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Número 706 - 25 de agosto de 2008

Pequena melhora do desempenho
não esconde o fiasco olímpico do Brasil

Embora hoje esteja sobrando dinheiro para esportes amadores, sem educação física nas escolas é impossível conseguir resultados melhores do que os medíocres alcançados em Pequim

706

Nem toda a cobertura ufanista da mídia conseguiu esconder o fiasco que foi, mais uma vez, a participação brasileira nas Olimpíadas de Pequim. Por mais que se faça o justo elogio desse ou daquela medalhista, não dá para esconder o fato de que, para um país que tem a quinta maior população e é a 11ª.  economia do planeta, obter a 23ª. colocação nas olimpíadas é muito pouco. É evidente tratar-se de um problema de base que se confunde com o grave problema educacional brasileiro.

“Como diria o ex-ministro da  Educação Cristovam Buarque, se os políticos brasileiros, por ignorância, por interesse ou por outras razões escusas, não investem devidamente na educação básica e na formação do cidadão, muito menos o farão na preparação de esportistas. (…) Se por um lado avaliamos o nosso ‘fiasco olímpico’, por outro somos obrigados a lamentar o nosso ‘fiasco educacional’, que traz como conseqüência natural o lastimável incentivo à violência e à bandidagem…”

Carlos Justino da Silveira, Blog do Cristovam, 19.08.08

Alguns argumentarão que, embora a classificação tenha caído da 16ª. em Atenas para a 23ª. em Pequim, o número de medalhas aumentou (de 10 para 15), prova de que o desempenho geral do país foi melhor. É verdade, mas a questão relevante não é essa. O principal é que pela importância populacional e econômica do Brasil no mundo não podemos nos contentar com menos do que a disputa pelas cinco primeiras colocações. Agora, nem mais a velha desculpa da falta de dinheiro existe mais.

“A partir de 2001, com o advento da Lei Agnelo/Piva, o esporte olímpico e paraolímpico passou a receber mais recursos. No ano passado só o Comitê Olímpico Brasileiro recebeu em torno de R$ 80 milhões. Nos últimos sete anos, foram em torno de R$ 500 milhões. É um dinheiro expressivo, com o qual nunca se contou. Esses valores ainda são acrescidos dos patrocínios das estatais. O Banco do Brasil patrocina o vôlei, o Robert Scheidt, o futsal, que não é modalidade olímpica, os Correios patrocinam a natação, a Infraero patrocina o judô e, assim, sucessivamente.”

José Cruz, jornalista, Correio Brasiliense

Tem dinheiro mas falta uma política pública para os esportes amadores no Brasil. Desapareceu a educação física das escolas (alguns mais radicais dirão que desapareceram as próprias escolas…) e, com isso, a rede natural de captação de atletas, sem falar no principal, que é a nobre função formadora do caráter que tem o esporte. É raro um(a) atleta não ser uma pessoa de bem.

“Nós não temos hoje a educação física na escola, que é o ponto de partida para identificar um atleta. Nós temos no Brasil 33 milhões de crianças em idade escolar. Se pegássemos 0,1% desse contingente, teríamos o potencial enorme de 33 mil crianças para poder identificar ali possíveis talentos no esporte.”

José Cruz, jornalista, Correio Brasiliense

Se deixarmos de lado os feitos individuais e de algumas modalidades patrocinadas (futebol e vôlei), nem o mais fervoroso otimista pode ficar contente com o nosso desempenho nas Olimpíadas de Pequim. Se o Brasil aspira a ser um dia uma potência econômica mundial não o será sem ser também uma potência olímpica.

Número 705 - 18 de agosto de 2008

Dá para enfrentar o assédio dos
concorrentes sem fazer leilão de salários?

Com a falta crescente de profissionais especializados em decorrência da aceleração, ainda que modesta, do crescimento do país, iniciou-se uma disputa acirrada pelos talentos já formados

GH705

É impressionante como a continuidade do crescimento econômico, mesmo não muito alto, provoca escassez dos fatores de produção no Brasil, particularmente a mão-de-obra especializada. Com um crescimento médio de 3,8% ao ano, baixo quando comparado com o dos países emergentes, seus concorrentes na cena internacional, mas alto se comparado com a média de 2,3% do governo FHC, o país no governo Lula já se depara com a falta de especialistas como é o caso dos engenheiros.

“Depois de duas décadas sem obras, faltam engenheiros no Brasil. Há 100 mil deles disponíveis, mas o País precisa de 200 mil só para tocar o PAC. E de mais 400 mil nos próximos dez anos.”

