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Número 737 - 30 de março de 2009

“Sopa de letras” ajuda a raciocinar
sobre o começo do fim da crise econômica

Depois do último pacote trilionário de ajuda aos bancos norte-americanos, as letras “V”, “U”, “L” e “W” ajudam a raciocinar sobre a trajetória de recuperação da economia do gigante em crise

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As atenções dos agentes econômicos continuam voltadas para o combate que está sendo travado pelas autoridades econômicas nos EUA contra a crise porque eles sabem que, enquanto o problema não for equacionado por lá, ela continuará sem perspectiva de resolução pelo resto do mundo. Uma pergunta para a qual todos procuram uma resposta é: quando chegará o fundo do poço e quando começará a recuperação? Na semana passada, foi anunciado mais um pacote de US$ 1 trilhão para extração dos “ativos tóxicos” dos bancos e vários analistas ao redor do mundo já começam a falar que estão vendo alguma “luz no fim do túnel”. Já outros são mais pessimistas.

“Estamos no começo do fim do problema bancário mas ainda no fim do começo da crise como um todo.”

Eric Maskin, economista, Nobel de 2007, Veja 01.04.09

É justificada essa preocupação com o fundo do poço porque, só assim, se pode começar a vislumbrar com menos incerteza a etapa de recuperação. Sobre esse momento os economistas começam a falar em letras (“V”, “U” e “L”) como metáfora para os gráficos de evolução do PIB.

“Nós estamos vivendo uma coisa parecida com 2001, no estouro da bolha da internet, que foi a menor recessão dos EUA. Foi [em forma de] um ‘V’. A coisa caiu, teve uma certa vertigem e depois voltou. No limite do pessimismo, vem o ‘L’. Cai e se arrasta, como na depressão de 1929 e na recessão do Japão nos anos 90. O cenário intermediário é um ‘U’, que não é tão simples como foi em 2001, mas não é tão crônico como o ‘L’.”

Eduardo Giannetti da Fonseca, FSP, 29.09.08

Dentre os economistas, vale a pena prestar atenção no mais polêmico deles, Nouriel Roubini, natural da Turquia e radicado nos EUA, professor da Universidade de Nova York, que tem feito as previsões mais radicais sobre a crise e tem acertado muitas delas.

“Nouriel Roubini voltou a atacar ontem no seu blog, partindo dos dados do PIB do quarto trimestre dos EUA e outros para anunciar que a ‘esperança ilusória’ de uma recessão em ‘V’ ficou para trás, trocada pela já existente recessão em ‘U’. E o risco agora é de uma ‘estag-deflação’ em ‘L’, como no Japão.”

Nelson de Sá, Folha de S. Paulo, 20.02.09

Na esteira da lógica de explicação “alfabética”, além dessas, uma outra letra lembrada por outro economista é o “W”.

“O movimento de recuperação da crise talvez não seja nem em ‘V’, nem em ‘U’, nem em ‘L’ mas, sim, em ‘W’, com retomadas e quedas até a estabilização.”

Sérgio C. Buarque, economista pernambucano, 27.03.09

Seja que padrão de letra tomar o formato da recuperação, o que parece certo é que o fundo do poço (a parte de baixo da letra) ainda não foi atingido e, se foi, a coisa ainda é tão recente que não deu para perceber com clareza. O que parece certo é que a recuperação será lenta e gradual.

“A história nos ensina que, depois de voltarem a andar com as próprias pernas, os bancos ainda levarão em torno de um ano para oferecer crédito na praça.”

Barry Eichengreen, professor de Berkeley, Veja, 27.03.09

Número 736 - 23 de março de 2009

Os 15 passos para ficar de bem
com o cérebro em um ambiente de crise

Cuidar bem do cérebro é indispensável em qualquer época, ainda mais em tempos de crise econômica acentuada, por isso vale a pena prestar atenção ao que diz a neurociência

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Enquanto a crise econômica vai seguindo o seu curso, inclusive com a última previsão do FMI dando conta da retração da economia mundial (crescimento negativo de 1 % em 2009), a primeira em 60 anos, vale a pena tratar de outros assuntos, em especial daqueles que podem ajudar a enfrentar o problema. Um desses assuntos é o bem-estar do cérebro (estado fundamental para enfrentar a crise…). Em um livro muito interessante (“Fique de bem com o seu cérebro”, Editora Sextante), a neurocientista Suzana Herculando-Houzel, aquela que apresenta quadros no programa Fantástico e é autora de outro livro de sucesso (“O Cérebro nosso de cada dia”), relaciona os 15 passos do bem-estar do órgão sede de nossa inteligência. Vale a pena conhecê-los em síntese e ler o livro, mesmo dando o necessário “desconto” para uma abordagem que pode ser considerada, em alguns aspectos, mecanicista em excesso.

