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Número 732 - 25 de fevereiro de 2009

Passado o carnaval, vê-se que EUA
e China estão fazendo seus deveres de casa

Tanto os EUA quanto a China, os dois motores do mundo pré-crise, estão fazendo as suas lições de casa para enfrentar da crise econômica que ajudaram a criar financiando um modelo inviável

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Nem mesmo o carnaval, em pleno cenário do autoproclamado “maior show da terra”, o Sambódromo no Rio de Janeiro, foi capaz de exorcizar o fantasma da crise. A conversa entre os executivos franceses cujas empresas patrocinaram a escola Acadêmicos do Grande Rio girou em torno da crise como verbalizou o presidente do conselho de administração da franco-belga Suez Energy.

“A crise foi o tema (no camarote) pois está todo mundo rediscutindo contratos.”

Maurício Bähr, Jornal Valor, 25.02.09

Pouco antes do carnaval, o presidente Obama sancionou o pacote aprovado no Congresso e divulgou informações sobre o plano de apoio aos mutuários de hipotecas que estão com dificuldade de pagamento. Ao todo, são já três importantes instrumentos à disposição do novo governo para enfrentar a crise.

“O governo Barack Obama ganhou três instrumentos para enfrentar a crise que atinge os Estados Unidos. O primeiro é o pacote de estímulo fiscal arrancado a fórceps dos senadores republicanos. Outro veio com a definição das regras da segunda fase do Tarp, programa herdado do governo George W. Bush para retirar os ativos tóxicos dos bancos e estabilizar o sistema financeiro. Finalmente, o governo vai usar quase US$ 300 bilhões para tentar estancar o processo de retomada de residências financiadas por hipotecas.”

Luiz Carlos Mendonça de Barros, FSP, 20.02.09

Com esse arsenal na mão, o governo norte-americano deve agora partir para o ataque à crise em todas as frentes, incluindo um flanco que esteve até então esquecido, justamente o estopim do problema: os mutuários inadimplentes de hipotecas, tomadores de crédito barato que encareceu de repente.

“Se o crédito barato era a cocaína da crise financeira, a China foi num dos principais fornecedores do produto.”

Revista Time, segundo a revista Veja, 25.02.09

Como contraparte do problema, do outro lado do mundo, a China também está fazendo o seu dever de casa. Lançou um pacote US$ 585 bilhões para enfrentamento da crise via aquecimento da demanda interna para evitar a “queda do elefante”.

“Os economistas de Pequim gostam de comparar a China a um elefante numa bicicleta. Ele só se equilibra se conseguir pedalar rapidamente, caso contrário pode cair. ‘E aí a Terra treme’, conclui o jornalista britânico James Kymge em seu livro A China Sacode o Mundo.”

Revista Time, Revista Exame, 14.02.09

Um cenário de crise na China “sacode o mundo”, sem dúvida, mas antes sacode também o “elefante” como evidenciou o famoso “massacre da Praça da Paz Celestial”, justamente na época em que a economia chinesa apresentava os mais baixos índices de crescimento econômico desde o início do programa de aceleração do crescimento chinês na década de 1970.

“Disposto a não perder popularidade após a demissão de 20 milhões de pessoas desde o acirramento da crise, o governo chinês está utilizando todas as armas que detém.”

Gustavo Gantois, IstoÉ Dinheiro, 18.02.09

Passado o carnaval, é interessante notar que os dois motores da economia mundial pré-crise (EUA e China), estão fazendo os seus deveres de casa para resolver a crise que ajudaram a criar.

Número 731 - 16 de fevereiro de 2009

Obama parece vacilar e a crise
entra nos planejamentos e nos orçamentos

Depois de aprovar seu pacote no Congresso, Obama recebe críticas pela limitação das medidas e os agentes econômicos começam a “precificar” a crise nas suas projeções e cronogramas para 2009

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Durante o processo de aprovação do pacote de Obama no Congresso norte-americano na semana passada, ficou um pouco mais evidente o tamanho do problema que o novo governo terá que enfrentar. Inclusive, durante a tramitação, foi questionada até a própria visão de futuro do novo presidente como fez o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, na última sexta-feira.

“O Sr. Obama tem de ser mais forte ao olhar para o futuro. Caso contrário, o veredicto sobre esta crise pode ser que não, nós não podemos.”

Paul Krugman, The New York Times, 12.02.09

O problema é grande porque não é apenas o estouro de uma bolha (no caso a imobiliária) mas a própria falência de um modelo econômico que já tem mais de três décadas de vigência, a partir do governo de Margareth Thatcher na Inglaterra, no final da década de 1970. Estado mínimo, desregulamentação financeira, neoliberalismo, foram as diretrizes que, desde o governo Reagan, ditaram as regras econômicas nos EUA e desembocaram numa crise de grandes proporções que já provoca essa crise empobrecemento e deflação de ativos.

