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598 - 31 de julho de 2006

Não há possibilidade de paz sem o
duro aprendizado do convívio com a diferença

A mais nova guerra no Oriente Médio é uma evidência de que sem o difícil aprendizado do convívio com a diferença torna-se impossível qualquer tentativa conseqüente de paz duradoura

Diante da exacerbação do conflito entre Israel e o Hezbollah com a impressionante ofensiva do exército israelense sobre o Líbano, torna-se inevitável tratar do tema da guerra e, em particular, do peculiar conflito no Oriente Médio.

“A guerra é o último recurso da diplomacia.”

A primeira constatação é, justamente, a de que a iniciativa bélica deve ser a última, depois que se esgotam todas as possibilidades de negociação diplomática, seja pelo encerramento do diálogo, seja por uma agressão do adversário. No caso presente, há uma espécie de opinião compartilhada de que Israel sofreu a agressão que desencadeou o conflito.

“Há um consenso de que o Hezbollah bateu primeiro. Em 12 de julho, seus guerrilheiros cruzaram a fronteira, mataram três soldados israelenses e seqüestraram dois.”

Revista Veja, 02.08.06

O Hezbollah, que quer dizer “Partido de Deus”, é um misto de grupo guerrilheiro financiado pelo Irã e pela Síria, de partido político com 14 vagas no Parlamento libanês (de 128 membros) e de organização assistencial paraestatal que administra hospitais e escolas nos distritos xiitas pobres do Líbano, predominantemente no sul do país, próximo à fronteira com Israel. Trata-se de uma das 17 confissões religiosas do país, cinco decorrentes de subdivisões entre muçulmanos, e doze entre cristãos, que já foram responsáveis por uma guerra civil que durou de 1975 a 1990 e causou mais de 150 mil mortos. Depois de estabelecida a paz libanesa, o Hezbollah foi a única facção que não foi desarmada e é, na prática, mais forte que o próprio exército do país.

“O Hezbollah vem funcionando não apenas com o Estado no interior de um Estado, mas quase como o próprio Estado.”

Revista IstoÉ, 02.08.06

Essa complicada situação do Líbano, berço histórico dos fenícios cuja cultura floresceu por mais de dois mil anos a partir de 2.700 a.C., é uma espécie de miniatura da mais do que complexa realidade geopolítica do Oriente Médio, em cujo centro encontra-se a dificílima disputa entre o estado de Israel e o povo palestino.

“A Palestina é, e sempre foi, uma terra de muitas histórias; é uma simplificação radical imaginá-la como exclusivamente de judeus ou árabes. Ainda que a presença judaica seja de longa data, em hipótese alguma foi a principal. Ela teve outros inquilinos como os cananeus, os moabitas, os jebusitas e os filisteus, na antiguidade e romanos, otomanos, bizantinos e os cruzados nos tempos modernos. A Palestina é multicultural, multi-étnica e multi-religiosa.”

Edward W. Said, 1935-2002, escritor palestino

Embora a guerra signifique a colocação da diplomacia em segundo plano, as negociações devem ser logo retomadas para a construção de um acordo que signifique a convivência pacífica de palestinos e israelenses, num mesmo território ao qual ambos têm direito. Fora isso, só a barbárie da guerra e o poço sem fundo dos ódios milenares.

“A questão, penso, não é como projetar os meios para se continuar insistindo na separação e sim ver se é possível viverem juntos e em paz.”

Edward W. Said, 1935-2002, escritor palestino

Número 597 - 24 de julho de 2006

É mesmo verdade que o atual
Congresso é o “pior da história do país??

Embora represente a sociedade brasileira, o atual Congresso está batendo recorde de delinqüência porque não foi resolvido o grave problema do financiamento de campanhas

Gestão Hoje nunca compartilhou da opinião, tão antiga quanto disseminada em meio aos formadores de opinião, de que os nossos parlamentares são o que de pior existe na sociedade brasileira.

“Criticar o baixo nível dos parlamentares no Brasil é uma atividade tão antiga quanto a existência entre nós do sistema de três poderes proposto por Montesquieu. Já em 1864, uma das especialidades do escritor Machado de Assis, como colunista político do Diário do Rio de Janeiro, era ironizar os maus modos dos senadores do Império ao lidar com dinheiro público.”

