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Número 645 - 25 de junho de 2007

Apelo aos políticos sérios:
façam a reforma política possível!

Enquanto não se tratar com o mínimo de seriedade do financiamento das campanhas eleitorais, vamos continuar a assistir a deprimente seqüência de espetáculos dos escândalos políticos

 

Quando se pensava que tudo o que poderia ser visto em termos de degradação da classe política brasileira já havia sido encenado, eis que surge nas telas da vergonha nacional o deprimente espetáculo protagonizado pelo presidente Renan Calheiros e pelo inacreditável Conselho de Ética do Senado Nacional. Chegou-se até a falar em “sangramentos” pessoais e institucionais.

“Essa história de querer encerrar isso logo porque o senador Renan está sangrando é uma balela, o Senado está sangrando muito mais do que ele.”

Jarbas Vasconcelos, senador PMDB/PE

Mesmo para aqueles que procuram encarar o desenrolar dos mais recentes e lamentáveis episódios políticos como um rito de passagem, ainda que lento e doloroso, para uma posição mais conseqüente da sociedade e da sua representação política, não deixa de causar espanto e indignação a farsa encenada pelo Conselho de Ética do Senado na tentativa canhestra de absolver a toque de caixa o senador acusado.

“Algo está muito fora do lugar quando um conjunto de experientes senhores e senhoras presumidamente ciosos de seus deveres para com a Federação por eles representada no Legislativo quedam-se quase submissos ao atendimento das conveniências de um só senador que, além de tudo, deve a eles a eleição para o posto. Se aceitam deliberadamente participar de uma ação de desmanche do que resta das respectivas reputações e da credibilidade do Senado devem ter boas razões.”

Dora Kramer, coluna de 20.06.07

Tão fora do lugar que chega a embotar o pouco de esperança, cultivado com muito cuidado, de que todo esse processo de exposição das entranhas da política e de suas relações perigosas com gente esquisita seja, de fato, a projeção de uma tênue luz no fim do túnel.

“São gemidos de um mesmo parto prolongado. (…) Quando esses processos são postos em marcha, vive-se um intenso psicodrama. (…) Mas o país avança, ainda que de uma forma nebulosa.”

Fernando Gabeira, Folha de S. Paulo, 30.07.06

Em meio a esses espetáculos lamentáveis, é preciso não perder de vista que a raiz de todos os desvios flagrados pela mídia e pelos órgãos fiscalizadores está no processo viciado e deletério de financiamento das campanhas políticas. Tudo começa aí. Depois, vêm os lobbies associados e desenrola-se todo esse novelo que estamos vendo há tempos. É fundamental perseverar na tentativa de melhorar e tornar menos contaminados os mecanismos de financiamento eleitoral.

“Mecanismos capazes de diminuir os custos e tornar transparentes os financiamentos de campanha, assim como a regulamentação das atividades dos lobbies e a instituição do voto distrital misto, não constituem panacéia para a corrupção, mas seriam ao menos capazes de separá-la daquilo que, hoje em dia, é o modo corriqueiro de fazer política no Brasil.”

Editorial, Folha de S. Paulo, 23.06.07

Nossa torcida, a torcida responsável da sociedade, é que todos esses constrangimentos e espetáculos deprimentes sirvam para despertar a consciência dos políticos sérios e os leve a conseguir fazer avançar as reformas políticas possíveis.

Número 644 - 18 de junho de 2007

A hegemonia chinesa depende
de uma transição política bem sucedida

A China só terá sucesso no seu objetivo de ser líder econômico mundial se conseguir manter o espantoso crescimento e, para isso, precisará fazer uma transição política que não é fácil de ser feita

 

A observação in loco da realidade e do atual estágio de desenvolvimento da China não deixa nenhuma dúvida sobre qual a intenção estratégica dos dirigentes chineses em relação ao resto do mundo, conforme destaca com muita propriedade a abertura da reportagem especial da revista Veja de 09.08.06 que identificou “uma disposição incomum dos entrevistados de todas as idades em se medir com os demais países”.

“Eles querem ser os líderes e, em todos os campos, superar os países ricos.”

Mônica Weinberg, editora de educação

Essa impressão que se instala no observador e fica registrada na impressão dos repórteres, confirma-se pelas pesquisas de opinião. Os chineses apóiam a determinação dos seus dirigentes.

“Uma pesquisa de âmbito global confirma: os chineses são o povo mais otimista do mundo no momento. Nada menos que 81% estão satisfeitos com os rumos do país.”

