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Número 619 - 25 de dezembro de 2006

A crise requer comando unificado e
não apenas tentativa de solução negociada

O mais novo tumulto nos aeroportos brasileiros no Natal mostra que o aumento da demanda não acompanhado pela oferta gerou uma crise que, para ser administrada, precisa de comando único

 

Assim como a saúde, há muitas coisas em relação às quais só nos damos conta de como funcionavam bem quando passam a funcionar mal. Esse é o caso flagrante do setor aéreo no Brasil em 2006. Neste Natal, a desorganização do tráfego (já comentada no GH/614), assumiu os temidos contornos de um “apagão?, sinalizando aquele que provavelmente será avaliado como o pior ano da aviação civil no Brasil.

“Somente nos últimos três meses, houve o acidente da Gol e a crise nos aeroportos — que começou com a operação-padrão dos controladores de vôo, passou pela quebra de um equipamento do Cindacta 1, em Brasília, e culminou na retirada de circulação de seis aeronaves da TAM. Nesse período, mais de 3 mil vôos foram cancelados e 212 mortes registradas.?

Henrique Gomes Batista, O Globo, 24.12.06

Nos principais aeroportos do país, no fim de semana do Natal, viu-se de tudo. Atrasos de vôos que chegaram, em casos extremos, a 48 horas. Passageiros revoltados, dormindo pelos cantos e invadindo as pistas em protesto pela desatenção e, sobretudo, pela falta de informações. O próprio ministro da Defesa, um dos responsáveis pela gestão da crise, foi flagrado esperando um vôo atrasado quatro horas no aeroporto de Brasília. A desorganização foi tanta que o presidente Lula viu-se obrigado a intervir pessoalmente autorizando o empréstimo de dez aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), dentre os quais os famosos Sucatão (antigo avião presidencial) e o Sucatinha (usado pelos ministros), para transporte dos passageiros abandonados pela TAM.

Na base das causas da situação atual, encontra-se, sem dúvida, o crescimento da demanda que não foi acompanhado pela oferta nem pela atualização adequada da infra-estrutura. Pelo contrário, até. Com a quebra da Varig, o setor desorganizou-se. Só no primeiro semestre, o tráfego aéreo cresceu 22,6% em relação ao mesmo período de 2005. Já a demanda por assentos em 2006 subiu 13%, enquanto a oferta cresceu apenas 7,8%. O próprio presidente Lula, no auge da última crise, manifestou-se sobre o assunto.

“Temos um bom problema, que é o crescimento do número de passageiros. E temos um mau problema, que é que o Brasil hoje não tem a Varig.?

Luis Inácio Lula da Silva, 22.12.06

Essa situação de descompasso entre oferta e demanda agravou-se muito com as indefinições e atrapalhos institucionais e gerenciais a que vem sendo submetida a gestão do setor. Ministério da Defesa, Aeronáutica, Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), Infraero, embolam-se na tentativa de coordenação negociada de um setor que, além de desorganizar-se, entrou em crise.

“Tentar uma solução negociada numa crise só vai agravar os problemas.?

José A. do Patrocínio, professor FGV, O Globo, 07.12.06

A crise requer unidade de comando. Em situação similar quando, no governo FHC, a sociedade correu o risco de um “apagão? elétrico, para coordenar as inúmeras instituições do setor e encontrar uma saída para o problema, foi nomeado o então ministro da Casa Civil, Pedro Parente. À frente da Câmara de Gestão da Crise conduziu a situação até o fim do racionamento.

“É preciso ter alguém que encarne essa função. Alguém com autoridade e responsabilidade simultaneamente.?

José A. do Patrocínio, professor FGV, O Globo, 07.12.06

No último capítulo da novela aérea, quem assumiu esse papel foi o próprio presidente. Esperemos que não precise permanecer nele por muito tempo.

Número 618 - 17 de dezembro de 2006

A simbiose da China com os EUA
e a oportunidade perdida pelo Brasil

Depois de um quadriênio de crescimento excepcional sustentado pela parceria China/EUA, a economia mundial deve começar a desacelerar em 2007 deixando o Brasil de novo para trás

  A economia mundial vive nos últimos quatro anos um dos seus melhores momentos em termos de crescimento desde a Segunda Guerra Mundial. Mais precisamente o melhor momento desde o choque do petróleo em meados da década de 1970. Desde 2003 que a economia mundial cresce a taxas superiores a 4% ao ano (4,1% em 2003; 5,3% em 2004; 4,8% em 2005; e cerca de 5,1% em 2006). Todavia, segundo previsões do FMI (Fundo Monetário Internacional), esse ritmo deve arrefecer a partir de 2007.

“Depois do melhor período de bonança e crescimento das últimas três décadas, a economia mundial, com os EUA à frente, deve começar a desacelerar para um ritmo mais moderado a partir do próximo ano.”

