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Número 663 - 29 de outubro de 2007

O grande mérito do bom filme
Tropa de Elite é recolocar o debate

A razão do grande sucesso do filme talvez seja o fato de recolocar o debate sobre o grave problema da violência a partir do ponto de vista de uma polícia competente e não corrupta

 

A primeira coisa que se pode dizer do badaladíssimo Tropa de Elite, do diretor José Padilha, maior sucesso de bilheteria e fenômeno de pirataria do cinema nacional, é que se trata, ao mesmo tempo, de um  bom e aterrador filme. Bem feito como filme e terrível pela realidade que retrata de forma dura, sem floreios.

“José Padilha não poupa talentos e recursos dramatúrgicos para deixar-nos cara a cara para o que de mais macabro produzimos em matéria de desrespeito à vida e à dignidade da pessoa. Instituições falidas e indivíduos desencantados debatem-se como moscas tentando escapar da maligna teia de destruição que se contrai e os tritura de forma inexorável. É o lado do Brasil cronicamente inviável, fluindo num jorro de imagens que comovem, dão repulsa e fazem pensar.”

Jurandir Freire Costa, psicanalista, ESP, 07.10.07

Faz pensar, principalmente, sobre que país estamos permitindo que seja construído. Um país em que as crianças e os jovens, sobretudo se forem pobres, ficam sujeitos à violência e à falta de perspectivas que os conduz, com freqüência assustadora, à idolatria dos criminosos e, por conseguinte, ao crime, como bem define o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, delegado da Polícia Federal.

“Se não for apresentado a nenhuma outra opção, o jovem se espelhará no ídolo dele, que é o dono da boca-de-fumo: um sujeito com o corpo malhado, que tem correntinha de ouro, transa com qualquer menina e tem o carro que quer porque manda roubar, tem o celular bom porque manda roubar. É imprescindível que o estado, as políticas públicas, ataquem isso.”

José Mariano Beltrame, Veja, 31.10.07

Enquanto esse ataque não se dá nem, muito menos, aparenta que pode acontecer tão cedo, um filme como o Tropa de Elite funciona como uma espécie de catarse coletiva em busca de heróis e soluções.

“A importância do filme é ter-nos transformado em personagens (…) de um país sem enredo. Que estamos famintos de que algo aconteça, de que alguma forma de justiça se faça (…) de que não haja só aquela polícia podre de oficiais pegando jabá do bicho, de que haja heróis incorruptíveis e machos vingadores da nossa segurança. O que conta é a fome de solução que ele desperta nas pessoas.”

Arnaldo Jabor, CBN, 08.10.07

E o que é mais triste disso tudo é que não há solução fácil nem heróica para o grave problema da violência e da falta de segurança que se disseminou pelo país e que tem o Rio de Janeiro como palco principal. Não resta a menor dúvida de que é preciso enfrentar a bandidagem, de que é preciso restaurar o direito de ir e vir nas áreas urbanas tomadas pela violência, de que é preciso por um limite à ação criminosa dos traficantes. Mas, infelizmente, isso só não basta. Para cada jovem preso ou morto nessa guerra fratricida, existe uma fila de outros que se não forem para o tráfico vão para qualquer outra coisa ruim, menos o estudo e, depois, o trabalho honesto. Tudo por falta de opção. A sociedade brasileira, ou seja, nós todos, estamos desafiadas a encontrar esse caminho. Não podemos ficar esperando pelo Tropa de Elite 2.

Número 662 - 22 de outubro de 2007

Considerações sobre o erro e suas
repercussões sobre a nossa vida cotidiana

Se considerarmos que só existe certeza na vida quanto à ocorrência da morte, dos impostos e dos erros, vale a pena aproveitar uma boa oportunidade para refletir sobre o erro e seus efeitos

 

No título do Gestão Hoje que circulou via e-mail na semana passada, por um lapso de revisão, saiu estampado no título um “mais” (advérbio) no lugar de um “mas” (conjunção). O correto seria: “O Brasil avançou bastante nos últimos 40 anos mas ainda perde para a concorrência”. Além da correção e das desculpas aos leitores, o ocorrido enseja, também, a oportunidade de tratar sobre o erro, a começar pela milenar sabedoria chinesa.

“Um homem que comete um erro e não corrige está cometendo outro erro.”

