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Número 641 - 28 de maio de 2007

O conforto macroeconômico e a
bolsa como indutora do desenvolvimento

Ao tempo em que o Brasil vive o seu melhor momento macroeconômico, a bolsa de valores, no auge dos seus negócios, começa a cumprir a nobre função de financiadora do desenvolvimento

 

Aproveitando o melhor momento da economia internacional desde, provavelmente, o pós-guerra (crescimento próximo a 5% ao ano nos últimos cinco anos), o Brasil está atingindo um nível de estabilidade macroeconômica talvez nunca antes observado.

“Chegamos a um patamar de conforto macroeconômico nunca visto na história republicana. Taxa de inflação anualizada em torno dos 3%. Saldo da balança comercial superior a US$ 40 bilhões. Vendas no comércio subindo continuamente quase 30% em seis anos. Taxa de juros Selic caindo de 18,9% para 12,7%, com tendência de queda. Volume de crédito aumentando de R$ 307 bilhões, em 2000, para R$ 747 bilhões em 2007. Risco país descendo para 150 pontos. Agência de classificação de risco promovendo o Brasil, que fica mais próximo do chamado grau de investimento.”

Luiz Otávio Cavalcanti, advogado pernambucano

Luiz Otávio, em artigo no Jornal do Commercio do Recife, atribui esse sucesso a quatro fatores: (1) crescimento contínuo da economia norte-americana; (2) crescimento dos países emergentes, em especial China e Índia; (3) sensatez do presidente Lula, ao não se deixar iludir pela aventura do curto prazo; e (4) obstinação do presidente do BC, Henrique Meirelles, no controle da inflação. O sucesso é tanto, sob este ponto de vista, que as agências de classificação de riscos internacionais já dão sinais evidentes da possibilidade de elevação do Brasil ao investment grade (grau de investimento).

“O investiment grade é um selo que vai atestar que o Brasil é um mercado seguro para os investidores. E vai atestar que a área vai passar de investimento especulativo para investimento não especulativo.”

Marcel Antoni de Marco, analista financeiro Inepad

Todavia, enquanto o alcance deste patamar pelo setor público ainda vai demorar, segundo os especialistas, no mínimo mais uns dois anos, várias empresas brasileiras como a Vale do Rio Doce, a Ambev, a Gerdau e a Aracruz já alcançaram o grau de investimento. Esse fato ajuda a ilustrar um fenômeno típico da realidade brasileira ultimamente: a sociedade à frente do estado.

“De um lado há o Brasil público, representado pelo governo, que está parado e há mais de 20 anos não tem caixa para fazer investimentos. [Do outro, o país das empresas que..] cresce a taxas chinesas, disputa espaço com multinacionais e movimenta os negócios no mercado de capitais.”

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central

Esse movimento tem-se refletido de modo intenso na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) que vem batendo recordes seguidos, numa escalada que já dura quatro anos e que fez o Índice Bovespa se aproximar da marca histórica dos 50.000 pontos, além de ter multiplicado por cinco o valor total das companhias de capital aberto no Brasil (de R$ 150 bilhões em 1995 para R$ 740 bilhões em 2007, equivalente a 74% do PIB, quando em 2000 essa proporção era de apenas 38%).

“A bolsa está começando a cumprir sua missão de financiar empresas.”

Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa

Um novo tempo, portanto, começa a se anunciar na economia brasileira. Um tempo em que as empresas dinâmicas passam a ter acesso ao capital de risco para investimento, bem mais em conta que o crédito financeiro.

Número 640 - 21 de maio de 2007

Se “quem tem vontade, já tem a metade”,
de que se compõe a outra metade que falta?

Embora imprescindível, a vontade precisa ser completada pela preparação sob o risco de, não o fazendo, provocar enorme desperdício de tempo e recursos, além de desacreditar o "apressado"

 

É verdade. “Quem tem vontade, já tem a metade”, como foi visto no Gestão Hoje anterior (ver GH/639). Todavia, não custa lembrar: é só a metade pois falta a outra parte. Vale a pena, a esse respeito, reproduzir a frase do técnico Bernardinho que finalizou o número passado:

“A vontade de se preparar tem que ser maior que a vontade de vencer.”

Bernardinho, técnico de vôlei brasileiro

Para completar a outra metade, portanto, a preparação é indispensável. Caso contrário, o risco do voluntarismo é imenso. A própria sabedoria popular já consagrou, numa expressão, o voluntarismo apressado, desacompanhado de preparação, infelizmente bastante comum:

“Rápido e mal feito.”

Expressão Popular

Pessoas cheias de iniciativa, fazendo besteiras, desperdiçam a dádiva da vontade de fazer com a irreflexão e/ou falta de preparação. Terminam virando caricatura e, não raro, tornam-se pessoas indesejadas pelo prejuízo que causam, conforme atesta outro ditado popular:

“Apressado come cru.”