Folha de S. Paulo, 05.09.06

Chama a atenção nesse quadro de crescimento, a extraordinária performance econômica da China que cresce a taxas próximas a 10% ao ano há mais de 25 anos seguidos.

“A China não pára: é, de longe, o país que mais cresceu desde 1980. Uma média de 9,6% por ano neste quarto de século. Significa dizer, por exemplo, que nos últimos três anos acrescentou quase um Brasil inteiro ao seu PIB.”

Lauro Jardim, revista Veja, 09.08.06

O fenômeno chinês é, de fato, impressionante. Com mais de 1/5 da população mundial, a China é o país de maior população da Terra com 1,3 bilhões de habitantes. República popular proclamada em 1949 por Mao Tsé-Tung, passou por uma reforma conduzida por Deng Xiaoping em 1978 que criou uma economia de mercado capitalista dentro de um sistema político socialista.

“Desde o milagre de Deng, saíram da pobreza cerca de 400 milhões de pessoas, a maior massa humana a ascender de patamar, em menos tempo, em toda a história da humanidade.”

Vilma Gryzinski, revista Veja, 09.08.06

De um lado, a China com o seu crescimento impressionante; do outro, os EUA com seu déficit comercial inacreditável de US$ 790 bilhões (mais de US$ 2 bilhões por dia). Hoje, são os dois motores do crescimento mundial, com destinos intimamente interligados e cooperativos como destaca o presidente do Icone (Instituto de Estudos de Comércio e Negociações Internacionais):

“A China já detém um superávit comercial anual de US$ 200 bilhões com os EUA. Ou seja, uma parcela considerável das reservas asiáticas tem sido utilizada para financiar o rombo dos EUA por meio da aquisição de títulos de longo prazo do Tesouro Federal.”

Marcos S. Jank, Icone, Estado de S. Paulo, 06.09.05

Trata-se de uma relação simbiótica que tem seus limites e não pode ser levada adiante com a atual intensidade indefinidamente. Basta a China sinalizar que não mais usará o seu superávit para financiar generosamente o déficit norte-americano que o mercado financeiro internacional entra em curto-circuito. Daí, a tendência de moderação do crescimento mundial, já que essa situação deve sofrer ajustes graduais. Quando isso ocorrer, o Brasil terá perdido mais essa janela para restabelecer o tão necessário crescimento sustentado.

“Em 2006, o crescimento do PIB deve ficar abaixo de 3%, ante uma taxa projetada de 7,3% para os países emergentes e 5,1% para o mundo.”

Eduardo Giannetti, economista, Exame, 20.12.06

Número 617 - 11 de dezembro de 2006

Crescimento, educação e segurança,
as três grandes prioridades dos governos

Em meio ao turbilhão de carências do país e da coleção de iniciativas que os governos tendem a ensaiar em seus inícios, destacam-se aquelas prioridades que são requisito para todas as outras

 

O Gestão Hoje anterior (ver número 616) tratou da necessidade de serem escolhidas poucas prioridades porque quem tem muitas, na prática, não tem prioridade nenhuma.

Esse preceito tanto serve para uso restrito quanto para uso amplo. Tanto como regra mnemônica (para não se esquecer do que deve ser dito ou lembrado) quanto, por exemplo, para balizar o que se deve pretender como referência de desenvolvimento para o país.

Neste particular, a questão do desenvolvimento está na ordem do dia com a proximidade da posse do presidente Lula, inaugurando seu novo mandato.

Nas atuais circunstâncias do país, o desenvolvimento necessário só se pode dar como resultado de uma “equação? que articule as seguintes prioridades:  (1) Crescimento Sustentado; (2) Educação Integral; e (3) Segurança Nacional.

1. Crescimento Sustentado

Do início do Século 20 até a década de 1980, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo, com taxas acima de 5% ao ano, passando da 48a. posição em 1964 para a 8a. em 1984 no ranking das economias globais. Todavia, após a crise da dívida externa e do descontrole do processo inflacionário na década de 80, o país passou a crescer a taxas muito baixas (menos de 2,5% em média por ano), muito aquém daquela necessária só para incorporar o contingente da população que chega todo ano para ingressar no mercado de trabalho. Como o crescimento é baixo, uma grande parcela da população passa a engordar as fileiras da informalidade e da marginalidade. Tecnicamente, pode-se dizer que só haverá crescimento sustentado quando o país conseguir crescer acima de 5% ao ano por, pelo menos, 10 anos seguidos.

2. Educação Integral

Escola em tempo integral com ensino de qualidade para todas as crianças e adolescentes em idade escolar deve ser uma prioridade a ser perseguida permanentemente por todos os governos. Sem isso e sem oportunidades de emprego para os pais, a tendência de evasão escolar é enorme, quando não estimulada ou consentida pelos pais como recurso de complementação da renda familiar. E o mais grave: com a entrada em vigor do Estatuto do Desarmamento, as armas de fogo transferiram-se das mãos dos adultos para as dos adolescentes, haja vista a grande quantidade de assaltos com morte praticados por menores de idade nos últimos tempos.