Confúcio, 551 a.C .- 479 a.C., pensador chinês

O tema é tão antigo quanto a natureza humana e tão freqüente quanto nossa atividade cotidiana. Já se disse até que só existem três coisas certas na vida: a morte, os impostos e o erro. Vittorio Gassman, o grande intérprete italiano, chegou a atribuí-lo, usando a metáfora de sua profissão, um tanto hereticamente, ao criador por não nos ter possibilitado uma outra chance para não cometer tantos erros.

“O único erro de Deus foi não ter dado duas vidas ao ser humano: uma para ensaios outra para atuar.”

Vittorio Gassman, 1922-2000, ator italiano

Juscelino Kubitschek de Oliveira, político de uma estatura que faz tanta falta ao país, tinha uma frase que define bem qual deve ser a atitude correta diante do erro, considerando a sua indesejada freqüência.

“Volto atrás, sim, com o erro não há compromisso.”

Juscelino Kubitschek, 1902-1976, presidente do Brasil

Não voltar atrás ou, antes, não reconhecer, por mero orgulho, o erro cometido pode colocar qualquer um, em especial quem está numa situação de poder que potencializa as conseqüências das falhas, em uma contramão perigosa.

“Quantos crimes foram cometidos meramente porque seus autores não conseguiam suportar o fato de estarem errados!”

Albert Camus, 1913-1960, escritor argelino-francês

Por certo em razão de sua freqüência na vida e na atividade humana, o erro é objeto de farta referência literária e praticamente todos os principais pensadores e escritores, direta ou indiretamente, já se referiram a ele. Alguns de forma irônica ou cômica como é o caso do reconhecido escritor norte-americano Samuel Langhorne Clemens que usava o pseudônimo de Mark Twain, segundo as más línguas da época pelo fato de gostar de pedir dois drinks de cada vez e mandar o garçom marcar duplo (mark twain) na sua conta.

“Tenha cuidado ao ler livros sobre saúde. Você pode morrer devido a um erro de impressão.”

Mark Twain, 1835-1910, escritor norte-americano

Não só na literatura como em todos os campos do conhecimento ou do fazer humanos, o erro é citado. Seja na economia, seja nos negócios, seja na política como destaca, também de forma bem humorada, o político norte-americano Hubert Humphrey que chegou a ser vice-presidente dos EUA.

“Errar é humano. Culpar outra pessoa é política.”

Hubert H. Humphrey, 1911-1978, político dos EUA

E para terminar essas breves considerações sobre o erro, uma frase do grande jornalista, humorista e escritor brasileiro Millôr Fernandes sobre o erro dos outros e a grande falha da natureza em não fazê-los sentir por isso.

“Grande erro da natureza é a incompetência não doer.”

Millôr Fernandes, humorista brasileiro

Número 661 - 15 de outubro de 2007

O Brasil avançou bastante nos últimos
40 anos mas ainda perde para a concorrência

Abordagem da revista Exame mostra com clareza os grandes avanços realizados pelo país nas quatro últimas décadas e aponta as desvantagens competitivas para a Rússia, a Índia e a China

 

A última revista Exame (10.10.07), aproveitando a oportunidade da comemoração dos 40 anos da publicação, traça a evolução da economia e da sociedade brasileira nas quatro últimas décadas e chega à conclusão que, embora o primeiro impulso seja achar que falhamos na construção de um país moderno, o balanço é, na verdade, bem positivo.

“… poucas nações no mundo enfrentaram desafios tão grandiosos como Brasil nas últimas décadas. (…) Olhe para trás, caro leitor. Você verá um país onde mais da metade da população vivia no campo e produzia na base da enxada. Verá uma sociedade na qual quase 40% da população era analfabeta e mais da metade das crianças estava fora da escola. Enxergará um mercado de consumo primitivo.”

Cláudia Vassallo, Carta ao Leitor, Exame, 10.10.07

De fato, como diz a Exame, “de uma nação agrária, atrasada e fechada, o país avançou o suficiente para transformar-se numa economia moderna e relevante para o mundo. Sua renda per capita mais que quadruplicou no período, o acesso à educação básica universalizou-se e o volume de vendas ao exterior cresceu de 1,6 bilhões de dólares para o patamar de 137 bilhões de dólares por ano. No campo, se a imagem que representava o país no passado era a figura indolente do jeca-tatu, hoje o Brasil é reconhecido nessa área como uma das potências mundiais do agronegócio”.  Mas, se é assim, por que, então, tanta dificuldade de reconhecer esses avanços? Renato Janine Ribeiro, professor da USP, dá um palpite.

