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Número 719 - 24 de novembro de 2008

A importância da visão de futuro
para a construção de uma boa estratégia

A ação empresarial competitiva depende de um trinômio composto por uma visão de futuro mobilizadora, por uma estratégia conseqüente e por uma liderança capaz de materializar a visão

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A observação das articulações do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, para formação de sua equipe, chama a atenção para um aspecto fundamental de qualquer gestão que se pretenda bem sucedida: precisa ter uma visão de futuro bem clara, uma imagem-objetivo bem definida sobre aonde quer chegar, conforme já alertava há muitos séculos Sêneca:

“Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.”

Lucius Annaeus Sêneca, 4 a.C.-65 d.C., filósofo romano

Na própria história norte-americana do século passado, há o exemplo famoso de enunciado de uma visão de futuro para a NASA (agência espacial dos EUA), feita pelo presidente Kennedy em 1962, depois da União Soviética ter-se posto na dianteira da corrida espacial com colocação do astronauta Yuri Gagarin em órbita da Terra.

“Até o final desta década, os Estados Unidos da América colocarão um homem na Lua.”

John F. Kennedy, 1917-1963, presidente dos EUA

Essa poderosa visão estimulou a NASA a montar um programa para que a imagem-objetivo do presidente pudesse ser materializada. E, de fato, conseguiu quando, em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong, a bordo da nave Apolo 11, colocou os pés na superfície lunar. Outro presidente norte-americano dá uma pista sobre o motivo pelo qual uma boa visão como essa do presidente Kennedy é tão mobilizadora.

“Vivemos mais dos sonhos do futuro do que dos planos do passado.”

Thomas Jefferson, 1743-1826, presidente dos EUA

Isto serve para um país, para uma organização pública ou para uma empresa privada ou, ainda, para uma carreira profissional. Do ponto de vista empresarial, inclusive, há quem diga, como o faz o consultor britânico Gary Hamel que escreveu junto com o professor indiano Coimbatore Krishnarao Prahalad, o famoso livro “Competindo Pelo Futuro”, que ter uma visão consistente sobre o futuro é uma grande vantagem competitiva. Com ela, uma empresa, com certeza, já parte na frente dos seus concorrentes.

“A maior vantagem competitiva que uma empresa pode possuir é uma visão de futuro.”

Gary Hamel, estrategista inglês

Uma consistente e mobilizadora visão de futuro é, inclusive, um ponto de partida essencial para a formulação de uma estratégia de qualidade e, de fato, orientadora da atuação empresarial. Do ponto de vista competitivo, uma estratégia consistente é condição de sobrevivência e de atuação autônoma.

“Ou você tem uma estratégia própria, ou então é parte da estratégia de alguém.”

Alvin Toffler, futurista norte-americano

Assim como uma estratégia própria e conseqüente depende de uma visão consistente e mobilizadora, a capacidade de transformar a visão através da estratégia depende da liderança efetiva.

“Liderança é a capacidade de transformar a visão em realidade.”

Warren G. Bennis, consultor norte-americano

Deste modo, é possível dizer que uma ação empresarial competitiva depende do trinômio: (1) visão consistente e mobilizadora; (2) estratégia própria e conseqüente; e (3) liderança efetiva e realizadora. Tudo, começado pela visão de futuro. Depende, mas não se basta com essas três condições, que são necessárias, mas não são suficientes. A liderança precisa mobilizar também a capacidade de tocar simultaneamente o curto e o longo prazos e prover as condições logísticas para a ação. Mas isso já é assunto para um outro Gestão Hoje.

Número 718 - 17 de novembro de 2008

Reunião do G20 em Washington
inaugura era posterior a George W. Bush

Ao fim do desastroso governo Bush, a reunião do Grupo dos 20 inaugura uma nova era de retomada do multilateralismo para enfrentar a gravíssima crise da economia real pós-financeira

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No sábado passado (15.11), mais um evento inusitado veio se juntar aos tantos eventos inusitados que a crise financeira com epicentro nos EUA se tem encarregado de expor às nossas percepções incrédulas: uma reunião do G20 (países mais ricos do mundo e principais emergentes, dentre eles o Brasil) em Washington para tratar do que fazer para tornar os efeitos do terremoto sobre a economia real menos desastrosos. Uma das principais conclusões foi a de que a desregulação foi longe demais.

“Crises são inevitáveis em sistemas financeiros desregulados, como terremotos numa falha geológica.”