3.  Segurança Nacional

Sem oportunidades de emprego e com um grande contingente de crianças e adolescentes fora da escola, o que se vê é o crescimento da informalidade e da insegurança pública diante de um aparato desarticulado e desaparelhado. Só o tratamento nacional da questão com a unificação das polícias e da inteligência, bem como com articulação federal, inclusive, se for o caso, com a criação de um ministério da Segurança Pública, é que se começará a encaminhar adequadamente a questão. Enquanto isso não se faz, vamos continuar assistindo a cotidiana tragédia da insegurança, fazendo o possível (e necessariamente insuficiente) do ponto de vista pessoal para não sermos atingidos por ela.

Essas são as condições básicas, essenciais, para o desenvolvimento elementar do país. Devem ser objeto de cobrança para qualquer governo bem como de sua avaliação. Com elas estabelecidas e funcionando de forma integrada, as outras condições complementares se implantam e se estabelecem. Sem elas, a guerra cotidiana continuará sem tréguas, apesar das políticas compensatórias postas em prática pelo governo como é o caso da Bolsa-Família, uma medida importante e necessária mas nem de longe suficiente.

Fixar essas três prioridades como referência para verificar se o governo (qualquer governo) está indo no caminho certo é essencial para que não nos percamos com todas as iniciativas tomadas, nem sempre no caminho certo.

Número 616 - 04 de dezembro de 2006

Em meio ao “oceano da informação,
ajuda muito a “regra de três das prioridades

Estabelecer três prioridades, seja para a vida como propõem os mais radicais, seja para o dia-a-dia, é uma prática salutar para poupar tempo, para enfrentar a dispersão e para simplificar a vida

 

Uma das características da sociedade contemporânea, já batizada de “sociedade da informação, é o excesso de informações disponibilizadas para consumo de quem quer se manter minimamente informado acerca do que está acontecendo no mundo e ao seu redor. Jack Trout e Steve Rivkin, no bom livro “O Novo Posicionamento — A Última Palavra sobre Estratégias de Negócios no Mundo (Makron Books, 1996, São Paulo), fazem algumas referências ilustrativas a respeito:

“Nos últimos 30 anos produziram-se mais informações do que nos 5.000 anos anteriores; o total de conhecimento impresso dobra a cada quatro ou cinco anos; uma edição do New York Times de um único dia útil contém mais informação do que a quantidade a que uma pessoa tinha acesso, durante toda a sua vida, na Inglaterra do século XVII.

Jack Trout e Steve Rivkin, escritores norte-americanos

Diante dessa verdadeira avalanche informativa, o peso recai sobre as escolhas a serem feitas e sobre a quantidade a ser assimilada e processada. Diante de muita informação, além do estresse por não conseguir dar conta, pode sobrevir algo semelhante a um “curto circuito que leve a uma espécie de “apagão informativo.

“Uma boa quantidade de informação é benéfica e o excesso pode ser péssimo, porque não se consegue encará-lo e escolher o que presta. (…) o excesso de informação pode transformar-se em puro silêncio.

Umberto Eco, escritor italiano

A questão da escolha passa a ser, então, crucial. Elaine St. James, escritora norte-americana, autora do livro Simplify your Life: 100 Ways to Slow and Enjoy the Things that Really Matter  (“Simplifique sua Vida: 100 Maneiras de Diminuir o Ritmo  e Desfrutar das Coisas que São Realmente Importantes), chega a propor que, não só para a informação como para a vida, a opção recaia sobre poucas prioridades.

“Ninguém consegue manter mais de três prioridades (…) Descubra quais são suas prioridades e diga não para todo o resto.

Elaine St. James, escritora norte-americana

Pode ser que não se consiga para a vida uma redução tão radical de focos de atenção, embora se deva tentar, por uma razão muito simples: o excesso de prioridades significa a ausência delas.

“Quem tem prioridades demais, não tem, na prática, prioridade nenhuma.

Gestão Hoje 415, 27.01.03

Mas, independente desta luta que termina sendo cotidiana pela manutenção do foco no vasto oceano da informação e da conseqüente dispersão, a “regra de três das prioridades termina sendo particularmente útil quando se tem que comunicar algo importante, seja numa conversa em tempo exíguo, seja num discurso de “improviso. A propósito do discurso de improviso, são raros os que o são de fato. Só mesmo quando a surpresa da demanda é total e imediata.

“Geralmente leva pouco mais que três semanas para se preparar um bom discurso de improviso.

Mark Twain, 1835-1910, escritor norte-americano

Quando se tem que fazer um pronunciamento importante sem ser escrito, quando se tem que ter uma conversa essencial com quem é muito ocupado, quando se tem que priorizar o que tem ser feito no dia etc, ajuda muito fixar-se em três prioridades. Ajuda a ser essencialmente seletivo e, mais do que isso, ajuda a memorizar o indispensável.

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