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Número 624 - 29 de janeiro de 2007

PAC, a aposta do governo Lula
na retomada do crescimento sustentado

Elaborado como um pacote que reúne investimentos já previstos em algum lugar, o PAC retoma a tradição de governos anteriores e aposta no estímulo ao investimento empresarial produtivo

 

Depois de meses de preparação, o presidente Lula lançou o já famoso PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) na semana passada com previsão de investimentos da ordem de R$ 503,9 milhões com crescimento de 4,5% do PIB em 2007 e 5% nos anos seguintes até 2010. Trata-se de um pacote de medidas destinadas a fomentar o crescimento econômico que, na prática, inaugura o segundo tempo do governo Lula.

“Tem medidas positivas e outras negativas. Se cumprirá seu objetivo, só o tempo dirá. Uma primeira análise, porém, recomenda cautela em relação às audaciosas metas apresentadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste começo de fato do segundo mandato.?

Kennedy Alencar, jornalista, Folha Online, 24.01.07

Não se trata de nenhuma inovação como plano de governo pois são muitos os seus antecessores. Todos com o objetivo de “acelerar? o desenvolvimento do país, ainda que não anunciassem isso no título.

“Plano de Metas de JK, Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND), Nova Política Industrial, Brasil em Ação, Programa de Aceleração do Crescimento (…) O PAC é herdeiro dessa tradição brasileira de embalar metas, projetos e lançar como pacotes medidas supostamente capazes de colocar o Brasil no desenvolvimento sustentável.?

Renata Lima, jornalista, Jornal do Commercio, 28.01.07

O PAC tem o grande mérito de juntar todas as intenções num lugar só e colocar as ações previstas do governo de um modo que possa ser acompanhado pelo próprio governo e pela sociedade. Afinal, todos concordam que é preciso fazer alguma coisa para recolocar o país no rumo do crescimento. No primeiro mandato, apesar da intenção de fazer isso, manifesta na expressão repisada pelo presidente do “espetáculo do crescimento?, não foi feito um plano para dar conseqüência ao discurso presidencial.

“O projeto de Lula, mesmo no campo das intenções, caminha na direção certa. É preciso sair de algum ponto e o PAC tenta dar esse pontapé inicial.?

Carlos José Marques, diretor editorial, IstoÉ, 31.01.07

O PAC tem pouco de novo já que é, na prática, uma colagem de previsões de investimento dos orçamentos público e das estatais, futuros e em andamento. Até o deputado não reeleito por São Paulo, Antônio Delfim Netto, um declarado defensor do presidente Lula, cotado inclusive para um cargo no novo governo, admite isso.

“O plano não tem grandes novidades. A maior parte dos projetos de infra-estrutura nele previstos está parada desde 1997. O mérito do plano foi recuperar um projeto de desenvolvimento econômico e procurar acender o espírito animal dos empresários.?

Delfim Netto, economista, Veja, 31.01.07

Aí é que parece residir o problema. Segundo os economistas, para que a economia possa crescer 5% como previsto pelo governo (justamente para se contrapor aos 2,5% de crescimento médio dos últimos 25 anos), é preciso que haja investimento de 25% do PIB. Hoje esse índice está em 20%. Os 5 pontos percentuais restantes dependem, sobretudo, da crença dos investidores de que os investimentos produtivos darão melhor retorno que os financeiros, muito diferente do que acontece hoje. O PAC pode ajudar a fazer retornar essa crença. Ou não. Mas o futuro próximo, com certeza, dirá.

Número 623 - 22 de janeiro de 2007

O desafio dos empreendedores:
fazer com que façam o que precisa ser feito

Os empreendedores que nos tempos heróicos acostumaram-se a fazer tudo diretamente, precisam reciclar o foco para fazer com que essa responsabilidade seja profissionalmente redistribuída

 

Praticamente todas as empresas no seu início, contam com a disposição e a força propulsora de um ou mais empreendedores que, a despeito das dificuldades, seguem em frente, muitas vezes desafiando as leis da “física empresarial? (ver, a propósito, o Gestão Hoje anterior — GH/622). Relativamente ao Brasil, inclusive, com a “vantagem? de viverem num ambiente naturalmente turbulento.

