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593 - 26 de junho de 2006

Como dizia o genial Nelson Rodrigues,
a Seleção Brasileira é “a pátria em chuteiras?

Extraordinária experiência cívica, o futebol no Brasil e, em especial, a Seleção Brasileira, dão ao país o sentimento de realização e competência que, infelizmente, ainda falta em outras áreas

De todo o abundante noticiário da Copa do Mundo da Alemanha, o que muito chama atenção é a teimosia do técnico Parreira na escalação da Seleção Brasileira e na insistência naquilo que a crônica esportiva nacional batizou de “quadrado mágico”. O excelente cartunista Chico Caruso, na primeira página de jornal O Globo da semana passada, expõe em charge os integrantes do famoso “quadrado”, acorrentados uns aos outros, com o Ronaldinho Gaúcho perguntando ao técnico:

“Professor, dá pra me liberar do quadrado mágico pelo menos para fazer pipi?”

Chico Caruso, O Globo, 22.06.06

Mas, além da teimosia, o que chama também a atenção, e bastante, é a impressionante capacidade de mobilização nacional que os jogos da seleção provocam no país inteiro. O que estaria por trás de um fenômeno desta natureza? Logo um tipo de atividade que, se olhada fora do contexto, parece tão sem graça, como destaca o antropólogo Roberto DaMatta em seu livro mais recente.

“Como atividade, o futebol não é nada. Trata-se, como dizia aquele italiano ignorante que vai ao Pacaembu pela primeira vez, de um bando de 22 malucos correndo atrás de uma bola… Mas, nesse mesmo sentido niilista, o que seria ‘fazer política’, senão bater-papo, roubar o erário e convencer os outros dos nossos pontos de vista? E o que seria a moeda, senão um pedaço de papel pintado?”

Roberto DaMatta

O curioso é que por intrigantes razões sociológicas, o futebol terminou se tornando, por excelência, o esporte nacional na expressão do dramaturgo Nelson Rodrigues.

“A Seleção Brasileira é a pátria em chuteiras.”

Nelson Rodrigues

Porque isso ocorre é, hoje, tese de antropologia, exposta no livro “A Bola Corre Mais que os Homens”, Roberto DaMatta (Editora Rocco).

“É, pois, o futebol que engendra essa cidadania positiva e prazerosa, profundamente sociocultural, que transforma o Brasil dos problemas, das vergonhas, das derrotas, no país encantado das lutas, da competência e das vitórias. Uma coletividade que pode finalmente contar com suas próprias forças e talento. Com o futebol, o Brasil não se enche de vergonha — como ocorre no discurso dos políticos —, mas de orgulho, carinho e amor.”

Roberto DaMatta

Neste sentido, o futebol e, em especial, a Seleção Brasileira assumem o papel indutor de experiência patriótica sem igual.

“Foi, portanto, com o futebol que conseguimos no Brasil somar o Estado nacional e a sociedade. E assim fazendo, sentir pela avassaladora e formidável experiência de vitória em cinco Copas do Mundo a confiança na nossa capacidade como povo criativo e generoso. Povo que podia vencer como país moderno e que podia finalmente cantar com orgulho o seu hino e perder-se emocionado dentro do campo verde da bandeira nacional.”

Roberto DaMatta

592 - 19 de junho de 2006

O Brasil precisa também dos
Ronaldinhos, Kakás e Robinhos da Ciência

Com uma atuação na Copa do Mundo que ainda não convence, a seleção brasileira destaca craques que poderiam ter similares no campo científico se a educação fosse como o futebol

 

Enquanto a seleção brasileira vai vencendo jogos ainda sem convencer, o técnico Carlos Alberto Parreira desenvolve o seu esquema tático pobre de gols.

“O sonho do Parreira é ser campeão ganhando sete jogos com o placar de 1×0.”

Joelmir Beting, Jornal da Band, 13.06.06

Depois da vitória de 2×0 frente à Austrália, o sonho de Parreira não poderá ser alcançado mas, pelo visto, ainda vai ser perseguido nos próximos jogos. Com um time de grandes talentos, a seleção ainda não conseguiu, na Copa da Alemanha, mostrar um entrosamento que confirme o favoritismo que todos lhe conferiam, sobretudo depois dos jogos anteriores ao mundial.

“O Brasil consegue unir beleza e eficácia de um modo impressionante. Por isso é fascinante.”

Daniel Cohn-Bendit, IstoÉ Gente, 19.06.06

Dentre os jogadores excepcionais que atuam no escrete brasileiro, destaca-se Ronaldinho Gaúcho, um craque na acepção da palavra, eleito pela segunda vez o melhor jogador do mundo.