Veja, 09.08.2006

Neste terceiro e último número do GH desta série sobre a China, vale a pena considerar a questão levantada na edição anterior (ver número 643) como principal obstáculo político à consecução desse ambicioso objetivo: será que a transição para o regime de maiores liberdades se fará sem grandes traumas como, por exemplo, os que foram sofridos pela Rússia? Para o estudioso inglês Anthony Saich, professor da Escola Kennedy de Governo da Universidade de Harvard, autor do livro “Governance and Politics of China”, o exemplo da Rússia foi fundamental para a mudança chinesa.

“A lição que Deng Xiaoping tirou disso foi que, se não mantivesse a economia crescendo, a China iria cair também.”

Anthony Saich, Folha de S. Paulo, 30.07.06.

Visto a partir da perspectiva atual, o timing da mudança econômica feita pela China parece ter sido perfeito na medida em que impediu a fragmentação sofrida pela Rússia e mantém o país unido pela crença na conquista da liderança mundial. Nesse particular, o crescimento passou a ser fiador político do regime.

“O modelo chinês se ressente da falta de flexibilidade política para lidar com possíveis crises na economia. O crescimento tornou-se a fonte de legitimidade do regime. Nesse aspecto a Índia tem vantagem sobre a China.”

Anthony Saich

Ao contrário da China, a também emergente Índia, com uma população da mesma ordem de grandeza mas com um PIB menor, fez uma transição de modelo econômico (socialista) e fortaleceu um regime político bem mais aberto.

“A Índia pode lidar com uma queda dramática no crescimento. Troca o governo, passa por uma crise, mas vai adiante. A China não tem um sistema político que possa se manter perpetuamente. Se eles administrarem a transição política como administraram a econômica, todos serão felizes. Mas não há garantias. É uma transição perigosa e a maioria dos países tende a fazê-la em momentos de crise.”

Anthony Saich

Para garantir a estabilidade política a China precisa continuar crescendo e, para isso, precisa fazer a transição política. Conseguindo manter o crescimento, dentro de algumas décadas, será líder mundial. Se o mundo agüenta o crescimento chinês, bom, aí já é uma outra história…

Número 643 - 11 de junho de 2007

O “comunismo de resultados”
chinês se sustenta no longo prazo?

Uma questão bastante relevante suscitada pelo impressionante crescimento econômico da China é se o modelo de “socialismo de mercado” consegue superar o desafio da abertura política

 

Falando para empresários nordestinos e chineses participantes da Missão Empresarial do Nordeste do Brasil à China, promovida pela Federação do Comércio do Estado de Pernambuco neste mês de junho, na cidade de Pequim, o presidente da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), maior empresa de geração de energia elétrica do país, destacou a importância do Brasil e da China no cenário internacional como grandes países:

“Quando cruzamos os critérios de países com área superior a 5 milhões de Km2, população acima de 150 milhões de habitantes e PIB maior que US$ 600 bilhões, só vamos encontrar no conjunto união dessas condições os EUA, a China e o Brasil.”

Dilton da Conti Oliveira, presidente da Chesf

Daí, a importância de refletir sobre as semelhanças e diferenças entre os dois países como o Gestão Hoje vem fazendo desde o número passado (ver GH/642), sobretudo face ao impressionante desempenho do gigante chinês que cresce a taxas médias de 9,6% ao ano desde 1980 e hoje já é a quarta economia mundial em vias de passar para a terceira colocação, superando a Alemanha. E tudo isso dentro de um modelo, muito estranho para os ocidentais, que foi batizado por Deng Xiaoping, o grande arquiteto das reformas da era pós Mão Tse-tung, de “economia socialista de mercado”, um misto de estímulo à concorrência e de forte intervenção estatal reguladora. Um modelo batizado por um dos participantes da Missão Empresarial, presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Recife (Sindilojas Recife):

“É o comunismo de resultados.”

Frederico Leal, presidente do Sindilojas Recife

Trata-se de um exemplo de pragmatismo que se vê estampado nas grandes cidades chinesas, seja no impressionante crescimento imobiliário e urbanístico de Pequim e Xangai, seja na espantosa proliferação de produtos “Made in China” por todos os lugares. Um pragmatismo muito bem lembrado pelo engenheiro pernambucano Otavio Carvalheira, vice-presidente da Alcoa China:

“Não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato.”