Expressão Popular

Para evitar o desperdício da iniciativa, é preciso, portanto, cuidar muito da preparação. Se isso sempre foi verdade, muito mais é nos dias atuais com a rapidez das mudanças e a verdadeira avalanche de informação que inunda nosso dia-a-dia. Não se pode, por exemplo, fazer um curso universitário e valer-se do que foi aprendido pelo resto da vida. Pode-se dizer, sem medo de errar, que o curso universitário é, apenas, o bilhete de entrada. Aprendizado constante é que leva à criatividade eficaz.

“A criatividade não é um ponto de partida — é um ponto de chegada. Criativo é quem é capaz de aliar o melhor daquilo que herdou da natureza ao aprendizado.”

Domenico De Masi, sociólogo italiano.

Ou seja, ter herdado ou desenvolvido a força de vontade, o “elã vital” de Bergson (ver GH/639), não é suficiente, embora seja indispensável. A conseqüência exige aprendizado.  O oposto do “rápido e mal feito” é o “bem feito demorado”, muitas vezes intempestivo nos nossos dias de rapidez alucinante. Hoje o desafio é fazer rápido e bem feito. Os erros, mais do que antes, podem ser fatais. Daí, a necessidade de adotar o lema norte-americano da qualidade que terminou sendo assumido pela Toyota no seu sistema de produção que tornou-se referência mundial (o “toyotismo” em substituição ao “fordismo”):

“Fazer certo da primeira vez.”

Lema da Toyota

Só que fazer certo da primeira vez requer muita preparação e cuidado, não sendo, evidentemente, uma coisa que se consiga com facilidade. Daí, a necessidade de preparação, de aprendizado, de treinamento, referida por Bernardinho. Isso merece especial atenção no Brasil, onde existe bem disseminado o costume cultural da irreflexão e do improviso (atenção: improviso é diferente de criatividade, conforme assinala Domenico De Masi). Só para comparar com os referidos japoneses, vale a pena prestar atenção no que diz um atento observador externo:

“Os japoneses são lentos na decisão e rápidos na execução. Os brasileiros são exatamente o contrário.”

Lester Thurow, economista americano

Pensar o suficiente, planejar o necessário e executar o rápido possível. Talvez essa seja a fórmula correta que nos ensinam os japoneses. A vontade entra aí como motor indispensável, desde que, evidentemente, acompanhada pela preparação, pela reflexão, pelo aprendizado, os componentes necessários da outra metade faltante.

Número 639 - 14 de maio de 2007

O que está por trás da frase:
“quem tem vontade, já tem a metade”?

A vontade, irmã gêmea da tenacidade, é capaz de mover mundos mas requer, como integrante da outra metade que falta, seletividade (não querer fazer tudo ao mesmo tempo) e preparação

 

João Silveira Guimarães, nascido em 1910 na localidade de Brejo do Cruz no sertão da Paraíba e empresário vitorioso em Capina Grande, onde fundou o Grupo Dão Silveira de concessionárias Chevrolet, cunhou a frase que se tornou sua marca por toda vida:

“Quem tem vontade, já tem a metade.”

Dão Silveira, empresário paraibano

Trata-se de frase extraordinária que ilustra uma trajetória de vida baseada na força de vontade e na superação de dificuldades. Serve para Dão Silveira e para milhões, inclusive o presidente da República do Brasil, que ultrapassam os obstáculos impostos pela vida, movidos por algo que já foi chamado de “elã vital” pelo filósofo francês Henri Bérgson. Algo que não pode ser explicado pela ciência.

“A ciência, pois, em todo o refinamento de seus métodos não chega, nem pode chegar à causa profunda do organismo que é o elã vital, a própria vida.”

Angel Vega Rodríguez, professor  de Filosofia da UFMA

A ciência não explica a vontade ou a disposição de “ir em frente”, a exceção, talvez, da Bioquímica a propor, quem sabe, alguma reação molecular impulsionadora como chegou a aventar o pensador francês Edgar Morin, no excelente livro “O Paradigma Perdido — A Natureza Humana” (Publicações Europa-América, 1973).

“É possível que tenha aparecido muito cedo o defeito genético da não metabolização do ácido úrico, cujo excesso tóxico nas células cerebrais parece desempenhar um papel numa característica espalhada pela humanidade: a tenacidade que vai até o fim; é evidente que este defeito só podia constituir vantagem seletiva nas condições e no grupo em que se difundiu.”

Edgar Morim, sociólogo e filósofo francês

Considerada por curiosa a hipótese da intoxicação cerebral pelo excesso do ácido úrico não metabolizado, a verdade é que a vontade, e sua irmã gêmea a tenacidade, têm a mágica característica de materializar o desejo, fazendo-o concreto, tirando-o do território do idílico, como bem frisa Theodor Herzl, considerado o pai do sionismo moderno (movimento político e religioso que visava ao restabelecimento, na Palestina, de um Estado judeu, e que se tornou vitorioso em maio de 1948 com a proclamação pela ONU do Estado de Israel).

