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Número 689 - 28 de Abril de 2008

O que está por trás do aumento
internacional do preço dos alimentos?

Essa história de transformar a produção de biocombustíveis no vilão da alta dos preços dos alimentos é verdade para o milho norte-americano mas não tem nada a ver com o etanol brasileiro

Além da crise na economia norte-americana, outro assunto tem freqüentado ultimamente com assiduidade a crônica econômica internacional: a alta dos preços dos alimentos. No que diz respeito ao Brasil, o assunto ganhou espaço no noticiário nacional depois que o ex-deputado suíço e atual relator especial da ONU para o direito à alimentação, Jean Ziegler, declarou em entrevista à Rádio da Baviera (Alemanha):

“O uso e fomento de biocombustíveis é um crime contra a humanidade. 

Jean Ziegler   

A declaração do ex-deputado levou a uma onda de protestos, inclusive do presidente Lula que atacou de forma enfática a visão equivocada (para não dizer favorável aos interesses dos chamados países desenvolvidos). Afinal, o Brasil está se posicionando no cenário internacional não só como o maior produtor mundial de alimentos mas, também, como o principal produtor de etanol derivado da cana-de-açúcar, considerado o mais viável dos biocombustíveis. Afinal, as razões do condenado aumento mundial dos preços dos alimentos são bem mais amplas do que aquela destacada pela frase de efeito. 

“A escalada do preço dos alimentos tem 5 causas principais, das quais duas podem ser consideradas irreversíveis: (1) aumento do consumo; e (2) preço do petróleo. As outras são: (3) a cotação do dólar no mercado internacional caiu 37% nos últimos 6 anos, provocando fuga de investidores para os fundos de commodities; (4) o incentivo do governo americano aos produtores de etanol de milho fez aumentar a cotação do grão e estimulou agricultores de soja e trigo a migrar para o milho; (5) secas, enchentes, pragas e doenças nos rebanhos provocaram quebras de safra graves na China, na Europa e na Austrália.”  

Revista Veja, segundo o site www.thetoptip.com.br     

Os alimentos estão mais caros, portanto, em razão da ação dos chamados fatores de mercado: do lado da demanda, entrada dos novos consumidores chineses e indianos sobretudo (mas brasileiros também). Mais gente comendo mais, então.  Do lado da oferta, com a elevação do preço do petróleo, aumentaram os custos de transporte e dos insumos (muitos fertilizantes são derivados de petróleo). Além disso, choques de oferta decorrentes de variações climáticas em muitos países produtores. Acrescente-se à situação já complicada a especulação financeira com as commodities e o quadro fica quase completo. Aí, o problema do subsídio à produção de etanol a partir do milho nos EUA funciona como se fosse  combustível jogado numa fogueira já grande. 

“Dar enormes subsídios para a produção de etanol é inaceitável moralmente, além de irresponsável. A produção acelerada de etanol a partir de milho vai provocar uma concorrência cada vez maior pela terra e, nessa disputa, a produção de alimentos deve perder. O volume de milho que for utilizado para o combustível acabará faltando na mesa dos consumidores em todo o mundo.

Peter Brabeck, presidente da Nestlé  

Esse é que é o problema condenado pelo relator e endossado pela ONU. Afinal, 40% do milho produzido nos EUA já são destinados à produção fortemente subsidiada de etanol. No Brasil, a plantação de cana corresponde a menos de 1% da área cultivada, sem falar que cerca de metade da cana é destinada à produção de açúcar. O problema é norte-americano, portanto, e não brasileiro.  

Número 688 - 21 de abril de 2008

Banco Central volta a aumentar
os juros para combater a alta da inflação

O Banco Central elevou a taxa básica de juros para arrefecer a demanda interna e prevenir o aumento da inflação agravada pela elevação internacional dos preços das matérias primas

Depois de três anos sem aumentar os juros, o Banco Central resolveu, na semana passada, elevar a Selic em 0,5 ponto percentual, fazendo subir de 11,25% para 11,75% a taxa básica anual. A ação do Copom (Comitê de Política Monetário) teve o objetivo declarado de evitar que o aumento dos índices de preços no atacado, que já estavam em processo de elevação de 10% ao ano, contamine os índices de preços ao consumidor. Ou seja, uma ação preventiva contra o aumento da inflação.

“O BC tem que agir como aquele médico que diz: muito bem, você tem que comer menos agora. Tem que comer bem, mas sem exagerar para que sua saúde continue bem. Em resumo, o BC tem de tomar as providências para que o país continue numa trajetória saudável.”