“Exageramos tanto em nossos momentos de sucesso quanto nos de fracasso. Essa característica não nos permite ver, com clareza, quanto o Brasil mudou do final dos anos 60 para cá.”

Renato Janine Ribeiro, cientista político

Além disso, pesa também nesse estado de espírito, a comparação desvantajosa em relação aos nossos concorrentes, como destaca a Exame: “o país deve terminar este ano com uma taxa de evolução do PIB na casa dos 5%, a melhor marca dos últimos três anos. Mesmo assim, será a pior performance entre os outros gigantes emergentes — Rússia, Índia e China.”

“Nos anos 80, tínhamos uma participação no comércio mundial igual à da Coréia do Sul e à da China. Hoje continuamos com o mesmo 1%, enquanto a Coréia chegou a 3% e a China está batendo em 9%.”

Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda

Talvez uma conclusão possível seja essa: avançamos muito, mas estamos em desvantagem na corrida com os concorrentes. O que falta? Num artigo para a revista, o professor da Universidade de Chicago e Prêmio Nobel, Gary Becker, sugere três fatores prioritários para o Brasil ajustar sua capacidade competitiva.

“O primeiro é o que chamamos de capital humano - educação, treinamento, motivação para os empregados. (…) O segundo fator é a tecnologia. (…) O terceiro fator importante é política governamental. Sem boas políticas, mesmo nações com muito capital humano não conseguem prosperar.”

Gary Becker, Prêmio Nobel de Economia

Número 660 - 08 de outubro de 2007

O Supremo inicia Reforma Política
que o Congresso insiste em não fazer

Com o Congresso Nacional deixando de cumprir o seu papel de vanguarda da vontade popular,o STF recoloca a questão da fidelidade partidária no lugar e inicia na prática a reforma política

Em mais uma decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu no último dia 04.10.07 que, no caso das eleições proporcionais (deputados estaduais, federais e vereadores), os mandatos não pertencem aos candidatos, mas, sim, aos partidos políticos pelos quais foram eleitos. Foi uma decisão que sacramenta outra decisão que já havia sido tomada no dia 27.03.07 pelo Tribunal Superior Eleitoral que considerou o “quociente eleitoral” a partir da votação total das siglas.

A raiz do problema e da acertada decisão do Supremo encontra-se no fato de ocorrer o seguinte para a apuração dos resultados de uma eleição proporcional (segundo o portal de notícias G1): “somam-se todos os votos válidos (sem brancos ou nulos) referentes àquele cargo e divide-se o total pelo número de cadeiras em disputa. No caso da Câmara dos Deputados é considerado o total de votos válidos de cada estado e dividido pelo número de cadeiras a que cada estado tem direito. Se existem 20 cadeiras e 200 mil votos válidos, o quociente será 10 mil. Isso significa que a cada 10 mil votos que o partido receber, elege um candidato — pela ordem dos mais votados. Por exemplo, se um candidato recebeu 45 mil votos e o partido como um todo 50 mil, mesmo tendo demais candidatos com baixa votação, conseguirá eleger cinco candidatos por causa do quociente eleitoral de 10 mil. Mesmo que o quinto colocado dentro daquele partido tenha um voto, ele será eleito. Um outro candidato, de partido diferente, que tenha tido votação maior, pode ficar de fora.”

Fica, portanto, óbvio que o voto não pode ser do eleito mas do partido e a decisão não só corrige uma distorção como, na prática, faz uma parte da reforma política que o Congresso ainda não fez.

“Acho que é também um certo recado para o Poder Legislativo, como se dissesse o seguinte: ’se vocês não estão fazendo a reforma política nós estamos dando um passo’.”

Tarso Genro, ministro da Justiça

Uma lição, portanto, para o Poder Legislativo que, por interesses corporativos, não está fazendo a sua parte e com isso praticando, dentre outras desconsiderações da vontade do eleitor, o imoral troca-troca de partidos com interesses muitas vezes inconfessáveis como muito bem destaca o governador Aécio Neves, com a autoridade de ex-presidente da Câmara  dos Deputados.