“A crise empobreceu violentamente as famílias americanas. Derrubou o valor dos imóveis, das ações, deixou-as endividadas. Ao mesmo tempo, há em marcha um perigoso processo de deflação de ativos. Ou seja, de queda continuada de preços de ativos.”

Luis Nassif, www.luisnassif.com.br, 13.02.09

Essa deflação tem provocado, na prática, a piora acentuada da situação dos bancos que, depois do estouro da bolha dos subprime, ainda defrontam-se com a deterioração dos preços dos ativos provocada pela recessão. Depois de queda, coice. Resultado real: quebra do sistema financeiro norte-americano com a maioria dos bancos em estágio pré-falimentar.

“Os maiores bancos norte-americanos já estão insolventes.”

Paulo Tenani, Globo News Painel, 14.02.09

Essa situação dramática do mercado financeiro está a exigir uma intervenção duríssima que requer grande força de vontade do governo. O exemplo do Japão é emblemático. Depois de passar pelo estouro de uma bolha imobiliária bastante parecida com a norte-americana, não teve coragem de mexer com os bancos como deveria ter feito. Enterrou 40% do PIB na tentativa de recuperação e amargou uma estagnação econômica que já dura duas longas décadas.

“Exemplos de países que se meteram em enrascadas semelhantes ensinam que, sem sanear os bancos, não se vislumbra uma recuperação econômica duradoura. Basta olhar para o Japão, o grande fantasma que paira sobre os Estados Unidos. Depois do estouro de sua bolha, no fim dos anos 80, os japoneses injetaram trilhões de ienes na economia, mas procrastinaram por uma década o saneamento dos bancos.”

Giuliano Guandalini, revista Veja, 18.02.09

Enquanto isso, a profundidade da crise começa a ser percebida pelos agentes econômicos que também começam a precificá-la em seus planejamentos, cronogramas e orçamentos. Passado o pânico do final do ano, agora a ficha começa a cair de fato e a certeza de que o ano não será fácil já se instalou definitivamente.

“Vai ser um ano muito complicado para todo mundo. Não dá para tentar se iludir. Essa é a crise mais grave dos últimos 70 anos.”

Alexandre Schwartsman, Globo News Painel, 14.02.09

Número 730 - 09 de fevereiro de 2009

Para fazer as mudanças requeridas
pela crise é preciso deixar o medo de lado

A crise econômica deflagrada pelo estouro da bolha imobiliária norte-americana com reflexos importantes no Brasil e nas suas empresas requer manter a cabeça fria e deixar o medo de lado

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A última citação do Gestão Hoje anterior foi da escritora norte-americana, deficiente auditiva e visual, Helen Keller cuja história da infância e do encontro com Annie Sullivan sua professora, companheira e protetora está bem contada no excelente filme “O Milagre de Anna Sullivan” (“The Miracle Worker”, EUA, 1962, direção de Arthur Penn). A citação completa é a seguinte:

“Evitar o perigo não é, a longo prazo, tão seguro quanto se expor ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada.”

Helen Keller, 1880-1968, escritora norte-americana

Essa citação se presta bem aos tempos atuais de uma crise que é séria e ainda vai causar muitas dificuldades aos agentes econômicos. Iniciada nos EUA, a crise chegou ao Brasil de forma progressivamente acentuada, pelo menos no que diz respeito ao crescimento do PIB, como muito bem observa o ex-diretor do Banco Central do Brasil, Luis Fernando Figueiredo, hoje sócio da Mauá Investimentos, no programa Globo News Painel do fim de semana passado.

“No terceiro trimestre (de 2008) nós estávamos crescendo a 8% ao ano, 9% ao ano. E no último trimestre, o número será negativo entre 1 e 2%, o que quer dizer que o gap de crescimento é de 9 a 10% ao ano.”

Luís Fernando Figueiredo, economista

Embora o Brasil esteja muito mais preparado do que das vezes anteriores para enfrentar a crise que começou no sistema hipotecário norte-americano se alastrando para o sistema financeiro e para a economia real de praticamente todo o mundo, o problema é grave e não adianta tentar esconder o sol com a peneira.

“Lá fora vai caminhar para uma coisa muito mais cirúrgica. A solução final vai ser a nórdica: nacionalizar o sistema (financeiro), tirar a parte podre e colocar num lugar só (…) limpar os bancos, vendê-los de novo e fazer a coisa voltar a operar.”

Delfim Netto, economista, Globo News Painel

Enquanto isso não acontece nos EUA, no Brasil atualmente parece que as pessoas estão mais preocupadas com os problemas que a crise traz do que com as soluções para sair dela. O que é natural mas, infelizmente, contribui bastante para adiar o retorno aos tempos virtuosos, muito embora a política monetária já demonstre a mudança estrutural do país.

