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Número 580 - 27 de março de 2006

O mundo plano com suas ameaças e
oportunidades requer muita imaginação criativa

Para bom aproveitamento das oportunidades do novo mundo plano, pessoas, empresas, países e regiões estão diante do desafio de utilizar suas capacidades de invenção para o “bem?

Neste terceiro e último número do GH (ver os anteriores 578 e 579) sobre o “Mundo Plano” (”O Mundo é Plano — Uma Breve História do Século XXI” de Thomas L. Friedman), merece destaque a abordagem do autor sobre a globalização que ele divide em três momentos: Globalização 1.0 (da viagem de descoberta do continente americano por Colombo no ano 1492 até o ano 1800, quando o mundo passou de “grande” para “médio”); Globalização 2.0 (de 1800 até o 2000, quando o mundo passou de “médio” para “pequeno”); e a Globalização 3.0 (do ano 2000 em diante quando o mundo de “pequeno” passa a “minúsculo”). É na globalização 3.0 que o mundo se torna plano e onde as empresas, para sobreviverem, devem adotar as regras citadas no número anterior.

1. Não tente construir muralhas: se a empresa for atingida pelo “achatamento” do mundo, convém reagir fugindo da comoditização e reforçando as competências básicas (o mais difícil de ser copiado pela concorrência).

2. Se pequeno, se comporte como grande: as empresas pequenas devem procurar usar, ao máximo, as facilidades do mundo plano para reforçar a rapidez de sua ação e a capacidade de ir além da concorrência.

3. Se grande, se comporte como pequeno: as empresas grandes, por sua vez, devem lançar mão dos recursos do mundo plano para se tornarem ágeis no atendimento aos clientes, da forma mais próxima possível deles.

4. Colabore: dada a complexidade do mundo plano, terão vantagens competitivas aquelas empresas que conseguirem mais colaboração produtiva com outras que as complementem (redes de cooperação, por exemplo).

5. Mantenha-se saudável e venda a experiência: no mundo plano as empresas devem cuidar permanentemente da sua “saúde” e aproveitar essa experiência para vender soluções para os clientes.

6. Terceirize para crescer e, não, para diminuir: a terceirização de serviços deve ser um recurso para melhorar e crescer e, nunca, para o inverso.

7. Use a terceirização também para os projetos sociais: o que serve para as empresas no mundo plano, serve também para as organizações sem fins lucrativos que trabalham com projetos sociais.

Na conclusão do livro, Friedman faz um paralelo entre duas datas-símbolo da globalização planificadora atual: 09.11 (queda do Muro de Berlim) e 11.09 (queda das torres gêmeas). Como exemplo de uma, cita David Neeleman, criador da empresa JetBlue, e como exemplo da outra, cita Osama Bin Laden, criador da al-Qaeda.

“O que leva uma pessoa à alegria da destruição e outra à alegria da criação, o que leva alguém a imaginar o 9/11 e outra imaginar o 11/9 é sem dúvida um dos grandes mistérios da vida contemporânea.”

Thomas L. Friedman

A nova globalização, com os instrumentos que disponibiliza para todos, tanto permite uma coisa, quanto outra. São dados da nova realidade que serão melhor aproveitados pelos que tiverem maior capacidade de invenção para o “bem”.

“Neste mundo aplainado, o atributo mais importante que se pode possuir é a imaginação criativa — a capacidade de ser o primeiro do quarteirão a compreender de que modo todos esses instrumentos de capacitação podem ser reunidos de maneiras novas e excitantes para criar produtos, comunidades, oportunidades e lucros.”

Thomas L. Friedman

Um mundo “plano”, cheio de oportunidades e ameaças, onde pessoas, empresas, regiões e países estão desafiados a inventar coisas novas e melhores para si e para os outros.

Número 579 - 20 de março de 2006

O “achatamento” do mundo afeta
tanto as pessoas quanto as empresas

As "forças" que ajudaram a "achatar" o mundo tendem a convergir de modo tal que seu impacto sobre indivíduos e empresas, embora ainda pouco claro, está a exigir estratégias de mudança importantes

 

Segundo estimativa da revista Época (27.02.06) mais de mil livros são publicados diariamente no mundo, o que torna imperiosa a necessidade de ser seletivo na leitura para evitar o afogamento por excesso de papel. Em “O Mundo é Plano — Uma Breve História do Século XXI” de Thomas L. Friedman, comentado no número anterior (ver GH/578), isso fica evidente. Trata-se de uma grande reportagem sobre o “achatamento” do mundo que, apesar do excesso de texto (a grande maioria dos livros norte-americanos de negócios poderia ser escrita com a metade de páginas), merece ser lido com atenção por aqueles que se preocupam com os impactos da globalização para suas vidas e para suas empresas.

