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Número 780 - 25 de janeiro de 2010

Novo momento vivido pelo
país ainda não tem intérpretes à altura

À medida em que vai ficando cada vez mais evidente o novo protagonismo do Brasil no cenário internacional, também se evidencia a ausência de intérpretes dessa realidade diferente

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Segundo estudo divulgado na semana passada pela empresa de consultoria e auditoria PricewaterhouseCoopers, uma das big four da consultoria internacional, na semana passada, o Brasil será, até 2030, a quinta economia do mundo, ultrapassando atuais gigantes como Alemanha, Reino Unido e França. A projeção indica também que até 2020 o PIB dos sete maiores países emergentes, chamado pelo estudo de E-7 (formado por China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia), será maior do que o do atual G-7 (Estados Unidos, Canadá, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália).

“Em 2030, nossas projeções sugerem que o top 10 global do ranking de PIB terá a liderança da China, seguida dos Estados Unidos, Índia, Japão, Brasil, Rússia, Alemanha, México, França e Reino Unido”

PricewaterhouseCoopers, Estado de S. Paulo, 21.01.10

Trata-se, esta constatação, de mais uma evidência da mudança de situação do Brasil no novo contexto econômico internacional caracterizado por reposicionamentos importantes que a crise financeira, global deflagrada no final de 2008, se encarregou de deixar mais evidente ainda.

“Entre os reposicionamentos, três chamam mais atenção: a China, que ultrapassa os EUA, a Índia, superando o Japão, e o Brasil deixando para trás todos os gigantes europeus. Outra constatação do estudo é que a economia indiana crescerá mais rápido que a chinesa na década de 20.”

Diário Catarinense, 22.01.10

Ocorre que esse novo tempo do Brasil está carecendo de intérpretes à altura do momento como já houve em outras épocas, a exemplo do período da Abolição da Escravatura, que o Gestão Hoje destacou nos dois últimos números (ver 778 e 779) com as referências a Joaquim Nabuco, um dos grandes intérpretes do país.

“O Brasil contemporâneo está carecendo de intérpretes. Por tal, entenda-se o cientista social, ou economista, ou sociólogo, capaz de obras seminais para descrever os traços essenciais do país em cada época. No início do século 19, José Bonifácio foi um grande intérprete. Depois, Joaquim Nabuco. No alvorecer da República, o grande Manoel Bonfim. Mais à direita, Oliveira Vianna. Finalmente o trio clássico, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Hollanda. Tempos depois, Celso Furtado e Florestan Fernandes. Nos anos 70 a 90, alguns cientistas políticos lograram entender os novos ventos políticos, o advento da opinião pública ajudando a sepultar os resquícios do regime militar. Com olhos contemporâneos, também ajudaram a lançar luzes sobre outras épocas da vida nacional José Murilo de Carvalho, Boris Fausto, Bolívar Lamounier, Evaldo Cabral de Mello, Luiz Werneck Vianna, Wanderlei Guilherme dos Santos.”

Luis Nassif, Coluna Econômica, 18.01.10

O país está mudando muito e rapidamente, fortemente influenciado pelo novo ambiente econômico internacional mas, também, pela internet, pelas novas mídias, pela emergência da Classe C, pelo advento da sustentabilidade, entre outros aspectos de grande e novo relevo. Vamos continuar procurando os novos intérpretes. Eles já estão começando a dar as caras por aí.


Número 779 - 18 de janeiro de 2010

Uma lição de Joaquim Nabuco
para a nossa realidade organizacional

100 anos depois de sua morte, Joaquim Nabuco, deixa uma boa lição sobre as características daqueles que, liderando “revoluções”, não têm perfil adequado para governar depois delas

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Além da impressionante atuação de Joaquim Nabuco a favor da abolição da escravatura (ver GH/778), a sua obra tem também grande importância para o conhecimento da história e para a própria interpretação do Brasil. Os três grandes livros que escreveu (“O Abolicionismo”, “Um Estadista do Império” e “Minha Formação”) são fundamentais para isso.

“… formam uma trilogia de clássicos. O primeiro aparece em qualquer lista de dez livros mais importantes na área que se convencionou chamar de interpretações do Brasil. O segundo entra fácil na lista das cinco melhores biografias. O terceiro faz o mesmo na das cinco melhores autobiografias.”

José Murilo de Carvalho, Folha de S. Paulo, 17.01.10

O segundo livro, escrito em homenagem ao pai, o conselheiro do Império Nabuco de Araújo, é uma obra que impressiona pelo fôlego de historiador mesmo Joaquim Nabuco não sendo um de formação.

