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Número 767 - 26 de outubro de 2009

Os 80 anos da crise de 29 ensinaram
a evitar depressão econômica mas não crash

Em todo esse tempo, o aprendizado no campo econômico foi tão grande que evitou o mergulho numa depressão enorme, mas não foi o suficiente para coibir a especulação financeira desenfreada

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Sábado passado, o início da chamada Grande Depressão de 29 fez aniversário de 80 anos. Na “quinta-feira negra” de 24 de outubro de 1929 a Bolsa de Valores de Nova York entrou em colapso que foi seguido por mais dois grandes mergulhos, na “segunda-feira negra” (dia 28) e na “terça-feira negra” (dia 29), iniciando um movimento continuado de queda que, quando atingiu o fundo do poço em 1932, tinha feito a Bolsa perder 89% do seu valor em comparação com o pico atingido em setembro de 1929. Entender o que aconteceu é importante para pensar sobre as repercussões da crise de 2008.

“Separadas por quase 80 anos, as crises de 1929 e de 2008 tiveram fatores de criação semelhantes. Ambas foram precedidas por um período de crescimento acentuado da economia mundial e expectativas exuberantes com relação ao futuro, o que gerou euforia nos mercados financeiros, uma valorização artificial no valor das ações e, por fim, pânico e crash.”

Giuliana Vallone da Folha Online

A diferença fundamental entre a crise de 1929 e a de 2008 é que, em decorrência do enorme custo social da Depressão, houve uma grande preocupação acadêmica de estudar o fenômeno para evitar que ele pudesse se repetir de forma tão violenta no futuro. Inclusive, para nossa sorte, um dos grandes estudiosos da crise de 29 é o atual presidente do Banco Central dos EUA Ben Bernanke.

“A cooperação entre BCs é claramente uma lição da crise de 29, que foi aprendida e incorporada.”

Renato Colistete, professor da FEA/USP

Pelo que se tem observado dos desdobramentos da crise de 2008, houve grande aprendizado sobre o que fazer para corrigir os efeitos do crash mas muito pouco sobre o que fazer para preveni-lo, em especial no que diz respeito ao controle da especulação financeira.

“1929 e a Grande Depressão que se seguiu ainda permanecem como a referência do tipo de catástrofe que a especulação financeira pode causar.”

www.novojornal.com.br

O que impressiona é que, tanto tempo e tanto aprendizado depois, ainda deixe o mundo tão a mercê dos efeitos da especulação descontrolada, em especial quando ela vem do centro do capitalismo mundial, os EUA.

“Oitenta anos depois, a lembrança do aperto de 1929 nunca esteve tão latente. Em 2008, o mundo viu a economia norte-americana entrar em crise. Assim como há 80 anos, o mercado muito confiante e a valorização exagerada dos papéis — agora do mercado imobiliário — descontrolou a realidade econômica. É certo que, até agora, os números foram menos decrescentes. Enquanto em 1929 a taxa de desemprego mundial chegou a 25%, no último ano esse percentual foi de apenas 10%. Mas as comparações foram inevitáveis.”

Camille Soares, opovo.uol.com.br

Passado mais de um ano do crash de 2008, a lição que fica parece clara: as autoridades monetária (bancos centrais) e fiscal (secretarias do tesouro e ministérios da fazenda) aprenderam muito bem a lição de como evitar depressões econômicas mas não querem saber como evitar crashs. Conhecem o remédio para os efeitos mas não querem aplicá-los para evitar o estopim. Enquanto isso, a criatividade impera e, mesmo depois de todo o susto do final de 2008 e início de 2009, as instituições financeiras voltam a dar as cartas nos EUA. Até o novo crash, pelo menos.

Número 766 - 19 de outubro de 2009

Se o helicóptero tivesse caído antes,
O Rio não teria conquistado as Olimpíadas

Os mais recentes episódios entre traficantes e polícia no Rio de Janeiro reforçam o sentimento de que tem alguma coisa muito errada na forma como se está enfrentado o crime organizado

GH 766

Depois de dar um show de organização e estratégia na conquista da escolha para sede das Olimpíadas de 2016, o Rio de Janeiro se vê mais uma vez refém de uma conflagração que mistura guerra de facções criminosas, atuação desastrada das polícias e terrorismo social. Uma pergunta que não quer calar: porque toda a competência demonstrada na conquista olímpica não é capaz de encaminhar a resolução do grave problema da segurança?

