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Número 676 - 28 de janeiro de 2008

Turbulências no mercado financeiro
internacional recomendam cintos afivelados

Assustadas pelos sinais preocupantes de desaquecimento emitidos pela economia norte-americana, as bolsas de valores ao redor do mundo têm maior queda desde o 11 de setembro

A semana que passou foi marcada em termos econômicos por recordes preocupantes. O primeiro deles aconteceu na segunda-feira 21.01 quando o mercado acionário mundial teve o pior desempenho desde os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001. Na terça 22, o Federal Reserve (Fed) reduziu a taxa básica de juros norte-americana de 4,25% para 3,5%, configurando o maior corte feito de uma só vez desde 1984. Tratou-se de uma ação forte para tentar conter as tendências depressivas da economia dos EUA que, na opinião de vários analistas, não passou de reação questionável, conforme destaca o representante do Brasil no FMI, economista Paulo Nogueira Batista Jr.

“O Fed está correndo atrás do prejuízo. As autoridades monetárias e fiscais subestimaram a extensão da crise e agora têm pouco tempo para agir. (…) A decisão de antecipar o corte de juros, por exemplo, pode ter impacto ambíguo, sobretudo quando tomada de afogadilho. Por um lado, o efeito é positivo — o Fed finalmente acordou para a gravidade da crise. Por outro, pode gerar mais insegurança — o que é que o Fed sabe que nós não sabemos?”

Paulo Nogueira Batista Jr., Folha de S. Paulo, 24.01.08

Depois da medida do Fed, as bolsas voltaram a subir configurando uma forte oscilação que, também segundo os analistas, é mais uma evidência da crise que se avizinha. Na verdade, cada vez mais vai ficando evidente a tendência de forte desaquecimento da economia norte-americana. A dúvida é de que tamanho será a queda.

“Analistas estimam que se as bolsas estão refletindo de fato uma recessão à frente, elas deverão cair mais ainda. Essa é a perspectiva mais provável, já que os juros negativos e estímulos fiscais só terão impactos plenos no segundo semestre do ano.”

Jornal Valor, 25.01.08

Portanto, ao que tudo faz crer, ainda teremos um período mais ou menos prolongado de turbulências que deixa todos os agentes não só com o pé atrás como também com muitas dúvidas. Agora mesmo, encerrou-se a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos na Suíça, evento que reúne os principais nomes da economia mundial, sem que se chegasse a um acordo mínimo sobre o tamanho do problema.

“O essencial é saber o tamanho da besta.”

Javier Santiso, vice-diretor da OCDE

Como ninguém sabe o que vai acontecer, o nervosismo dá o tom do mercado financeiro e as turbulências acontecem como na semana passada. A Bovespa, por exemplo, oscilou fortemente e terminou a semana mantendo a perda acumulada em 2008 de 10%, muito embora esteja numa boa posição em comparação com as demais bolsas mundiais em razão de sua valorização recorde em 2007 de 43,65%, só perdendo para a bolsa de Xangai.

“De um modo geral, as turbulências não têm poupado ninguém, com o efeito cascata afetando a todos. A Bolsa brasileira até que não está tão mal no ano, se considerarmos o que subiu em 2007.”

Jason Freitas Vieira, economista, FSP, 26.01.08

Seja como for, a situação exige cintos afivelados para aguardar o que vem pela frente. Se o tranco for grande, ninguém sairá ileso por conta do tamanho da economia norte-americana (mais de ¼ da economia do planeta). Nem mesmo o Brasil, muito embora em condições bem melhores do que nas crises anteriores.

Número 675 - 21 de janeiro de 2008

A Bossa Nova faz 50 anos e reafirma a
importância internacional da música brasileira

Uma das manifestações culturais mais representativas do pensamento e da cultura nacionais, a música popular brasileira ganhou fama internacional com a Bossa Nova surgida em 1958

Em 2008 a Bossa Nova completa 50 anos com a comemoração do lançamento do LP Canção do Amor Demais que reuniu a voz de Elizeth Cardoso, a música de Tom Jobim, a letra de Vinícius de Moraes e o violão de João Gilberto. Mais do que um estilo musical, a Bossa Nova personificou uma época da história brasileira.

“Ela pode ser interpretada, por exemplo, como a trilha sonora de uma época, dos ‘anos dourados’, a tal ponto que virou adjetivo para o presidente Juscelino Kubitschek, para o arquiteto Oscar Niemeyer ou para a seleção de Pelé.”