“Um Estadista do Império’ teve como subtítulo ‘Nabuco de Araújo, Sua Vida, Suas Opiniões, Sua Época’. Trata-se, sem dúvida, de uma homenagem filial e, como tal, o papel do senador é ressaltado. Mas foi muito mais do que isso. A última palavra do subtítulo, sua época, é o ponto alto do livro. (…) ‘Um Estadista’ é até hoje uma leitura indispensável para entender o funcionamento do sistema político do Segundo Reinado.”

José Murilo de Carvalho, Folha de S. Paulo, 17.01.10

Pois foi nesse livro que, em meio à sua discrição minuciosa da vida, obra e do tempo do seu pai, Joaquim Nabuco exerce sua verve de frasista. Uma das frases pinçadas do livro é de grande importância para a compreensão do que ocorre após as revoluções mas também ajuda a compreender a realidade organizacional.

“A fatalidade das revoluções é que sem os exaltados não é possível fazê-las e com eles é impossível governar.”

Joaquim Nabuco, “Um Estadista do Império”

De fato, a conclusão de Nabuco sobre a dinâmica das revoluções, a partir da análise das muitas que ocorreram no Brasil no período abrangido pelo livro, serve também para a realidade organizacional. Vemos com muita freqüência pessoas que têm excelente perfil para realizar mudanças intensas (e há momentos em que isso é necessário), mas que não têm perfil para governar depois que é preciso “depor as armas”. Às vezes, a insistência termina por colocar a perder os ganhos obtidos com a mudança, especialmente porque depois da sua fase mais cruenta (a “revolução”), é preciso fazer alianças e ajustes para restaurar as condições de governabilidade duradoura, como bem destaca Nabuco na continuação da frase.

“Cada revolução subentende uma luta posterior e aliança de um dos aliados, quase sempre os exaltados, com os vencidos.”

Joaquim Nabuco, “Um Estadista do Império”

Tem gente que, pelo perfil irrequieto, consegue realizar proezas importantes quando necessário, mas leva esse nervosismo permanente para a gestão cotidiana que precisa ter sua dose de tranqüilidade e continuidade para consolidar o que foi feito. Uma grande sabedoria organizacional é conseguir fazer essa transição, preservando as personalidades adequadas para os momentos que as requerem. Revolucionários no governo são tão contraproducentes quanto moderados na hora do “tiroteio” inevitável. São muitos os relatos de fracasso por conta da troca de uns pelos outros. Joaquim Nabuco, 100 anos depois de sua morte nos deixa também essa lição.


Número 778 - 11 de janeiro de 2010

“Ano Joaquim Nabuco”, justa
homenagem a um brasileiro notável

Misto de advogado, abolicionista, parlamentar, historiador, diplomata, Joaquim Nabuco é um exemplo de brasileiro cujas vida e a obra merecem ser relembradas 100 anos após sua morte

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O governo federal definiu 2010 como o “Ano Nacional Joaquim Nabuco” em homenagem aos 100 anos de falecimento do maior dos abolicionistas brasileiros que nasceu em 19 de agosto de 1849, no sobrado 247 da Rua da Imperatriz, no Recife, e morreu em 17 de janeiro de 1910, na cidade de Washington, onde servia como primeiro embaixador do Brasil nos EUA. Foi uma personalidade plural que deixou uma obra de grande importância para o país.

“Ao lado de Machado de Assis, foi o maior vulto intelectual que o Brasil produziu no século 19 e entre os maiores de toda a sua história. (…) Sua obra – seja ela literária, ensaísta, política, panfletária e de história – nasce da vivência diária como político, abolicionista, advogado, diplomata, crítico literário e polemista.”

Anco Márcio Tenório Vieira, revista Continente, jan/10

A partir de sua experiência pessoal com a escravidão adquirida no período da primeira infância vivida no Engenho Massangana, na cidade do Cabo de Santo Agostinho a quarenta quilômetros do Recife, Nabuco, na expressão do historiador Evaldo Cabral de Mello, “escreveu a mais brilhante análise do papel desempenhado pela escravidão na formação social e política do Brasil”.

“Hoje todo mundo elogia a mestiçagem do povo brasileiro, mas quem exaltou isso pela primeira vez foi Joaquim Nabuco e quem consolidou foi Gilberto Freyre, cinqüenta anos depois, com Casa Grande & Senzala. Nabuco diz que nada do Brasil é puro, tudo do Brasil é misturado.”

Leonardo Dantas Silva, revista Algomais, jan/10

Joaquim Nabuco, com sua obra apaixonada e inspirada na experiência pessoal com aquilo que considerava “a nódoa infamante que a escravidão lançou sobre o trabalho em toda a América e, principalmente no Brasil”, foi o precursor não só de Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala) e de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), na década de 1930, como de Celso Furtado (Formação Econômica do Brasil) e Raimundo Faoro (Os Donos do Poder), na década de 1950, autores de obras seminais para a interpretação do Brasil.

