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Número 611 - 30 de outubro de 2006

Eleitor termina decidindo deixar o
“homem trabalhar? por mais quatro anos

Apesar dos escândalos e das dificuldades éticas do primeiro mandato, a maioria absoluta dos eleitores decide deixar o presidente Lula terminar o seu mandato de oito anos à frente do país

Confirmando a lógica eleitoral no Brasil, depois da introdução do instituto da reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva foi aprovado no “plebiscito de meio de mandato?, com a ajuda da economia e da queda da miséria (ver a propósito GH/605 e GH/606). O acidente de percurso que levou ao segundo turno deveu-se mais ao descuido da situação do que à competência da oposição (ver a propósito GH/607).

“Há muitas razões que explicam a vitória de Lula nas eleições deste domingo e muitas serão discutidas nos próximos dias, mas há uma que me parece fundamental: Lula ganhou porque, para a maioria da população, não estava na hora de mandá-lo de volta para casa com apenas quatro anos de mandato.?

Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, 29.10.06

Depois que foi para o segundo turno sem esperar, Lula reagiu, partiu para o ataque e não se intimidou nem com a reação mais agressiva de Geraldo Alckmim no primeiro debate (ver a propósito GH/608). Na segunda etapa da eleição, depois de ter captado o recado do eleitorado que o queria mais afirmativo e menos envolvido com dossiês, Lula pôde mostrar o que, de fato, tornou-se decisivo, a ponto de ver Alckmim ter mais de dois milhões de votos a menos do que no primeiro turno.

“Desta vez, Lula partiu para a reeleição tendo três trunfos na mão: a sua personalidade, as suas realizações e os erros dos adversários.?

Editorial Estado de S. Paulo, 29.10.06

De fato, o segundo turno foi palco para um presidente mais solto, mais irônico, mais à vontade para mostrar sua personalidade incomum, lembrar sua trajetória impressionante e sua origem mais do que humilde e, ajudado pela falta de consistência da oposição, conseguir colocar seu adversário na defensiva e mostrar, com mais clareza, o que fez pela parcela mais pobre da população.

“Acima de tudo para os eleitores que confiaram em Lula, esses ‘primeiros’ quatro anos foram de cumprimento da palavra empenhada, de resgate do que seria seu compromisso fundamental, tão fundamental que não precisava sequer ser enunciado, de fazer um governo que melhorasse as condições de vida dos mais pobres. Isso, para a maioria da população, Lula fez e fez até mais que muitos esperavam.?

Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, 29.10.06

Foi isso que desenhou a vitória alcançada e suplantou todo o passivo de escândalos e questionamentos éticos que se abateram sobre o governo no primeiro mandato. No segundo turno, Lula conseguiu passar uma mensagem do tipo: “meu governo teve muitos problemas, mas cumpri a promessa de ajudar os mais pobres e pretendo fazer mais no segundo mandato?. Para isso, inclusive, já parte com uma vantagem grande.

“Diferentemente do que ocorreu nos últimos 20 anos, o candidato não terá de vestir um uniforme de bombeiro para apagar incêndios na área econômica. Ele comandará um país com indicadores macroeconômicos de fazer inveja aos antecessores.?

Leandro Modé, Estado de S. Paulo, 29.10.06

Claro que terá também muitas dificuldades, inúmeras delas herdadas do primeiro governo, além de enfrentar, muito provavelmente, uma conjuntura internacional menos benigna. Mas isso já é assunto para um outro GH.

Número 610 - 23 de outubro de 2006

Tanto as privatizações quanto
o Bolsa-Família são bons para o país

As paixões despertadas pelas preferências eleitorais não devem embotar a capacidade de raciocinar logicamente nem de reconhecer o que é ou não bom para o país e para a sociedade

Diz a sabedoria popular que em se tratando de futebol, religião ou política, nenhuma discussão termina bem. Até em mesa de restaurante, cujos freqüentadores diários prezam a tranqüilidade do convívio, existe a determinação (no restaurante Gula Gula, Rio de Janeiro, de acordo com o site http://www.gulagula.com.br/):

“A única regra que temos é não falar de política, religião ou futebol, assuntos que sempre dão briga.”

Rui Rodrigues, publicitário carioca

Em época de eleição, então, os ânimos se exaltam e o raciocínio lógico fica refém das paixões despertadas pela torcida a favor do candidato preferencial. Tudo termina girando em torno das preferências, não raro cegas para outras evidências que não aquelas vinculadas ao candidato em que, por razões diversas, já se escolheu votar.