“Minha leitura é que nós ainda estamos trabalhando com os problemas porque você não sai de 8% de crescimento para zero impunemente. Você tem que limpar a casa e olhar para a frente. Não deu tempo ainda. Essa digestão é importante que aconteça. (…) [Mas] Pela primeira na nossa história, numa crise da magnitude dessa, o Banco Central reduziu e não subiu juros. Isso é sinal de uma mudança gigantesca.”

Luís Fernando Figueiredo

Não há dúvidas de que a crise é séria e profunda, vai demorar a ser vencida e o Brasil sofrerá mais do que se pensava inicialmente, muito embora bem menos do que das vezes anteriores e do que os países centrais, a começar pelos EUA. Neste cenário, o fundamental é manter a cabeça fria para fazer o que precisa ser feito, sem medo ou desespero, como recomendou Helen Keller:

“Não importa o quanto se sinta em posição desfavorável; não se desencoraje; não tenha medo; não se desespere.”

Helen Keller, 1880-1968, escritora norte-americana

Número 729 - 02 de fevereiro de 2009

É hora de aproveitar a crise
para realizar as mudanças necessárias

A crise econômica por ser séria e duradora, é uma boa oportunidade para que sejam feitas as mudanças necessárias que os tempos de bonança terminam por empurrar para a frente

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A recente crise econômica deflagrada com a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers em setembro passado tem, dentre tantos inconvenientes já materializados e ainda por materializar, o mérito de nos mostrar essa coisa que, apesar de óbvia, sempre esquecemos quando vivemos uma situação de bonança:

“Tempos difíceis têm um valor científico. São as oportunidades que um bom aprendiz jamais perde.”

Ralph W. Emerson, 1803-1882, filósofo norte-americano

Esquecemos, inclusive, que as crises, além de inevitáveis (há, inclusive, quem diga ser a crise própria do capitalismo que destrói riqueza para poder reconstruir e realimentar o próximo ciclo de crescimento continuamente), trazem embutidas a dialética do que “mata” e o que “salva”. São sempre ocasiões de confronto entre problemas e oportunidades. Claro que, pelo próprio incômodo que provocam ao eclodir, tendem sempre a evidenciar em primeira mão seu lado problemático.

“As crises, conforme representadas na escrita chinesa, têm sempre um duplo sentido dialético e contraditório. Os dois ideogramas que formam a palavra significam perigo e oportunidade. Eles querem dizer que, ao lado dos estragos que podem produzir, elas possuem também uma dimensão pedagógica e progressista.”

Zuenir Ventura, jornalista brasileiro

Descobrir essa dimensão pedagógica e progressista é, justamente, o que é mais exigido de nós, nunca esquecendo que, mesmo quando a aparência é de bonança, sempre há a possibilidade (ou a própria certeza) de que algo ameaçador está sempre à espreita. Desde que não se transforme numa paranóia patológica, estar preparado para o imponderável é sempre salutar.

“O importante é você acordar todo dia preparado para um ameaçador não sei o quê.”

Millôr Fernandes, escritor e artista plástico brasileiro

Mesmo porque, desde a Grécia antiga que se sabe que a realidade está sempre em mutação. O filósofo pré-socrático Heráclito chegou mesmo a basear a sua abordagem na inevitabilidade da mudança.

“Nada é permanente, salvo a mudança.”

Heráclito de Éfeso, 540 a.C.-470 a.C., filósofo grego

E, embora isso pareça ser uma verdade irrecorrível, o principal “disparador” da mudança, sem dúvida nenhuma, é a crise. Sem a pressão da crise, tendemos sempre a deixar para amanhã a mudança necessária até que ela, movida pela inexorável dinâmica da realidade cambiante, se impõe, transformando-se de mudança “controlável” em mudança  “inevitável”. Nesse caso, quase sempre os prejuízos são bem maiores do que quando a mudança se dá pela vontade, iniciativa e, tanto quanto possível, controle dos agentes.

“Mudanças só ocorrem nas crises. Em situações normais, a tirania do ‘status quo’ prevalece.”

Milton Friedman, 1912-2006, economista dos EUA

A crise econômica atual é profunda e a se confiar nas projeções mais realistas, ainda vai incomodar por um bom período de tempo.  Por isso mesmo é uma excelente oportunidade para estimular a realização das mudanças necessárias que os tempos de “fartura” empurraram para a frente. Como estímulo para isso, vale a pena reproduzir a frase da escritora deficiente visual e auditiva Helen Keller:

“A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada.”

Helen Keller, 1880-1968, escritora norte-americana

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