1. Cuide bem de sua saúde física

“O cérebro precisa do corpo. Investir na saúde corporal proporciona grandes benefícios à saúde desse órgão ao longo de toda a vida, sobretudo na velhice.”

2. Identifique e cultive os seus prazeres

“Longe de ser um luxo, a sensação de prazer é a base do bem-estar. Procure identificar as suas fontes de prazer e cultive-as: as relações de amizade, relacionamentos amorosos, trabalho, lazer e exercício físico e mental.”

3. Ouça as suas emoções

“Hoje se aceita que as emoções são parte fundamental das boas decisões; portanto devem sempre ser levadas em consideração.”

4. Sorria e busque a felicidade

“A felicidade é o estado em que fica o cérebro que vê tudo dando certo. Além de mudar o cérebro, ela afeta o corpo e o torna mais saudável.”

5. Saiba a diferença entre tristeza e depressão

“A tristeza é uma emoção importante e útil. A depressão é a tristeza despropositada e precisa ser tratada.”

6. Tenha uma atitude positiva

“Uma atitude positiva em relação à vida é fundamental; permite lidar melhor com as situações negativas e até intensifica a resistência a doenças.”

7. Tire proveito do estresse agudo

“Um pouco de estresse agudo tem efeitos benéficos sobre a memória e sobre a resposta imunológica.”

8. Aprenda a lidar com a ansiedade

“Além de simplesmente reagir, o cérebro sabe antecipar possíveis situações estressantes. Preocupar-se é importante, mas nas horas certas.”

9. Faça as pazes com os remédios

“Às vezes, é necessário obter ajuda externa para encontrar e manter o equilíbrio por meio de medicamentos que interferem na química cerebral.”

10. Combata o estresse crônico

“O estresse vira vilão quando se torna crônico ou impossível de evitar: queremos nos livrar dele, mas não conseguimos.”

11. Exercite-se regularmente

“O exercício físico intenso é um dos melhores estabilizadores do humor que a neurociência moderna conhece.”

12. Durma bem e bastante

“O sono é fundamental para o bem-estar. Quando dormimos, o cérebro descansa, mesmo sem parar de funcionar, e reorganiza as memórias do dia.”

13. Eduque-se e assuma responsabilidades

“Desenvolver as suas habilidades mentais — ou seja, educar-se — é um excelente meio de tornar o seu cérebro ainda mais capaz de resolver problemas.”

14. Cultive os seus relacionamentos

“Saber que contamos com o apoio de amigos e familiares é fundamental.”

15. Busque e ofereça carinho

“Talvez a maior descoberta da neurociência nos últimos tempos seja o impacto do carinho sobre o cérebro.”

Número 735 - 16 de março de 2009

Os “seis meses que abalaram o mundo”
e o risco do Brasil entrar em recessão em 2009

Os efeitos mais severos da crise internacional começam a chegar agora ao Brasil que, pela primeira vez em muitos anos, corre o risco de entrar em recessão técnica e ter crescimento zero

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Num programa especial levado ao ar no domingo passado, o canal GloboNews tratou da crise que assola a economia como “os seis meses que abalaram o mundo”. A data inicial referida é o dia 15 de setembro de 2008 quando ocorreu a quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, a venda do banco Merrill Lynch para o Bank of America e o salvamento pelo governo dos EUA da AIG, a maior seguradora do mundo.

“A quebra nos EUA do banco de investimento Lehman Brothers e a venda do Merrill Lynch para o Bank of America têm um sentido parecido para o mercado financeiro norte-americano ao do colapso, em 11 de setembro de 2001, das torres gêmeas do World Trade Center.”

Fernando Cazian, Folha de S. Paulo

Desde então, as bolsas de valores caíram cerca de 50% em todo o mundo, inclusive no Brasil. Simultaneamente, os EUA, a Europa e Japão, as três maiores economias do mundo, entraram em recessão. Os governos ao redor do planeta já injetaram algo em torno de US$ 15 trilhões no sistema financeiro e na tentativa de reativar a demanda em queda. Até agora, nada parece surtir efeito, com a crise ainda não parecendo dar sinais de quando vai chegar ao fim. E a pergunta de todos é justamente essa: quando a crise vai acabar?

