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Número 763 - 28 de setembro de 2009

Economia mundial foi salva por
um aporte recorde de US$ 10 trilhões

No momento em que a economia mundial parece dar sinais de que a temida recessão está ficando para trás, aparece a conta da “lambança” feita pelo mercado financeiro alavancado

GH 763
Na mesma semana em que o Brasil recebeu o seu terceiro grau de investimento, desta vez concedido pela agência de classificação de risco Moody’s, a Bolsa de Valores de São Paulo atinge seu ponto mais alto e o dólar seu preço mais baixo em um ano, numa espécie de confirmação de saída da crise.

“Tem um peso simbólico importante por ser o primeiro (grau de investimento) vindo após uma crise muito grande, dando um carimbo de que o país conseguiu sair dela rapidamente.”

Silvio Campos Neto, economista do banco Schahin

Além disso, os países chamados de emergentes, dentre os quais o Brasil, conseguiram avanços importantes na cúpula do G20 em Pittsburgh nos EUA, transformando o Fórum na principal instância de discussão econômica no mundo pós-crise.

“O G20 assumirá o posto de zelador da economia global, dando mais voz às economias emergentes e desenhará regras mais duras sobre o capital de bancos.”

Portugal Digital, www.portugaldigital.com.br

Essa nova arquitetura é mais do que necessária por conta da verdadeira “lambança” que a falta de regulação e a “criatividade” do mercado sem amarras provocaram no ambiente das finanças e depois, por contágio, na chamada “economia real” dos EUA e do planeta. O próprio comunicado final do encontro do G20 em Pittsburgh é enfático neste aspecto.

“Nossa reunião se deu no meio de uma transição crítica para a recuperação com o objetivo de virar a página de uma era de irresponsabilidade e adotar um conjunto de políticas, regulações e reformas para enfrentar as necessidades da economia global do século 21.”

Comunicado do G20, Pittsburgh, EUA, 25.09.09

Essa “era de irresponsabilidade” terminou por inflar a bolha imobiliária que estourou nos EUA, com reflexo para a Europa e Ásia e repercussões importantes para todo o mundo, como explica o economista Luiz Gonzaga Belluzo no prefácio do bom livro para ler nos tempos atuais “O Crash de 2008 – Dinheiro fácil, apostas arriscadas e o colapso global do crédito” de Charles R. Morris (editora Aracati).

“No ciclo recente, o circuito crédito-riqueza-consumo teve como ‘fundamento’, a valorização dos imóveis residenciais, avançou com a queda de preços das manufaturas produzidas pelos trabalhadores asiáticos e terminou na superalavancagem dos novos instrumentos financeiros.”

Luiz Gonzaga Belluzo, economista

A coisa toda só não foi ainda mais feia do que está se saindo porque o estado, que se pretendia “mínimo”, colocou a mão abaixo do mercado que se pretendia “máximo”, com um aporte monetário da ordem de um PIB dos EUA ou 10 vezes o PIB brasileiro e evitou a maior de todas as recessões.

“A crise financeira terá custado mais de 10 trilhões de dólares (cerca de 7 trilhões de euros) à economia mundial até o final de 2009, segundo um estudo do Commerzbank divulgado pelo jornal alemão Die Welt.”

Deutsche Welle, www.dw-world.de

Número 762 - 21 de setembro de 2009

Mais recomendações para reforço
da liderança na era da turbulência econômica

Em um novo livro sobre os impactos da crise nas empresas, Ram Charan orienta sobre as novas regras de gestão em tempos de economia estagnada e o papel fundamental dos líderes

GH 762

Enquanto o ambiente econômico ao redor do mundo vai melhorando a cada dia que passa, embora ainda persistam muitas dúvidas sobre o tempo e a intensidade da recuperação, e o Brasil apresente sinais mais fortes de retomada, as livrarias vão, aos poucos, recebendo livros que tratam de como lidar com a crise ou com um ambiente turbulento. Em números recentes do Gestão Hoje, inclusive, já foi comentada uma dessas obras (ver GH/757, GH/758 e GH/759), mais novo livro de Philip Kotler, sugestivamente intitulado “Vencer no caos”. Agora é a vez de “Liderança na era da turbulência econômica” do consultor e professor indiano Ram Charan, autor de outros livros bem aceitos sobre a gestão de negócios como “O que o cliente quer que você saiba”, “Execução” e “O líder criador de líderes”.