“Ronaldinho Gaúcho (…) faz coisas extraordinárias, que não esperamos. Faz isso rindo. Ele é a encarnação do futebol como jogo.”

Daniel Cohn-Bendit, IstoÉ Gente, 19.06.06

Excessivamente marcado, embora sem perder o extraordinário domínio da bola, Ronaldinho deu margem ao aparecimento de outros craques como é o caso de Kaká, de cujo talento o time brasileiro valeu-se para a vitória contra a Croácia, de Robinho, mudando completamente o ritmo dos dois jogos em que entrou no segundo tempo e, até, do iniciante Fred que, jogando apenas seis minutos, armou uma jogada que resultaria no segundo gol de um time com dificuldade de finalizar. Craques que abundam num país rico de oportunidades para os talentos futebolísticos mas pobre de oportunidades para os talentos científicos.

“O Brasil tem cinco dos dez maiores craques de futebol do mundo mas nunca recebeu um Prêmio Nobel. Porque poucos adquiriram capacidade científica para concorrer a ele. Temos tantos craques porque os meninos do Brasil jogam bola desde os quatro anos de idade, nos mesmos campos de pelada, com bolas similares. Mas escolas eles não têm, nem livros. Entram na escola aos sete anos, saem aos nove ou dez.”

Cristovam Buarque, Jornal do Commércio 16.06.06

É de se imaginar o que seria do Brasil se as chances do futebol fossem as mesmas da educação. Com toda certeza seria, também, uma potência científica.

“Criança precisa se desenvolver, e ter chance de vencer, graças ao mérito, ao talento e à persistência. Como nossos Ronaldinhos da vida.”

Cristovam Buarque, Jornal do Commércio 16.06.06

E isso é perfeitamente possível desde que haja vontade política para fazê-lo. Mas, antes da vontade política, é preciso que a sociedade esteja consciente da necessidade e da possibilidade dessa revolução.

“É possível dar chances de estudar iguais às oportunidades de jogar bola. Permitir que todas as crianças brilhem, com a bola no pé e com os livros nas mãos.”

Cristovam Buarque, Jornal do Commércio 16.06.06

591 - 12 de junho de 2006

A juventude brasileira pode dar ao
país muito mais do que o hexa no futebol

A depredação da Câmara do Deputados chama mais uma vez a atenção para o grande desperdício que o país está promovendo com a exclusão da maior parte de sua juventude

Na semana passada, dois assuntos dominaram o noticiário no país: (1) a invasão da Câmara dos Deputados pelo MLST; e (2) a abertura da Copa do Mundo na Alemanha. Não parece, mas é possível fazer um paralelo entre eles. Para começar, é fundamental destacar a importância do parlamento num regime democrático.

“…o parlamento é a maior instituição política já descoberta pelo homem na busca do autogoverno.”

José Sarney, Folha de S. Paulo 09.06.06

Apesar disso, o que se ouve em muitas conversas particulares é que os depredadores fizeram bem porque chamaram a atenção dos deputados para o que as pessoas, pelo país afora, pensam deles.

“Em vez de bater no padre, tentaram destruir a igreja.”

José Sarney, Folha de S. Paulo, 09.06.06

Dentre os invasores, uma foi filmada destruindo um terminal eletrônico com impressionante selvageria. Chamava-se Francielli Denizia Asêncio, 21 anos de falta de alternativas e escolhas equivocadas. Foi presa, junto com seus companheiros de baderna.

“…Francielli, ao baixar-se para depredar um dos terminais, deixou entrever uma tatuagem nas costas, na altura da cintura. Depois, ao virar-se de frente, revelou um piercing na sobrancelha. Ela nasceu pobre, mas aspira ao estilo das meninas de lares mais bem aquinhoados.”

Roberto Pompeu de Toledo, Veja, 14.06.06

Esse é o drama de uma juventude sem alternativas porque sem estudo e sem trabalho. Uma juventude que engrossa as fileiras do movimento dos sem terra e, no limite, dos contingentes da contravenção e do crime, dos PCC da vida. Um incalculável desperdício social. Em época de Copa do Mundo, vale o extenso e lúcido comentário de Cristovam Buarque:

“Se todo menino terminasse o ensino médio e a qualidade da escola pública mudasse, a gente ia multiplicar por seis o número de candidatos ao vestibular. Seria exatamente o que acontece com a seleção brasileira de futebol. Ela é boa porque todo menino joga bola quando é pequeno. A gente tem geniais craques vindos dos pobres. Na ciência, no Brasil, nem todos têm a mesma oportunidade. Tem menino que nunca viu um computador e que deixou a educação antes de aprender Matemática. Entre eles poderiam estar alguns Ronaldos, podiam estar alguns Ronaldinhos da Ciência. Os nossos Ronaldinhos da Ciência são impedidos de ‘jogar’ por falta de livros, de computador, de bons professores e de atrativos. (…) Tenho certeza de que já tivemos uns três ou quatro Prêmios Nobel de Literatura no Brasil. Só que eles morreram antes de aprender a ler.”