“A crise começa a acabar quando os ativos pararem de cair.”

José Rubens de La Rosa, GloboNews Especial, 15.03.09

Quando isso acontecer, a crise, como dizem os economistas, estará “precificada” e os recursos que não foram destruídos e fizeram o “vôo para a qualidade” em direção aos títulos dos Tesouros nacionais, em especial ao dos EUA, começarão a retornar lentamente para aplicações “menos” seguras porém mais atraentes, como é o caso, por exemplo, da bolsa brasileira. Quando isso vai acontecer e quanto tempo vai durar para a situação voltar à “normalidade” é a pergunta que hoje em dia deve estar valendo milhões de dólares. Ninguém, na prática, tem demonstrado ter, sequer, a mais pálida idéia, com muito mais perguntas não respondidas que respostas.

“O fato é que o mundo hoje é um laboratório a céu aberto. E que pairam, no ar, perguntas sem respostas, como: qual será, afinal, o verdadeiro tamanho da recessão mundial? Quanto tempo vai demorar para tudo se arrumar?”

Sonia Racy, O Estado de S. Paulo, 12.03.09

Em meio às dúvidas, todavia, aparecem algumas certezas preocupantes como é o caso da recessão brasileira (queda de 3,6% do PIB no último trimestre de 2008 em relação ao trimestre anterior). O número, com certeza, levou o Banco Central a promover a queda recorde da taxa Selic de 1,5% na última semana. O curioso é que, mesmo com essa redução, o juro básico real (descontada a inflação) continua sendo o mais alto do mundo (6,5% contra 6,2% da Hungria, o segundo colocado). Mesmo assim, o país dificilmente escapará da recessão técnica (dois trimestres consecutivos de PIB negativo), já que, pelo andar da carruagem, o PIB também será negativo no primeiro trimestre de 2009.

“A economia brasileira vai para a recessão com taxas de juros mais baixas. Não há política monetária que tire a economia brasileira da recessão porque o mundo inteiro está na recessão.”

Affonso Celso Pastore, O Estado de S. Paulo, 12.03.09

O próprio Pastore, economista e ex-presidente do Banco Central, que participou do GloboNews Especial, disse que dificilmente o crescimento do PIB brasileiro no acumulado do ano deixará de ser próximo de zero. Vamos torcer para que ele esteja errado.

Número 734 - 09 de março de 2009

A importância do pensamento
positivo para ajudar a sair da crise econômica

Embora ainda sem uma visão segura de quando começará a se reverter a situação nos EUA, é importante considerar as razões para otimismo em relação ao Brasil e em relação às empresas

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Os sinais negativos sobre a crise continuam sendo emitidos dos EUA onde tudo começou. Começou como modelo econômico “neoliberal” na década de 1970 (ver a propósito o GH/733) e com o estouro da bolha imobiliária em setembro do ano passado. Resultados negativos de bancos e empresas, números recordes de perdas de postos de trabalho,desaquecimento histórico do consumo. Tudo com números de meter medo. Até Luciano Coutinho, respeitado economista e presidente do BNDES, otimista até por dever de ofício, jogou a toalha a semana passada.

“Esta é uma crise gravíssima e que se estenderá por três ou quatro anos. Teremos um longo período de estagnação. Não parece crível que poderemos ter uma recuperação no 2º. semestre. Isso me parece muito irrealista. Como estudioso de História, acredito que essa crise se prolongará com crescimento negativo mundial, principalmente nas economias desenvolvidas em 2009 e 2010. Depois, teremos taxas de crescimento muito baixas. Estamos vendo os primeiros capítulos de uma grande e longa crise.”

Luciano Coutinho, presidente do BNDES, 04.03.09

Tudo leva a crer que todos devemos nos preparar para um bom período de ambiente econômico, no mínimo, desfavorável. Todavia, a vida continua e isso deve ser motivo de preocupação mas não de abatimento, o que significa que devemos fazer o esforço de trabalhar com o que é positivo e com o que é motivo para otimismo. No que diz respeito ao Brasil, a revista Veja da semana passada fez uma boa síntese das razões para otimismo.