“A paixão sem razão é cega.”

Baruch de Spinoza, 1632-1677, filósofo holandês

Por isso mesmo, a bem da preservação da lucidez, vale a pena um esforço de raciocínio lógico e ao máximo possível desapaixonado, sobre pelo menos duas questões importantes que estão sendo tratadas na campanha para presidente da República, tanto de um lado quanto do outro: (1) privatizações; e (2) Bolsa-Família. No que diz respeito às privatizações condenadas pela campanha de Lula, urge que se faça, de partida, a seguinte ressalva:

“As privatizações que o presidente-candidato condena envolveram empresas que o setor privado administrou com uma eficiência que o Estado nunca demonstrou, como mostram os resultados da Vale do Rio Doce, das usinas siderúrgicas e das teles.”

O Estado de S. Paulo, 15.10.06

De fato, não fosse a privatização realizada no governo FHC, a telefonia, por exemplo, continuaria como monopólio estatal que só disponibilizava pouquíssimas linhas, fixas ou móveis, a preços exorbitantes que ensejavam, inclusive, declaração no Imposto de Renda.A exploração eleitoral do tema é completamente anacrônica e só surte efeito pela inabilidade do PSDB em explicar seus benefícios, a ponto de o candidato Alckimim aparecer para a imprensa envergando uma inadequada jaqueta com as logomarcas de empresas públicas, por definição, não privatizáveis. Em relação, por sua vez, ao programa Bolsa-Família, a desinformação é semelhante.

“O Bolsa-Família atende hoje cerca de 9 milhões de famílias em todo o Brasil e a meta é chegar até 11,1 milhões ainda este ano, quando estão previstos gastos de cerca de R$ 8,7 bilhões. Recebem o benefício mensal, entre R$ 15,00 e R$ 95,00, famílias com renda por pessoa de até R$ 120,00 por mês. Como contra-partida, a família beneficiada se compromete a manter os filhos na escola e cumprir cuidados básicos com a saúde.”

www.contasabertas.uol.com.br, 17.10.06

As estimativas dão conta de um contingente de beneficiários da ordem de 45 milhões de pessoas a um custo anual de cerca de 0,5% do PIB, o que foi fator decisivo para a queda de 19,18% da miséria no governo Lula (ver a respeito GH/606). Tanto as privatizações quanto o Bolsa-Família, são, portanto, coisas boas para o país. Se os métodos não foram adequados, se houve falcatrua ou se as contra-partidas estão sendo desconsideradas, aí é outra história. O que não se deve é jogar o menino fora junto com a água do banho por embotamento da razão em face da paixão eleitoral. Afinal, com ambas iniciativas o país avança. Aos trancos e barrancos, como sempre, mas avança.

Número 609 - 16 de outubro de 2006

Eleição divide o país em dois:
Norte contra Sul e pobres contra ricos

A campanha presidencial no 2o. turno terminou evidenciando a divisão do país pelo voto entre aquelas pessoas e regiões para quem a economia vai bem e as outras para quem ela vai mal

 

Além de possibilitar uma melhor visão das principais intenções dos candidatos à presidência da República, o segundo turno está deixando evidente um fenômeno que não ficou muito claro no primeiro: a divisão do país em duas partes bastantes distintas.

“Uma diagonal cruzou o Brasil do Acre ao Rio de Janeiro como num novo Tratado de Tordesilhas. As regiões Norte e Nordeste seriam a ‘América’ de Lula. Centro-Oeste, Sul e grande parte do Sudeste são o continente de Alckmin. Neste corte transversal, os votos de Lula estariam na metade superior e os do candidato tucano na metade inferior.?

Revista Dinheiro, 11.10.06

Quando se observa que nos Estados do Nordeste entre 42,1% e 50% da população vive em famílias atendidas pelo Bolsa Família e que nesses estados Lula teve no primeiro turno entre 56,1% a 80% dos votos válidos, é possível fazer a relação responsável pelo fenômeno da divisão do país pelo voto. Nas outras regiões (Centro-Oeste, Sudeste, Sul), a votação seguiu a mesma tendência. Nelas, a Bolsa Família atinge entre 10% e 26% dos habitantes e Lula teve entre 20% e 44% dos votos válidos. O desempenho de Alckmin segue exatamente o mesmo padrão, mas de modo inverso.

“O mapa do Brasil com a incidência por Estado do atendimento do Bolsa Família, por exemplo, é um ‘decalque’ da votação obtida por Lula na maioria das unidades do país.?