Cristovam Buarque, IstoÉ, 31.05.06

Na falta de políticas conseqüentes de educação e trabalho, a juventude sem oportunidades e esperança vai invadir terras, o Congresso ou fazer coisas piores. Que país está sendo plantado hoje? Tomara que a Copa do Mundo ajude a reforçar o alerta de Cristovam. O país merece a vitória e a sociedade dias melhores para uma juventude que, se decentemente tratada, pode dar ao Brasil muito mais do que o hexa no futebol.

590 - 05 de junho de 2006

Parece que vamos ter doravante
tempo nublado na economia internacional

O estremecimento dos mercados financeiros parece indicar que a instabilidade veio para ficar e que o Brasil talvez tenha perdido a melhor oportunidade de crescimento vigoroso em 25 anos

As mais recentes turbulências na economia internacional (ver número 589) alertam para uma mudança de humor dos mercados que materializa, na prática, uma modificação do clima de céu sem nuvens, com crescimento vigoroso, há pelo menos quatro anos.

“Acabou o céu de brigadeiro. As nuvens voltaram, só não sabemos dizer se elas estão carregadas.”

Oswaldo Assis, Banco Pactual, Exame, 07.06.06

Esse retorno de céu nublado deve-se, principalmente, a desconfianças sobre a capacidade dos Estados Unidos darem conta de um desequilíbrio nas suas contas externas que já atinge a proporção mais do que preocupante de 6,4% do PIB. Até 1990 esse déficit era considerado insignificante (menos de US$ 50 bilhões). Todavia, vem crescendo ano após ano e em 2005 chegou ao impressionante patamar de US$ 800 bilhões (mais de US$ 2 bilhões por dia). Isso significa que, todo ano, os EUA têm que captar o equivalente a um PIB brasileiro para fechar suas contas externas (emitir títulos, atrair capital, etc).

“Países com tamanho desequilíbrio geralmente passam por um ajuste que combina desvalorização da moeda com forte recessão. Os Estados Unidos vão escapar, mais uma vez, de um ajuste doloroso? Ninguém sabe. O que se sabe é que uma recessão forte por aqui acaba afetando o mundo todo.”

José Alexandre Scheinkman, Exame, 07.06.06

Esse alerta do economista brasileiro Scheinkman, professor da universidade de Princeton, aponta para a evidência de que, no dia em que os EUA não conseguirem mais financiar esse déficit, o dólar vai se desvalorizar pelas forças de procura e oferta para ajustar as contas (dólar valendo menos significa menos poder de compra dos norte-americanos e, portanto, menos importação e menos déficit comercial). A queda que aconteceu nos mercados mundiais está dentro do contexto do déficit norte-americano e é uma pequena amostra do que pode acontecer ao redor do mundo se os piores cenários se confirmarem.

Os mercados reagiram a uma possível elevação dos juros dos EUA para, justamente, conter o consumo interno e atrair capital externo (no fundo, para financiar o déficit). Mais juro significa menor crescimento. No limite, recessão. Dólar desvalorizado e/ou juros altos é que estão na base da antecipação dos mercados financeiros que, em última análise, significaria o fim do ciclo de alto crescimento econômico mundial.

“Ainda é cedo para saber se a festa acabou — talvez ela ainda dure alguns meses ou anos, afinal o ente chamado mercado costuma ter comportamento bipolar, oscilando entre a euforia e a depressão —, mas o fato é que essa perspectiva deixou de fazer parte de um cenário improvável e longínquo.”

Revista Exame, 07.06.06

E o Brasil? Como fica num cenário de redução do crescimento mundial? Sofreria tanto quanto nas crises anteriores?

“O Brasil está mais forte: as contas externas estão sólidas, há certo ajuste fiscal. O nosso problema é a incapacidade de crescer. Mesmo diante de um cenário tão espetacular, não conseguimos crescer para valer.”

Eduardo Gianetti da Fonseca, Exame, 07.06.06

Se se confirmarem as previsões mais pessimistas e a economia mundial der uma freada, o Brasil terá perdido a melhor oportunidade de crescimento vigoroso dos últimos 25 anos. Esperemos que ainda haja tempo para reagir.

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