Friedman trata das dez forças que achataram o mundo: (1) a Queda do Muro de Berlim (que coincide com a consolidação do Windows como sistema operacional padrão dos computadores pessoais em todo o planeta); (2) o Surgimento da Netscape (que equivale ao início da bolha das empresas ponto-com); (3) os Softwares de Fluxo de Trabalho (cujo principal exemplo é a fixação do padrão Word para processadores de textos); (4) o Código Aberto (cujo exemplo talvez mais ilustrativo seja a enciclopédia virtual Wikipédia, literalmente escrita pelos usuários); (5) a Terceirização Internacional de Serviços (que tem como principal ícone a ?ndia); (6) o Offshoring (cujo maior exemplo é a transferência de fábricas para a China e outros países orientais); (7) as Cadeias de Fornecimento Globais (cujo maior exemplo é a incrível estrutura do Wal-Mart); (8) a Internalização da Produção dos Clientes (cujo maior exemplo é a UPS, empresa mundial de entregas); (9) o Auto-fornecimento de Informações (cujo maior exemplo é o Google, ferramenta universal de pesquisa); e (10) as Tecnologias Potencializadoras (cujo maior exemplo é o sistema de telefonia por internet Skype).

“É essa tripla convergência — de novos jogadores, num novo campo de jogo, desenvolvendo novos processos e hábitos para a colaboração horizontal — que constitui, a meu ver, a força mais significativa a moldar a economia e a política globais neste início de século 21. O fato de tanta gente ter todas essas ferramentas de colaboração ao seu dispor, aliado à possibilidade de acessar, por meio dos motores de busca e da web, bilhões de páginas de dados brutos, vai garantir que a próxima geração de inovações venha de todos os cantos da Terra Plana.”

Thomas L. Friedman

Segundo Friedman, essa novíssima realidade não foi ainda bem compreendida por conta de três eventos perturbadores que vieram desviar a atenção do essencial: (1) o estouro da bolha das empresas ponto-com, pelo que provocou de descrença nos negócios baseados em tecnologia internet; (2) o atentado de 11 de setembro, pela comoção que criou e pela reação dos EUA no Afeganistão e no Iraque; e (3) o escândalo da Eron e de outras empresas de grande porte, pelo que provocou de desconfiança na contabilidade das grandes corporações. Todavia, segundo ele, as mudanças são irreversíveis e têm impactos importantes também sobre as empresas.

“Assim como os indivíduos precisam de uma estratégia para ajustar-se ao achatamento do mundo, as companhias também precisam.”

Thomas L. Friedman

Da experiência adquirida com a elaboração do livro o autor cita sete regras para isso: (1) não tente construir muralhas; (2) se pequeno, se comporte como grande; (3) se grande, se comporte como pequeno; (4) colabore; (5) mantenha-se saudável e venda a experiência; (6) terceirize para crescer e, não, para diminuir; (7) use a terceirização também para os projetos sociais. No próxima semana, o terceiro e último número sobre o “Mundo Plano”.

Número 578 - 13 de março de 2006

Uma tendência que parece de peso:
O “achatamento” do mundo conhecido

Desde a queda do Muro de Berlim até as surpreendentes tecnologias que aceleram as comunicações, forças poderosas parecem estar tornando, como nunca antes, o mundo "plano"

Hoje em dia, com a verdadeira avalanche de informação a que somos submetidos diariamente, dedicar tempo à leitura de um livro deve ser algo que, de fato, valha a pena. Ou seja, que a relação custo-benefício compense. Esse é o caso, com certeza, do livro “O Mundo é Plano — Uma Breve História do Século XXI” (Editora Objetiva, 2005, Rio de Janeiro) do jornalista norte-americano Thomas L. Friedman.

“…quando Bill Clinton foi eleito presidente dos Estados Unidos, em 1992, praticamente ninguém que não pertencesse ao governo ou ao meio acadêmico tinha e-mail…”

Thomas L. Friedman

Em menos de 15 anos, portanto, deu-se uma verdadeira revolução na forma de comunicação entre pessoas e organizações de todos os tipos que, no entendimento do autor, levará inevitavelmente ao “achatamento” do                mundo e …

“…entrará para a História como uma daquelas transformações cruciais — como as ascensão do Estado-nação ou a Revolução Industrial — que, na sua própria época, promoveram mudanças no papel dos indivíduos, no papel e formato dos governos, no nosso modo de inovar, no nosso modo de fazer negócios, no papel das mulheres, no nosso modo de guerrear, no nosso modo de estudar, nas reações da religião, nas expressões da arte, na condução da ciência e das pesquisas…”

Thomas L. Friedman

Trata-se, segundo ressalta o autor, de algo nunca visto antes em razão da rapidez e da amplitude com que se dá. A dimensão da revolução em curso é proporcional à ensejada pela invenção da imprensa por Gutenberg, só que muito mais rápida e abrangente. As evidências disso são o que o autor chama de “dez forças que achataram o mundo”.

1. 9 de Novembro de 1989

Data da queda do Muro de Berlim. A época coincide, também, com o lançamento do Windows 3.0.

2. 9 de Agosto de 1995

Data do lançamento em bolsa das ações da Netscape, primeiro browser (navegador) comercial da Internet.

3. Softwares de Fluxo de Trabalho

Recursos que permitem aos sistemas aplicativos “conversarem” uns com os outros, onde quer que estejam.

