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Número 693 - 26 de maio de 2008

Até onde vai o preço do petróleo:
será que chega mesmo aos US$ 200 o barril?

Depois de ter quase triplicado em menos de um ano, o preço do petróleo continua pressionado pelo aumento da demanda, pela oferta inelástica, pelo dólar em queda e pela especulação

693

Na semana passada o preço do petróleo chegou a atingir US$ 135 o barril. Um patamar inimaginável há muito pouco tempo atrás.

“Em 1998, enquanto a crise financeira internacional ainda se desdobrava, o preço do petróleo despencava abaixo dos US$ 10 por barril.”

Otaviano Canuto, economista, Valor, 29.09.2000

De fato, o preço do petróleo aumentou mais de dez vezes em termos nominais num período menor que dez anos. Só no intervalo de um ano, o preço quase que triplicou, indo de US$ 50 para os US$ 135 da semana que passou.

“Aumentos de preços espetaculares similares a este só ocorreram quatro vezes nas últimas décadas: em 1973, quando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) impôs um embargo pela primeira vez; em 1979, como conseqüência da Revolução Iraniana; um ano mais tarde, quando o Iraque invadiu o Irã; e em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuait.”

Beat Balzli e Frank Hornig, Der Spiegel, 29.02.08

Os analistas apontam como causa básica desse aumento tão acentuado o descompasso entre demanda e oferta, em especial o crescimento da demanda proveniente dos países emergentes, à frente deles a China. Além desse, outro fator importante é apontado: a queda do dólar. A moeda norte-americana fraca faz com que investidores internacionais direcionem apostas para o mercado de commodities e o petróleo é uma commodity valiosa que se presta bem para esse tipo de prática.

“A queda da moeda americana faz com que outros ativos, entre eles o petróleo, sejam mais atraentes para os investidores.”

BBC Brasil, 28.04.08

Trata-se do mesmo fenômeno que influencia o aumento do preço dos alimentos (ver GH/689): uma combinação de crescimento da demanda, pouca elasticidade da oferta, queda do valor do dólar frente a outras moedas e especulação que termina funcionando como gasolina no fogo dos preços altos.

“A disparada dos preços reflete muito mais a ação de especuladores e a desvalorização da moeda americana. Com o dólar mais baixo em relação a outras moedas, o barril (que é negociado em dólar) fica mais barato e acessível a mais consumidores — o que aumenta a pressão da demanda.”

Jornal Valor, 23 a 25.05.08

Até onde isso vai parar? A própria Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) já previu preço de US$ 200 o barril. O banco Goldman Sachs também. Já Beat Balzli e Frank Hornig que escreveram o interessante artigo publicado no jornal alemão Der Spiegel, citam um experiente analista da Oppenheimer & Co, importante firma de análise de commodities, que defende uma queda expressiva.

“No fim das contas veremos algo como a gota que faz o copo transbordar. Ou como um halterofilista levantando um grande peso, até que alguém coloque um lápis em cima do halteres e ele se esborrache no chão. Isto é uma bolha. E ela estourará.”

Fadel Gheit, analista da Oppenheimer & Co

Número 692 - 19 de maio de 2008

Novidade na economia:
o governo cria um fundo soberano

Seguindo o exemplo de países superavitários em suas balanças comerciais, o Brasil está criando um fundo soberano, uma forma de poupança para investimentos externos do país

F692

Na semana que passou, o ministro da Fazenda, Guido Mantega anunciou a criação pelo governo federal do Fundo Soberano do Brasil (FSB). Na sua forma peculiar, tentou explicar do que se tratava:

“Com o excedente, colocamos dinheiro no fundo. Vocês não têm um cofrinho em casa?”

Guido Mantega, ministro da Fazenda do Brasil

Para além da explicação do ministro, uma pesquisa sobre o novo termo evidencia o fundo soberano como um fenômeno recente na economia mundial, intensificado na esteira da valorização das commodities, em especial do petróleo, que enseja a criação de poupanças de países (daí a razão da expressão “soberano”).

“Fundo Soberano ou Fundo de Riqueza Soberana é um instrumento financeiro adotado por alguns países que utilizam parte de suas reservas internacionais. Os fundos soberanos administram as imensas reservas de divisas dos países que tiveram suas receitas multiplicadas de maneira formidável nos últimos anos. Essa modalidade de investimento estatal está crescendo de forma assustadora e vem sendo utilizada, na maioria das vezes, para adquirir participações em empresas estrangeiras, com objetivos financeiros e estratégicos.”