“Sua estratégia e modelo de negócios podem tornar-se obsoletos antes do que você possa imaginar. Na verdade, sua empresa pode ter de mudar de estratégia mais de uma vez antes de as coisas voltarem ao normal.”

Ram Charan

Recém-chegado às livrarias, o livro trata, segundo sua própria definição, das “novas regras de gestão em tempos de economia estagnada”. Essas regras giram em torno da postura estratégica e da mobilização dos liderados.

“Identificar as oportunidades, perseguindo-as agressivamente, inspirará as pessoas e mudará a psicologia do medo ao otimismo realista. Suas ações e palavras alinharão a mente, a energia física, o coração e o espírito das pessoas ao redor.”

Ram Charan

Apesar de ter sido escrito no auge da crise financeira quando não se tinha idéia de como a economia real se comportaria, o livro traz indicações de como agir em tempos difíceis que são bastante úteis mesmo em ambientes nem tão malignos quanto o projetado. É o caso das seis características essenciais da liderança para tempos difíceis enumeradas pelo autor.

1. Honestidade e Credibilidade

“Seja sincero com as pessoas: diga a elas como você vê o mundo, reconheça os limites de sua percepção e peça que elas lhe digam o que acham.”

2. Capacidade de Inspirar

“Mostre à equipe que você está concentrado nas novas prioridades, deterministicamente, para inspirá-los a fazer o mesmo.”

3. Conexão em Tempo Real com a Realidade

“Colete as informações em fontes não convencionais. Não se atenha a uma única visão das coisas. Permita que sua percepção se ajuste à medida que coleta novas informações.”

4. Realismo com uma Pitada de Otimismo

“É nesse ponto que a liderança se transforma em uma arte performática, introduzindo aquele toque de otimismo que explora as reservas psicológicas para lidar com as más notícias e transformar medo em ação.”

5. Administração com Intensidade

“É muito importante estar ciente de que o pessoal precisa de sua presença nas trincheiras. Sua visão de realidade é inútil se você não conseguir fazer o restante da organização entendê-la e agir a respeito, e você não tem como fazer isso com memorandos e declarações.”

6. Ousadia para se Preparar para o Futuro

“Você precisará de imaginação e coragem para fazer apostas estratégicas sem garantia alguma quando há pouco dinheiro disponível e tanta incerteza em relação às premissas sobre as quais seu plano deve basear-se.”

Número 761 - 14 de setembro de 2009

Enquanto o Brasil sai da recessão,
os EUA apontam para uma recuperação lenta

Junto com a constatação de que o Brasil saiu da recessão técnica depois do crescimento positivo no segundo trimestre, fica evidente que a retomada nos EUA ainda será penosa

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Com a divulgação do crescimento do PIB no segundo semestre de 2009, o Brasil sai tecnicamente da recessão depois de dois trimestres (4º. trimestre de 2008 e 1º. trimestre de 2009) de crescimento negativo (-3,4% e -1,0%, respectivamente).

“Pela primeira vez neste ano, o IBGE divulgou resultado positivo para o PIB. De abril a junho, a economia brasileira cresceu 1,9% na comparação com o período de janeiro a março, graças à recuperação da indústria e a mais um aumento das compras à vista e a prazo.”

Gustavo Patu e Denise Menchen, Folha de S. Paulo

Esses números do segundo trimestre reforçam a esperança de que o país consiga fechar o ano de 2009 com crescimento positivo, ao invés do crescimento negativo antes projetado por todos os analistas e organismos internacionais.

“Os novos números do IBGE encorajam o discurso e a esperança governista de que o país fechará o ano com um resultado acima de zero, embora não muito.”

Gustavo Patu e Denise Menchen, Folha de S. Paulo

Embora não seja a melhor performance do mundo, afinal China e Índia mantiveram índices positivos e altos de crescimento mesmo durante a pior fase da crise, o Brasil tem demonstrado uma impressionante capacidade de superação que chama a atenção até de quem está no meio do furacão norte-americano como é o caso do secretário do  Tesouro dos EUA, conforme relata a revista Veja desta semana.

“O Brasil está liderando o mundo para fora da recessão.”

