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Número 715 - 27 de outubro de 2008

Com a palavra Alan Greenspan:
mea culpa do ex-xerife do Federal Reserve

Antes tido como infalível quando era o homem de finanças mais poderoso do mundo, Alan Greenspan vê-se hoje acusado de ter sido o pai da bolha imobiliária e faz a sua mea culpa

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Xerife absoluto da política macroeconômica norte-america durante quase duas décadas, período em que ocupou a poderosa presidência do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA, Alan Greenspan, apelidado pela mídia de Sr. Mercado, hoje é acusado de ter sido o pai da bolha imobiliária cujo estouro precipitou o sistema financeiro internacional naquela que já é considerada a pior crise desde a Grande Depressão de 1929. Depondo no Congresso norte-americano, semana passada, Greenspan alertou para as dimensões do problema.

“O mercado de crédito vive um tsunami que só se vê uma vez em cada século.”

Alan Greenspan, ex-presidente do Fed

Inquirido pelos deputados sobre sua política de juros baixos, em determinados momentos até negativos, que estimulou os investidores a correrem para o mercado de imóveis e sobre a falta de controle dos derivativos financeiros que inflaram a liquidez a um nível jamais visto, Greenspan declarou o seu espanto.

“Fiquei chocado porque entendi por cerca de quarenta e poucos anos, com muitas evidências, que o mercado estava trabalhando excepcionalmente bem.”

Alan Greenspan

Expoente do neoliberalismo econômico que teve como figuras políticas de proa o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan e a primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher, Greenspan advogava a liberdade plena das instituições financeiras na pressuposição de que elas próprias seriam as mais preocupadas em preservar o interesse dos seus clientes e acionistas. Mas o que se verificou, depois do estouro da bolha imobiliária, foi a incrível falta de responsabilidade destas instituições, muitas delas centenárias.

“Cometi um erro na presunção de que o auto-interesse de organizações, especificamente bancos e outros, seria capaz de proteger melhor seus próprios interesses e de seus acionistas.”

Alan Greenspan

Durante o período Greenspan e na plena vigência do que viria a ser chamado de “fundamentalismo de mercado” que se seguiu à queda do Muro de Berlim, o setor financeiro nos EUA saltou de 10% do total dos lucros corporativos em 1980 para 40% em 2006, apesar de ser responsável apenas por 5% dos empregos formais. Isso, mesmo enfrentando pelo caminho o estouro da bolha da Nasdaq que, em 2000, perdeu ¾ do seu valor (US$ 5 trilhões). A crise atual vai mudar esse quadro e já provocou a escrita de um epílogo de Greenspan para a sua biografia “A Era da Turbulência” onde manifesta, a seu modo, a convicção das mudanças que virão pela frente.

“Nos próximos anos, quase certamente nos veremos em um mundo econômico diferente daquele a que nos acostumamos.”

Alan Greenspan

Nessa espécie de mea culpa recente, o economista de 82 anos, embora avesso a projeções enfáticas sobre o futuro, tem insistido sobre a magnitude do problema, assim como insistiu durante muitos anos sobre a “exuberância irracional” vivida pelo mercado no caso das ações das empresas pontocom. Sobre a duração da crise, suas expectativas não são boas.

“Levará meses, talvez anos, para que se saiba se essas depreciações de ativos representam com exatidão os prejuízos reais dos bancos. Apenas essa incerteza implica que o ponto final para essa crise está muito distante.”

Alan Greenspan

Número 714 - 20 de outubro de 2008

O pior da crise financeira já passou,
agora é ficar de olho nos desdobramentos

Depois da fase mais aguda da crise financeira, chegou a hora de ficar de olho no desdobramento das eleições presidenciais nos EUA e no impacto da crise sobre a economia da China

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Em seminário intitulado “Vigor da Economia Brasileira em Questão”, promovido pela Internews em São Paulo nesta segunda-feira, 20.10.08, o economista Luis Paulo Rosenberg, sócio da consultoria Rosenberg e Associados, ex-assessor do Ministério do Planejamento, da Presidência da República e do Banco Central, fez algumas importantes considerações sobre a atual crise financeira internacional e suas repercussões sobre o Brasil que vale a pena reproduzir.

“O pior da crise financeira já passou. Agora, as implicações econômicas serão dramáticas, profundas e dolorosas.”

Luis Paulo Rosenberg

As conseqüências serão para todo o mundo, mas algumas particularidades precisam ser observadas, em especial sobre o que acontecerá com os EUA e com a China. Todos os participantes do seminário (Yoshiaki Nakano, Gesner Oliveira e Samuel Pessoa), ainda que com projeções um pouco diferentes, chamaram a atenção para essas conseqüências sobre as duas economias que serão as principais protagonistas desta crise e da saída dela.

