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Número 702 - 28 de julho de 2008

Da admissão até a demissão:
sempre um processo muito cuidadoso

A prática demonstra que alguns cuidados essenciais são, infelizmente, muito negligenciados quando se trata de processos de admissão e, sobretudo, de demissão de pessoas

702

Uma das coisas mais difíceis para quem tem responsabilidade de administrar pessoas numa organização é demitir alguém. Ocorre porém que, a rigor, a demissão é a fase final de um processo que começa na admissão e que precisa ser cuidado com atenção desde o início, a começar pela própria análise dos currículos dos candidatos, sem esquecer uma questão crucial:

“Um currículo é um balanço sem passivos.”

Robert Half, consultor norte-americano

Passada a etapa de análise das alternativas pelos currículos (e é sempre bom ter mais de uma), é importante conversar com os candidatos, procurando observar suas características pessoais. Claro que, por melhor que seja o processo seletivo, sempre a escolha inicial será uma aposta. Nesse momento, é de grande importância a sensibilidade do selecionador e vale muito prestar atenção na recomendação de uma das pessoas mais bem sucedidas do planeta.

“Ao contratar alguém, busque integridade, inteligência e energia. Integridade é o mais importante — se o candidato não a tiver, as outras duas vão te matar.”

Warren Buffett, mega-investidor norte-americano

Sobre a fase de escolha entre vários candidatos e sobre essa observação muito apropriada de Buffett, vale a pena consultar os números anteriores GH/289, GH/290 e GH/496. Essa fase é crucial e sendo ela ultrapassada, é muito importante observar o que diz o experiente professor, escritor e consultor Russel Ackoff sobre a relação essencial entre supervisão e liderança.

“No século XIX, os chefes eram sempre escolhidos por serem os melhores em seu ofício e supervisionavam subordinados com baixo grau de escolaridade. Hoje, muitos subordinados, com alta escolaridade e conhecimento do ofício, sabem seu trabalho melhor que os chefes. Então, a função desses gerentes não é supervisionar — é liderar, fazer com que o subordinado renda o máximo.”

Russel Ackoff, escritor e consultor norte-americano

Uma providência muito negligenciada depois que o selecionado começa a trabalhar é o estabelecimento de uma sistemática de avaliação de desempenho, seja formal ou não. Isso é absolutamente indispensável. Uma evidência de sua importância é concentrada, nas amostragens de entrevistas de desligamento quando a reclamação majoritária dos demitidos é uma espécie de frase padrão: “nunca me falaram antes disso…”

“O ideal é que a demissão comece com uma frase do tipo ‘como nós já vínhamos conversando há algum tempo’…”

Patrícia Molino, consultora KPMG

A avaliação de desempenho regular permite a construção do argumento do desligamento se ele for motivado pelo desempenho inadequado (que é, aliás, o principal fator de demissão). No mais, vale a pena também considerar a recomendação de J. Marriott Jr., herdeiro e comandante de uma das maiores cadeias de hotéis do mundo, citado no excelente livro sobre a causa da boa evolução das empresas duradouras (“Feitas para Durar”).

“Encontre boas pessoas e espere que elas tenham um bom desempenho. Mande-as embora de maneira rápida e justa se tiver feito a escolha errada”.

J. Marriott Jr., presidente da Marriott Corporation

Número 701 - 21 de julho de 2008

Estamos trabalhando quando temos
uma idéia produtiva na poltrona do cinema?

A dificuldade cada vez maior de separar trabalho e tempo livre para o lazer, devido ao caráter crescentemente intelectual do trabalho, tem exigido uma mudança importante das percepções

701

O tema tratado no Gestão Hoje anterior, suscitou, como era de se esperar por seu caráter polêmico, uma série de comentários, todos pertinentes, embora alguns contrários à tese desenvolvida, como pode ser conferido no blog do informativo (ver GH/700). A questão que parece central na abordagem do assunto é a da cada vez mais difícil separação entre trabalho, estudo e tempo livre. Já foi editado, inclusive, um informativo específico sobre o assunto (ver GH/573). Pela importância do tema, todavia, vale a pena repetir o comentário de Domenico De Masi:

“Chegará o dia em que 100% do trabalho humano será intelectual. (…) Quando o trabalho é executado com a cabeça, ele anda sempre com você, pode ser carregado para todos os lados e é possível fazê-lo no domingo à noite, na praia ou enquanto se lava a louça.”

Domenico De Masi, sociólogo italiano

À exceção dos trabalhos puramente físicos, franca minoria no mundo contemporâneo, todos os demais feitos “com a cabeça”, são intelectuais, portanto. Todos caminhamos para ser, na expressão de Peter Drucker, “trabalhadores de conhecimento”. E, quando o trabalho habita a cabeça, é impossível “deixá-lo no escritório” quando se sai. Vai conosco para todo canto, inclusive para os locais e tempos de lazer.