Timothy Geithner, secretário do Tesouro dos EUA

Ao dizer isto, em alto e bom som, na última reunião do G20 em Londres para o presidente do Banco Central brasileiro Henrique Meireles, Geithner reforça o contraste da imediata situação pós-crise do Brasil com a dos EUA onde o caminho da recuperação será penoso.

“Entre 2000 e 2007, os americanos aumentaram seu padrão de consumo em 44% — e esse aumento foi responsável por nada menos que 77% do crescimento econômico do país no período. Ao mesmo tempo, a dívida das famílias dobrou até chegar a 138% de sua renda, ou mais de 13 trilhões de dólares (…) as famílias americanas perderam cerca de 12 trilhões de dólares de janeiro a março de 2009 (…) Endividado, sem poupança e empobrecido, o consumidor americano começa a enfrentar agora um longo período de pé no freio.”

Tiago Lethbridge, revista Exame, 09.09.09

Mesmo com os ventos da recuperação já começando a soprar também nos EUA, é preciso não esquecer que no curto e médio prazos, por conta dos anos de consumo em bases pouco sustentáveis, a retomada será difícil na maior economia do planeta, o que, forçosamente, terá impactos relevantes sobre a demanda global. Afinal, as estatísticas mostram à exaustão, não há candidato no mundo capaz de substituir o ímpeto de consumo dos norte-americanos. E com eles consumindo menos, todos os países exportadores vão sofrer.

“O consumo pode levar uma década para voltar aos níveis anteriores à crise. Essa não é uma crise qualquer. Ela vai mudar o comportamento das pessoas mesmo depois de passar.”

Kenneth Arow, prêmio Nobel de economia de 1992

 

Número 760 - 07 de setembro de 2009

O segredo da independência financeira
é poupar 10% ao mês com juros de 5% ao ano

Para Richard Koch, atingir a independência financeira depende da capacidade de poupar 10% de tudo o que se ganha e ter retorno de 5% ao ano para se beneficiar dos juros compostos

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A independência financeira é um tema que preocupa todos aqueles que não têm herança e precisam sobreviver com os ganhos provenientes do seu trabalho. Por conta disso, nos últimos tempos proliferaram os consultores financeiros que podem ser encontrados nas publicações especializadas ou nos programas televisivos e radiofônicos, sem falar na internet onde a profusão é ainda maior. No livro “O estilo 80/20 — como obter 80% dos resultados focando 20% das tarefas”, já comentado no GH/749, o autor, Richard Koch, dá o conselho que, no seu entender, é a chave da independência tão almejada. Para ilustrar, cita frase atribuída ao pai da Teoria da Relatividade.

“A maior força do mundo? Os juros compostos.”

Albert Einstein, 1879-1955, físico alemão

Defende ele que o segredo da independência financeira é poupar invariavelmente no mínimo 10% de tudo o que se ganha a cada mês. E para facilitar, evitando a surpresa de chegar ao fim do mês sem conseguir os 10%, defende que esse investimento seja feito no dia do pagamento.

“Poupe e invista 10% de sua renda antes de recebê-la. Tome esta providência o mais cedo que puder na vida — o que significa agora.”

Richard Koch

Além da poupança e do investimento dos 10%, Koch chama a atenção também para a necessidade de procurar um retorno anual da ordem de, no mínimo, 5% em termos reais, ou seja, descontada a inflação.

“Objetivo básico é ganhar pelo menos 5% de retorno anual a longo prazo com um risco mínimo.”

Richard Koch

Claro que se aparecer alguma chance de investimento que dê mais retorno, ele deve ser feito, desde que, claro, o risco não seja alto como, por exemplo, títulos públicos ou de empresas com boa reputação. Além disso, recomenda enfaticamente que sejam tomados todos os cuidados com os negócios próprios.

“A maioria dos milionários enriquece começando um empreendimento de risco. Mas tenha cuidado. Somente um em 20 novos negócios é bem sucedido. Provavelmente 99% dos resultados de sucesso correspondem a 1% dos novos negócios de risco. Será que você estará nesse 1%? Só invista num novo empreendimento de risco caso tenha uma reserva para garantir. Não se aventure a perder tudo. Se isso lhe tirar o sono, esqueça o negócio. (…) Ainda que você esteja louco para criar um negócio próprio, espere até ter dinheiro em caixa que possa perder.”

