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Número 788 - 29 de março de 2010

A semana, uma das mais geniais
invenções humanas de todos os tempos

Dividir o tempo, com base nas fases da lua, em períodos de produção intercalados por um dia a ser dedicado ao descanso é uma das mais impressionantes invenções da humanidade

GH788

A propósito do tema do número anterior (GH/787), vale a pena refletir um pouco mais sobre esta extraordinária invenção humana que é a semana. Atribuem-se ao poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade algumas considerações sobre a divisão do tempo em anos que, guardadas as devidas proporções, podem ser aplicadas à semana.

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra adiante vai ser diferente.”

Atribuído a Carlos Drummond de Andrade, 1902-1987

Ao que tudo indica, a divisão do tempo em semanas é uma invenção muito antiga da Mesopotâmia, assimilada pelo povo hebreu, depois assumida pelos gregos e pelos romanos, chegando à nossa era após ter seus dias nominados pelos deuses mesopotâmios, pelos planetas, incluindo o sol e a lua, pelos deuses correspondentes gregos, romanos, nórdicos e variações. Curiosamente, a única língua ocidental que nomina os dias da semana de forma seqüencial (segunda, terça, quarta, quinta e sexta, mais sábado e domingo) é a portuguesa.

“Portugal foi o único país do mundo que adotou os dias da semana derivados quase ipsis literis do latim litúrgico. Os outros países e povos acabaram seguindo uma evolução dos calendários de origem em astros, deuses e do relacionamento do homem com a natureza.”

Wikipedia

Tudo leva a crer também que a preferência mesopotâmica pelo número sete e seus múltiplos no que dizia respeito à semana, e seu acréscimo até completar o mês, baseava-se nas fases da lua, de forma diferente e mais precisa do que os egípcios que dividiam o tempo em múltiplos de dez.

“Os egípcios dividiam cada mês do seu calendário em três décadas, com cinco dias complementares no fim do ano, o que parece indicar terem sido eles os criadores da primeira divisão cronológica que se aproxima da semana que hoje conhecemos. Quase na mesma época, entre os babilônios, o número sete desempenhava papel fundamental: os dias 7, 14, 21 e 28 de todos os meses estavam reservados a certos sacrifícios, mas embora a divisão semanal aí esteja evidente, essas datas correspondiam ao início dos períodos lunares. (…) Entre os hebreus, a semana já estava em uso antes da promulgação da legislação mosaica, pois foi Moisés o primeiro a dividir a obra da criação do mundo em seis dias, seguido do sétimo, dedicado ao descanso. Os judeus concentraram o seu culto no dia de sábado, o Sabath, que era o primeiro dia da semana, o dia sagrado por excelência, aquele que deveria ser passado em contemplação e práticas religiosas. Mas a Igreja cristã o substituiu pelo domingo porque foi num dia desses que Jesus ressuscitado apareceu pela primeira e segunda vez aos apóstolos.”

Site Recanto das Letras, www.recantodasletras.com.br

A semana é, pois, uma impressionante criação que foi aperfeiçoada ao longo da história e consagrou-se planetariamente como a principal divisão social do tempo. Uma marcação que nos permite organizar a vida, dedicando-a ao trabalho e, ao final de cada ciclo, ao descanso, de forma similar à criação. Uma “industrialização” intelectual da produção, da renovação e da esperança. Uma genial invenção humana.

Número 787 - 22 de março de 2010

É mais fácil fazer reuniões
periódicas semanais do que quinzenais

Notável instrumento de gestão, as reuniões de trabalho são ridicularizadas porque são mal feitas e têm melhor performance quando são semanais do que quando se tenta a quinzenalidade

GH 787

Ao mesmo tempo em que as reuniões de trabalho são inequivocamente uma das mais importantes ferramentas da gestão estratégica, elas são também tratadas, contraditoriamente, como um estorvo ou algo que se deve evitar como perda de tempo. As citações irônicas são abundantes e até gente reconhecida como sábia já cometeu as suas gracinhas sobre as reuniões, como é o caso do famoso economista canadense John Kenneth Galbraith.

“As reuniões são indispensáveis quando não se quer decidir nada.”

John Kenneth Galbraith, 1908-2006

Vemos exemplos dessa má vontade com as reuniões até no nosso conhecido folclore político brasileiro representada na frase abaixo do falecido político mineiro Jose Maria Alckmin, famoso por frases que lhes são atribuidas do tipo: “seu pai morreu para você mas continua vivo meu coração”.

“Primeiro, a gente toma a decisão. Depois, a gente realiza a reunião.”