“O Brasil tem uma arma secreta. Devido à instabilidade da moeda que existia e a outras guinadas econômicas, os empresários brasileiros passaram a lidar melhor com a imprevisibilidade do que os seus pares nos EUA e na Europa.?

James Collins, autor do livro “Feitas para Durar?

Nesta condição, o empreendedor iniciante, por conta de sua condição pioneira, em especial no Brasil, vê-se obrigado a inovar e a criar soluções não convencionais para os problemas que vão surgindo. Em muitos casos, o exercício da inovação passa a ser a principal regra utilizada, substituindo, mesmo, os outros mecanismos administrativos que passam a ser indispensáveis a partir de determinado momento da vida da empresa. Deste modo, a inovação (na verdade, no caso, mais criatividade que inovação) passa a ser ferramenta cotidiana em vez de mecanismo de evolução.

“Administração e espírito inovador constituem apenas duas dimensões diferentes da mesma tarefa. Um empresário inovador que não aprender a administrar não vai durar muito tempo. Uma administração que não aprender a inovar, tampouco.?

Peter F. Drucker, 1909-2005, guru da Administração

Na condição de “faz tudo? que usa e abusa da criatividade para resolver até problemas administrativos corriqueiros, o empreendedor bem sucedido, diante do crescimento da empresa, acumula funções e responsabilidades indiferenciadas que começam a funcionar como entraves ao desenvolvimento.

“Há três tipos de homens de negócio: o empresário, o executivo e o investidor. Para ter sucesso é preciso ser os três ao mesmo tempo.?

Carlos Slim Helu, dono da América Móvil

A observação de Carlos Slim, principal acionista da Claro e provavelmente o latino-americano mais rico do mundo, destaca alguns papéis que quando não diferenciados provocam, com certeza, prejuízos ao crescimento da empresa. E, aí, aparece o problema com mais nitidez: depois de determinado tamanho, aquilo que deu certo para que a empresa chegasse até onde chegou, não só não dá mais certo como começa a funcionar enquanto entrave ao crescimento, sobretudo na nova economia.

“Para concorrer na nova economia é essencial esquecer os antigos padrões.?

C. K. Prahalad, autor de “Competindo pelo Futuro?

Esquecer os antigos padrões, sobretudo aqueles dos tempos heróicos, e aprender outros mais adequados aos novos tempos. Em outras palavras, no que diz respeito às empresas em crescimento, sobretudo as familiares: profissionalizar a gestão. Nessas empresas a exigência de desaprendizado e reciclagem é muito maior, sobretudo para os próprios empreendedores. Nelas, eles conhecem, por necessidade inicial, do “parafuso à bolsa de valores?. Com a evolução da empresa e, sobretudo, com a entrada de executivos profissionais, esse generalismo, no início essencial, passa a atrapalhar se não for reciclado.

O desafio dos empreendedores, então, é muito claro: transformarem-se em empresários que deixam de fazer diretamente as coisas para coordenar profissionais com essa responsabilidade.

Número 622 - 15 de janeiro de 2007

Abelhas e empresas familiares:
voam porque não sabem que não podem

Impulsionadas pelo empreendedorismo que desconhece impossibilidades, as empresas familiares só sobrevivem no longo prazo quando conseguem superar o desafio da profissionalização

 

Há uma idéia mais ou menos disseminada de que, de acordo com as leis da aerodinâmica, o besouro não poderia voar porque não possui as condições físicas mínimas para tal.  Fala-se, também, que como não sabe disso e não entende nada de física nem de aerodinâmica, ele voa. Diz-se coisa parecida das abelhas ou, pelo menos, de algumas espécies delas.