“Se vós quereis, isso não será um sonho.”

Theodor Herzl, 1860-1904, jornalista judeu austríaco

Claro que mesmo sendo a metade, o indivíduo dotado da vontade carece da outra metade que, dentre outras coisas inclui a seletividade e a preparação. No que diz respeito à seletividade, Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, destacou:

“A primeira condição para se realizar alguma coisa é não querer fazer tudo ao mesmo tempo.”

Alceu Amoroso Lima, 1893-1983, pensador brasileiro

Bernardo Rocha de Rezende, o já famoso técnico Bernardinho, notabilizado pela vontade com que tem impulsionado as seleções brasileiras de vôlei para a conquista de títulos mundiais, destaca com muita propriedade esse outro componente da metade faltante à vontade que é a preparação. A vontade de vencer sem a adequada preparação resultará, com certeza, em fracasso.

“A vontade de se preparar tem que ser maior que a vontade de vencer.”

Bernardinho, técnico de vôlei brasileiro

Número 638 - 07 de maio de 2007

As três dimensões da empresa familiar
e a governança corporativa na sua interseção

A governança corporativa se dá na interseção das três dimensões (Família, Propriedade e Empresa) da empresa familiar e torna-se requisito indispensável à abertura do capital

 

Neste último número da série sobre Governança Corporativa, vale a pena destacar que quando se trata da gestão de empresas familiares há, na atualidade, uma espécie de entendimento teórico compartilhado de que esse tipo de empresa se estrutura em três dimensões diferentes: (1) Família; (2) Propriedade; e (3) Empresa. Apesar disto, não obstante o grande número empresas familiares no mundo, as escolas de Administração tendem a privilegiar o tratamento da dimensão Empresa, ou seja, a enfatizar o aspecto “negócio” apenas.

“Cerca de dois terços das empresas em todo o mundo são de origem familiar. É essencial que elas pensem de maneira integrada dentro desses três itens para obter sucesso. É preciso aceitar a idéia de que uma organização familiar é regida por outros elementos que não apenas os negócios e, a partir daí, estruturar a empresa para lidar com esses fatores.”

John Davis, professor da Harvard Business School

Normalmente o que ocorre é que no início da empresa familiar essas três dimensões se encontram agrupadas de modo indiferenciado. Tende a prevalecer o sentimento de união aparentemente indissociável entre os interesses da família, da propriedade do capital e o da empresa e sua gestão. Com o passar do tempo, tendo a empresa sucesso, essas dimensões começam a se diferenciar, uma vez que o sentimento inicial de unidade passa a ser atenuado pela emergência de problemas típicos de cada dimensão separada que reclamam soluções específicas. A sabedoria está em reconhecer a existência dessas dimensões e tratá-las adequadamente.

“Ao longo dos últimos anos, avançamos muito na construção do nosso modelo de governança corporativa e hoje entendemos bem o papel de cada sistema (família, propriedade, empresa).”

Nelson Sirotsky, diretor-presidente da RBS

O comentário do diretor-presidente da RBS (Rede Brasil Sul de Comunicação), Nelson Sirotsky, ao receber o Prêmio IBGC de Governança Corporativa, na categoria Empresa Não-Listada em Bolsa de Valores (capital fechado), em 2006, ilustra bem a importância do adequado tratamento dessas três dimensões. O amadurecimento da gestão leva, inevitavelmente, não só à separação das dimensões mas, também, à necessidade de dar-lhes adequado tratamento.

Em se tratando de governança corporativa, inclusive (ver o Gestão Hoje números 635, 636 e 637), pode-se dizer que ela se dá, justamente, na intersecção dessas três dimensões (usando-se emprestada a terminologia da Teoria dos Conjuntos, é possível dizer que a governança corporativa encontra-se no “conjunto união” dessas três dimensões). Pode ser entendida como uma espécie de evolução, ao mesmo tempo conseqüência e causa do aperfeiçoamento da gestão. Conseqüência porque só pode aparecer quando iniciou-se de modo irreversível a separação das dimensões. Causa porque, ao instalar-se, acelera o processo de aperfeiçoamento, inclusive na direção daquilo que, nos dias atuais firma-se como etapa obrigatória para as empresa familiares bem sucedidas que necessitam de recursos para expansão: a abertura do capital.

Por fim, ao final dessa pequena série sobre governança corporativa e, em especial, na empresa familiar, a frase-advertência do grande Peter Drucker:

“A empresa e a família só sobreviverão e sairão bem se a família servir a empresa. Nenhuma das duas seguirá bem se a empresa for dirigida para servir à família.”

Peter Drucker, 1909-2005, guru da Administração

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