Deng Xiaoping, 1979

Ou seja, não importa a cor do regime econômico, o que importa é se ele permite ou não, pragmaticamente, à China (o gato) superar o subdesenvolvimento (o rato). Pragmatismo que se traduz na grande competição interna entre fabricantes de produtos de todos os tipos e em praticamente todos os setores de bens de consumo e intermediários. Só a Alcoa tem mais de trinta concorrentes chineses para os laminados de alumínio que produz em Xangai, o que chamou a atenção do presidente do Sindicato da Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado de Pernambuco (Simmepe).

“Estou convencido de que a competitividade dos produtos chineses deve-se à enorme competição interna entre fabricantes e fornecedores.”

Alexandre Valença, presidente do Simmepe

Até agora, pelo que se consegue ver por todos os lados, o modelo parece estar dando certo e, com isso, tomando um caminho sem volta, com todas as implicações decorrentes. Para o diretor da Martorelli e Gouveia Advogados (MGA), o maior escritório de advocacia do Nordeste, ainda persiste uma questão bastante importante em relação ao futuro da experiência chinesa:

“A dúvida que fica é se eles conseguirão fazer a transição ordenada para o regime de liberdades políticas. A Rússia não conseguiu.”

João Humberto Martorelli, diretor geral da MGA

Número 642 - 04 de junho de 2007

Semelhanças e diferenças entre os
desenvolvimentos da China e do Brasil

Maior fenômeno de crescimento econômico das últimas décadas, a China apresenta um quadro econômico, político e social que tanto difere muito quanto se assemelha um pouco com o Brasil

 

Apesar de ninguém desconhecer que a China é o maior fenômeno econômico das três últimas décadas, não deixa de surpreender, mesmo para os mais informados, o que aconteceu depois das reformas promovidas por Deng Xiaoping em 1978 (ver o GH/618).

“A China é o país mais populoso do mundo e o que mais cresce, há pelo menos 25 anos. A China já ultrapassou a Itália, a França e a Inglaterra e assumiu o posto de quarta maior economia do mundo. Se mantiver o ritmo atual, em cerca de duas a três décadas, terá ultrapassado os Estados Unidos.”

Cláudia Trevisan, jornalista brasileira

De fato, hoje, à frente da economia chinesa, só a alemã, a japonesa e a norte-americana. Segundo as previsões dos economistas, mantidos os índices de crescimento verificados nos últimos anos, a China assumirá o 3o. lugar em 2015, o 2o. lugar em 2020 e o 1o. lugar, à frente dos EUA, em 2040. Qual o segredo deste desempenho impressionante? Para Cláudia Trevisan, ex-correspondente da Folha de S. Paulo em Pequim e autora do livro “China — O Renascimento do Império” (Editora Planeta), o segredo está na determinação dos dirigentes.

“A lição mais importante da China é ter um projeto de crescimento para o país e executá-lo com determinação. Os dirigentes chineses sabem onde querem chegar e tomam as decisões necessárias para tanto.”

Cláudia Trevisan

Esse determinismo dos dirigentes tem sido vital para o sucesso do modelo. Sem uma firme e decidida planificação estatal, todo o processo de crescimento de uma economia de mercado dentro de um regime socialista resultaria em catástrofe. O que está acontecendo é algo nunca antes tentado na história da humanidade.

“O que o Partido Comunista está tentando fazer na China é usar os mecanismos de mercado próprios do capitalismo sem adotar as instituições políticas que acompanham esses mecanismos nos países ocidentais (eleições livres, separação de poderes, imprensa livre etc). Eles chamam seu sistema de ‘economia de mercado socialista’”.

Cláudia Trevisan

Se dará certo no médio e longo prazos como vem dando no passado recente, só o tempo dirá. Dentre os desafios gigantescos que o país enfrenta, um merece destaque, a título ilustrativo, pela sua semelhança com o exposto pela mídia neste momento no Brasil.

“A China tem índices de corrupção muito mais alarmantes que os do Brasil, com o agravante de que não há imprensa livre, Ministério Público nem Judiciário independente para coibir abusos. O próprio Partido Comunista reconhece que o grau de corrupção de seus integrantes é uma das principais ameaças à sua continuidade no poder. Várias dinastias chinesas caíram pela corrupção de seus dirigentes e o mesmo destino pode acometer os comunistas.”

Cláudia Trevisan

Apesar de tantas diferenças, infelizmente nesse aspecto parece haver semelhança entre China e Brasil: ambos precisarão domar a corrupção para conseguir ir mais longe em seus horizontes de desenvolvimento.

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