“A queda da economia americana começou no trimestre passado e a hora da verdade será no começo do ano que vem; aí não se sabe o que vai acontecer com a China. Na verdade, não tenho tido tempo de rezar pelo Brasil porque tenho dedicado 1/3 do meu tempo para rezar pelos EUA e 2/3 para rezar pela China…..”

Luis Paulo Rosenberg

De fato, os analistas são unânimes em afirmar que os efeitos da crise financeira, sem dúvida a mais grave, pela magnitude, desde a de 1929, serão muito severos sobre a economia real dos EUA e, por conseguinte, sobre a do restante do mundo. Neste quadro, dois eventos devem ser observados com toda a atenção: (1) os desdobramentos da eleição norte-americana; e (2) os rebatimentos da desaceleração dos EUA na economia chinesa. No que diz respeito ao desempenho da economia norte-americana, as expectativas são de crescimento negativo em 2009.

“O PIB dos EUA deve ter um crescimento negativo de 2% em 2009.”

Luis Paulo Rosenberg

Partindo do princípio de que o próximo presidente dos EUA conseguirá assumir o controle da economia e do seu restabelecimento, e de que a China não será catastroficamente impactada em seu ritmo de crescimento (ou seja, caindo até dois pontos percentuais), a economia do Brasil deve ter um comportamento do seguinte tipo em 2009:

“No Brasil, pensar no dólar voltando a R$ 1,60 é um sonho de uma noite de verão. Até o final do ano, deve se estabilizar em R$ 2,00 e, em 2009, deve subir até R$ 2,40. A Bolsa não deve voltar a 60 mil pontos em 2009 e o superávit comercial deve ficar abaixo de US$ 13 bilhões. A taxa Selic a 10% é bastante plausível e o crescimento do PIB deve ficar em 2% positivo. Nesse cenário internacional, falar em 2% de crescimento para o Brasil é meio copo cheio e, não, meio copo vazio.”

Luis Paulo Rosenberg

Em resumo, então, pode-se concluir que, controlada a fase mais aguda da crise financeira, temos que acompanhar e nos preparar para seus desdobramentos na economia real. Como esses desdobramentos não são instantâneos, uma parte vai aparecer neste fim de ano e outra em 2009. E vamos torcer para que fique só por aí.

Número 713 - 13 de outubro de 2008

Parece ter passado a época da fartura,
agora é a vez da pilotagem em tempos difíceis

Apesar da recuperação, o efeito da crise financeira na economia brasileira já é significativo, o que volta a colocar uma exigência adicional sobre a capacidade de gestão do governo e das empresas

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Depois de uma semana de pavor com quedas abissais, as bolsas se recuperam e dão um refresco na crise. No conjunto, as bolsas do mundo perderam US$ 6,2 trilhões, o equivalente a seis PIB anuais do Brasil, em apenas uma semana. Depois da ação coordenada inédita e trilionária dos países da zona do euro, no fim de semana, as bolsas se recuperam mas o estrago já foi feito.

“A crise financeira que começou pelo mercado imobiliário de alto risco dos EUA já se transformou numa crise profunda e global, destruiu uma quantidade fabulosa de riqueza e deverá atingir de forma mais ou menos extensa, desigual e prolongada, a economia real dos EUA e de todos os países do mundo.”

José Luís Fiori, professor da UFRJ, Valor, 08.10.08

Se ainda havia alguma esperança de que o Brasil escaparia da turbulência, a semana foi eloqüente. A Bolsa de São Paulo teve seu pior período semanal desde a crise asiática de 1997. Chegou a suspender três vezes o pregão, depois de cair mais de 10%. No total perdeu, desde 20.05 quando atingiu o máximo de 73.517 pontos, mais da metade do PIB brasileiro (R$ 1 trilhão). Além disso, o real chegou a R$ 2,50 por dólar, numa desvalorização de quase 50% em poucas semanas (em 01.08.08 estava em R$ 1,56), acendendo a luz amarela no painel de controle, mesmo depois da recuperação deste início de semana.

“Se a febre em nossa economia estava na casa dos 38 graus, com o choque do câmbio chegou a atingir na última quarta-feira [08.10.08], mais de 40 graus.”

Luiz Carlos Mendonça de Barros, F.S. Paulo, 08.10.08

Além do mais, houve, estrangulamento do crédito e queda do preço das commodities. Isso já sinaliza dificuldades importantes na economia nacional em 2009. O cenário de crescimento igual ao de 2008 já é coisa do passado, mesmo com a recuperação parcial do mercado financeiro.

“2009 vai ser um ano muito difícil para a economia brasileira. Vamos ter que reaprender a conviver com um país que vai crescer menos, com mais inflação e com um déficit que deve voltar a incomodar.”