Ronald de Freitas, revista Época, 01.07.06

E nunca compartilhou, por uma razão muito simples: os parlamentares são uma representação da mesma sociedade que formalmente os condena e, como tal, tendem a nem ser melhores nem piores do que ela própria em seu conjunto. Todavia, com o advento do Mensalão e, mais recentemente, com o episódio das “Sanguessugas”, fica difícil não parar para pensar no que disse o deputado Ricardo Izar (PTB/SP), presidente do Conselho de Ética da Câmara do Deputados.

“Esse é o pior Congresso da história do país. Todo dia surgem denúncias novas. Não tenho dúvidas de que estamos passando pela maior crise política, moral e de comportamento.”

Ricardo Izar, 19.06.06

Embora essa afirmação possa e deva ser relativizada pela frustração do deputado em face da absolvição, pelo plenário da Câmara, da maioria dos acusados pelo Conselho de Ética no episódio do Mensalão, a verdade é que nos últimos tempos o Congresso passou a ser usado como local de proteção acobertada pela imunidade parlamentar.

“O mandato parlamentar se transformou em atração para criminosos. Esse tipo de parlamentar tem uma interferência criminosa na votação de emendas para liberação de recursos, usa o poder que lhe é conferido pelo voto para ações criminosas e enriquecerem.”

Cláudio Werner Abramo, http://www.midiaindependente.org

O poder para dar um basta nesse tipo de coisa está nas mãos dos eleitores, seja para colocar pessoas sérias e honestas no parlamento, seja para cobrar-lhes uma reforma política que moralize a questão do financiamento das campanhas. Sem isso, a situação vai piorar e o principal instrumento da democracia representativa que é o parlamento vai terminar se tornando, de fato, num antro de criminosos. Não podemos deixar que isso aconteça e o remédio é votar com responsabilidade.

“A origem de todos esses males que atacam e que pioram a imagem do Congresso está associada à necessidade dos parlamentares de obterem recursos para garantir a renovação de seus mandatos. Então, pra isso, eles desviam do Orçamento, fazem acordo com financiadoras de campanha, depois fazem lobby em favor desses financiadores na formulação de políticas públicas. Enquanto não for resolvido isso de forma definitiva, haverá sempre o risco de escândalos como esses que estão sendo noticiados.”

Antonio Augusto de Queiroz, Diap, Agência Brasil

Número 596 - 17 de julho de 2006

Chegou a hora de criar o
Ministério da Segurança Pública

Não é mais possível a observação impassível do aumento da violência e já está mais do que na hora de criar um ministério para a efetiva coordenação nacional da segurança pública

 

A mais nova e desmoralizante investida do crime organizado contra a cidade de São Paulo, com o assassinato covarde de agentes públicos e queima de ônibus e de pontos de serviço, é uma prova mais do que eloqüente, inequívoca, da completa falência da política de segurança pública no Brasil e no estado de São Paulo em particular. O mais grave é a forma, no mínimo leviana, com que as autoridades responsáveis insistem em continuar tratando uma questão de tamanha gravidade.

“É preciso decisão política para estabelecer segurança pública como prioridade de Estado. Ou realizamos amplas reformas no setor de segurança pública para torná-lo eficiente no enfrentamento da criminalidade comum e organizada ou continuaremos contando mortos e convivendo com as propostas reativas de sempre.”

Benedito Domingos Mariano, jornal ESP, 01.06.06

O alerta do sociólogo, ex-ouvidor da Polícia na gestão Mário Covas em São Paulo e ex-secretário municipal de Segurança Urbana da gestão Marta Suplicy na prefeitura paulistana, chama a atenção para uma coisa absolutamente óbvia que só não vê quem não quer: o problema da segurança pública desde há muito já extrapolou o âmbito estadual para se tornar um problema a ser enfrentado pelo Governo Federal. A ponto, inclusive, de já requerer a criação de um ministério próprio, o da Segurança Pública, separado do atual ministério da Justiça que é um ministério de natureza eminentemente política ao qual está vinculado o assunto.

“Talvez o maior gesto simbólico de que o governo federal pretende colocar na sua agenda de prioridades a segurança pública seja a criação de um Ministério da Segurança Pública, como órgão gestor, coordenador, articulador e promotor da política nacional de segurança.”

