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Número 698 - 30 de junho de 2008

O valor do controle do estresse
para o alcance da longevidade saudável

Dada à sua grande importância, o controle do estresse, apesar de não ter receita, é favorecido pelo bom sono, pela relativização da seriedade e pelo cultivo das boas relações afetivas

698

No número anterior, foi tratado o tema da longevidade saudável e o mínimo que ela requer: (1) boa alimentação; (2) atividades físicas regulares; e (3) controle do estresse. Tanto a boa alimentação quanto as atividades físicas regulares podem e, até, devem ser apoiadas por especialistas capazes de fornecer receitas adaptadas às nossas necessidades específicas. Já o controle do estresse, não se submete bem a receitas individuais nem, mesmo, a gerais. E, olhe, que se trata de um fenômeno global, como é ilustrado por exemplo, em estatísticas relativas aos EUA.

“Nos Estados Unidos, de 75% a 90% das queixas nos consultórios médicos são por problemas relativos ao estresse. 43% dos adultos americanos sofrem de algum tipo de problema de saúde decorrente do estresse. O estresse custa ao mundo corporativo mais de 300 bilhões de dólares por ano (cerca de 7.500 dólares por funcionário) por causa da falta de assiduidade,da produtividade reduzida e das despesas com benefícios de saúde.”

Barry Lenson, jornalista norte-americano

O tema do controle do estresse, tão necessário nos nossos dias, já foi tratado em dois números anteriores (GH/538 e GH/560) mas, por sua grande importância para a longevidade saudável, merece ser complementado. Embora sem receita geral, algumas atitudes podem facilitar esse controle: (1) dormir bem; (2) não levar as coisas demasiadamente a sério; e (3) cultivar as boas relações afetivas. Para tratar dessas atitudes benéficas, ajuda partir do seguinte conceito sobre estresse: “qualquer situação difícil que você não consiga controlar”.

1.Dormir Bem

Todos os estudos científicos sérios relacionados ao tema reafirmam que dormir bem ajuda muito o bom funcionamento do cérebro, em especial no que diz respeito às funções relacionadas à memória. Ter um sono insuficiente, conturbado ou interrompido contribui bastante para a dificuldade de raciocínio e para o funcionamento deficiente do cérebro. E sem um cérebro com bom funcionamento, fica difícil lidar bem com as situações estressantes, já que elas, como visto no número anterior (GH/697), não podem ser “eliminadas” mas, apenas, controladas. A mente descansada pelo sono adequado é indispensável para o exercício do controle eficaz do estresse.

2.Não Levar as Coisas Demasiadamente a Sério

Embora tudo que deve ser feito, deva ser feito bem e, para isso, é indispensável responsabilidade e seriedade, o que convém ser evitado é o excesso de seriedade, aquela que vai além (e, não raro, muito além) do necessário. Levar as coisas a sério muito além da conta é uma fonte inesgotável de estresse. Joseph Kennedy, pai do ex-presidente norte-americano, e milionário chefe do clã dos Kennedy, adotava uma atitude que considerava infalível para enfrentar possíveis situações de estresse provocadas por pretensas autoridades: “Quando estiver sentado em frente de uma pessoa importante imagine-a de ceroulas. É dessa maneira que eu dirijo os meus negócios“.

3.Cultivar as Boas Relações Afetivas

As relações afetivas (amorosas, familiares, amizades), desde que verdadeiras e não patológicas (que as há também em demasia), constituem importantíssima fonte de energia anti-estressante. Os verdadeiros amigos, por exemplo, aqueles libertos das obrigações sociais, com os quais nos sentimos inteiramente à vontade, são de grande importância para o controle do estresse. Às vezes, além da própria solidariedade natural, são responsáveis, inclusive, por inestimáveis ajudas desinteressadas na resolução de problemas e, por conseguinte, no controle do estresse. Funcionam, as relações afetivas saudáveis, como se fossem uma bateria responsável pelo armazenamento de energia anti-estressante para ser usada na hora que for necessária.

Número 697 - 23 de junho de 2008

A longevidade saudável depende
53% do estilo de vida que nós praticamos

Boa parte dos fatores de uma longevidade saudável dizem respeito ao estilo de vida praticado, como é o caso de uma boa alimentação, atividades físicas regulares e controle do estresse

697

O aumento da expectativa de vida é um fenômeno que se tem verificado no mundo todo. Pode-se até dizer que o Século 20 foi o século do aumento da expectativa de vida. No Brasil, passou de 34 anos em 1910 para 69 anos em 2000. Mais do que dobrou, portanto. As causas são várias, desde a melhoria da qualidade da medicina (tanto preventiva, quanto diagnóstica, quanto curativa), passando pelo aumento do conhecimento sobre nutrição, práticas saudáveis, atividades físicas etc. A maioria relacionada ao estilo de vida.