Henrique Meirelles, presidente do Banco Central

A decisão acirrou a discussão entre os favoráveis ao aumento dos juros básicos e aqueles que são terminantemente contra. O nível dos juros no Brasil é considerado um dos mais altos do mundo em termos reais (acima de 7% descontada a inflação — os dos EUA, só em termos de comparação, são hoje negativos). Na base desta discussão, está a questão de que taxa de crescimento a economia suporta sem forçar a taxa de inflação.

“As autoridades monetárias consideram que a economia brasileira não é capaz de conviver com um ritmo de crescimento de 5% e manter a inflação abaixo de 4,5%.”

George Vidor, jornalista econômico, O Globo, 21.04.08

Há praticamente um quarto de século com baixíssimo crescimento e sem investimento necessário à ampliação da capacidade produtiva e da infra-estrutura, o país vê-se diante do dilema de não poder crescer muito, puxado pela demanda interna, sem ver a inflação aumentar. Trata-se da velha lei da oferta e da procura. Se a demanda é maior do que a oferta, o preço aumenta. E para complicar, apesar de os índices de investimento estarem aumentando, os insumos estão há anos com preços ascendentes no mundo, a começar pelo preço dos alimentos  (que já aumentou mais de 40% desde meados do ano passado) e do petróleo que já bateu o recorde histórico de US$ 118 o barril. A inflação já é considerada uma ameaça até maior que a recessão norte-americana.

“O Brasil não é um caso isolado de elevação da inflação. Da China aos Estados Unidos, a alta dos preços de energia e das commodities tem obrigado bancos centrais a tomar posturas cautelosas para manter a inflação sob controle. Na China, a alta dos preços já chega a 8,3% ao ano — quase o dobro do centro da meta brasileira.”

Portal Exame, 17.04.08

A tese é que a recessão norte-americana só afundará os países emergentes se provocar o fim do boom das commodities, enquanto a inflação já está causando alta dos juros e retração do consumo em vários países. Essa é a má notícia. A boa é que, diferentemente do que acontecia nas outras altas de juros no passado recente, o país se encontra melhor preparado para que o aumento dos juros tenha efeito mais imediato.

“O volume de crédito na economia aumentou de 24% para 35%. Com isso, uma mesma alta de juros tem efeito maior sobre a inflação, já que o principal canal para que a política monetária controle os preços é tornando os financiamentos mais caros e reduzindo o consumo.”

Luciana Rodrigues, jornalista, O Globo, 20.04.08

Número 687 - 14 de abril de 2008

Ao contrário das situações “normais”,
na crise não cabe liderança compartilhada

Na situações excepcionais de crise aguda, o líder deve aproveitar a oportunidade para tomar as decisões necessárias e fazer as mudanças indispensáveis à sobrevivência da organização

O tema tratado no Gestão Hoje anterior destaca a importância do líder trabalhar para que a equipe precise mais ser “segurada” do que “puxada”. Todavia, essa postura, extremamente benéfica do ponto de vista da gestão no longo prazo, se aplica com mais propriedade nas situações em que não são exigidas mudanças muito aceleradas em resposta a crises. A propósito da questão das mudanças, inclusive, há quem defenda que elas só ocorrem, de fato, impulsionadas pelas crises.

“Mudanças só ocorrem nas crises. Em situações normais, a tirania do ’status quo’ prevalece.”

Milton Friedman, 1912-2006, economista dos EUA

Ainda que possa não ser tão radical assim, o fato é que as crises são boas oportunidades para promover mudanças. Quanto maiores, mais carregam o potencial de resolução pelo incômodo que provocam.

“As crises primeiro têm de ficar realmente grandes para que sejam então resolvidas.”

José Alexandre Sheinkman, economista brasileiro

Uma peculiaridade das crises é que, muitas vezes, elas se arrastam durante longo tempo, sem se mostrarem em sua plenitude, até que se transformam em agudas e passam a evoluir com rapidez insuspeitada.

“Chegar até a crise demora mais do que você pensa e acontece mais rápido do que você poderia imaginar.”

Rudiger Dornbusch, 1942-2002, economista alemão

Uma das principais características das crises é que elas forçam a tomada da decisão de mudar. A própria origem da palavra já remete a isso. Mas, enquanto a crise não se torna aguda e reclame soluções urgentes, a tendência é os envolvidos e responsáveis pelas decisões, irem deixando para depois na esperança de que os problemas se resolvam por eles mesmos, o que, na maioria das vezes, simplesmente não acontece.

“A palavra crise (do grego krisis) significa momento de decisão.”

Maria José Bretas Pereira, consultora mineira

Quando a crise se mostra na sua inteireza, os líderes conscientes de suas responsabilidades aproveitam a oportunidade que ela traz e tomam as decisões necessárias à realização das mudanças. A propósito, o ideograma chinês que representa palavra crise tem o duplo sentido de problema e oportunidade.