Martin Wolf, articulista do Financial Times

O encontro teve, além da extensa declaração de princípios que produziu, o grande mérito de ter sido o primeiro passo concreto na direção da retomada do multilateralismo, destroçado de forma autoritária e inconseqüente pelo governo Bush no seu rolo compressor para a invasão do Afeganistão e do Iraque. Ocorreu após a maior intervenção estatal no sistema financeiro dos últimos 80 anos.

“Na hora em que tudo treme, como ocorre hoje nos EUA, o Estado é quem salva.”

Fernando Cardim, economista professor da UFRJs

Uma intervenção realizada a contragosto pelo próprio governo Bush para evitar o pior, sem que se saibam ainda quais as repercussões sobre o consumo norte-americano, um peso importantíssimo na economia. Há mais de 20 anos que os norte-americanos buscam formas que permitam manter o seu consumo desenfreado.

“Por duas décadas, o consumo vem sendo forte propulsor de crescimento econômico graças, em larga medida, a uma longa alta nos mercados, à bolha da habitação e à elevação do endividamento dos consumidores. A alta dos mercados, a bolha da habitação e a elevação das dívidas acabaram agora e os salários começam a encolher.”

David Leonhardt, colunista do New York Times

Como resultado deste ímpeto consumista sem lastro, a poupança é insignificante e o endividamento das famílias é recorde. As estimativas são de que cada família deva em média US$ 112 mil, a maior parte relativa a hipotecas imobiliárias. Como sem consumo a economia norte-americana desaba, todos estão morrendo de medo de qual vai ser o impacto da imensa queima de riqueza que houve com o estouro da bolha imobiliária. Todos, inclusive o Brasil que se encontra indiscutivelmente melhor que das vezes anteriores.

“O Brasil tem uma posição extremamente forte, reservas sólidas, um sistema financeiro saudável e bem administrado, e o Banco Central e o governo vêm se conduzindo muito bem durante todo o processo. Estamos mais fortes do que nunca para enfrentar a crise. Mas, como a gente está no planeta Terra, a crise também vai passar por aqui.”

André Esteves, banqueiro brasileiro

A esperança de todos é que o bom senso volte a prevalecer em escala mundial, favorecido pelo governo Obama, como parece indicar a recente reunião do G20. Que o período de desregulação irresponsável e a arrogância política sejam substituídos pela cooperação necessária à revisão do sistema regulatório internacional e a revigoração das organizações multilaterais (ONU, FMI, BIRD etc.). Todos vão se beneficiar, inclusive o Brasil. Além disso, torcer para que a desaceleração norte-americana seja suportável.

Número 717 - 10 de novembro de 2008

O desafio de Obama é não repetir
Carter e ser substituído por Sarah Palin

Eleito numa onda de mudança, Barack Obama defronta-se com a mais grave crise econômica em décadas e corre o risco de ser absorvido por ela e não cumprir as promessas de campanha

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A vitória de Barack Obama foi, sem a menor sombra de dúvidas, um acontecimento notável, sem precedentes na história contemporânea. Um negro na Casa Branca é algo que só os filmes de ficção tinham antecipado, mesmo assim para muitas décadas à frente. Obama é um novato na vida pública que conseguiu mobilizar para votar nele um grande contingente de pessoas que estava fora da política norte-americana. Um fenômeno.

“Obama foi eleito com 63,68 milhões de votos, cerca de 52,4% do total. A eleição de terça-feira teve os maiores níveis de participação popular (comparecimento de 65% às urnas) desde a década de 60 nos EUA, onde ninguém é obrigado a votar. Milhões de jovens e negros que nunca tinham participado da política foram votar em Obama, um político de carreira meteórica que era quase um desconhecido antes de lançar sua candidatura.”

Jornal Valor Econômico, 06.11.08

Trata-se de uma mudança política considerável que expressa também uma mudança demográfica muito importante numa nação que se pensava até há pouco hegemonicamente branca. Um resgate histórico que inaugura uma nova etapa na política norte-americana, mas que também coloca sobre os ombros do presidente eleito uma responsabilidade muito grande.

“Thomas L. Friedman, do The New York Times, escreveu que a Guerra Civil Americana do século XIX acabou em 4 de novembro de 2008, quando o país de maioria branca elegeu o primeiro presidente negro. Daqui para adiante, Obama será julgado pelo que vier a fazer do seu país e do mundo, não pelo que já fez com o seu próprio destino.”

Ricardo Amaral, repórter especial da revista Época

Os efeitos da crise econômica nos EUA serão muito fortes e tomarão boa parte da agenda presidencial, deixando para segundo plano, pelo menos no início do mandato, a maioria das promessas de campanha.