“Estudos mostram que, em termos de longevidade, 53% resultam do estilo de vida: uma atividade física, uma alimentação adequada, o controle do estresse… 17% são fatores genéticos, 20% do meio ambiente e 10% que é a assistência médica. Viver mais ou viver menos? Vai depender essencialmente das pessoas.”

Luis Carlos Silveira, médico, diretor-geral do Kurotel

Não só viver mais mas, sobretudo, viver mais e melhor. Ou seja, ter uma longevidade saudável. Para isso, segundo os estudos citados, mais da metade depende do estilo de vida que levamos. A prática também aponta para o triângulo alimentação-exercícios-estresse como essencial para ser desenvolvido na direção correta.

Alimentação Adequada

Sobre esse item há uma extensa quantidade de publicações e referências, a maioria dando receitas infalíveis para melhoria da nutrição e, sobretudo, para emagrecimento.

As boas práticas, todavia, apontam para a importância do equilíbrio entre a ingestão balanceada de proteínas, carboidratos, vitaminas e sais minerais. No que diz respeito às proteínas, com privilégio às carnes magras. No que diz respeito às vitaminas e sais minerais, com a ingestão cotidiana de verduras e frutas. Evitando-se as gorduras e excessos de açúcar e álcool. Sempre em três refeições principais (café da manhã, almoço e jantar), entremeados de lanches para evitar excessos na hora da alimentação principal.

Atividades Físicas

Também no diz respeito às atividades físicas, existe uma infinidade de referências para todos os tipos de gostos e necessidades. O essencial, todavia, segundo a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), é a realização de uma atividade física aeróbica, no mínimo três vezes por semana, meia-hora por dia (a caminhada é considerado o exercício aeróbico ideal). Feito esse mínimo, deve-se ir progressivamente adicionando atividades anaeróbicas como alongamento, musculação, Pilates, etc.

Um teste simples de fazer para saber se estamos abaixo do mínimo indispensável é subir rapidamente um lance de escadas. Se ao chegar em cima, a respiração estiver ofegante, é porque o condicionamento físico está deficiente.

Controle do Estresse

O estresse é uma reação fisiológica própria do organismo animal que foi fundamental para a sobrevivência do homem no alvorecer da humanidade e permaneceu ativo, mesmo depois da vida ter se transferido da floresta para a sociedade. Diante do perigo, o cérebro dispara um “alarme” que provoca uma descarga hormonal na corrente sanguínea responsável pela preparação do corpo para “lutar ou fugir”.

Como a “luta” ou a “fuga” físicas não são bem vindas na sociedade moderna, na quase unanimidade das situações estressantes, a descarga de hormônios se dá sem “gasto” externo. Resultado: sem poder ser “gasta” para “fora”, a energia disparada é “gasta” para “dentro”, prejudicando cérebro, estômago, coração e outros órgãos.

Para uma longevidade saudável, portanto, além de alimentação de qualidade e atividades físicas regulares, é indispensável o adequado controle do estresse.

Número 696 - 16 de junho de 2008

A importância e os riscos da
amizade para a vida e para a gestão

A amizade é um poderoso tônico para a vida e para a gestão, ela tanto abre caminhos e torna a existência mais leve, quanto requer cuidados para que não se torne um grande empecilho

696

A amizade é boa para a vida. E se é boa para a vida é boa para a gestão. Existe um ditado popular que afirma: “amigo na praça é melhor do que dinheiro no caixa”. A amizade, assim como o amor, é, com certeza, um dos sentimentos mais antigos da humanidade.

“Um amigo pode muito bem ser considerado a obra-prima da natureza.”

Ralph W. Emerson, 1803-1882, filósofo norte-americano

Tão importante são os amigos que eles funcionam como parâmetros para avaliação das pessoas. Célebre é a frase “dize-me com quem anda e te direi quem és”. Saiu da Bíblia para também tornar-se ditado popular, muitíssimo citado, por sinal.

“Julga-se um homem tanto por seus inimigos quanto por seus amigos.”

Joseph Conrad, 1857-1924, escritor inglês

Mas a amizade, “o sal da terra” a que se refere outra famosa citação, não é barata. A verdadeira amizade, requer dos amigos, de ambos os lados, portanto, cultivo, atenção, cuidado. Uma coisa que vai além da intimidade da amizade estabelecida. Um cuidado extra e permanente com a diferença.