Daniel Piza, jornalista, revista Continente, jan/2008

Uma época que representou uma lufada de esperança num destino afortunado para o Brasil. Saído da era Vargas, o país abria-se para o mundo com a implantação da indústria automobilística, a construção de Brasília, a arquitetura de Niemeyer, o primeiro título mundial do futebol brasileiro. O país estava emergindo da “fossa”, representada na música pelo samba “dor de cotovelo”, para um período de esperança no futuro, uma época nova, representada pelo estilo “bossa nova”. A própria expressão “nova” já dizia respeito a uma renovação de outra “bossa” surgida na década de 30, também como uma renovação do samba levada a efeito por Noel Rosa e sua geração, em meio à qual se destacava seu parceiro Vadico.

“Vadico trouxe para a música de Noel novos elementos que foram sendo incorporados aos poucos e dando um novo tom ao samba. Mais tarde, essa mistura seria batizada de ‘bossa’. Essa foi a primeira ruptura na história da MPB. (…) A segunda ruptura aconteceria mais tarde, em 1959, quando o morro conversaria com o asfalto novamente e (…) brotaria a nova bossa, a ‘bossa nova’.”

MPB Compositores, Editora Globo

A importância da Bossa Nova não se restringe à sua época de surgimento mas destaca-se pelo que promoveu no mundo em termos de divulgação do Brasil e de uma de suas mais importantes manifestações culturais que é a música popular brasileira (MPB).

“Mais do que uma simples categoria de manifestação artística, a música popular brasileira é um tipo de catalisador do pensamento e da cultura nacionais. Há muito a música foi eleita como veículo que entre nós, brasileiros, nos sentimos mais confortáveis para comunicar nossas paixões, nossas angústias, medos, ressentimentos, procuras, nossas posições políticas.”

MPB Compositores, Editora Globo

Depois que surgiu registrada em disco num feliz encontro de talentos do porte de Vinícius, Tom e João Gilberto, a Bossa Nova envolveu toda uma geração de jovens habilidosos que deram ao movimento e ao seu produto musical uma qualidade universalmente reconhecida. Um exemplo mais do que evidente da qualidade da música brasileira que passou a ganhar fama internacional e a entrar nas listas das composições mais tocadas do mundo, ainda hoje, meio século depois.

“A Bossa Nova, cantada e tocada como se deve, com toda a sua riqueza harmônica, já é um patrimônio da humanidade e assim continuará daqui a 50 anos.”

Daniel Piza, jornalista, revista Continente, jan/2008

Número 674 - 14 de janeiro de 2008

Risco de racionamento de energia
pode comprometer o crescimento em 2008

Com o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas perigosamente baixo, o país corre o risco de um racionamento que comprometeria seriamente o crescimento projetado para 2008

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Delfim Netto, economista, com passagem pelos ministérios da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento, em entrevista dada à revista Dinheiro, relaciona os dois principais motivos que, no seu entendimento, impediriam o crescimento do país.

“O que impede o crescimento? Os obstáculos, na verdade, são dois. De um lado, energia. Se você não tiver e não puder importá-la, a máquina não roda. De outro, é o déficit externo, em conta corrente.”

Delfim Netto, Dinheiro, 16.12.07

Sobre as contas externas, o GH anterior (GH/673), já tratou do assunto, destacando que, pela primeira vez no governo Lula, projeta-se um déficit em 2008. Sobre a falta de energia, na semana passada o tema chegou às manchetes dos jornais pelo diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, que afirmou não ser impossível que o país venha a enfrentar um apagão ainda este ano. Ele foi desmentido pelo governo, mas trouxe à luz um assunto que vinha sendo tratado na surdina, configurando um cenário potencial de crise.

“Esse cenário de crise resulta da conjugação de alguns fatores que se agravaram nos últimos meses. Os mais importantes são: o aumento do consumo em razão de um crescimento econômico mais acelerado e a ocorrência de um regime de chuvas bem menos favorável.”

Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista

A falta de energia inclui-se no problema maior do sucateamento da infra-estrutura nacional que pode se constituir no maior entrave à retomada do crescimento econômico continuado. Mais de duas décadas de crescimento baixo e de investimentos reduzidos provocaram o quadro atual que o governo Lula vem tentando enfrentar com o PAC. No que diz respeito à energia, o governo ainda promoveu uma revisão do marco regulatório do setor que atrasou perigosamente os investimentos em geração de energia nova.

