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Número 606 - 25 de setembro de 2006

Queda da miséria transforma-se
em grande cabo eleitoral da reeleição

Estudo mostra alta semelhança entre queda da miséria no primeiro governo FHC e no governo Lula, o que ajuda a explicar a ampla vantagem do petista até antes do último escândalo

Enquanto não se sabe se a evolução do mais recente escândalo político será capaz de levar para o segundo turno uma eleição presidencial que parecia, até a semana passada, caminhar para a decisão logo no primeiro, a publicação de um novo estudo, na semana passada, dá conta de que a miséria diminuiu no Brasil.

“A queda no nível de pobreza entre 2003 e 2005 é a maior dos últimos 10 anos. É o que revela a pesquisa Miséria, Desigualdade e Estabilidade: O Segundo Real, divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os dados do estudo mostram que a miséria ainda atingia 28,2% da população brasileira em 2003, quando começa um novo ciclo de queda, e chegou a 22,7% em 2005.?

JB On Line, 22.09.05

Esses números mais recentes dão conta de que o ocorrido no governo Lula equivale ao ocorrido no governo Fernando Henrique Cardoso, quando a miséria, pós Plano Real, caiu de 35% para 28% da população. De 2003 a 2005 a queda acumulada da miséria foi de 19,18%, enquanto no período FHC a queda foi de 21,8%. Com uma diferença: a queda no período Lula se deu em 3 anos, enquanto a do período FHC se deu em 8 anos, com uma média muito parecida quando computados os primeiros mandatos de ambos (5,1% contra 5,2% ao ano, respectivamente). Marcelo Néri, chefe do Centro de Pesquisas Sociais da FGV, coordenador do estudo e especialista em renda no Brasil esclarece as razões desse fenômeno.

“Néri explicou que a redução no nível de pobreza observada nesse período está ligada a fatores como a retomada da oferta de empregos, a programas de distribuição de renda, do tipo do Bolsa Família, e à expansão dos gastos previdenciários.?

A Tarde, 21.09.05

O governo Lula, na prática, aprofundou o caminho iniciado no governo FHC, com a diferença de ter dado ênfase à parcela da população mais pobre.

“FHC fez políticas mais horizontais, que afetaram todos os brasileiros. No final do governo criou programas de transferência de renda que foram aprofundadas no governo Lula, que se preocupou mais com os mais pobres. A grande vitória deste governo foi a continuidade da política econômica e social.?

Marcelo Néri, Folha de S. Paulo, 23.09.06

O estudo é muito interessante e pode ser consultado na íntegra no endereço www.fgv/cps. Nele se pode verificar que, apesar desses inequívocos avanços, o percentual de 23% da população abaixo da linha de pobreza (parcela que tem renda per capita inferior a R$ 121,00 por mês, a preços atuais na cidade de São Paulo) representa um contingente de 42,5 milhões de brasileiros miseráveis e que ainda há muitíssimo por fazer.

Uma coisa, todavia, chama a atenção no estudo: o percentual anual de diminuição da pobreza no primeiro mandato de FHC (5,2%) e no governo Lula (5,1%). Por certo está aí uma das causas da reeleição de FHC no primeiro turno e a vantagem de Lula nas pesquisas de opinião, apesar de todo o desgaste que sofreu em decorrência do escândalo do mensalão.

A dúvida atual é se Lula será capaz de superar também a mais nova trapalhada do PT e repetir o feito de FHC ou levar a decisão para o segundo turno, o que significa uma nova eleição. Domingo teremos a resposta.

Número 605 - 18 de setembro de 2006

Com a reeleição o mandato passou a
ser de oito anos com um plebiscito no meio

Favorecido por uma conjuntura econômica mais do que favorável, o presidente Lula caminha, até agora tranqüilamente, para a reeleição por falta de alternativa eleitoral competitiva

Pelo andar da carruagem na eleição presidencial, faltando 14 dias para a votação, só um fato completamente inusitado será capaz de impedir a reeleição do presidente Lula, a julgar pelas últimas pesquisas, já no primeiro turno.

Esse fenômeno confirma uma tendência verificada, inclusive em outros países, de que o instituto da reeleição, ao fim e ao cabo, um recurso politicamente civilizado mas, ao que parece, não muito bem utilizado entre nós, provoca a duplicação da duração do mandato executivo (presidente, governador, prefeito), com um plebiscito no meio.

“Na prática, a reeleição significa, em muitos países, um mandato de oito a dez anos, com um plebiscito no meio, quando o eleitorado julga as ações do governante e decide se deseja ou não confiar-lhe um novo mandato.?