José Maria Alckmin, 1901-1974, político mineiro

Acontece com as reuniões de trabalho mas ou menos aquilo que o ex-primeiro-ministro inglês Winston Churchill disse da democracia: “é o pior regime político, excetuando-se todos os outros.” Ainda não se descobriu nada tão eficaz.

“Ainda não fomos capazes de criar outro mecanismo de trabalho colaborativo e democrático que seja capaz de gerar idéias e soluções e que ao mesmo tempo transfira conhecimento com a mesma eficácia de uma boa reunião.”

Sérgio Guimarães, consultor de empresas

De fato, a questão principal é que a prática predominante é de realização de reuniões de modo inadequado. Ao contrário do que a maioria dos participantes pensa, realizar reuniões eficazes requer um conjunto de cuidados sem os quais o fracasso é certo. Inclusive, as razões pelas quais as reuniões são um excelente recurso para a gestão, já foram comentadas pelo Gestão Hoje (ver GH/292).

“Se um gerente precisa transmitir uma mensagem a três pessoas diferentes, gastará o triplo do tempo se o fizer individualmente do que se o fizer conjuntamente.”

Gestão Hoje 292

Também o Gestão Hoje já tratou dos requisitos necessários para a realização de uma boa reunião (ver GH/294): (1) convocação bem feita; (2) coordenação definida e atuante; (3) participação efetiva; (4) objetividade garantida; e (5) registros adequados. Além disso, também já foram comentadas as “regras” básicas para a realização de uma boa reunião de trabalho, inclusive com um toque de humor (ver GH/304 e GH/604).

“(1) Todos têm que falar; (2) só pode falar um de cada vez; (3) é proibido falar de lado; e (4) só é permitida uma ofensa pessoal por participante, por reunião.”

Gestão Hoje 304 e 604

O tipo de reunião mais comum e mais necessária é a reunião periódica de acompanhamento, a que o GH/192 chama de “reuniões de equipe”, do gerente com sua equipe, que devem ter, quase que como regra, a periodicidade semanal. Também é comum, acoplada à reunião semanal, uma mensal, “ampliada”, com a participação dos gestores subordinados para acompanhamento do desempenho financeiro-orçamentário-operacional. Já a periodicidade quinzenal, também frequentemente tentada, tem se mostrado menos eficaz do que a semanal ou, mesmo, a mensal, por uma razão simples: dias e horas fixos semanais (ou mensais) são bem mais fáceis de gravar do que se forem quinzenais. Afinal, se a semana é uma invenção notável, a quinzena é uma abstração maior ainda. Se a pessoa ficar na dúvida “a reunião é nessa quinzena ou na próxima?”, a confusão está feita e a reunião ameaçada.

Número 786 - 15 de março de 2010

O PIB foi negativo em 2009,
pela primeira vez desde a queda de Collor

Esse resultado, embora grave, precisa ser relativizado devido à grande recessão mundial pós crise de 2008 mas permanece a questão sobre a capacidade do país de sustentar o crescimento

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Na semana passada foi divulgado pelo IBGE o PIB de 2009. Houve um crescimento negativo de 0,20% configurando uma situação que não se via no país há mais de 17 anos.

“É a primeira variação negativa desde 1992, ano do processo de impeachment contra o então presidente Fernando Collor e da inflação na casa dos 20% mensal.”

Folha de S. Paulo, 12.03.10

Visto isoladamente, com certeza, é um resultado muito ruim que lembra tempos desvairados da história recente do Brasil, com crescimento baixo, inflação alta e desmantelo político. No entanto, ele precisa ser relativizado considerando-se a grave crise que se abateu sobre a economia internacional a partir do quarto trimestre de 2008, depois que o setor financeiro dos EUA foi seriamente abalado pela quebra do banco Lehmam Brothers.

“Em termos comparativos, no entanto, o Brasil não fez feio. Nas nações desenvolvidas, a crise financeira global bateu com muito mais força. A queda do PIB foi de 5% no Japão; de 4,1% na zona do euro (grupo de países da União Europeia que adotam essa moeda); e de 2,4% nos Estados Unidos.”

Benedito Sverberi, revista Veja 17.03.10

Na verdade, esse resultado relativamente bom num mundo em forte recessão deve-se há mais de 15 anos de políticas macroeconômicas corretas e ao paulatino fortalecimento do mercado interno que foi o principal responsável pela manutenção do consumo, mesmo nos momentos mais agudos da crise no mercado externo no fim de 2008 e no começo de 2009.