Hugo Studart, Revista IstoÉ, 06.08.07

Se o ritmo de crescimento do país se mantiver, mesmo não muito alto e apesar da mais recente política de arrefecimento posta em prática pelo Banco Central com o aumento dos juros para combater a aceleração da inflação (aposta que é feita pela maioria dos analistas), essa situação verificada com os engenheiros vai se alastrar para outras categorias como, aliás, já vem acontecendo em regiões onde o crescimento é maior, como é o caso do Estado de Pernambuco.

“Pernambuco já começa a sentir os efeitos positivos da chegada dos investimentos estruturadores ao Estado. No primeiro trimestre deste ano, o PIB pernambucano cresceu 8,8% em relação ao mesmo período do ano passado — melhor resultado da última década. (…) esse momento singular da economia pernambucana traz, também, uma ameaça real para as empresas: a disputa acirrada por profissionais qualificados. O assédio às equipes já é uma realidade. Bons profissionais estão sendo abordados com propostas cada vez mais tentadoras.”

Gestão Mais, revista Algomais, agosto/2008

Para fazer frente a esse assédio, a própria seção da Algomais sugere cinco pontos essenciais: (1) investir na formação da equipe (no sentido de desenvolver programas de estágio e de trainee capazes de gerar profissionais comprometidos com a visão de futuro da empresa); (2) dar visibilidade ao futuro (para fazer com que o profissional acredite que as perspectivas na atual empresa são mais promissoras do que os benefícios imediatos em um novo emprego); (3) oferecer políticas atrativas de remuneração (considerando que participação nos lucros, remuneração por produtividade, programas de incentivo, ou seja, planos de remuneração variável, são bem mais atrativos para o profissional do que a tradicional fórmula salário + benefícios); (4) evitar “leilões” (uma vez que cobrir o salário oferecido para reter o profissional pode ser uma estratégia arriscada pois não só cria distorções em relação ao restante da equipe, como não assegura o futuro); (5) cuidar do clima (levando em conta que o profissional prefere ganhar menos a trabalhar numa organização em que a relação gestor-equipe está desgastada ou cujo modelo de gestão está ultrapassado). Fazer tudo isso, tendo sempre em mente a pertinente observação de Thomas Jefferson.

“Vivemos mais dos sonhos do futuro do que dos planos do passado.”

Thomas Jefferson, 1743-1826, 3º. presidente dos EUA

Se essas medidas forem tomadas e, em especial, se houver cuidado com a observação de Jefferson, dá para responder afirmativamente à pergunta do título. Caso contrário, a perda ou o leilão são inevitáveis, sem que se saiba qual a pior dos dois. Preservar pessoas competentes, significa oferecer-lhes alternativas que vão além de cifras.

Número 704 - 11 de agosto de 2008

Inflação arrefece mas os juros
preocupam pelo impacto no crescimento

A inflação, que tinha fugido no Brasil da meta estabelecida, dá sinais de arrefecimento mas o remédio (os juros) devem afetar o nível da atividade econômica, inclusive no próximo Natal

704

Depois de vários anos sem se apresentar como problema econômico relevante, pode-se dizer que 2008 foi o ano da inflação, tanto no Brasil quanto no mundo. No Brasil, em especial, a preocupação das autoridades monetárias levou a uma nova escalada dos juros básicos. Até que, na semana passada, depois de vários meses de más notícias inflacionárias, apareceu uma boa nova.

“A redução do ímpeto do IPCA, que evoluiu em julho menos do que o previsto e muito abaixo do aumento registrado em junho sobre maio, 0,53% contra a medida anterior de 0,73%, corrobora a distensão que já se constatara no desempenho do outro índice de inflação também relevante, o IGP, cuja primeira prévia em agosto indicou deflação”

Antônio Machado, Correio Brasiliense, 10.08.08

As causas do novo surto inflacionário interno podem ser encontradas no grande aumento mundial dos preços das commodities (ver a propósito os números GH/694 e GH/699). Na base deste aumento de preços está o enorme crescimento da demanda pela incorporação de mais de dois Brasis ao mercado de consumo mundial nos últimos anos. Na liderança deste movimento estão China e Índia que têm populações gigantescas.

“Segundo o Banco Mundial, entre 1990 e 2004, 500 milhões de pessoas saíram da miséria e da pobreza. E todas elas estão hoje aptas a comer mais e comprar.”

Sonia Racy, TAM nas Nuvens, agosto/2008

Comer e comprar mais significa aumento da demanda direta sobre alimentos e matérias-primas, inclusive sobre o preço do petróleo que, embora tenham recuado um pouco, atingiu o pico de US$ 145 o barril. O remédio monetário clássico para combater alta de preços, sobretudo num país que adota o sistema de metas de inflação como Brasil, é o aumento dos juros básicos da economia, coisa que o Banco Central, ao que deixa transparecer, não vai desistir de fazer tão cedo.