“Rio de Janeiro conquistou o direito a sediar os 31º Jogos Olímpicos em 2016 porque demonstrou competência na sua preparação. Todos os passos, planos e falas foram construídos com muito planejamento, cuidado e gestão de riscos.”

Walther Krause, presidente do PMI/RJ

O mundo que observou admirado poucos dias atrás a conquista da sede dos Jogos Olímpicos pelo Rio, agora vê espantado a queda de um helicóptero da polícia e duas dezenas de mortes, além da movimentação da polícia com o sentimento de que talvez o Comitê Olímpico Internacional tenha feito em Copenhague uma escolha errada. Afinal, pensam todos aqueles que têm um mínimo de informação: como pode um país violento como o Brasil sediar uma Olimpíada?

“O fato que ocorreu na madrugada deste sábado já tomou conta dos principais jornais mundiais, e destacam a falta de segurança que o Brasil ainda sofre.”

Site Acemprol

Mesmo o carioca que é gozador e gosta de fazer piada com tudo, paralisa-se diante de tanta violência. Nota-se uma exaustão da sociedade e um sentimento generalizado de não saber o que fazer. Até o discurso triunfalista das autoridades que foram e voltaram da Dinamarca perde o sentido. A impressão que os habitantes da cidade manifestam é da deflagração de uma espécie de guerra civil sem remédio. De fato, não se pode escapar da sensação de que há alguma coisa muito errada.

“Alguém poderia dizer que a Olimpíada no Rio já começou. Pela prova de tiro ao alvo. Mas não há, diante dessas cenas, espaço para gracejos, tampouco para o discurso triunfalista de duas semanas atrás. Se isso não for guerra civil, qual é o nome?”

Fernando de Barros e Silva, Folha de S. Paulo,19.10.09

Alguma coisa muito errada na forma com está sendo tratada a questão do combate à violência que passa, necessariamente, no caso do Rio de Janeiro, pela política de combate ao tráfico de drogas. A esse respeito, inclusive, já está em curso uma discussão sobre o assunto que envolve, inclusive, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Nos EUA depois de 30 anos da chamada guerra contra as drogas e depois de gastos bilhões de dólares (que não temos) se diz que as drogas estão mais puras, mais acessíveis e mais baratas. Ou seja, a política de guerra às drogas é uma política falida. Nós precisamos, sem hipocrisia, com muita honestidade, discutir com a sociedade que política nós queremos.”

Julita Lemgruber, GloboNews, 18.10.09

Seja como for, o assunto precisa ser tratado com seriedade e com muita criatividade porque se o que aconteceu sábado tivesse acontecido há duas semanas, com certeza o Rio teria perdido a Olimpíada.

Número 765 - 12 de outubro de 2009

Mais algumas considerações sobre o
conflito de gerações no mercado de trabalho

Devido à importância da questão do conflito geracional entre os jovens entrantes no mercado de trabalho e a gestão das organizações, vale a pena mais alguns considerações sobre o assunto

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Dando continuidade ao tema da semana passada (ver GH/764) que teve boa repercussão entre os leitores, um complemento que se pode fazer acerca da geração que está entrando agora no mercado de trabalho é o seguinte:

“É uma geração que aprendeu a não reverenciar hierarquias, criada num ambiente interativo e colaborativo, com uma enorme variedade de opções. O que existe de habilidade para tarefas simultâneas e velozes, falta em foco e aprofundamento.”

Gilberto Dimenstein, Folha de S. Paulo, 27.09.09

As referências que funcionam para essa geração ela são os jovens empreendedores que, praticamente do nada, criaram negócios de bilhões de dólares a partir de idéias originais na internet.

“Se existe uma fonte de inspiração para os jovens empreendedores brasileiros, são os gênios milionários do mundo digital, como Chad Hurley do YouTube, Mark Zuckerberg, do Facebook, ou Sergei Brin e Larry Page, do Google.”

Revista Exame, 23.09.09

É justamente a internet, a Tecnologia da Informação e todo o aparentemente vasto campo de possibilidades que descortinam (além do fato de demandarem, em princípio, capital inicial muito baixo) que atraem os jovens para a criação de negócios próprios ou para o exercício de uma atitude conflituosa com as organizações “tradicionais” nas quais se candidatam a empregos.