Lúcia Hipólito, Estado de S. Paulo, 28.08.05

No presente caso brasileiro, verifica-se não só uma confirmação dessa tendência como um outro fenômeno bastante particular: pelo que tudo parece indicar, o presidente Lula conseguiu passar eleitoralmente incólume ao incrível arsenal de denúncias que devastou toda a direção nacional do seu partido, o PT, e todo o primeiro escalão de auxiliares que compunham o seu staff mais próximo. O fator determinante desta surpreendente performance parece ser a economia, como alertou certa vez o assessor de marketing do ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, na disputa com o ex-presidente George Bush, pai.

“É a economia, estúpido.?

James Carville, campanha presidencial de 1992

A expressão um tanto grosseira do assessor presidencial tinha o propósito de chamar a atenção para o fato de que é a economia que, em última análise, tem fator preponderante na escolha do eleitor. Na eleição em que foi proferida, o candidato iniciante Bill Clinton enfrentava um presidente veterano, candidato à reeleição, que tinha ganho a Guerra do Golfo mas que pilotava uma economia meio combalida. Coisa que não ocorre na presente eleição brasileira.

Pelo contrário, até. Favorecida por um cenário internacional para lá de benigno, talvez o melhor desde a Segunda Guerra Mundial, pela manutenção da política de estabilização macroeconômica e por uma agressiva política de benefícios sociais, a economia no primeiro mandato do presidente Lula reagiu favoravelmente.

“A vida melhorou. Pode não ter sido o espetáculo do crescimento, mas foi um show indiscutível, principalmente para quem está na base da pirâmide.?

Marcelo Néri, economista da FGV, Veja, 20.09.06

Isso fica evidente com a divulgação da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) feita pelo IBGE. O salário médio do trabalhador, por exemplo, cresceu em 2005 pela primeira vez desde 1996. Na região Nordeste, onde o candidato Lula tem 70% das intenções de voto, as vendas no comércio cresceram 16,5%.

“É isso o que conta para o pobre. Mensalão, sanguessuga, isso não quer dizer nada. Ele está preocupado com a queda do preço do cimento e do arroz, o que de fato aconteceu. Qualquer candidato com uma bandeira dessa se beneficiaria nas urnas.?

Rogério Schmitt, cientista político, Veja 20.09.06

Diante de uma conjuntura dessas, tudo faz crer que o eleitor, a criatura mais pragmática do universo, só tomaria a decisão de mudar se fosse para algo que se mostrasse radicalmente melhor. Coisa que não apareceu. Pelo menos até agora.

Número 604 - 11 de setembro de 2006

Depois de cinco anos o mundo ainda
permanece atônito com o 11 de setembro

A violência física e simbólica dos ataques levaram os EUA a lançar uma “guerra preventiva? contra o terrorismo que deixa mais dúvidas que certezas sobre o que pode acontecer no futuro

Neste 11 de setembro completam-se cinco anos do maior atentado terrorista de todos os tempos. Pela primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA foram atacados em seu próprio território.

“… era o primeiro ataque ao território americano desde Pearl Harbor, e os prédios eram o símbolo da pretensão da superpotência e da síndrome nova-iorquina de ‘cidade número 1 do mundo’.”

Daniel Piza, jornalista brasileiro, Continente Multicultural

O 9-11 (nine-eleven) como passou a ser chamado, provocou tal atordoamento nos EUA e no mundo, em relação ao futuro, que ainda não permite nenhuma conclusão definitiva. Numa espécie de homenagem ao quinto aniversário dos atentados, foram lançados dois filmes referentes ao episódio. Um chama-se “Vôo 93″, que já estreou no Brasil, e trata do drama vivido pelos passageiros do vôo 93 da United Airlines, o único dos quatro vôos seqüestrados que não atingiu nenhum alvo e caiu numa área desabitada da Pensilvânia. O outro é “As Torres Gêmeas”, do diretor Oliver Stone, que trata do drama de dois bombeiros sobreviventes ao desabamento do World Trade Center.

“A tragédia de 9-11 polarizou o mundo. Mas um fato que todos concordamos é que não temos uma resposta. Na manhã do dia 11 de setembro, nós saltamos de um mundo do pós Guerra Fria, que durou de 1989 a 2001, para um futuro incerto.”

Paul Greengrass, diretor do filme “Vôo 93″

Depois dos atentados, os EUA, humilhados pela afronta inusitada e pelo impacto da perda de 2.800 vidas (cujo resgate completo dos corpos, muitos não identificados, levou oito meses de árduos trabalhos no coração de sua capital cultural) inventaram o conceito de “guerra preventiva” e partiram para a invasão do Afeganistão e do Iraque, mandando às favas o multilateralismo da ONU, cassando a lendária liberdade de imprensa norte-americana e suspendendo temporariamente os direitos civis dos seus cidadãos.

“Os EUA perderam muito do respeito que tinham no mundo, e teremos que nos esforçar muito para reconquistá-lo. Mas isso terá que começar com uma auto-análise, e acho que ainda não passamos por isso.”