“O regime servil é analisado, sem complacência, como uma verdadeira instituição que moldou o ethos brasileiro ao definir a nação economicamente, politicamente e organizacionalmente. E como observa o historiador [Evaldo Cabral de Mello], grande parte do pensamento social brasileiro se debruça sobre a herança dessa reflexão.”

Carolina Leão, suplemento Pernambuco, jan/10

Depois de viver até os oito anos no Engenho Massangana, Nabuco foi morar no Rio de Janeiro onde seu pai, o futuro ministro da Justiça, senador e conselheiro do Império, José Thomaz Nabuco de Araújo, era, então, deputado por Pernambuco. Iniciou a faculdade de Direito em São Paulo e formou-se na Faculdade de Direito do Recife. Depois, estudou na Europa e seguiu uma carreira profissional, intelectual e política, absolutamente invulgar.

“Nabuco pensava como um gigante histórico, polemizava como um estivador e jogava para a platéia como um ídolo pop.”

Vilma Gryzinski, revista Veja, 13.01.10

O “Ano Nacional Joaquim Nabuco” é uma justa homenagem a um brasileiro ilustre que deu uma enorme contribuição à compreensão e à melhoria do Brasil e que merece ter sua vida e sua obra realçadas neste momento em que o país começa a galgar um novo patamar no mundo.


Número 777 - 04 de janeiro de 2010

Novo livro de Al Gore trata da
“solucionática” para o aquecimento global

Depois de “Uma Verdade Inconveniente”, que tratou da “problemática”, o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, lança “Nossa Escolha” que trata das soluções para a grave crise climática global

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Em 2006 o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, lançou o documentário “Uma Verdade Inconveniente” mostrando o estado avançado em que se encontram as mudanças climáticas no planeta, em especial no que diz respeito ao aquecimento global. Tanto o filme foi premiado com o Oscar de melhor documentário de 2007 quanto Al Gore dividiu com o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU o prêmio Nobel da Paz também em 2007.

“Com compreensão, inteligência e esperança, ‘Uma Verdade Inconveniente’ traz-nos os argumentos persuasivos de Al Gore, que nos explicam que já não podemos olhar para o problema do aquecimento global como uma questão política, mas sim como o maior desafio global que teremos de enfrentar.”

Paulo França, economista paulista

O documentário e a própria ação ativista de Al Gore foram e estão sendo de grande importância para a conscientização mundial acerca do grave problema enfrentado pela humanidade. Agora, dando continuidade à sua cruzada esclarecedora, Al Gore acaba de lançar o livro, já publicado em português, “Nossa Escolha – Um plano para solucionar a crise climática”. Na própria introdução, Al Gore chama a atenção do leitor sobre o conteúdo do livro.

“Nossa Escolha reúne em um só lugar as soluções mais eficazes disponíveis no momento e que, juntas, irão solucionar esta crise. A intenção deste livro é despolitizar essa questão ao máximo e inspirar os leitores a agirem – não apenas de uma forma individual, mas como participantes ativos nos processos políticos por meio dos quais todos os países, e o mundo como um todo, fazem a escolha que nós agora enfrentamos.”

Al Gore, “Nossa Escolha”

De fato, trata-se de um livro muito interessante, bastante bem diagramado e de fácil compreensão, com gráficos e ilustrações que transmitem com muita clareza a idéia de que já existem alternativas concretas para enfrentar o grande desafio da reversão do aquecimento global que, tudo indica, está avançando bem mais rápido do que se imaginava. Enquanto “Uma Verdade Inconveniente” tratou da “problemática” das mudanças climáticas e dos tremendos riscos do aquecimento global, “Nossa Escolha” trata da “solucionática”.

“Ao longo dos três anos e meio desde a publicação e lançamento de Uma verdade inconveniente, organizei e moderei mais de trinta longas e intensas Reuniões de Soluções, nas quais os maiores especialistas do mundo todo se reuniram para discutir e compartilhar seu conhecimento e experiências em temas relevantes à formulação de um plano para solucionar a crise. (…) Nossa escolha é o resultado das ideias revolucionárias propostas pelos participantes desse diálogo multifacetado. Esses especialistas tornaram possível a formulação de uma abordagem inovadora e original que eu nunca havia imaginado antes.”

Al Gore, “Nossa Escolha”

“Nossa Escolha” é uma excelente leitura para iniciar um ano que será decisivo no enfrentamento da crise climática a qual depende, não apenas de decisões e encaminhamentos políticos e econômicos globais mas, também em grande medida, das nossas atitudes individuais.

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