“Duas pessoas não podem ser amigas muito tempo se não souberem perdoar os defeitos uma da outra.”

Jean de La Bruyère, 1645-1696, escritor francês

No que diz respeito, inclusive, à convivência, há uma espécie de mistério que funciona às avessas. A experiência mostra que excesso de convivência é tão ruim para a amizade quanto a sua escassez. Por maior que seja o amigo, é salutar manter uma espécie de distância regulamentar como sugere sarcasticamente o grande Nelson Rodrigues, no seu delicioso tom exagerado.

“O amigo é a desesperada utopia que todos nós perseguimos até a última golfada de vida. Mas o trágico da amizade é a convivência. Talvez a solução fosse pôr um deserto entre nós e o amigo.”

Nelson Rodrigues, 1912-1980, dramaturgo brasileiro

Além do excesso de convivência e intimidade, outro dificultador correlato da amizade é a sem-cerimônia. Em demasia, causa o efeito oposto e a dificuldade até de desfazer a amizade como destaca o gozador Carlito Maia.

“Fazer amigos é fácil. Difícil é se desfazer de alguns deles.”

Carlito Maia, 1924-2002, publicitário paulista

Na política, então, onde a amizade se confunde, muito freqüentemente, com exigência de correligionário, essa situação pode levar ao paradoxo apontado por José Sarney.

“Em política, os amigos costumam dar mais trabalho do que os inimigos.”

José Sarney, senador pelo Amapá

Por conta desses efeitos colaterais, a amizade pode azedar, muito mais facilmente do que se imagina. Millôr tem uma receita bem humorada para quando isso acontece.

“Jamais chame um amigo de imbecil. É preferível lhe pedir dinheiro emprestado e não pagar.”

Millôr Fernandes, humorista e filósofo carioca

Mas, noves-fora os contratempos e desacertos, a verdadeira amizade, aquela obra-prima da natureza de que fala Emerson, quando se estabelece, não precisa de muita coisa. Apenas ser. E já é muito.

“A beleza de ser amigo não versa sobre pensar nem dizer. Ao contrário, como a vida de um herói, basta ser. Intransitivamente.”

Paulo Rabello de Castro, economista carioca

Número 695 - 09 de junho de 2008

Ler é muito melhor para o cérebro e
a memória do que fazer palavras cruzadas

Pesquisas dão conta de que o hábito da leitura, da convivência e da lembrança são grandes recursos para exercício do cérebro e para a preservação da memória na luta contra a senilidade

GH695

Praticamente todas as recomendações para exercitar o cérebro e para preservação da memória falam dos benefícios de fazer palavras cruzadas. Inclusive, como instrumento de prevenção contra a senilidade. Agora, estudos têm reforçado o entendimento de que a leitura é o remédio mais eficaz para a memória. Perguntado sobre como podemos melhor exercitar o cérebro, o neurocientista Ivan Izquierdo responde:

“A melhor forma é lendo. A leitura envolve memória visual, verbal, relação com o contexto, tudo isso processado em milissegundos. Quando lemos, fazemos um scanner do universo inteiro que o cérebro conhece. Não há nenhuma outra atividade cerebral que chegue perto disso. Fazer palavras cruzadas ajuda, mas ler ajuda muito mais.”

Ivan Izquierdo, Folha de S. Paulo, 29.05.08

Na própria Folha de S. Paulo do mesmo dia, uma notícia mostrava o quanto a questão no Brasil é dramática em relação à leitura. A newsletter Palavra da Consultexto (www.consultexto.com.br) chama a atenção para o paradoxo.

“Por ironia, o jornal estampa, na mesma edição, os resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ibope/Instituto Pró-Livro. O ‘retrato’ continua feio. A leitura aparece como quinta opção para o tempo livre e, pior, 45% dizem simplesmente que não gostam de ler.”

Palavra da Consultexto, número 401, 02.06.08

Na pesquisa foram considerados como leitores aqueles que leram pelo menos um livro nos três meses anteriores. A mesma pesquisa dá conta de que, quando indagada sobre o que prefere fazer em seu tempo livre, a maioria da população opta por ver televisão (77%). Daqueles que declaram dedicar seu tempo livre à leitura, 27% lêem revistas (leitura semanal) e 20% lêem jornal (leitura diária). Para eles, os livros são preferidos para leitura mensal.

“O Sul é a região onde mais se lê (média de 5,5 livros por pessoa), à frente do Sudeste (4,9 livros), Centro-Oeste (4,5 livros), Nordeste (4,2 livros) e Norte (3,9 livros).”