“(1) Reservas de 200 bilhões de dólares intocadas depois de seis meses de crise; (2) Bancos competentes, regulados, com baixa exposição a riscos e provisionados contra calotes; (3) Ausência de bolhas de crédito e imobiliária, com potencial de crescimento real dos setores; (4) mercado interno forte, crescendo em poder de compra e em proporção da população; (5) Matriz energética mais ‘verde’ do mundo, com independência de petróleo importado; (6) Estabilidade política, em que a democracia foi entronizada como patrimônio nacional; (7) Estabilidade econômica e arcabouço regulatório imperfeito mas previsível; (8) Maior exportador de alimentos do mundo, o que garante vendas externas volumosas em qualquer cenário; (9) Mercado externo diversificado, com compradores em todo o mundo e mercadorias de crescente valor agregado; (10) As mesmas projeções que apontam estagnação no mundo estimam crescimento do PIB no Brasil em 2009.”

Matéria de Capa, revista Veja, 04.03.09

No que diz respeito às empresas, deve ser feito um exercício semelhante. Quais são os aspectos positivos, tanto externos quanto internos (o que em planejamento estratégico chama-se, respectivamente, de Oportunidades e Forças)? Esse esforço deve ser feito, inclusive, quando do início das avaliações estratégicas, porque, caso contrário, não aparecem espontaneamente. Por uma razão mental e cultural, ainda não suficientemente pesquisada, as pessoas, perguntadas sobre uma situação qualquer, tendem, normalmente, a começar pelas dificuldades. Daí, a importância de induzir o começo dessas avaliações pelos aspectos positivos. Sem pensar, também, positivamente, com certeza, não se sai de crise nenhuma.

Número 733 - 02 de março de 2009

A crise não é o “fim do capitalismo”
mas é o fim do chamado “modelo neoliberal”

A crise que explodiu nos EUA e jogou “caco” de banco para tudo quanto foi lado não é apenas o estouro de uma bolha financeira mas o fim de um modelo econômico de quatro décadas

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Conforme referido no Gestão Hoje 731, a maior dificuldade que as autoridades econômicas e monetárias ao redor do mundo estão tendo para enfrentar a crise que assola a economia mundial é derivada do fato de não ser ela decorrente apenas do estouro de uma bolha mas do colapso de um modelo econômico que já tem quase quatro décadas. Esse foi um período que terminou se caracterizando, em especial nos últimos anos, pela “financeirização” da economia. Foi esse modelo que colapsou, arrastando com ele boa parte do setor bancário mundial.

“O período de financeirização, que ora se encerra, era fundado na defesa intransigente do corte de benefícios sociais, na redução de impostos para os mais ricos, na suposição de que esses recursos ajudariam a aumentar investimentos e empregos, resultando em benefícios para todos. Essa utopia terminou em uma crise que, provavelmente, será mais aguda que a de 1929. Repete-se o mesmo ciclo do período rooseveltiano, em que a política retoma o poder das mãos das finanças e promove um reencontro com as aspirações do cidadão comum.”

Luis Nassif, www.luisnassif.com.br, 27.02.09

Trata-se, agora, com muito pouca sombra de dúvida, do fim de uma era que remonta ao início do governo Ronald Reagan nos EUA e que ajudou a promover o grande consumismo norte-americano.

“Os anos de economia global ancorada no consumo americano chegaram ao fim. A era de ouro do capitalismo financeiro chegou ao fim. Em termos ainda mais gerais, o período de tremenda prosperidade dos Estados Unidos iniciados nos anos Reagan virtualmente terminou.”

Alex Teixeira, revista Época Negócios, novembro 2008

Portanto, trata-se, como virou moda dizer na chamada linguagem corporativa, de uma “mudança de paradigma” econômico. Uma situação para a qual a precisa descrição de Gramsci cai como uma luva.

“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não consegue nascer; nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem.”

Antonio Gramsci, 1891-1937, cientista político italiano

Não se trata, como alguns apressados passaram a declarar, do “fim do capitalismo”. Ele ainda tem muito fôlego. Para usar uma linguagem também da moda, pode-se dizer que é o fim da chamada “era neoliberal”. Por isso, por sua amplitude “conceitual”, a crise foi, na prática, subestimada até que explodiu, de fato, jogando cacos do sistema financeiro para tudo quanto foi lado.

“Essa crise foi subestimada. (…) O fato de não ter sido antecipada, ter sido subestimada, ter sido descartada como uma pequena correção de preços dos ativos, um mero ajuste, que não deveria durar mais do que um ou dois trimestres, fez com que as medidas para enfrentá-la estivessem sempre atrasadas. Muito pouco, muito tarde.”

André Lara Resende, Jornal Valor, 09.01.09

A esperança é que, depois da estupefação inicial, as medidas geradas (ver GH/723) e a capacidade política sejam suficientes para colocar o vagão econômico em novos trilhos.

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