“Na energia, houve atrasos e começamos a entrar num modelo totalmente equivocado. Cometemos erros um atrás do outro.”

Delfim Netto, Dinheiro, 16.12.07

Como resultado, a oferta foi ficando defasada e agravou-se com o aumento da demanda e a falta de chuvas para garantir o adequado nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas, além da crise do gás, insuficiente para consumo automotivo e industrial e para abastecer as usinas termelétricas, projetadas para compensar a falta de chuvas e afastar o risco de racionamento.

“Até março, dependeremos da dança das chuvas. Racionamento de gás é uma possibilidade real nesse primeiro trimestre.”

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo, 11.01.08

Um racionamento de energia agora seria um duro golpe nas projeções otimistas de crescimento econômico em 2008. Assim como há quem ache que esse cenário ruim se materializará, há outros como o próprio Delfim Netto que acham que o pior já passou e que agora o governo acertou o passo com a conclusão do processo de licitação da hidrelétrica do Rio Madeira. Pelo sim, pelo não, é bom ficar de olho no nível dos reservatórios…

“Agora com esse leilão do Madeira, o governo se recuperou (…) dá para assegurar: não vai mais faltar energia no País. O problema está superado.”

Delfim Netto, Dinheiro, 16.12.07

Número 673 - 07 de janeiro de 2008

Pela primeira vez no governo Lula
deve haver déficit nas contas externas

De acordo com as últimas projeções do Banco Central, deve haver um déficit de US$ 3,5 bilhões na conta de transações correntes do Brasil com o exterior no exercício de 2008

Além dos aspectos relevantes que podem impactar a economia nacional considerados no GH/671, um outro merece destaque em 2008. Pela primeira vez no governo Lula, a conta de transações correntes (que contabiliza todas as negociações de bens e serviços com outros países), deve apresentar déficit em 2008.

“Até novembro, o saldo acumulado ainda é positivo em US$ 4,254 bilhões, mas está bem abaixo dos US$ 13,183 bilhões registrados no mesmo período de 2006. Segundo o BC, esse saldo deve ficar negativo em US$ 3,5 bilhões no ano que vem, revisando a projeção anterior de superávit de US$ 3,2 bilhões em 2008.”

Folha de S. Paulo, 20.12.07

Esse déficit projetado passa a ser objeto de preocupação maior quando os cenários internacionais destacam os riscos de propagação dos efeitos negativos do estouro da bolha imobiliária norte-americana, conforme ressalta o ex-ministro Rubens Ricupero.

“Na economia mundial, o pessimismo se alimenta de: (1) revelações semanais de novas perdas bilionárias dos bancos e contínua queda de preços dos imóveis; (2) impotência para reverter a derrocada até por meio de cortes de juros de um ponto percentual de uma só vez; (3) a sensação de início de pânico decorrente de quatro ou cinco injeções maciças de liquidez pelos bancos centrais; (4) a inflação provocada por alimentos e petróleo; (5) as declarações alarmistas do ex-presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos) Alan Greenspan e do ex-secretário do tesouro norte-americano Larry Summers.”

Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda

Em relação à importância e às conseqüências desse provável déficit, as opiniões se dividem. Alguns analistas acham que se trata de algo ruim que compromete a qualidade do desempenho econômico do país, como é o caso do economista e professor da PUC paulista.

“É um desperdício. É um erro de política econômica deixar um déficit aparecer depois de cinco anos de esforços para reduzir a vulnerabilidade externa do Brasil.”

Antônio Correia de Lacerda, economista da PUC/SP

Já outros acham que o fato não é importante e que o fluxo positivo de capitais no mundo é suficiente para financiar o déficit, em especial quando se tratam de recursos para investimento produtivo, mais estáveis que os recursos para aplicações em bolsa, por exemplo.

“Não se imagina o país numa situação de insolvência. Haverá um déficit, mas será financiado.”

Francisco Pessoa, economista da LCA

Há, inclusive, os que acham que o crescimento das importações é benéfico para segurar os preços internos num ambiente de aquecimento da demanda, já que sem a oferta dos importados poderia haver inflação porque a capacidade de produção está perto do limite.

Pelo sim, pelo não, é bom ficar de olho nesta novidade do período Lula. Afinal, a euforia do consumo verificada no final do ano e que deve prosseguir em 2008 pode ofuscar a adequada percepção dos riscos, em especial com um cenário internacional duvidoso.

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