“Mais da metade desses novos negócios se concentra no setor de tecnologia, muitos deles na área de TI, um mercado em expansão e passível de ser explorado sem grandes investimentos iniciais – vantagem determinante para profissionais que, em início de carreira, não contam com capital e começam sua empresa até dentro de casa (…) Os brasileiros estão postergando a decisão de morar longe dos pais: 62% dos jovens só começam a pensar nisso quando já passaram dos 30 anos, segundo mostra o IBGE. Até lá vão se capitalizando.”

Revista Veja, 16.09.09

São muitas mudanças que por conta do advento da revolução digital e da internet não foram ainda assimiladas pelas organizações, gerando o conflito de gerações que estamos começando a presenciar hoje no trabalho, em especial entre os mais jovens que entram nas empresas e os menos jovens que estão na gestão dessas empresas e organizações.

“Para o jovem, o que significa prazer é, na visão do empregador, incapacidade de lidar com a disciplina. Quando um fala em ambiente criativo, outro suspeita de falta de disposição em obedecer à hierarquia.”

Gilberto Dimenstein, Folha de S. Paulo, 27.09.09

É certo que sem prazer e sem satisfação pelo trabalho não se constroem mais empresas competitivas. Mas também é certo que sem disciplina e hierarquia as empresas não sobrevivem à competição desenfreada que instalou-se para ficar em todos os campos dos negócios. Como sair desse impasse é o que está a desafiar as mentes mais preocupadas com o futuro, em especial aquelas que estão na gestão das empresas e organizações contemporâneas. Mais um desafio para a nossa já desafiante realidade empresarial competitiva.

Número 764 - 05 de outubro de 2009

Conflito inédito de gerações
coloca em questão o futuro do emprego

Mais do que talvez nunca antes na história das corporações, um conflito entre as empresas e os jovens qualificados que chegam ao mercado de trabalho e as empresas ameaça o futuro do emprego

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Pesquisas recentes quantificam um fenômeno que há tempos já dava mostras de atuação sobre a realidade das empresas. E o que mostram é preocupante: parece estar se abrindo um fosso entre gerações.

“No ano passado, 730 mil universitários e recém-formados se candidataram a 2.334 vagas de estágios e trainees de algumas das mais cobiçadas empresas, entre as quais Microsoft, Sadia, Nestlé, Itaú-Unibanco, Braskem, Unilever. Apesar da abundante oferta de mão de obra – cerca de 3.100 candidatos por vaga – vinda das melhores faculdades do país, 10% dos postos não foram preenchidos (…) Uma pesquisa (…) concluída no mês passado, com 31 mil universitários, mostra que o assunto é mais complexo e revela um conflito geracional – as empresas não estão entendendo os jovens, formados na chamada era da informação. E os jovens não entendem o que as empresas pedem.”

Gilberto Dimenstein, Folha de S. Paulo, 27.09.09

O lado positivo dessa tendência é apontado por outra pesquisa recém-lançada, a Global Entrepreneurship Monitor (GEM) que abrange 43 países, dentre eles o Brasil:

“Em 2008, jovens profissionais de 18 a 34 anos estavam à frente de 6 milhões de novas empresas abertas no país – o equivalente a 61% do total desse tipo de negócio.”

Revista Exame, 23.09.09

Diferentemente da tendência anterior, esses jovens protagonizam o que se tem chamado de empreendedorismo “por opção”, no lugar do empreendedorismo “por necessidade”, embora impulsionado pelo conflito geracional.

“Boa parte desse ímpeto dos jovens em abrir o próprio negócio advém da dificuldade das grandes empresas em absorver e lidar com novos talentos. A chamada geração Y – jovens nascidos entre os anos 80 e 90 – foi talhada para contestar muitos dos velhos valores corporativos. São indivíduos criados sob a égide do mundo digital, com um repertório de informações incomparavelmente maior que as gerações anteriores e com um traço de personalidade marcantemente impaciente, volúvel e insubordinado.”

Revista Exame, 23.09.09

Talvez mais do que nunca antes na história das corporações, esse fenômeno se apresenta de forma tão aguda o que aponta para uma necessidade de adaptação de ambos os lados do conflito, sob pena de colocar em questão o próprio futuro do emprego.

“O jovem terá de mudar de atitude para trabalhar e as empresas terão de mudar seu ambiente de trabalho para atrair talentos. Nem um lugar fechado que iniba a criatividade – nem tão aberto que pareça a casa dos pais, onde não existe frustração. Nessa combinação, talvez esteja o futuro do emprego.”

Gilberto Dimenstein, Folha de S. Paulo, 27.09.09

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