Richard Koch

Resumindo, então, o segredo da independência financeira, para Koch, é investir 10% com rendimento mínimo de 5% (para proveito do benefício dos juros compostos), sem riscos excessivos e com a certeza de que o dinheiro é um meio para a felicidade e, não, ela própria.

“O dinheiro é melhor do que a pobreza, ainda que seja por razões financeiras’, disse Woody Allen. Se estivermos morrendo de fome ou sem abrigo, o dinheiro pode nos proporcionar uma vida melhor. No entanto, além de certo patamar — que é surpreendentemente baixo —, mais dinheiro não traz felicidade.”

Richard Koch

Número 759 - 31 de agosto de 2009

Sim, na crise acentua-se a importância
da “paranoia” na sobrevivência empresarial

A provocação feita por Andy Grove da Intel em 1996 de que em tempos turbulentos “Só os paranóicos sobrevivem” termina caindo como uma luva no ambiente competitivo pós-crise

759
A respeito do número anterior do Gestão Hoje (GH/758), inspirado no novo livro de Philip Kotler (“Vencer no caos”), o leitor Adalberto Golfieri postou no blog alguns comentários que, pela pertinência das dúvidas que levantam, merecem não só a reprodução como novas considerações sobre o tema da sobrevivência na crise.

“Fico, realmente, bastante preocupado com o conteúdo deste número. Explico: (1) ‘cultivar um alto nível de paranóia’ em gestão, pode ser visto também como ‘morrer de preocupação’, ou seja, num livre pensar, ‘para sobreviver é necessário morrer’; (2) diminuir o ciclo temporal do Planejamento Estratégico de 12 para 3 meses não levaria a ’substituir’ o foco do ‘para onde vou’ para ‘o que tenho que fazer agora’?; (3) é preciso cuidar para que o Planejamento Estratégico não se transforme em uma ‘coisa’ desnecessária, de tanto imediatismo pregado neste pós-crise.”

Adalberto Golfieri

Sobre o primeiro comentário, vale considerar que Kotler, nos seus argumentos, recupera o conceito de “paranoia” (como metáfora para reforçar o sentido), lançado pelo fundador e ex-presidente da Intel, o húngaro naturalizado norte-americano, Andrew (Andy) Grove que, em 1996, com base na sua experiência executiva, publicou o livro que viria e se tornar best seller, “Só os paranóicos sobrevivem”.

“Para derrubar a Intel, bastaria que um concorrente ágil lançasse um produto superior, a um preço mais baixo. Grove convivia com a incerteza. A Intel precisou instalar sistemas de alarme avançados que identificassem sinais de perigo iminente.”

Philip Kotler e John A. Caslione

A paranoia, como patologia, implica delírios de perseguição, ou seja, “ver” inimigos que não existem na realidade. No uso metafórico significa estar num estado de alerta permanente para reconhecer logo o perigo, mesmo naquilo que, à primeira vista, nem parece ser. Com certeza, não seria “morrer” de preocupação, mas ao contrário, ficar bem vivo para reconhecer as ameaças.

Em relação á segunda preocupação, vale lembrar que a concepção contemporânea de estratégia, vai além do planejar e inclui monitorar a execução (o planejamento antes, durante e depois da ação). Assim, os focos “para onde vou” e “o que tenho que fazer agora”, de fato, se interligam e precisam, amiúde, ser tratados em conjunto, especialmente em épocas de crise quando as condições mudam de forma acelerada e as ameaças se intensificam.

“A estratégia de uma empresa é mais que seu planejamento estratégico (…) Sua completa formulação vai-se misturar com sua implementação, em um processo contínuo de aprendizado organizacional, com idas e vindas, erros e acertos.”

Thomaz Wood Jr., escritor e professor da FGV/SP

Nessa concepção, o planejamento estratégico pode e deve ser entendido como um processo que ajuda a formular e/ou aperfeiçoar a estratégia, numa espécie de treinamento constante para o desenvolvimento do “pensamento” estratégico e das ações essenciais. Por isso, se seu ciclo for abreviado não há risco de banalizá-lo, o que acontece é que se mantém atualizado. No atual mundo hipercompetitivo, como já alertava Grove em 1996, o estado recomendado é o do alerta constante e o da aceleração. E na crise, a coisa piora. Infelizmente.

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