“Eu tenho um pouco de dificuldade em distinguir trabalho de ócio. Não posso ficar parado, catatônico. Mas ir ao cinema, para mim, é trabalho.”

Chico Buarque, compositor e escritor brasileiro

É possível que, pelo fato de Chico Buarque ser compositor e escritor, alguém ache que considerar também trabalho ir ao cinema seja uma prerrogativa só para quem é artista. Mas, quem, no meio de um filme, não teve uma idéia importante para o trabalho? Ou, numa atividade tipicamente de lazer, não teve uma idéia que se mostrou muito valiosa para resolver algum problema importante no trabalho ou fora dele? Domenico De Masi chega, mesmo, a dizer que as melhores idéias só chegam, de fato, fora do trabalho.

“Pode-se ter uma bela idéia na poltrona do cinema, na fila do cinema. Difícil é tê-la no escritório. E o importante para a empresa moderna não é possuir o tempo do colaborador, mas as idéias dele.”

Domenico De Masi

Essa é que parece ser a questão relevante capaz de quebrar o conceito de dicotomia entre trabalho e tempo livre para o lazer. Antes da emergência da radical intelectualização do trabalho (uma característica eminentemente pós-moderna ou pós-industrial), era possível fazer com mais clareza essa distinção: aqui fica o trabalho, aqui começa o tempo livre. Agora, isso é cada vez mais difícil e não deve ser encarado como um retrocesso, muito pelo contrário.

“A fronteira cada vez mais cinza entre trabalho e lazer não deve ser encarada como um retrocesso, mas sim como uma evolução na forma como dividimos nosso tempo.”

José Luiz Rossi, diretor PWC Consulting

O essencial é não se angustiar em excesso com isso e aprender a lidar com essa fronteira cada vez mais imprecisa. Não deixar de programar as atividades de descanso (ver a propósito do tema os números 569, 572 e 573) nem reprimir as idéias que surgem porque estariam no lugar indevido. Claro que a questão é polêmica e dá ensejo a opiniões diversas mas que é um assunto que veio para ficar, lá isso veio. Ao que tudo indica, os que insistem na manutenção de uma hipotética separação nítida vão ter cada vez mais contestação.

Número 700 - 14 de julho de 2008

Desculpe, Max Gehringer mas a
vida existe também dentro da empresa

O trabalho contemporâneo é, sobretudo, intelectual e, por isso, segue dentro da nossa cabeça para onde quer que formos, daí a inadequação de separar a vida “dentro” e “fora” da empresa

GH 700

Em seu comentário diário na rádio CBN, precisamente o da quarta-feira, dia 09.07.08, o “consultor” Max Gehringer disse o seguinte respondendo a uma ouvinte que se queixava de já trabalhar há vinte anos na mesma empresa:

“As pessoas mais felizes que eu conheço são aquelas que não enxergam o trabalho como a razão de ser de suas vidas mas como uma maneira de conseguir recursos para aproveitar ao máximo a vida fora da empresa.”

Max Gehringer, comentarista da rádio CBN

Sim, é possível concordar com a tese de que o trabalho não deve ser enxergado como a razão de ser da vida. Mas, infelizmente, não dá para concordar com a separação entre trabalho e vida, como se ela só existisse fora da empresa conforme induz a pensar o comentário. Esse tema já foi, inclusive, tratado no GH/446.

“A Psicossociologia, pelas mãos do pensador francês Eugène Henriquez chega, mesmo, a colocar o trabalho como um dos três eixos estruturadores da vida humana, dando-lhe a dimensão da produção. Os outros dois eixos são o amor (o desejo) e a morte (o limite). Ou seja, o que estrutura a nossa ação, ainda que não tenhamos consciência disto, são a certeza do limite e da finitude, o desejo e a transformação produtiva da natureza (o trabalho).”

Gestão Hoje, número 446, 01.09.03

Sem o trabalho, não existe produção humana, nem cultura. Sem o trabalho, a vida é incompleta pois fica faltando a sua dimensão produtiva, a dimensão da realização. A idéia de uma vida sem trabalho ou com um trabalho “mínimo” é um dos grandes equívocos dos tempos atuais. Tempos de justa apologia da qualidade de vida mas de deturpação do princípio, a ponto de, no extremo, tratá-la, como fez Max Gehringer, traduzindo esse sentimento equivocado, como algo “separado” do trabalho que só existe “mesmo” (ou existe mais intensamente) fora dele. Um dos grandes responsáveis por essa confusão é o sociólogo italiano Domenico De Masi, autor do conceito de “ócio criativo”, muito embora, a leitura atenta do que ele diz permita um entendimento correto.