Benedito Domingos Mariano, jornal ESP, 01.06.06

O tema da criação de um ministério da Segurança Pública tem sido, inclusive, objeto de discussão e de proposição de várias instituições da sociedade civil como é o caso da proposta encaminhada em 2005 para o ministro da Justiça e assinada por diversas associações: Amigos da Paz; Associação das Vítimas de Vigário Geral; Comissão Brasileira de Justiça e Paz/CNBB; Comissão de Defesa dos Direitos Humanos — Serra ES; Conselho Nacional de Igrejas Cristãs; Convive; Dias Melhores — RJ; Educadores para a Paz — RS; Fórum Reage Espírito Santo; Grupo Atitude — Brasília DF; Instituto Sou da Paz; Londrina Pazeando; Movimento Paz — ES; Mov Paz; Sindicato dos Policiais Federais de Rondônia; União de Escoteiros do Brasil; Viva Rio.

“Criação do Ministério da Segurança Pública, como órgão capaz de centralizar, planejar e induzir as ações de segurança e prevenção da violência. A existência de um Ministério específico para esta temática dará a dimensão necessária para esta questão e permitirá que o problema possa ser lidado em sua complexidade e com a força política necessária.”

Se houver um mínimo de sensibilidade do próximo presidente eleito para o assunto, essa criação poderá ser o sinal de largada para um tratamento conseqüente e possível da gravíssima questão.

“Nós não vencemos a inflação? É a hora de começar a vencer a violência.”

José Vicente da Silva, GloboNews Painel, 16.07.06

Número 595 - 10 de julho de 2006

Lições da Copa do Mundo
para o dia-a-dia dos negócios

Com jogadores distantes da realidade nacional, sem alma e sob o comando de um técnico que confessa só ter se preparado para vencer, a seleção dá lição de como não proceder no dia-a-dia

 

Com o final da Copa do Mundo e a vitória da Itália, ficam mais evidentes algumas lições da derrota da seleção brasileira. A primeira delas é a de que, ao contrário do que esperava o país.

“Nossa seleção não foi a pátria de chuteiras, como dizia o Nelson Rodrigues, foram as chuteiras sem pátria.”

Arnaldo Jabor, Rádio CBN, 04.07.06

A maioria dos jogadores convocados e dos que jogaram não atua no Brasil e, sim , em clubes europeus e estão distantes, tanto física quanto psicologicamente, do país. Pelo que mostraram as TVs, dos 23 convocados, apenas 4 ou 5 voltaram para o Brasil. O restante ficou na Europa, distante da frustração e da cobrança da torcida nacional.

“O povo todo estava de chuteiras, para esquecer os mensalões e os crimes, mas nossos craques não perderam quase nada com a derrota, tiveram apenas um mal momento entre milhões de dólares e chuteiras douradas pela Nike.”

Arnaldo Jabor, O Globo, 04.07.06

Embora esse fato faça parte da realidade do futebol, é preciso tratar melhor o assunto dada a importância que o futebol tem para o imaginário brasileiro (ver a respeito o GH/593). Na prática, o que se viu foi uma seleção “sem alma”, na expressão do cronista futebolístico Armando Nogueira (ver GH/594), em boa parte decorrente dessa “distância” dos jogadores da realidade nacional. A outra parte deveu-se à atuação apática do treinador Parreira.

“Todos sabem que quem ganha e perde partidas é a alma.”

Arnaldo Jabor, O Globo, 04.07.06

E faltou alma aos jogadores e à seleção. Na partida contra a França, nem parecia que estavam jogando uma partida de vida ou morte. Deixaram a França jogar e fazer o show, sobretudo Zidane que chegou a dar um “chapéu” em ninguém menos que Ronaldo Fenômeno que, de fenômeno naquele jogo não teve nada. Completamente diferente dos jogos finais, onde a alma dos finalistas esteve sempre presente, a começar pelo time de Portugal e por seu técnico.

“A alma de Portugal rosna na beira do gramado. Ela se chama Felipão.”

Armando Nogueira, Rádio CBN, 05.07.06

O outro aspecto deplorável foi a atuação do técnico Parreira que não esteve à altura do cargo, entre apático, arrogante e completamente míope do ponto de vista estratégico, como demonstra a impressionante frase cometida na entrevista após a derrota:

“Não nos preparamos para perder. Só nos preparamos para a vitória.”