Folha de S. Paulo, 15.10.06

Se quanto mais carente o estado, melhor a votação de Lula, esta “geografia? evidencia um problema mais complexo. Esse diálogo ocorrido num shopping da capital paulista, no fim de semana passado, ajuda a lançar luz sobre o assunto:

Pergunta de uma vendedora paulistana: por que o pessoal lá do Nordeste vota tanto no Lula, hem?

Resposta de uma cliente nordestina: porque tem muito pobre por lá.?

Diálogo num Shopping Paulista, 14.10.06

A divisão do país, que o segundo turno está evidenciando com nitidez, manifesta-se geograficamente mas a sua verdadeira natureza é social e econômica. À Bolsa Família, o governo Lula aliou um controle firme do aumento do custo de vida dos produtos básicos e um efetivo aumento real do salário mínimo. Como resultado tem-se que se a população brasileira pobre vivesse num país imaginário, a taxa de crescimento seria próxima a 20%, conforme destaca estudo recente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros.

“A percepção dos pobres é de estar vivendo num país com alto nível de crescimento, enquanto a dos ricos é de viver num país em crise?

Estudo do Ipea, IstoÉ, 11.10.06

Independente de qualquer outra avaliação que se possa fazer do governo Lula, neste particular, ele cumpriu o que prometeu.

“É impressionante como Lula cumpriu o que prometeu que era governar para os mais pobres. E o dividendo eleitoral é claro.?

Celso Toledo, economista da MCM, FSP, 15.10.06

A questão para o conjunto do país é que uma face do desenvolvimento não pode ser cuidada em detrimento da outra, mesmo porque uma não se sustenta no médio prazo sem a outra. Um desafio e tanto para o próximo mandato presidencial.

Número 608 - 09 de outubro de 2006

Primeiro debate mostra que a
democracia ganhou com o 2o. turno

Diferentemente do primeiro turno onde predominou uma batalha de estereótipos, no segundo o país tem a oportunidade ímpar de acompanhar o debate cara-a-cara dos candidatos a presidente

Passado o primeiro turno das eleições 2006, chama mais uma vez a atenção a impressionante magnitude da mobilização popular, comparada com a normalidade do pleito, tudo sem incidentes registrados. Um verdadeiro exercício bem sucedido de democracia representativa que, inclusive, dá exemplo para o mundo desenvolvido sobre rapidez e lisura da apuração. Antes da meia noite do dia da votação os resultados do pleito já haviam sido anunciados.

“Foram 126 milhões de eleitores num território de mais de oito milhões de quilômetros quadrados, sem que se tenha notícia de um crime, uma desordem sequer.?

Carlos José Marques, diretor editorial da IstoÉ, 11.10.06

Além dessa constatação, concluído o primeiro turno, dissemina-se, também, o entendimento entre os formadores de opinião, mesmo aqueles eleitores de Lula que esperavam a vitória antecipada, como é o caso do vice-presidente da República, candidato à reeleição, que o segundo turno é uma coisa boa para o país pela oportunidade que oferece de uma escolha mais embasada.

“Lula só não ganhou no primeiro turno porque isso é bom para o Brasil.?

José de Alencar, vice-presidente, Veja, 11.10.06

A campanha do primeiro turno privilegiou estereótipos dos candidatos em vez do debate de idéias, como é indispensável do ponto de vista da democracia. No segundo turno, a história deve ser diferente, com a exposição e o confronto de propostas.

“O Lula candidato falava em ‘perseguição das elites’. A oposição gritava contra a malemolência ética do poder. Agora não. O discurso na boca final das urnas deve ser outro. Lula e Alckmim têm a chance, e o tempo, para expor um real desenho de como pode ser o Brasil dos próximos quatro anos.?

Carlos José Marques, diretor editorial da IstoÉ, 11.10.06

No segundo turno, vai continuar a divisão que caracterizou o primeiro (o país está dividido como talvez nunca esteve numa eleição presidencial) mas com a diferença de que os dois lados vão estar expostos com a nitidez das contendas polarizadas, sem a cacofonia das candidaturas minoritárias e proporcionais.

“Agora, o povo vai prestar atenção na disputa como a uma final do Fla x Flu. Agora, a razão vai bater um bolão. Seremos um país dividido, sim. Mas não pela irracionalidade. Dividido entre duas tendências políticas.?