“O presidente do BC, Henrique Meirelles, compara a inflação à malária: tratamento tem efeito colateral, mas evita a doença que pode matar.”

Revista Dinheiro, 13.08.08

O problema está justamente aí: com os últimos aumentos, o Brasil já voltou à liderança mundial dos juros altos. Isso tem impacto direto sobre as taxas de crescimento, em especial quando a comparação é feita com os países emergentes dos quais somos parte integrante.

“Diante de uma inflação planetária, a situação brasileira é melhor que a da maioria dos países emergentes. Certamente melhor que a dos nossos ‘padrões’ comparativos, os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). (…) O problema é que nossa taxa de juro real de curto prazo é hoje da ordem de 7% ao ano, a indiana é de 4,5% e a russa e a chinesa são negativas. Em compensação, nosso crescimento médio anual em 2006/2007 foi de 4,6%, o russo de 7,8%, o indiano de 9,5% e o chinês de 11,3%.”

Delfim Netto, coluna de 06.08.08

Como o aumento da taxa de juros só tende a se refletir no crescimento alguns meses depois do início da escalada, é bem possível que o Natal deste ano seja bem menos exuberante do que foi o do ano passado, considerado o melhor da década.

Número 703 - 04 de agosto de 2008

Na hora de fazer a descentralização,
muito cuidado com a “delegação reversa”

Embora seja quase que uma fase obrigatória do desenvolvimento da liderança, a partir de certo ponto, a centralização passa a ser um entrave ao crescimento empresarial e requer delegação

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Uma das coisas mais difíceis para quem exerce a função de liderança nas organizações é a delegação de responsabilidades. A propósito do assunto, vale a pena ver os números anteriores GH/352 e GH/451. Além disso, vale a pena também ver o que diz sobre o assunto Tom Siebel, líder dos softwares de CRM.

“No início, eu acreditava que teria de fazer o trabalho eu mesmo, porque achava que poderia executá-lo melhor que os outros. Hoje já descobri que há muitas pessoas que podem executar tarefas muito melhor do eu jamais poderia executá-las”

Tom Siebel, criador da Siebel Systems

A centralização é uma espécie de conseqüência natural dos processos evolutivos da liderança. Pode-se dizer, até, que é quase um estágio inicial da liderança. Raro o líder que não começou centralizando tudo. O problema é que, depois de determinada etapa do crescimento empresarial centralizar, passa a ser um empecilho principalmente quando se transforma num vício cultivado pelo líder.

“A centralização é como um vício: o centralizador acredita que somente ele pode dar ‘conta do recado’ e se apega às atividades que realiza; por outro lado a equipe já se acomodou a ver tudo ser resolvido pelo líder e não sabe até onde pode ir. A idéia é que o líder se desapegue das tarefas e ganhe confiança nos liderados, e que a equipe adquira confiança em si mesma e tenha condições de realizá-las como desejado.”

Lara Selem, consultora em gestão de serviços jurídicos

Nesse momento, o vício pode se transformar também num obstáculo ao crescimento da empresa que fica travada pelo acúmulo de responsabilidades não compartilhadas. Aí, é chegada a hora do investimento maciço na formação e no desenvolvimento da equipe, assegurando a delegação.

“O melhor executivo é aquele que tem sensibilidade suficiente para escolher homens capazes de fazer o que ele deseja e autodomínio suficiente para não se intrometer enquanto estiverem trabalhando.”

Theodore Roosevelt, 1858-1919, 26º. presidente dos EUA

Essa etapa que, não raro, pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso empresarial, face ao inevitável  esgotamento físico da liderança centralizadora, implica, além da exigência da formação da equipe, um risco especial que pode ser chamado de “delegação reversa”. Ou seja, depois de delegar, receber de volta a tarefa delegada.

“Quando um profissional retornar dizendo ‘não consigo fazer isso’, evite realizar a tarefa por ele. Se agir assim você terá falhado ao delegar e perdeu a oportunidade de auxiliar esse profissional a desenvolver novas habilidades.”

Lara Selem, consultora em gestão de serviços jurídicos

O retorno pode ser por “não saber” fazer ou, mesmo, por ter feito errado. Nesse momento é crucial resistir à tentação de pegar de volta a tarefa. Em ambos os casos, o procedimento adequado é reforçar a orientação, ainda que leve um pouco mais de tempo. Em especial, deve-se ter cuidado com o feito errado. Pode ser a perigosa armadilha “devolutória” que foi da delegação. A prática mostra que não aceitar e mandar fazer de novo é o antídoto ideal. Raramente volta errado pela segunda vez.

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