressão da moda), melhorando as chances de fazer escolhas mais consequentes.

Número 789 - 05 de abril de 2010

Fragmentação da China em 2020
e uma terceira guerra mundial em 2050

Essas são algumas das previsões do livro “Os Próximos 100 Anos”, uma excelente e estimulante leitura para aqueles que se interessam pelo futuro, mesmo os que não mais o verão

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O futuro sempre foi um tema que obcecou intensamente a humanidade. Ele é o campo por excelência da incerteza e, por conseguinte, dos receios muito justificados sobre o que vai acontecer conosco.

“É por isso que somos obcecados pelo futuro. Temos medo dele.”

Clemente Nóbrega, consultor brasileiro

Esses receios se justificam principalmente, como disse de uma forma muito direta Lorde Keynes, o famoso economista britânico, um dos arquitetos do sistema monetário internacional do pós-guerra.

“A longo prazo estaremos todos mortos.”

John Maynard Keynes, 1883-1946, economista inglês

A respeito do futuro, vale a pena comentar o bom livro, recentemente lançado, intitulado “Os Próximos 100 Anos – Uma Previsão para o Século XXI” de George Friedman (Editora Best Business) que trata da projeção de cenários mundiais para o próximo século. Logo de partida, o autor nos adverte que, em se tratando de antecipação do futuro, o senso comum não é um bom recurso.

“Quando se trata de prever o futuro, a única certeza é que o senso comum vai estar errado.”

George Friedman

Uma simples caracterização da situação no início do século passado na Europa, até o final da Segunda Guerra, ilustra essa certeza do autor sobre a inadequação do senso comum sobre o futuro.

“Imagine estar vivo no verão de 1900 e morar em Londres (…) A Europa dominava o hemisfério ocidental. (…) Agora se imagine no verão de 1920. A Europa fora destruída por uma guerra devastadora. (…) Imagine o verão de 1940. A Alemanha não só se reergueu , como conquistara a França e dominava a Europa. (…) Imagine agora o verão de 1960. A Alemanha fora destruída, desmontada em menos de cinco anos de guerra.”

George Friedman

De um modo geral, Friedman projeta a realidade do próximo século partindo de pressupostos bem definidos de que o cerne da natureza  e das necessidades humanas não mudarão.

“O século XXI será como todos os outros. Haverá guerras, pobreza, triunfos e derrotas. Haverá tragédias e boa sorte. As pessoas vão sair para trabalhar, ganhar dinheiro, ter filhos, se apaixonar e odiar. Isso é a única coisa que não é cíclica. É a condição humana, e é permanente. Mas o século XXI será extraordinário em dois sentidos: será o início de uma nova era e verá uma nova potência global dominar o mundo inteiro. Isso não ocorre com muita freqüência. (…) Assim como as culturas francesa e inglesa foram definitivas em seus períodos de glória, também a cultura americana, por mais jovem e bárbara que seja, determinará o jeito que o mundo vive e pensa. Portanto, estudar o século XXI significa estudar os Estados Unidos.”

George Friedman

Usando a geopolítica para projetar a relação entre países e blocos e partindo do pressuposto bem substanciado da hegemonia norte-americana, Friedman antecipa, dentre outros eventos marcantes, a fragmentação da China por volta de 2020, uma terceira guerra mundial, por volta de 2050, entre Estados Unidos, Inglaterra e Polônia, de um lado, e Turquia e Japão, do outro, e uma confrontação crucial entre EUA e México por volta de 2100. Tudo argumentado de modo muito coerente, concatenado e bem narrado. Vale muito a pena ser lido por todos aqueles que se interessam sobre o que pode acontecer no futuro, mesmo que num futuro em que não estaremos mais aqui para testar os erros e os acertos da previsão feita.

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