“Valoriza a vida pública permitindo uma reconciliação do eleitor com seu representante. Porque as frustrações são imensas no momento em que essa dança de cadeiras, sempre na direção de quem está no poder, se alarga pelo país. O Congresso Nacional era a Casa adequada para se fazer. Não se fez lá, que se faça no Supremo.”

Aécio Neves, governador de Minas Gerais

Ou seja, mesmo sem que os parlamentares façam a sua parte, a sociedade avança com essa decisão do Supremo e recoloca em pauta algumas questões importante e que já passaram do tempo de serem objeto de reforma política específica.

“A fidelidade partidária é elemento determinante para a coerência política no País. Este é o primeiro passo para a busca da reforma política que deverá contemplar mecanismos para o financiamento público de campanha, redução do mandato de senadores, assim como regras claras para participação popular.”

Cláudio Lamachia, presidente da OAB/RJ

Número 659 - 01 de outubro de 2007

A Lei de Parkinson e a recusa
do governo em acabar com a CPMF

Sem que se coloque um freio à sanha arrecadatória do estado por um lado e à propensão a gastar de outro, é impossível diminuir a carga tributária já que “o imposto cria a despesa”

 

Na revista Veja da semana passada (26.09.2007), a seção “Carta ao Leitor” traz, a propósito do esforço de prorrogação da CPMF, uma citação do historiador, escritor e administrador inglês Cyril Northcote Parkinson, sobre impostos e despesas. Na verdade, a citação é uma espécie de corolário da famosa “Lei de Parkinson”, publicada pela primeira vez em 1955 na revista The Economist, depois republicada no livro Parkinson’s Law: The Pursuit of Progress (Londres, 1958):

“O trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para sua realização.”

Cyril Northcode Parkinson, 1909-1993

O enunciado dessa bem humorada “lei” tem permitido uma série de desdobramentos práticos para a boa administração do tempo no dia-a-dia, seja no trabalho seja fora dele. A principal dessas medidas práticas é prestar bastante atenção no tempo que deve ser dedicado à realização das tarefas. Se o tempo a ser dedicado não for determinado e seguido à risca, o prazo ficará em aberto e o trabalho passa a correr o sério risco de sequer vir a terminar. Ou seja, muitas vezes a falta de prazo quer dizer “nunca”. Por outro lado, com o prazo definido, não é preciso correria, como bem fica caracterizado na frase atribuída ao senador Marco Maciel, ex-vice-presidente da República.

“Quem tem prazo não tem pressa.”

Marco Maciel, senador DEM/PE

Já no que diz respeito aos impostos, a citação atribuída a Parkinson pela revista Veja é a seguinte:

“O imposto cria a despesa.”

Cyril Northcode Parkinson

Quis ele dizer que quanto mais impostos, mais despesas e que não adianta argumentar com a poupança de uma possível diferença inicial. Sempre vão aparecer oportunidades de gastos. Daí, a necessidade de colocar freios tanto no aumento dos impostos quanto no crescimento das despesas. Como governo nenhum fará isso espontaneamente, cabe à sociedade fazê-lo continuamente.

Embora indispensável, e muito bem vinda, a iniciativa da sociedade contra o aumento dos impostos, bastante bem evidenciada no episódio recente da prorrogação da CPMF, está parecendo um tanto inócua. Apesar de provisória, a CPMF hoje é responsável por uma arrecadação da ordem de R$ 40 bilhões, sem a qual as contas do governo não fecham. Daí, o esforço que está sendo feito para prorrogá-la. Se por um acaso a prorrogação não passasse, o governo iria atrás de outros tributos para fechar o buraco na contabilidade pública.

“Há uma avaliação unânime entre analistas, acadêmicos e ex-ministros, como João Paulo dos Reis Velloso, de que o governo não pode abrir mão no curtíssimo prazo.”

Tribuna de Imprensa, 16.09.07

O problema é que o governo não tem apresentado nenhuma alternativa para compensar a manutenção de um tributo de tão má qualidade quanto a contribuição “provisória”. Por isso o clamor da sociedade organizada que deve continuar já que há formas de acabar com a contribuição a prazo.

“O Brasil pode acabar com a CPMF em sete anos sem impacto no funcionamento da máquina pública. Basta repor apenas a inflação nos gastos com os salários dos funcionários públicos federais, o que significa que as despesas no conjunto manterão o seu valor real.”

Tribuna de Imprensa, 16.09.07

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