Arnaldo Jabor, CBN, 04.10.06

Com o segundo turno, privilegia-se o debate cara-a-cara como o realizado pela Rede Bandeirantes neste domingo 08.10.06. Ali os candidatos começaram a aparecer com suas propostas e arengas, um dizendo para o outro, diretamente. Com a vantagem adicional de ter dado o tom da campanha até a votação do dia 29 de outubro.

“O que se viu no debate será o tom da campanha daqui para a frente. Ou seja, a conjugação dos pontos programáticos com as denúncias. Não podia ser diferente.?

Fernando Mitre, jornalista da Band, 01.10.06

O debate começou na TV mas continua na sociedade. Ganham os eleitores, ganha o país. No que diz respeito aos candidatos, que ganhe o que os eleitores acharem melhor mas que ganhe mostrando a que veio e o que pretende fazer nos próximos quatro anos. A democracia agradece.

Número 607 - 02 de outubro de 2006

2º turno oferece oportunidade para
debate de propostas entre candidatos

Impactada pelo mais recente escândalo da compra do dossiê contra José Serra, a candidatura Lula não ganha no tempo regulamentar e leva o jogo para uma prorrogação inesperada

 

Deu zebra. Contrariando as tendências dos últimos meses e a vantagem acumulada pelo candidato à reeleição, em razão do desempenho da economia (ver GH/605) e da queda da miséria (ver GH/606), a eleição presidencial foi para o segundo turno. Contra as previsões de todos, inclusive as do próprio presidente.

“Ganhei, gente. Ganhei de novo. Não precisou nem de prorrogação. Mesmo com o time desfalcado, ganhei no tempo regulamentar. Vão ter que engolir, de novo, o torneiro mecânico, nove dedos e monoglota. É Lulinha de novo, com o voto do povo.?

Presidente Lula, em comício, Blog do Noblat

O fator que mudou o jogo, dando prosseguimento à metáfora futebolística, aos 44 minutos do segundo tempo, foi a impressionante trapalhada armada, mais uma vez, pelo PT com, ao que parece, o objetivo de atrapalhar a candidatura de José Serra e favorecer a de Aloísio Mercadante ao governo de São Paulo. A operação, chamada pelo ministro Tarso Genro de “Dossiê Tabajara?, numa alusão às organizações da turma do Casseta & Planeta, foi tão mal conduzida que o próprio presidente, em conversa telefônica reconstituída pelo blog do jornalista Josias de Souza, chegou a aventar a hipótese de sabotagem.

“A gente dá 50 voltas no autódromo, conduz o carro com todo o cuidado, abre uma enorme vantagem sobre os adversários e, na última curva, vem o nosso próprio pessoal e joga óleo na pista. Isso tem nome. É sabotagem.?

Presidente Lula, segundo o Blog Josias de Souza

Realmente, se tivesse sido montada por encomenda da oposição não teria sido tão perfeita. Depois de toda a lambança do mensalão, superada, em termos de imagem, pela impressionante habilidade comunicativa do presidente, que conseguiu passar por cima da opinião pública e dos meios de comunicação, e estabelecer um canal direto com os seus eleitores, vem à luz uma operação desastrada e reabre a ferida em vias de cicatrização. Não fosse essa manobra, no mínimo irresponsável, a fatura seria liquidada no primeiro turno, com a ajuda, inclusive, da candidatura Alckmin, que não foi veemente em relação ao tema como queriam, inclusive, seu aliados.

“Alckmin poderia ter ganho no primeiro turno e ir para o segundo na frente se tivesse abordado as mazelas de Lula e seu governo no inicio da campanha. O dossiêgate teria então a força do ‘Não disse!?’?

César Maia, prefeito do Rio, Blog do Noblat

Além do caso do dossiê, por certo contribuiu também para o resultado do primeiro turno a não ida do candidato-presidente ao último debate promovido pela Rede Globo, que deixou sua cadeira vazia como depositária das pancadas dos outros candidatos presentes. Agora, vamos para a prorrogação.

“Não concordo com a tese de que o segundo turno é uma outra eleição. O segundo turno pode ser melhor comparado à prorrogação de um jogo de futebol. Nele pesa mais a atuação nos últimos 15 minutos do tempo regulamentar do que na do restante do jogo.?

Cláudio Couto, professor PUC/SP, Globonews, 01.10.06

A vantagem do segundo turno é a oportunidade que se abre de discussão dos temas relevantes para o país que não foram tratados no primeiro turno. Para nós, os eleitores, resta torcer por uma campanha limpa e propositiva e por um debate de idéias, de fato, elevado. O país merece e precisa disso.

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