“Pesquisas afirmam que segundo as leis da aerodinâmica, e segundo ainda, testes feitos em um túnel de vento, as abelhas não podem voar! Seu peso, a forma e as dimensões de seu corpo e o pequeno tamanho de suas asas, torna impossível o vôo da abelha!Como a abelha não tem conhecimento de tais pesquisas, ela simplesmente não só voa, como ainda produz mel!?

Antonio Rayol, fundador do Conselho Anti Drogas/RJ

Essa metáfora pode, guardadas as devidas proporções e os cuidados que toda metáfora requer, ser aplicada às empresas jovens, sobretudo às familiares (maioria absoluta das empresas jovens). Praticamente todas começam pelo esforço empreendedor de uma ou mais pessoas, geralmente parentes, que mergulham de corpo e alma na viabilização do novo negócio. Nesse esforço inicial as coisas acontecem mais pela energia empregada do que pela “leis da física?.

“Ser empreendedor significa ser capaz de abandonar tudo, colocando uma vida inteira a serviço de uma idéia.?

George Gilder,  futurista norte-americano

O problema é que o empreendedorismo que permite o sucesso inicial, depois de determinado ponto, não só não é mais suficiente como passa a ser contraproducente no que diz respeito à sobrevivência da empresa.

“A empresa familiar tradicional bem-sucedida será uma vítima de seu próprio êxito, não podendo conciliar sua estrutura tradicional com as novas necessidades impostas pelo crescimento.?

Eric Lethbridge, economista do BNDES/Pnud

É aí, então, que entra em cena, de modo crucial, a questão da profissionalização da gestão. As estatísticas mundiais dão conta de que em cada 100 empresas familiares bem sucedidas na primeira geração só 30 o são na segunda e só 15 na terceira. Conclusão: a sucessão e a profissionalização mal conduzidas derrotam a empresa familiar bem sucedida.

“No mundo moderno a economia tornou-se tão complexa que não há mais espaço para organizações mal-administradas. Se você quiser condenar uma organização ao fracasso basta deixá-la à própria sorte nas mãos de pessoas despreparadas. Qualquer que seja o ramo de atividade, a concorrência hoje é brutal e a falta de uma administração profissional é o mesmo que uma sentença de morte para uma empresa, independentemente de seu porte. No caso das empresas familiares a situação é ainda mais complexa, tendo em vista outros fatores envolvidos, como o relacionamento entre os sócios, hierarquia, confiança etc.?

Roberto Cardoso, presidente do CRA/SP

Portanto, para seguir fazendo o mel da fase heróica, em qualidade e quantidade suficientes para garantir o crescimento e a sobrevivência, a empresa familiar não tem outra alternativa fora da profissionalização.

Número 621 - 08 de janeiro de 2007

O principal desafio do
segundo governo do presidente Lula

Com o anúncio de um Programa de Aceleração do Crescimento, que não existe ainda, o governo Lula 2 sucumbirá à “maldição do segundo mandato? se não conseguir a volta do crescimento

 

O ponto de partida para sondar o que pode ser o segundo governo Lula deve ser o seu discurso no dia da posse. Aliás, os discursos porque, na realidade, foram dois.

“Um pensado e repensado, imagino que revisto várias vezes, escrito e reescrito, bem lido, e ótimo. No segundo, o do palavratório, de improviso, Lula disse basicamente a mesma coisa mas por meios tortuosos, numa amostra ao mesmo tempo da comunicação direta do presidente com o povo a que tinha aludido no seu discurso formal e da falta que faz um script.?

Luis Fernando Veríssimo, 04.01.07

No discurso feito no plenário da Câmara dos Deputados, na cerimônia de posse no segundo mandato, o presidente falou em “acelerar, crescer e incluir? e anunciou um programa específico, o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento. Um programa que tem mais de intenção do que concretude.

“O PAC é um balão de ensaio (…) Não existe nada além de fragmentos de intenções. Há sessenta dias o governo se debate para fazer o tal do PAC e não consegue. Falta, ainda, a receita do crescimento. O que aparece são palavras de ordem — destravar o país, acabar com as amarras, etc. Não temos ainda um conjunto organizado de ações governamentais. Sequer temos um ministério.?