4. Código Aberto

O que permite o sucesso de sistemas como o Linux, o Firefox ou a enciclopédia Wikipedia, por exemplo.

5. Terceirização

Transferência de trabalhos profissionais, a custos menores, de regiões ou países para outros (dos EUA para a ?ndia, por exemplo).

6. Offshoring

Transferência de fábricas (dos EUA para a China, por exemplo) para produção com custos bem mais reduzidos.

7. Cadeias de Fornecimento

Que permitem fluxos de mercadoria do fornecedor ao consumidor, 24 horas por dia, 365 dias por ano.

8. Internalização

O que permite às empresas de entrega como a UPS, por exemplo, terceirizarem internamente o trabalho dos seus clientes para diminuir o percurso e o tempo gasto.

9. In-formação

Possibilidade de cada um ser o seu próprio pesquisador com a ajuda de instrumentos como o Google, por exemplo.

10. Esteróides

Relativos à tecnologia acelerada que permite recursos como internet sem fio, telefonia sobre IP etc.

(Continua no próximo Gestão Hoje).

Número 577 - 06 de março de 2006

Mesmo com os mais justos motivos,
não resolve nada apenas abominar os políticos

Ainda que a classe política brasileira tenha todos os motivos do mundo para ser execrada, é preciso ir além da indignação e exercer, da melhor maneira possível, o dever do voto em outubro

 

Por incrível que pareça, é verdade. Pelo andar da carruagem, não resta nenhuma dúvida: mesmo depois de todo o lamentável espetáculo do mensalão, nada vai ser feito de concreto para atacar essa verdadeira chaga política nacional que é o caixa dois das campanhas eleitorais.

“É inacreditável que depois da descoberta do valerioduto, das investigações sobre o dimasduto e dos fortes indícios de que todo partido tem um duto eleitoral subterrâneo, não se tenha tratado a sério, enquanto era tempo, do problema do caixa dois nas campanhas eleitorais (…) tudo deve ficar como antes. Partidos e candidatos vão continuar praticando o caixa dois, mas selecionando melhor seus delúbios para não serem flagrados.”

Tereza Cruvinel, O Globo, 02.03.06

Às vésperas de uma nova campanha eleitoral, mais uma vez essa questão vai ficar pendurada, contaminando, por razões óbvias e fartamente ilustradas pela última crise política, o ambiente pós-eleitoral. A coisa é tão séria que torna possível, sem causar nenhum espanto especial, uma frase como a pronunciada pelo secretário-geral do PSDB, admitindo que também houve corrupção no governo de Fernando Henrique Cardoso:

“Não existe um governo honesto por completo.”

Eduardo Paes, deputado pelo RJ, IstoÉ, 08.03.06

Tudo isso só contribui para o descrédito da classe política e, por extensão, dos governos. Não por acaso, os políticos e o Congresso Nacional têm aparecido em todas as pesquisas sobre credibilidade das instituições nos último lugares. Ou seja, como as instituições mais desacreditadas do país. E isso é muito ruim. Os políticos e a classe política são absolutamente indispensáveis nas democracias, em especial numa grande democracia de massa como é o caso da brasileira. Sem a boa representação parlamentar e a adequada conduta dos políticos à frente dos governos, a energia social não flui e fica retida, contaminando o funcionamento da sociedade como um todo. O sentimento de que os políticos todos são desonestos é desastroso para a cidadania.

“Se a gente fica dizendo o tempo todo: ‘a política é suja, a política é mentirosa, os políticos não têm jeito’, está fazendo o quê? Está desarmando a cidadania, fazendo com que ela aceite as piores tiranias, porque o sujeito nivela tudo: nenhum político merece respeito, e a política é uma coisa suja.”

Roberto Romano, filósofo, Primeira Leitura, fev/06

É inegável que, no complexo e exigente sistema político brasileiro, a classe política, com a sua representação nacional à frente, perdeu uma excelente oportunidade de promover mudanças importantes na legislação e na prática que regula a atividade. Todavia, é preciso cuidado redobrado para, sem perder a justa indignação pelo que foi fartamente exposto pela mídia, não resvalar para o terreno fácil e inconseqüente da execração dos políticos e da política. Mesmo combalido pela crise, o papel do Congresso é fundamental para o adequado funcionamento das instituições democráticas.

“Só o Congresso combina alto grau de transparência com a autoridade para impor sansões respaldadas na lei. A imprensa é aberta, mas não é imperativa. A Justiça é imperativa mas não é aberta.”

Bolívar Lamounier, Primeira Leitura, fev/06

Em tese, a resolução desse problema é simples: basta o eleitor prestar toda a atenção em quem está votando e não votar em quem não tenha certeza de que exercerá de forma digna o mandato recebido. Na prática, porém, a teoria é outra. Votar bem também é um aprendizado que, infelizmente, leva tempo para se consolidar. Em outubro teremos mais uma oportunidade para o exercício desse aprendizado. Devemos nos aplicar em fazer bem o dever de casa.

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