“Já estamos em recessão. Com ela vem o desemprego e a queda nos rendimentos do americano médio. Isso já é um custo a ser pago pela população. Para superar a crise aprofundaremos o déficit público, teremos um mercado financeiro mais regulamentado, o mercado imobiliário ficará mais restritivo, tornando mais difícil para as famílias adquirir uma casa. Em resumo, o custo para o americano médio torna a aumentar.”

Gary S. Becker, Nobel de Economia 1992, Veja, 12.11.08

Em 1977, o democrata Jimmy Carter também foi eleito surfando uma onda de mudança em relação ao governo republicano de Nixon. Foi apanhado por uma economia desfavorável e não se reelegeu. Esperemos que Obama consiga fazer diferente também aí.

“Afinal, os quatro anos de Carter acabaram sendo tão decepcionantes que garantiram a vitória do republicano Ronald Reagan em 1981. É por isso que os partidários da Sarah Palin que já planejam a campanha de 2012 não estão totalmente descontentes com a vitória de Obama.”

Edward Luttwak, especialista em defesa. FSP, 09.11.08

Número 716 - 03 de novembro de 2008

O que esperar do ano de 2009:
apenas crise ou também oportunidade?

Restam poucas dúvidas de que 2009 será um ano de “ressaca” econômica provocada pela “farra” do mercado financeiro norte-americano, uma boa oportunidade para consertar as coisas

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À medida em que parece que os ânimos vão serenando em relação ao “tsunami” que atingiu o sistema financeiro norte-americano e se alastrou para a Europa e depois para as bolsas de valores do mundo todo, vão ficando evidentes, aos poucos, os efeitos recessivos sobre a chamada economia real. Além disso, vai também “caindo a ficha” em relação ao exagero que terminou provocando essa confusão toda. O esperado, em tempos normais, é que a oportunidade procure o capital e não o inverso.

“Quando é o capital que caça o investimento, estamos num período muito perigoso, e foi o que ocorreu.”

Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu

Esse processo de inversão da lógica econômica elementar foi bastante favorecido pelo excesso de poupança mundial proveniente da Ásia, em especial da China (os chineses poupam mais de 50% do que ganham), e pela política de leniência monetária praticada pelo ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, o “senhor mercado”, na tentativa de evitar que a economia norte-americana caísse em recessão depois do estouro da bolha da Nasdaq (empresas pontocom) em 2001.

“Na economia longos processos de prosperidade levam a um afrouxamento e ao desastre.”

Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda

Os juros norte-americanos de tão baixos chegaram a ficar negativos e desestimularam as aplicações financeiras, incentivando a “criatividade” que resultou, entre outros, na substituição da bolha da internet pela bolha imobiliária. Com a subida dos juros, a coisa complicou.

“Por mais de um século o preço dos imóveis nos EUA oscilou dentro de uma faixa relativamente estreita, em termos reais. De repente, há seis ou sete anos, subiram entre 40% a 60%, dependendo da medida que se usa. Desse ponto já caiu uns 20%. As estimativas indicam que, se cair mais 20%, o número de famílias que não vão conseguir administrar as suas hipotecas vai crescer muito.”

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil

Com as famílias norte-americanas inadimplentes, os títulos lastreados em hipotecas viram pó e levam financeiras, bancos e seguradoras para o buraco como estamos vendo em profusão. A maioria perde dinheiro, vítima do “efeito manada” mas alguns ganham com a irracionalidade coletiva, como é o caso do homem mais rico do mundo, célebre investidor do mercado de ações que, num momento como este, amplia suas compras.

“Uma regra simples dita minhas compras: fique com medo quando os outros forem gananciosos; seja ganancioso quando os outros estiverem com medo.”

Warren Buffett, mega-investidor norte-americano

O exemplo de Buffett é apenas um para os poucos que estão líquidos e têm estômago para comprar ações desvalorizadas. Para os outros, os tempos difíceis que se avizinham deveriam servir de inspiração para, sem a pressão da “exuberância irracional”, fazerem o dever de casa, consertando o que precisa ser consertado para estarem em melhores condições quando a retomada vier mais à frente. Sob esse ponto de vista, 2009 será uma excelente oportunidade para seguir a orientação do escritor e filósofo Emerson, natural do país onde toda a confusão atual começou. O Itaú e o Unibanco já aproveitaram a sua oportunidade, antes mesmo de 2009.

“Tempos difíceis têm um valor científico. São as oportunidades que um bom aprendiz jamais perde.”

Ralph W. Emerson, 1803-1882, filósofo norte-americano

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