José Alberto Lamy, GloboNews, 11.10.08

Para piorar o quadro, várias grandes empresas nacionais do porte da Sadia, Aracruz e Votorantim foram pegas no contrapé e amargaram enormes prejuízos em operações de derivativos cambais, o que aumentou mais ainda a pressão sobre o dólar. Vale a pena ver o alerta do ex-presidente Sarney que já esteve, em outros tempos, no olho do furacão econômico.

“A crise atual, que há um ano era uma sombra, há seis meses era possível, há três, pequena e controlável, hoje é autônoma, com dinâmica própria (…) Para domá-la, muita água vai passar por debaixo da ponte.”

José Sarney, Folha de S. Paulo, 10.10.08

Pelo menos por enquanto, a época da bonança parece ter terminado. Isso requer, mais uma vez, a volta da perícia de pilotagem em tempo difíceis. No nível a que já chegou, a crise aumentou muito a exigência para a gestão do governo e das empresas, como bem destaca o diretor do Woodrow Wilson Center.

“Acabou a fortuna. Agora vamos ter que viver da virtude.”

Paulo Sotero, GloboNews Painel, 12.10.08

Número 712 - 06 de outubro de 2008

A crise se agrava e a hora é de
tomar todo o cuidado com os gastos

Sem que o pacote bilionário aprovado pelo congresso norte-americano tenha conseguido mudar o humor do mercado financeiro, a crise se acentuou e a hora é de “sentar no caixa”

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No Brasil, nem o grande espetáculo da democracia que foram as eleições municipais conseguiu desviar a atenção da crise financeira internacional. Mesmo depois da aprovação do pacote de salvação que passou de US$ 700 bilhões para U$$ 850 bilhões, as expectativas não melhoraram. O temor, bastante justificado, do mercado é o de que, além de mais quebradeira de bancos, a desaceleração da economia norte-americana seja maior do que o especulado nos piores cenários. Parece não haver mais dúvidas de que, depois de anos consecutivos de euforia financeira nos EUA e crescimento econômico recorde no mundo, vem por aí um período que pode ser de longa recuperação.

“Períodos de crescimento acelerado, inflação baixa e estabilidade geram complacência. A boa vida alimenta a fé exagerada em mercados não-regulados e as agências fiscalizadoras ignoram o excesso de risco em escalada. Nos EUA, problemas financeiros explodiram com a perda de valor dos títulos garantidos por hipotecas e também porque pessoas e instituições tomaram emprestado para fazer apostas que azedaram. Entre 1980 e 2007, as dívidas das famílias dobraram de 50% do PIB para 100% e as dívidas do setor financeiro saltaram de 21% do PIB para 116%. Se há medo de insolvência, o credor deixa de emprestar e o devedor de pagar. O resultado? Recessão e quebradeiras.”

Eliana Cardoso, economista da FGV, Valor, 02.10.08

Mais endividamento sem financiamento significa redução do consumo e, no extremo, falta de pagamento. Inadimplência em grande escala resulta em falência dos emprestadores que, nesse movimento, podem arrastar os que estão mais alavancados, provocando risco sistêmico. Em resumo e de forma bem simplificada é o que está ocorrendo no momento. Com uma diferença em relação às crises anteriores, no que diz respeito ao Brasil, como destaca o ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega.

“No passado, o mundo tinha dinheiro para emprestar mas não éramos um país confiável. Agora, todos gostariam de negociar com o Brasil, mas não há dinheiro.”

Mailson da Nóbrega, Exame, 08.10.08

Com a quebradeira de bancos nos EUA e, agora, na Europa, a economia mundial pode entrar no terreno pantanoso da recessão. O que distingue o Brasil no cenário da crise atual é que o sistema bancário brasileiro já passou pelo seu momento de purgação quando da época do plano Real, há cerca de 15 anos. Ao que consta, nenhum grande banco brasileiro está envolvido com a bolha imobiliária que provocou a confusão nos EUA, como bem destaca o ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento, Antônio Delfim Netto no canal por assinatura GloboNews.

“O Brasil tem um dos sistemas bancários mais hígidos do mundo. Eu não sei se é por virtude ou por ignorância, mas tem. (…) Entre os emergentes, provavelmente sofreremos menos que os outros.”

Delfim Netto, Conta Corrente Especial, 05.10.08

O problema é que quando se tratam de situações de pânico, como a que parece estar ocorrendo a partir da trapalhada norte-americana, sabe-se como o problema começa mas não se sabe como acaba, antes que termine. De qualquer modo, uma coisa parece certa: sobrevirão tempos difíceis. E, aí, a melhor recomendação é tomar todo cuidado possível com os gastos. Em época de crise de liquidez, controle máximo do dinheiro.

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