Lawrence Wright, jornalista da revista “The New Yorker”

Enquanto essa auto-análise não vem, os EUA que, para a invasão do Iraque usaram o surrado argumento dos “arsenais de armas de destruição em massa”, nunca encontrados, entraram num verdadeiro atoleiro e se vêem às portas de uma guerra civil num país de onde não conseguem sair, trazendo à tona a desagradável lembrança do Vietnã.

“As conseqüências do 11 de setembro foram piores do que o próprio dia. Eu tenho razões para me deprimir, especialmente por ser veterano do Vietnã. Muitos veteranos do Vietnã estão muito deprimidos com a situação em que estamos no Iraque.”

Oliver Stone, diretor do filme “As Torres Gêmeas”

Não só os EUA mas, de um modo geral, o mundo ainda não conseguiu digerir direito o que aconteceu há cinco anos e tem dificuldade de aprender as lições do ocorrido, de modo que não consegue fazer muito para impedir que outras coisas do gênero voltem a acontecer.

“Se quisermos ser melhor preparados no futuro, que aprendamos com os erros de 9-11.”

Paul Greengrass, diretor do filme “Vôo 93″

Número 603 - 04 de setembro de 2006

4a. regra básica para a realização
de reuniões de trabalho bem sucedidas

Além dos requisitos e das regras já explicitadas pelo Gestão Hoje para a realização de boas reuniões de trabalho, é preciso restringir a apenas uma as ofensas pessoais por participante

 

Um dos recursos mais poderosos para o gerenciamento das organizações, as reuniões de trabalho são comumente associadas a perda de tempo e chatice. Isso, sobretudo, quando são mal coordenadas.

As razões porque as reuniões são um excelente recurso para a gestão, já foram comentadas pelo Gestão Hoje (ver GH/292), bem como quais os requisitos necessários para a realização de uma boa reunião (ver GH/294): (1) convocação bem feita; (2) coordenação definida e atuante; (3) participação efetiva; (4) objetividade garantida; e (5) registros adequados.

Além disso, em outro Gestão Hoje foram comentadas as “regras” básicas para a realização de uma boa reunião de trabalho (ver GH/304):

1. Todos têm que falar: num trabalho em grupo ninguém pode ficar sem dizer nada. É fundamental que cada um exponha seu entendimento sobre o assunto que está sendo discutido. Afinal, o objetivo do trabalho em grupo é justamente este. Como alguns não falam espontaneamente, o coordenador deve estimular.

2. Só pode falar um de cada vez: todos têm que falar mas tem que ser um de cada vez, caso contrário é impossível realizar o trabalho. Se essa regra não for cumprida a balbúrdia se instala, o tempo termina e o trabalho não será concluído. Cabe ao coordenador regular a disciplina, sem ser chato ou rude mas com firmeza.

3. É proibido falar de lado: geralmente, quando a regra número dois é aplicada, surge a tendência da conversa paralela, do cochicho e, inevitavelmente, da dispersão do trabalho. Todos os pronunciamentos devem ser para o grupo. É responsabilidade do coordenador pedir que a conversa paralela seja explicitada para o grupo.

Além dessas três “regras” básicas que devem ser observadas por todos os participantes, mas que devem ser acompanhadas e cobradas pelo coordenador, existe uma outra que pode ser enunciada, de uma forma bem humorada, do seguinte modo:

4. Só é permitida uma ofensa pessoal por participante, por reunião.

Isso porque numa reunião de trabalho, sobretudo quando são tratados assuntos importantes que, não raro, envolvem posições conflituosas, invariavelmente surgem tentações de “ofensa pessoal”, sobretudo quando as posições diferentes são confrontadas para encaminhar as decisões a serem tomadas (ver a propósito GH/550). Ainda mais porque, por questões culturais, temos maior suscetibilidade às críticas que, muito comumente, são encaradas como ofensas.

“No geral, o americano recebe a crítica como uma contribuição; o brasileiro, como ofensa pessoal e indicação de inimizade.?

Carlos Eduardo Lins da Silva, jornalista brasileiro

A quarta “regra”, da forma como está enunciada, favorece a lembrança, por parte dos participantes da reunião, do princípio básico, que deve ser objeto de uma permanente vigília, de não misturar as questões organizacionais com as questões pessoais, pelo menos no que diz respeito a aspectos que possam resvalar para o “campo da honra”.

A propósito desse aspecto, aprender a “brigar” por idéias, traço essencial das organizações competitivas (ver a propósito GH/484), sem resvalar para o campo da ofensa pessoal é um difícil, mas necessário, aprendizado.

A quarta “regra” também permite ao coordenador o uso de um argumento bem humorado para evitar que a ofensa pessoal seja concretizada quando tentada por um participante, sobretudo porque, quando isso acontece, forçosamente, provoca o revide do participante atingido. Além disso, o coordenador deve lembrar também que a regra não é cumulativa, ou seja, se um participante não “ofendeu” ninguém numa reunião não pode creditar-se para ofender dois na reunião seguinte.

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