Wikipedia

Países como Abu Dhabi, Noruega, Singapura, Arábia Saudita, Kwait, China e Russia, são proprietários hoje dos maiores fundos soberanos do mundo, constituídos, a maioria deles, com os recursos excedentes da venda de petróleo (exceto a China que constituiu o seu com os excedentes do seu imenso superávit comercial). São recursos tão volumosos (Abu Dhabi tem quase US$ 900 bilhões e a China tem US$ 200 bilhões) que os países industrializados integrantes do G7 (EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá) já solicitaram o estabelecimento de um código de boas práticas para esses fundos visando fortalecer sua transparência e previsibilidade. Na recente crise dos subprimes, os fundos soberanos mostraram sua cara.

“Hoje o Morgan Stanley, que no passado foi grande detentor de dívidas de países latino-americanos, anunciou um rombo de quase US$ 4 bilhões no quarto trimestre. Ao mesmo tempo, o Fundo Chinês de Investimento, fundo formado por capital do governo chinês, o chamado fundo soberano, fez uma aplicação de US$ 5 bilhões. Recentemente o Citibank teve o socorro do fundo soberano dos Emirados Árabes.”

Miriam Leitão, 20.12.07

Eles compraram participações em empresas que, por conta da crise, estavam necessitando de aportes de  capital. O fundo brasileiro, segundo o ministro Mantega, será constituído por excedentes do superávit primário e por recursos arrecadados com a venda de títulos da dívida pública. Os recursos captados pelo fundo (em reais) serão utilizados para compra de dólares no mercado doméstico. Esses dólares serão destinados à aquisição de ativos no exterior. Com isso, segundo o jornal Valor, “o governo pretende apoiar interesses estratégicos do país no exterior, aumentar a rentabilidade dos ativos públicos, formar poupança pública e diminuir a quantidade de dólares disponíveis no mercado interno e, assim, reduzir a valorização da moeda.” Vamos ver no que vai dar.

Número 691 - 12 de maio de 2008

Os modismos da administração
e o tripé básico da gestão empresarial

Para além dos inevitáveis modismos da administração, deve ser considerado o tripé da gestão (ou 3 Es essenciais): Estratégia (“software”), Estrutura (“hardware”) e Equipe (“peopleware”)

 
Exceto pela próprio mundo fashion que se vê obrigado a produzir novas coleções a cada estação, talvez não haja outra área do conhecimento humano tão sujeita a modismo como a chamada Administração de Empresas. Basta dar uma olhada nas prateleiras das livrarias. A cada semana, novos títulos com novas teorias sobre como fazer isso ou aquilo ou, em se tratando de recomendações pessoais, como ser deste ou daquele modo. Neste caso, é preciso não esquecer a lição de um verdadeiro ícone da moda.

“Toda moda é criada para ficar fora de moda.”

Gabrielle Coco Chanel, 1883-1971, estilista francesa

Se, por uma hipótese absurda, uma empresa adotasse todas as novidades surgidas, certamente não teria vida longa, sobretudo porque muitos dos modismos advogam recomendações contraditórias.  A esse respeito, vale considerar a opinião de quem teve responsabilidade de dirigir uma empresa centenária.

“A Coca-Cola não se encaixa no que eu chamo de modos passageiros de técnica de gestão. Precisamos é olhar para o futuro e fazer nossos planos, mas não vamos nos engajar em modismos. Podemos, claro, escutar o que dizem alguns deles: se houver alguma lição a ser apreendida, tudo bem. Mas, em princípio, não vamos reorientar nossa administração pelo modismo de ontem.”

Douglas Ivester, ex-presidente da Coca-Cola Company

Claro que no meio do joio, existe algum trigo de boa qualidade. A sabedoria, justamente, é utilizar o que é utilizável sem se deixar enganar com as baboseiras, conforme alerta um renomado estudioso no assunto.

“A razão de eu ser contra modismos é que eles fazem as pessoas pararem de pensar. Isso não significa que você não deva usá-los inteligentemente, adequando-os ao seu caso.”

Henry Mintzberg, professor e pesquisador em gestão

A prática com a gestão empresarial tem demonstrado que, para além dos modismos, existe o que se pode chamar de tripé básico da gestão (os chamados 3 Es essenciais): Estratégia, Estrutura e Equipe.

Estratégia

“Ou você tem uma estratégia própria, ou então é parte da estratégia de alguém.”

