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Número 783 - 15 de fevereiro de 2010

Vale a pena ver o filme “Invictus”
de Clint Eastwood sobre Nelson Mandela

Baseado numa história real, o filme conta como Nelson Mandela, pelo sereno exercício da liderança proativa, conseguiu evitar que a África do Sul descambasse para a desagregação

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Às vésperas de completar 80 anos, Clint Eastwood consegue mais uma façanha cinematográfica como diretor ao levar às telas uma história verdadeira e emocionante sobre a África do Sul pós-apartheid no bom filme “Invictus” que estreou no circuito comercial brasileiro no fim de janeiro.

“O filme é um biopic de um ano na vida de Nelson Mandela (Morgan Freeman, cheio de gravidade e leveza; está nomeado para o Oscar), que esteve 27 anos preso enquanto ativista do ANC mas que foi eleito presidente da África do Sul. O período é 1995, logo a seguir à sua olímpica eleição e quando o país acolhia o campeonato do mundo de rúgbi, orgulhoso desporto nacional de afrikaners, ostensivamente ignorado pela maioria negra, que prefere a lisura do futebol aos ressaltos incertos da bola oval. É um apropriado pretexto dramático para demonstrar o estado emocional do país: a equipe nacional de rúgbi (Matt Damon é o capitão, uma figura estranhamente branda; é candidato ao Oscar secundário) começa odiada pela maioria mas acaba elevada aos braços de toda a nação.”

José Miguel Gaspar, blog de cinema Mr. Gaspar

Embora a façanha de Eastwood mereça destaque, ele mesmo uma lenda do cinema (além de ator de vasta cinematografia, é produtor, dirigiu 32 filmes e ganhou o Oscar quatro vezes, duas como diretor e duas como melhor filme), a história do filme e suas lições são irresistíveis. Baseada no livro do jornalista inglês John Carlin cujo título traduzido para o português é “Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul” (Editora Sextante), o filme narra o esforço de Nelson Mandela, recém-eleito presidente, para evitar que os ódios seculares atuassem dificultando ou, mesmo, tornando impossível a construção de uma nação unida pós-apartheid.

“Na tentativa de diminuir a segregação racial na África do Sul, o rúgbi é utilizado para tentar amenizar o fosso entre negros e brancos, fomentado por quase 40 anos. O jogador François Pienaar (Matt Damon) é o capitão do time e será o principal parceiro de Mandela na empreitada.”

Fabricio Duque, blog Vertentes do Cinema

Certo de que sua vitória na eleição não deveria deflagrar a “hora da vingança” dos negros contra os brancos, opressores de antes, Mandela começa por usar sua autoridade para reverter uma decisão que mudava o nome, as cores e o símbolo da seleção de rúgbi da África do Sul, antigo time dos afrikaners (brancos). Entendia que descaracterizar o time seria retirar dos afrikaners um motivo de orgulho e, mais do que isso, deixar escapar a oportunidade de fazer com que esse time, já na condição de seleção da África do Sul, passasse a ser motivo de orgulho também dos negros, ex-oprimidos e, com  isso, evitar que o país mergulhasse numa guerra civil.

“Hoje, a África do Sul poderia ser outro Afeganistão. Não é, e é isto que Mandela deixou. A África do Sul é um país democrático, estável economicamente, bastante forte e capaz de celebrar uma Copa do Mundo com novos estádios, com o maior orgulho, sem terrorismo, mas ainda com sérios problemas de criminalidade – como o Brasil.”

Luiz Zini Pires, jornalista gaucho, blog Mundo Livro

Mandela conseguiu, exercendo uma liderança serena e firme na visão do futuro, fazer do rúgbi um instrumento de integração e, não, de desintegração, como queriam até seus assessores mais próximos. Esse é o tema do filme e vale muito a pena conferir como ele conseguiu.

Número 782 - 08 de fevereiro de 2010

Mais cedo do que se esperava
a taxa de juros deve voltar aos dois dígitos

O aquecimento da economia, a valorização do dólar e a baixa taxa de investimento pós-crise começam a provocar a sinalização pelo Banco Central do aumento dos juros para dois dígitos

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Desde setembro de 2009 no patamar de 8,75% ao ano, a taxa básica de juros da economia (Selic) corre o risco de voltar a subir já a partir de abril e de atingir novamente os dois dígitos a partir do julho, chegando ao final do ano na marca dos 11,25% e permanecendo no patamar dos 11% durante todo o ano de 2011. Pelo menos essa é a previsão do mercado financeiro captada pelo Banco Central.

“O período de calmaria pode estar chegando ao fim, e a partir de março as decisões vão ficar cada vez mais difíceis. Mantemos o nosso cenário que a primeira alta de juros será em abril, portanto, já em março as sinalizações devem começar. Provavelmente junto com as sinalizações de alta, virá a tempestade de críticas.”

Arthur Carvalho, Corretora Ativa, Último Instante

De fato, os motivos antecipados pelo Banco Central nas últimas atas do Copom (Comitê de Política Monetária) para a provável retomada da curva ascendente da política de juros é o reaquecimento da economia acima da capacidade de manutenção da inflação dentro da meta estabelecida (4,5% ao ano). As previsões do mercado são de crescimento do PIB da ordem de 5,30% em 2010. Um exemplo da extrapolação da capacidade é o que aconteceu com o consumo de energia na semana passada.

“Nunca se consumiu tanta energia elétrica no Brasil como agora. Na semana passada, o recorde histórico de consumo foi quebrado quatro vezes. Na quinta-feira 4, às 14h49, a demanda nacional por energia chegou à marca de 70.654 megawatts.”