Murillo de Aragão, Blog do Noblat, 04.01.07

Aliás, não só o PAC não está montado nem o ministério está definido, como o ainda presidente entrou de férias e mandou dizer que o segundo governo só começa, mesmo, lá para o dia 15 de fevereiro, depois das eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado.

Olhado com cuidado, o PAC que, em princípio, deveria sintetizar as ações necessárias à propalada retomado do crescimento, em muito começa a se assemelhar ao programa Fome Zero, lançado com grande divulgação no início do primeiro mandato, e que até o momento não se materializou.

“Não se tinha idéia de onde buscar os recursos, de como definir quem eram os famintos, como cadastrá-los e como fazer os alimentos chegarem às devidas bocas (…) O ‘zero’ estava na moda. Vinha de ‘tolerância zero’, um programa de segurança pública em Nova York.?

Roberto Pompeu de Toledo, Veja, 10.01.07

Se não passar apenas de propaganda, o esforço de retomar o crescimento sustentado, absolutamente essencial para o futuro do país, por certo levará o governo Lula a sucumbir àquilo que o economista Paulo Nogueira Batista Jr. chama de “maldição do 2o. mandato? que já atingiu, entre outros, Fernando Henrique Cardoso, Carlos Menen, Alberto Fujimori e George W. Bush.

“Se não conseguir colocar a economia em movimento, o governo Lula afundará na mediocridade e sucumbirá à maldição.?

Paulo Nogueira Batista Jr., FSP, 07.01.07

Sem conseguir retomar o caminho do desenvolvimento, o que se pode esperar do 2o. governo em relação ao crescimento é, infelizmente, mais do mesmo pelos próximos quatro anos.

Número 620 - 01 de janeiro de 2007

Um excelente 2007 para
todos os leitores do Gestão Hoje!

Que o ano novo que se inicia seja pleno de invenções e reinvenções e que possamos materializar as esperanças e realizar os sonhos necessários à continuidade da vida e da gestão

 

No ótimo filme “Vinícius? (direção de Miguel Faria Jr.), sobre a vida e a obra do poeta Vinícius de Moraes, já disponível em DVD (por sinal, um excelente presente), o também poeta Ferreira Gullar, falando sobre o “poetinha? (como Vinícius era tratado pelos amigos) e porque preferia a sua visão positiva sobre a vida (“para cima?), em contraposição a outros que cultivam a visão pessimista, faz um comentário que merece citação:

“A vida é uma invenção. Se você quiser inventar para ruim, inventa para ruim; se quiser inventar para bom, inventa para bom.?

Ferreira Gullar

Uma citação, mais do que filosófica, oportuna nesse momento de mais um ano novo em que, com data marcada, as esperanças se renovam, os sonhos se reciclam, as perspectivas se rejuvenescem. O teor dessa citação, aparentemente simples e óbvia, mas de grandes implicações na vida prática, já havia sido tratado pela também grande poeta Cecília Meireles de forma mais radicalmente poética com o sentido de invenção repetida ou reinvenção. Talvez porque, mais do que com uma grande invenção, tenhamos sempre que lidar com várias e renovadas invenções.

“A vida só é possível se reinventada.?

Cecília Meireles

E para ajudar na reinvenção nesse início de ano, o Gestão Hoje reproduz para os seus leitores um belo poema, justamente de Ferreira Gullar, que trata do próprio ritual de passagem do ano e do novo recomeçar com a esperança que não se escreve nas estrelas mas que se inscreve no íntimo de todos aqueles que sonham.

ANO NOVO

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho

                  estelar
                  que sonha
                  (e luta)

Ferreira Gullar

Com o agradecimento por mais esse ano de leitura e com os votos de um ano novo cheio de invenções e reinvenções, o Gestão Hoje dá as boas vindas a 2007 com o mesmo compromisso de sempre com os leitores: comentários os mais isentos possíveis sobre os assuntos de maior interesse para a moderna gestão empresarial.

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