“O pessimista vê uma crise em cada oportunidade. O otimista vê uma oportunidade em cada crise.”

Winston Churchill, 1874-1965, estadista inglês

Oportunidade e risco, às vezes de aniquilamento, que precisam ser enfrentados com determinação e sem perda de tempo, sem titubeio. Para isso, o reforço da hierarquia é fundamental. O líder tem que “pegar o touro pelo chifre”, sem questionamentos.

“A hierarquia, e a aceitação dela sem questionamentos por todos na organização, é a única esperança de salvação numa crise.”

Aí, diferentemente do exposto no Gestão Hoje anterior (ver GH/686), se a equipe já não for autônoma e capaz de caminhar com suas próprias pernas, não dá para esperar que seja. O líder precisa agir, e agir rápido, pois a demora pode causar perdas irreparáveis, quando não a sobrevivência da organização.

“Na crise, não existe liderança compartilhada. Quando um barco está afundando, o capitão não pode convocar uma reunião para ouvir pessoas.”

Peter F. Drucker

Número 686 - 07 de Abril de 2008

Quando se trata da equipe,
é melhor segurar do que ter que puxar

Para precisar “segurar” em vez de ter que “puxar” ou “empurrar” a equipe, faz-se necessária uma mudança cultural e, principalmente, uma mudança de atitude gerencial muito importante

O padrão tradicional de liderança é aquela que, vinda de baixo, acostumou-se a realizar as coisas por conta própria, a fazer acontecer por cima de pau e pedra, saindo na frente dos demais e produzindo resultados. Como conseqüência natural desse exercício de realização, dá-se a promoção para funções de chefia ou, no caso do empreendedor, consolidação do seu papel de líder à frente da empresa. O crédito para ambos é o trabalho feito e os bons resultados conseguidos à custa da energia despendida.

“Liderança é consciência e trabalho duro.”

Peter Drucker, o guru dos gurus da Administração

Não existe história de liderança digna do nome que tenha se firmado com moleza. Todavia, por conta da prática realizadora, o líder que seguiu essa trajetória tem dificuldade de perder o costume de puxar ou empurrar os seus liderados para que façam o que precisa ser feito. Enquanto a tarefa ou a empresa é de um tamanho que comporta ser tracionada pela força motriz do líder, dá para ir levando. Os problemas começam, de fato, quando o tamanho da tarefa aumenta ou quando a empresa vê-se diante da necessidade de crescimento acelerado. Aí, o líder, acossado pela urgência de mais realização, dependendo das pessoas lideradas para acontecer, exaure-se na tração e começa a perder a paciência com mais freqüência que o usual, distribuindo destemperos e/ou punições.

“Não se lideram pessoas batendo em suas cabeças — isso é agressão, não liderança.”

Dwight D. Eisenhower, 1890-1969, presidente dos EUA

Quando a situação chega neste ponto, é hora de mudar com urgência, caso contrário tudo pode colocar-se a perder. O problema é que, quando isso acontece, já está estabelecida uma situação de acomodação da equipe que exigirá uma mudança de atitude do líder e uma estratégia de desenvolvimento do protagonismo das pessoas lideradas que nada tem de fácil. Essa estratégia envolve, não raro, a inclusão de novas pessoas na equipe. E, aí, o cuidado deve ser redobrado com a seleção.

“Ao contratar alguém, busque integridade, inteligência e energia. Integridade é o mais importante — se o candidato não a tiver, as outras duas vão te matar.”

Warren Buffett, mega-investidor norte-americano

A inclusão de novas pessoas é importante mas, por si só, não resolve o problema. A mudança de atitude do líder é um fator-chave, ao mesmo tempo que é algo dificílimo. Afinal, toda a história pessoal e organizacional foi construída de um jeito bem diferente do necessário no novo momento. Talvez um dos primeiros marcos dessa mudança seja o líder abrir mão do lugar de “sabe-tudo”, muito freqüentemente aproveitado pela equipe para se desobrigar de assumir responsabilidades maiores.

“Os melhores líderes são, também, os melhores aprendizes, e ousam dizer “não sei” — uma frase que automaticamente estimula os outros a iniciar uma viagem para lugares desconhecidos.”

Tom Peters, consultor norte americano

A prática tem demonstrado que diante de situações desse tipo, o melhor é procurar um apoio externo que possa ajudar na transição uma vez que é muito difícil mudar uma situação instalada há tempos apenas com a energia interna. Mudar a posição de puxar ou empurrar a equipe pela de “segurar” o seu ímpeto é uma das coisas, ao mesmo tempo, mais difíceis e essenciais da moderna liderança estratégica. Essa simples mudança de lugar pode significar a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma empresa no nosso competitivo mundo globalizado.

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