“Não há mais o conceito de tempo livre, tempo só para lazer, só para estudar, ou só para trabalhar, o ócio criativo é um estado mental, você pode estar numa praia paradisíaca mas estimulando a capacidade de ter idéias criativas, que vem se aliar ao trabalho. Não é porque se está fora da empresa que não se pode dar vazão a essa idéia no exato momento em que ela surge.”

Domenico De Masi, JC do Recife, 11.04.04

De Masi defende o conceito de que, no mundo contemporâneo, existe cada vez menos a distinção entre trabalho, estudo e tempo livre (ver, a propósito, o GH/522). Ele chega a afirmar que, para ser feliz, é preciso misturar o trabalho (para produzir riqueza), o estudo (para produzir conhecimento) e o lazer/jogo (para produzir alegria). As três coisas juntas e, não, separadas. Claro que cada uma pode e deve ter o seu espaço/tempo para ser bem exercida. Mas a questão central é que, no mundo contemporâneo, sua separação é artificial porque o trabalho está se transformando, aceleradamente, em uma atividade predominantemente intelectual e, por conta disso, ele passa a ser carregado no cérebro para onde quer que formos. Por isso, separar de forma radical a vida “dentro” e “fora” da empresa é não só inadequado como contraproducente.

Número 699 - 07 de julho de 2008

Aumenta risco de “tempestade perfeita”
no atual cenário econômico internacional

O cenário de bonança (crescimento alto com inflação baixa), predominante tanto na economia internacional quanto no Brasil, começa a dar lugar a outro mais pessimista com sinais trocados

699

No final do ano passado, o Gestão Hoje (ver GH/669) reproduziu a opinião do economista-chefe do FMI sobre os riscos que pairavam sobre a economia internacional no horizonte de 2008:

“Lidamos com o potencial de uma colisão entre crise financeira do século XXI e um choque do petróleo ao estilo ocorrido na década de 70. Seria como se uma tempestade perfeita atingisse o mundo.”

Simon Johnson, economista-chefe do FMI

Naquele momento, quando o quadro ainda estava mais nebuloso do que o atual, a metáfora da “tempestade perfeita” (um evento meteorológico desastroso resultado de uma série de fatores agindo por sinergia, retratado no filme “Mar em Fúria”, EUA, 2000) servia para tentar caracterizar o que poderia acontecer quando a crise imobiliária do EUA se juntasse ao aumento astronômico do preço do petróleo. Agora, o alerta vem do BIS (Bank of International Settlements), mais conhecido como o banco central dos bancos centrais do planeta.

“A ameaça imposta pelo ressurgimento da inflação chega, justamente, num momento em que os riscos ao crescimento global causados pelo acentuado aumento nos preços do petróleo e pelo aperto nas condições de crédito em algumas economias-chave aumentaram.”

Malcolm Kneigth, diretor-geral do BIS

Indícios desse cenário que mistura desaceleração econômica com inflação começam a aparecer por toda parte. Na Europa, por exemplo, a inflação se apresenta como a maior em 16 anos na zona do euro, o que fez o Banco Central Europeu elevar os juros básicos para o maior nível em 7 anos (de 4% para 4,24% ao ano). No que diz respeito aos preços dos alimentos, o jornal britânico The Guardian estima em 75% a elevação dos preços. Por sua vez, a bolsa de valores japonesa teve uma queda inédita em 54 anos. No Brasil, as projeções já apontam para a queda no crescimento.

“No pior cenário internacional (agravamento da crise americana, maior pressão inflacionária e desaceleração da economia global), o crescimento do PIB brasileiro poderá cair para 4% em 2009.”

Luciano Coutinho, economista, presidente do BNDES

No que diz respeito à bolsa de valores brasileira (Bovespa) que vinha batendo recordes sucessivos, o mês de junho fechou com perda de 10,4%. Nesse particular, acompanhou a Bolsa de Valores de Nova York que teve o seu pior mês em seis anos.

“Nesse cenário, é igualmente lógico que as Bolsas de Valores sofram pesadas perdas.”

Clóvis Rossi, colunista da Folha de S. Paulo

Desaceleração mais inflação é o quadro que se vai, infelizmente, firmando mundo afora, inclusive no Brasil que se vê às voltas com o recrudescimento da inflação, tanto por contágio internacional (preços dos alimentos e preços do petróleo) quanto por pressões de crescimento da demanda interna acima da capacidade de suprimento da oferta (capacidade das fábricas, estradas, portos, energia etc.).

Depois de mais de uma década de inflação baixa e de cinco anos de crescimento recorde, a economia mundial emite sinais de mudança de ventos, com risco, inclusive, segundo alertam alguns analistas, de criação de uma “tempestade perfeita”. Essa constatação requer atenção para os cenários econômicos daqui para a frente. Tudo indica que o mais otimista começa a dar lugar a outro mais pessimista. Para o mundo e para o Brasil.

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