Alvin Tofflerfuturólogo norte-americano

A Estratégia faz as vezes do “software” da gestão, é aquilo que se deve fazer para que a empresa não seja “uma folha ao sabor do ventos da concorrência”. Sem uma estratégia de boa qualidade não há futuro consistente possível.

Estrutura

“O sucesso de uma empresa não está em seu plano estratégico, mas em sua capacidade de fazê-lo tornar-se realidade.”

Larry Bossidyexecutivo norte-americano

Além de uma boa Estratégia, é preciso um bom “hardware”, uma boa Estrutura. Uma adequada e transparente divisão e supervisão do trabalho, com responsabilidades, tarefas e processos bem definidos.

Equipe

“A estratégia é inútil sem pessoas de alta qualidade.”

Frederick F. Reichheldconsultor norte-americano

Além de bons “software” e “hardware”, um “peopleware” adequado é fundamental. Para fazer acontecer a boa Estratégia e fazer funcionar a Estrutura bem desenhada, uma boa Equipe é absolutamente indispensável.

Número 690 - 05 de maio de 2008

Popularidade, grau de investimento e
a sucessão do sucessor do presidente Lula

Pilotando a maior popularidade de seu governo, o presidente Lula vê o país ganhar o atestado de maturidade macroeconômica e se habilita como forte candidato à sucessão do seu sucessor

GH 690

Já conhecedor, na semana passada, do resultado da última pesquisa do Instituto Sensus dando conta da melhor avaliação de sua gestão (69,3% de aprovação do desempenho pessoal e 57,5% de aprovação do governo), o presidente Lula, como a totalidade dos analistas e do público em geral, foi surpreendido com a notícia de que o Brasil tinha sido promovido a grau do investimento. Não se conteve e declarou na primeira reunião do Conselho Deliberativo da nova Sudene em Maceió:

“O Brasil vive um momento mágico.”

Presidente Lula

Pelo menos do ponto de vista macroeconômico, o presidente está com a razão. A elevação do Brasil de grau especulativo para grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, significa uma espécie de coroamento de quase 15 anos de um custoso esforço de estabilização da economia que passou pelo Plano Real, pela vitória contra a hiperinflação, pela abertura da economia, pela implantação do câmbio flutuante, do equilíbrio fiscal e do regime de metas de inflação, pela retomada dos superávits comerciais e pela recomposição das reservas cambiais (hoje na casa dos US$ 200 bilhões). Tudo isso, todavia, funciona como uma espécie de “colação de grau” como país sério, mas não garante o desempenho futuro, como bem destaca o economista do Ibmec no canal GloboNews (03.05.08).

“O grau de investimento é como uma formatura. O Brasil ganhou o grau mas não há garantia de que terá uma carreira de sucesso.”

Ruy Quintans, economista do Ibmec

Mesmo porque a entrada do Brasil no clube dos países macroeconomicamente responsáveis se deu, como não poderia deixar de ser, pela classificação mais baixa (BBB-) que significa “boas condições financeiras, mas não protegidas contra choques”. Acima desse existem ainda nove outros níveis. E, além da Standard & Poor’s, ainda existem duas outras agências consideradas de primeiro nível (Fitch e Moody’s) que são observadas pelos fundos de investimentos para balizar suas aplicações já que a maioria deles é estatutariamente proibida de colocar dinheiro em países que não tenham o grau de investimento (muitos fundos, inclusive, precisam da classificação de mais de uma agência de primeiro nível).

“O país está no nível mais baixo do grau de investimento e há muito que avançar. A própria Standard & Poor’s ressaltou problemas sérios, como o elevado nível de gastos governamentais e a falta de reformas estruturais, a exemplo da tributária.”

Revista Veja, 07.05.08

O fato é que, com a popularidade nas alturas e, agora, com o grau de investimento, o presidente Lula reafirma-se como candidato fortíssimo à sucessão de sua sucessão, sem considerar, por estapafúrdia, a tese do terceiro mandato. Já se cogita, inclusive, um cenário semelhante ao da volta de Getúlio Vargas, “nos braços do povo”, em 1951.

“Enquanto o Congresso gasta energia discutindo um terceiro mandato para o presidente Lula, seus aliados dizem que o melhor para ele, na verdade, é ter Dilma Rousseff e José Serra como candidatos à sua sucessão. Os dois têm perfil técnico e não ofuscariam a figura de Lula. Ele voltaria, então, em 2014. ‘Ou melhor, iriam buscar em casa’, repetiram a mesma frase dois aliados nesta semana.”

Ilimar Franco, Panorama Político, O Globo, 04.05.08

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