“Fernando Henrique teve que fazer reformas estruturais que deram a Lula condições para que tivesse boa média e avançasse em programas sociais. Não é historicamente justo creditar apenas a Lula o crescimento recente. Ele se beneficiou também da conjuntura externa, antes da crise. Mas seus méritos são inegáveis, porque ele manteve a estabilidade e criou uma nova classe média.”

Bernardo Wjuniski, economista, Tendências Consultoria

Em contraste com o crescimento anual negativo de 2009, praticamente a unanimidade dos analistas prevê um crescimento acima de 5% em 2010. A grande dúvida que, aliás, já vem de quase uma década, é se esse crescimento se sustenta ou se teremos reeditado, mais uma vez, o vôo da galinha (sobe e desce, sem se manter voando). Dizem também os analistas que a questão-chave sobre o crescimento futuro reside na taxa de investimento em relação ao PIB que, a despeito de já ser historicamente baixo, diminuiu mais ainda quando os agentes produtores resolveram colocar o pé no freio depois que viram os horizontes econômicos se fecharem quase que completamente no final de 2008.

“Esse tipo de investimento, embora tenha voltado a crescer em 2009, mal passa de 17% do PIB. Os economistas afirmam que o país precisa de algo em torno de 21% a 25% do PIB para crescer sem ameaça de inflação. Ao mesmo tempo, as famílias brasileiras conseguem consumir mais, mas não aprenderam a economizar e investir para o futuro. A taxa de poupança, que já era baixa, manteve-se estagnada entre 2007 e o início de 2009, e caiu de lá para cá. São preocupações que precisam aparecer logo no debate eleitoral – ou o crescimento, no futuro, poderá ser atrapalhado por qualquer marolinha.”

Marcos Coronato, revista Epoca 15.03.10

Número 785 - 08 de março de 2010

Ler e-mails antes de dormir
prejudica a necessária qualidade do sono

Cada vez mais disseminado como imprescindível ferramenta de comunicação, o e-mail tornou-se onipresente, começa a ameaçar a tranqüilidade do sono e, portanto, não deve ser lido à noite

GH 785

Um dos maiores fenômenos da atualidade, junto com o telefone celular, é a internet, inclusive seu subproduto revolucionário que é o e-mail. Algo absolutamente inconcebível e inimaginável há 15 anos. Mais do que impressionante, incrível é também a capacidade da internet de inventar modas.

“Uma das coisas fascinantes (ou irritantes) na internet é a capacidade que ela tem de tornar coisas que eram supérfluos em necessidades básicas. Foi assim com o e-mail há uns tempos atrás… Hoje tem até no celular (e quem não olha se tem e-mail antes de dormir?).”

Blog Mevo, www.mevo.com.br/blog

Como se não bastasse o caráter revolucionário do e-mail, com o advento e a rápida disseminação dos smartphones(celulares com acesso à internet), ele está passando a ser onipresente, até antes de dormir, com certeza atrapalhando a tranquilidade do sono. Tranquilidade imprescindível e para a qual, inclusive, o site Vooz fez uma lista de boas práticas cuja síntese é a seguinte:

“(1) Manter horários constantes para dormir e acordar; (2) dormir somente o necessário; (3) o quarto de dormir não deve ser utilizado para trabalhar, estudar ou comer; (4) exercícios físicos devem ser feitos, no máximo, de seis a quatro horas antes de ir para a cama; (5) nunca tentar resolver problemas antes de dormir; (6) não tomar café, chá preto, chocolate ou qualquer bebida estimulante após as 17 horas; (7) bebidas alcoólicas, embora ajudem a relaxar, perturbam a qualidade do sono; (8) não fumar antes de dormir; (9) fazer refeições mais leves; (10) calor e frio excessivos alteram bastante o sono, portanto mantenha a temperatura do quarto agradável; (11) ruídos podem ser a causa de um sono ruim.”

Paulo Petit, www.vooz.com.br

Merece destaque nesta relação o item 5 (”não tentar resolver problemas antes de dormir”), justamente por sua conexão com a leitura de e-mails à noite uma vez que, na dinâmica atual da onipresente ferramenta de comunicação, sua utilização predominante passou a ser ligada ao trabalho. E quando tratamos de trabalho, a maioria das questões que nos chegam são problemas para resolver, o que não combina com a necessária tranquilidade do sono, uma tema cada vez mais estudado pelas ciências da saúde.

“O sono é extremamente importante para os seres humanos, uma vez que quando dormimos, diversos processos metabólicos importantes para o organismo ocorrem. Em síntese, o sono contribui para nossa saúde física e psicológica. (…) O sono também contribui para o bem-estar mental e emocional. Pessoas que conseguem dormir bem possuem uma maior capacidade de concentração, autocontrole e realização de tarefas pessoais e profissionais. Dormir pouco altera negativamente a capacidade de concentração, aprendizagem, raciocínio lógico e memória do indivíduo.”