Carlos Alberto Parreira, Rede Globo, 02.07.06

Essa simples frase é um misto de tolice, teimosia e estupidez estratégica. Só se preparar para a vitória, significa desprezar e desconhecer os adversários. Significa não se preparar para o pior cenário e ficar refém dos adversários, justamente por desconhecê-los e desprezá-los. No meio empresarial, uma atitude desse tipo é suicida. É impossível ter sucesso nos negócios sem um plano B.

“Todo empresário com os pés no chão tem um plano B pronto para ser acionado. Não houve análise dos pontos fortes e fracos dos concorrentes. Acreditamos que venceríamos porque queríamos. É um erro fatal no futebol e nos negócios.”

Pedro Eberhardt, presidente da Arteb, Dinheiro, 12.07.06

594 - 03 de julho de 2006

Falta de paixão e teimosia
foram os males que tiraram a seleção da Copa

Com uma atuação desastrosa, a seleção brasileira frustra a nação e mostra que sem paixão e sem arrebatamento, ainda mais com a teimosia do técnico, não se consegue ir muito longe

 

Ao enfrentar o primeiro adversário de peso na Copa, a seleção brasileira mostrou todo o despreparo que vinha insinuando contra os fracos adversários anteriores à França. Resultado: uma derrota que humilha e revolta a torcida pela apatia, desinteresse e, mesmo, desleixo dos jogadores em campo.

“O que faltou à seleção brasileira foi atitude.”

Galvão Bueno, TV Globo, 01.07.06

Depois da derrota, todos os comentaristas esportivos, os que foram para a Alemanha, e os que ficaram fazendo a cobertura no Brasil, fizeram menção ao fato de ter faltado entusiasmo e garra ao time brasileiro.

“Essa foi uma seleção brasileira sem alma.”

Armando Nogueira, SporTV, 02.07.06

Sem atitude e sem alma, os jogadores passearam em campo, olhando o adversário jogar, sem esboçar reação, mesmo quando a seleção levou o gol no início de segundo tempo.

“Em 36 anos de futebol nunca vi uma seleção brasileira tão apática, tão inoperante. (…) Como é possível uma seleção brasileira, em jogo de Copa do Mundo, dar apenas dois chutes a gol? (…) Eu quero saber como é possível um time com a camisa da seleção brasileira entrar em campo com a postura de ontem. Uma equipe dorminhoca. Tinha de ter alguém para acordá-la. Faltou isso. Faltou muito mais. Faltou tudo. Faltou paixão, coração.”

Carlos Alberto Silva, ex-tecnico da seleção, 02.07.06

A ira da torcida se volta contra o técnico e os jogadores. Numa pesquisa on line no site da Folha de S. Paulo, Parreira aparece como o principal responsável pelo fracasso da seleção (51%), seguido pelos jogadores (37%) e pelos cartolas (6%).

“Parreira e as estrelas milionárias, (…) Não podiam ter feito isso com os brasileiros. Tinham a obrigação de nos respeitar. Podiam até perder, mas que tivessem lutado com garra, suando a camisa como o herói que sustenta a posição até a última gota de sangue.”

Joffre Neto, jornalista, Blog do Noblat, 02.07.06

Da “pátria em chuteiras” como Nelson Rodrigues chamava a seleção, sempre se esperará muito mais do que foi visto contra a França. E do técnico sempre se esperará mais do que frieza, arrogância e teimosia. Será sempre esperado, também, como dos jogadores, paixão e arrebatamento. Ficou muito evidente a diferença de estilos do técnico atual para o anterior que, hoje, leva paixão ao time de Portugal.

“Scolari como um leão à frente de sua ‘família’ lusa, gesticulando, gritando, jogando a partir do ‘banco de suplentes’ e Parreira passivo, com o olhar perdido, mastigando a língua, acompanhado pela expressão apática de Zagalo, enquanto o Brasil ia para o brejo. E ainda teve a coragem de dizer: ‘Não há do que se arrepender porque fiz tudo que queria fazer’! Ótimo, teimoso até o fim. Pois é, tinha razão outro europeu, Baltasar Gracián, o famoso jesuíta espanhol do sec. XVI: ‘toda teimosia é tola, e todo tolo é teimoso.’”

Joffre Neto, jornalista, Blog do Noblat, 02.07.06

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