Folha de S. Paulo, 29.05.08

Não só para a memória mas, também, para tudo mais na vida, a leitura é importante. Há, inclusive, um ditado muito citado que diz: “quem não lê, mal ouve, mal fala, mal vê”. Para o exercício do cérebro e para o estímulo adequado da memória, além da leitura, Ivan Izquierdo realça a importância de cultivar as relações sociais.

“Além do hábito de leitura, o uso constante da memória e o convívio social ajudam porque permitem o intercâmbio de idéias e eventos, especialmente com pessoas da mesma faixa etária e mútuo interesse.”

Ivan Izquierdo, O Globo, 08.06.08

Ler e conviver parecem ser as melhores formas de lidar com a questão da inevitável fragilização da memória, à medida que o tempo passa e aumentam as exigências do dia-a-dia. Sem falar no turbilhão de informações que contribuem para a confusão do raciocínio e embotamento da memória. Ou seja, o indicado é ler, conviver e lembrar daquilo que é importante.

“As memórias que permanecem pouco e não são repetidas ou revividas desaparecem por falta de uso.”

Ivan Izquierdo, O Globo, 08.06.08 

Número 694 - 02 de junho de 2008

Com a retomada mundial da inflação,
o custo do controle no Brasil pode ser bem alto

Depois de duas décadas de controle no mundo, a inflação ameaça voltar e, no Brasil, o custo pode ser bastante alto (mais aumento de juros) se o setor público não contribuir gastando menos

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Há pelo menos vinte anos, o mundo tem vivido, do ponto de vista econômico, uma era de estabilidade que se caracterizou por baixa inflação e, nos cinco últimos anos, por um ritmo de crescimento acentuado, o maior desde a Segunda Guerra Mundial.

“Durante as últimas décadas, a inflação caiu sensivelmente no mundo inteiro, assim como a volatilidade da economia.”

Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, dezembro/2007

Segundo Alan Greenspan esse fenômeno ocorreu em grande medida devido à globalização, ao desenvolvimento tecnológico e à entrada da China na economia mundial, produzindo produtos industrializados a preços baixos. Agora, todavia, a situação está mudando: a inflação ameaça retornar e o crescimento deve arrefecer por conta da crise habitacional nos EUA. Foi o próprio crescimento da demanda que terminou elevando os preços das commodities e está provocando a pressão sobre as taxas de inflação.

“Os preços de energia, de alimentos e de matérias-primas começam a pressionar os índices de inflação e ameaçam superar os efeitos deflacionários da escalada industrial chinesa.”

Luiz Gonzaga Beluzzo, professor da Unicamp

Nos últimos cinco anos houve grande crescimento dos preços do petróleo (350%), minério de ferro (330%), arroz (150%), trigo (145%), milho (100%), dentre outros. Essas elevações aconteceram em decorrência do aumento da demanda e da especulação pós-crise dos EUA.

“A era da comida barata acabou. O preços dos alimentos vai continuar alto pelos próximos 10 anos.”

Jornal das Dez, GloboNews, 01.06.08

A manchete da GloboNews estava anunciando as conclusões preliminares da reunião da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), em realização na cidade de Roma. Com a manutenção dessa tendência de alta dos preços dos alimentos, junto com os preços elevados do petróleo e das commodities metálicas, a inflação fica pressionada em especial nos países emergentes. Com isso, informa a revista The Economist, 2/3 da população mundial vai conviver, em 2008, com uma inflação na casa dos dois dígitos.

“A revista The Economist desta semana traz uma matéria muito interessante sobre inflação. A revista diz que pelo menos dois terços da população mundial já vive com inflação de dois dígitos.”

Míriam Leitão, O Globo, 25.05.08

No Brasil, infelizmente, o fenômeno também está se manifestando como efeito da tendência mundial e do aumento interno da demanda (crescimento econômico e maior disponibilidade de crédito).

“A inflação está acelerando em quase todos os 185 países-membros do FMI. No Brasil, existe um componente cuja influência é difícil de avaliar, que é o aumento da demanda. (…) O ideal é ter disciplina fiscal e adotar medidas pontuais para controlar o crédito.”

Paulo Nogueira Batista Jr., diretor do FMI

Depois de 15 anos de controle da inflação no Brasil, a responsabilidade tem pesado apenas para o Banco Central (política monetária). É chegada a hora do setor público dar a sua contribuição com uma política fiscal conseqüente. Sem isso, os custos serão muito altos pois o único remédio à disposição do Banco Central é o aumento dos juros básicos que já são os maiores do mundo.

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