Site Shvoong, pt.shvoong.com

Juntando uma coisa e outra, a recomendação parece ser óbvia: não se deve ler e-mails antes de dormir. A probabilidade de eles trazerem problemas que atrapalharão a indispensável qualidade do sono é muito grande. Uma boa alternativa é dormir um pouco mais cedo e acordar um pouco antes para ler os e-mails que deixaram de ser lidos de noite. De manhã, com as energias renovadas por uma boa noite de sono, a disposição para enfrentar as broncas trazidas pelos e-mails é muito maior. Afinal, é pouco provável que o mundo se acabe porque um e-mail não foi lido na noite anterior.

Número 784 - 01 de março de 2010

Ainda sobre o filme “Invictus” e a
liderança inspiradora de Nelson Mandela

Antes da cerimônia de entrega do Oscar no domingo 07.03 ainda dá tempo de ver o filme e a grande interpretação do candidato a melhor ator Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela

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Ainda neste número vale a pena repercutir um pouco, como fizeram os leitores, o tema do Gestão Hoje anterior (GH/783) sobre o filme “Invictus” de Clint Eastwood acerca de Nelson Mandela e sua insistência em não só evitar a descaracterização do time de rúgbi da África do Sul como fazer com que ele, mais do que orgulho para os brancos, fosse também objeto de orgulho para os negros. Com esse objetivo teve que trabalhar bastante para que o sentimento de vingança não fosse exercitado. Nesse particular, o exemplo da África do Sul pode até ser usado como parâmetro para a nossa realidade brasileira como fez o leitor do Gestão Hoje.

“Assisti o filme e a análise esta corretíssima. Fico preocupado que o desejo da ‘verdade’ não crie dificuldades em nossa jovem ‘democracia’.”

Marcos Maciel, leitor do Gestão Hoje

Refere-se ele à recente tentativa de setores ligados ao governo federal que andaram tentando rever a anistia ampla geral e irrestrita posta em prática no Brasil depois da fase mais dura do regime autoritário implantado no país depois de 1964. Mandela mostrou na realidade, e Clint Eastwood no cinema, que o desejo de vingança não contribui em nada quando o assunto é (re)construir um país.

“Pra mim a principal cena do filme é quando Matt Damon – o capitão do time – reflete, dentro da cela, onde Mandela esteve preso, sobre: ‘como um homem que ficou ali 27 anos, não desejava vingança?’. Seu amor pela África do Sul foi maior do que suas questões pessoais!… e isso não é pra todo político, não,… isso é pra quem é ‘um Mandela!’.”

Ronaldo Farias, leitor do Gestão Hoje

A chave para enfrentar a situação em que praticamente todos estavam numa posição contrária à sua foi o exercício da liderança proativa e inspiradora em prol de uma causa maior.

“Sem dúvida, um belo filme. (…) em especial por mostrar como clareza e precisão na identificação do real problema  fazem com que uma liderança seja capaz de enfrentar seus próprios aliados, bem como de correr/assumir todos os riscos inerentes à decisão, num momento crítico e de afirmação/busca de legitimidade, definindo foco e estratégias adequadas à situação.”

Iana Passos, leitora do Gestão Hoje

A observação do exercício desse liderança é, com certeza, o melhor benefício do filme. Afinal, estamos lidando com a liderança (seja liderando seja sendo liderado) todos os dias em casa, no trabalho e em outras atividades. Até jogando rúgbi como é o caso do filme…

“O maior motivo para ver Invictus é entender a nós mesmos, nossa força ou limitação, sós ou em equipe. Perceber com mais clareza o jogo cotidiano da liderança, em casa e no trabalho (…) qualquer ser humano sabe quando está diante de um líder que o inspira a ser melhor do que é na realidade. Invictus é sobre isso. Sobre o poder da inspiração. Num jogo, numa conversa, numa vida ou na condução de um país.”

Ruth de Aquino, revista Época

O líder verdadeiro inspira pelo exemplo e pela convicção em relação ao melhor caminho a seguir como fez Mandela com o capitão, com o próprio time e quando apareceu, no dia da decisão da copa do mundo de rúgbi, no estádio superlotado, com a camisa e o boné do time, antes identificado apenas com a minoria branca. Forte candidato ao Oscar de melhor ator, Morgan Freeman dá um show de interpretação no papel de Mandela. Para quem ainda não viu, dá tempo de conferir antes da entrega do Oscar no domingo 07.03.10.

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