Fábio Portela, revista Veja, 10.02.10

Com o mercado aquecido e o dólar em alta por conta da queda na entrada de divisas no país decorrente da ameaça de calote dos países da Europa considerados periféricos, em especial a Grécia, a inflação passa a apresentar um viés de alta que o BC evitará prosperar.

“Abalroados pela crise financeira, os ‘periféricos’ da zona do euro – Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha – vivem a angústia do defaut. Elos frágeis da União Europeia, os chamados Pigs usufruíram as delícias da euforia financeira dos anos 90 do século passado e do início do milênio. Todos capricharam no consumismo e alguns se esmeraram na formação de bolhas imobiliárias, tudo financiado a crédito barato por bancos…”

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, FSP, 07.02.10

Mais grave ainda é o fator psicológico que, infelizmente, retroalimenta as restrições ao crescimento sem reflexos inflacionários.

“Aumentando a taxa de juros, nós vamos ter de novo no Brasil taxas de dois dígitos. Pode ser meio semântico mas é psicológico. A gente tinha vendido que o Brasil finalmente depois de 500 anos ia ter uma taxa de juros de um dígito. (…) Infelizmente, por conta desse excesso de pânico de 2008, os empresários pararam de investir…”

Stephen Kanitz, Globo News Painel, 07.02.10

E, parando de investir, a taxa nacional de investimento caiu para perto de 15% do PIB, absolutamente insuficiente, segundo os especialistas, para sustentar um crescimento projetado para 2010 acima de 5% do PIB. Esses mesmos especialistas falam de taxas de investimento da ordem de 22% do PIB para permitir taxas sustentáveis de crescimento no patamar 5% do PIB, sem pressão inflacionária. Se isso é verdade, enquanto o investimento continuar baixo, os juros continuarão altos.

Número 781 - 01 de fevereiro de 2010

Se estiver pensando alto,
é bom dizer: “estou pensando alto”

Em um mundo que cobra certezas, ter dúvida é considerado uma fraqueza que pode ser minimizada em prol de melhores soluções se declaramos que ainda estamos pensando alto

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A vida é cheia de certezas precárias e a vida organizacional mais ainda. No ambiente de trabalho não há, formalmente, muito lugar para dúvidas e questionamentos. Face às grandes exigências da realidade competitiva, quem tem muitas dúvidas (ou, pelo menos, as expressa amiúde) tende a ficar para trás, desprezado pelos colegas e concorrentes como alguém que não merece confiança porque é indeciso. Mas isso é um grande equívoco que pode redundar em manipulações de toda ordem.

“O ritmo da mudança no mundo de hoje é tão rápido que as pessoas ficam desconcertadas com isso, sentem-se ameaçadas e ansiosas por escapar. Acabam fazendo-o por meio de certezas que são mais falsas ainda. Isso faz com que virem alimento para os demagogos.”

Felipe Fernández-Armesto, historiador espanhol

Diante das inúmeras variáveis do complexo mundo contemporâneo, ao contrário do senso comum, quem tem certezas absolutas com certeza está equivocado. Um bom exemplo para isso é a Economia (inserida na qual estão todas as empresas e organizações), bem como o instrumental disponível para tratar dela (a política econômica). Quem pensa que entende pode estar (muito) equivocado, como frequentemente se verifica em relação às análises que são feitas, principalmente as projetivas, sobre o desempenho econômico.

“Quem disser ‘eu tenho certeza absoluta’, na minha opinião está equivocado. Parte da política econômica é arte, uma avaliação de riscos num mundo de incertezas.”

André Lara Resende, economista brasileiro

Na contramão do fluxo de “certezas”, há aqueles que advogam, justamente, o inverso. Ou seja, considerando que a incerteza é uma espécie de “estado natural” do mundo, por conta disto, devemos nos acostumar na “racionalidade da incerteza” procurando tirar partido e proveito disso.

“Devemos ingressar em uma nova racionalidade da incerteza, porque devemos entender que o mundo é feito de possibilidades, probabilidades. É um lugar para a novidade.”

Ilya Prigogine, cientista russo

As recomendações são, inclusive, de fazer da incerteza uma “amiga”, fonte de inspiração e produtividade, deixando de lado as falsas certezas que terminam por mais atrapalhar do que ajudar.

“Faça da incerteza uma amiga. Pode ser uma grande fonte de energia e criatividade. A certeza faz com que tudo adormeça.”

John Naisbitt, futurólogo norte-americano

Pois bem, na teoria é bonito mas, no ambiente de trabalho, não ter certezas é penoso. Diante de um problema, se passamos a pensar alto sobre como resolvê-lo, é prudente prevenir antes: “estamos pensando alto, não é?” Porque, se não se faz a advertência, imediatamente vem a cobrança por coerência ou certeza, matando o momento de brainstorm, indispensável à boa análise do problema e, consequentemente, às suas possíveis soluções.

“Um problema está 50% resolvido se estiver bem formulado.”

Albert Einstein, gênio da ciência

Trata-se de uma espécie de senha que evita as cobranças pela ausência de dúvidas. É impressionante a mudança de postura que se verifica quando a frase é dita. É como se as pessoas subitamente tirassem dos seus ombros o grave peso da obrigação da certeza e, mais leves, concordassem em ousar admitir que não sabem, ainda, resolver o problema que se apresenta. Vale a pena adotar o artifício. A produtividade aumenta.

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