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Número 576 - 27 de fevereiro de 2006

Para concluir o dever de casa econômico
é indispensável fazer boas escolhas políticas

Muitos avanços foram feitos, mas é preciso pensar bem na escolha política tanto para reduzir a dívida quanto para baixar os maiores juros do mundo e voltar a crescer com segurança

No Brasil diz-se que o ano só começa depois do carnaval, o que é, evidentemente, injusto para com a grande maioria da população que pega no batente desde o primeiro dia útil do ano ou, mesmo, antes. Todavia, se dermos algum crédito a isso, podemos dizer que este ano começa não só tarde como promete ser bem “curto” pois teremos ainda pela frente a Copa do Mundo e as eleições. E, sobretudo, por ser um ano curto e eleitoral cabe-nos atenção redobrada.

“O Brasil ainda não tem a casa arrumada. Mas acho que em três ou quatro anos, um governo firme conseguirá. Aí, é sair para o abraço, para o crescimento.”

Luciano Coutinho, economista, Dinheiro, 15.02.06

É importante observar que, do ponto de vista da economia, o país avançou muito desde que alcançou a estabilidade macroeconômica (leia-se controle da alta inflação crônica), com a implantação e a manutenção, mesmo depois da mudança de governo, do chamado “tripé da estabilidade”: sistema de metas de inflação; câmbio flutuante; e responsabilidade fiscal. Todavia, mesmo com essas conquistas, muito ainda há que ser feito. Prova mais do que eloqüente disto é o fato de os juros bancários no Brasil serem os maiores do mundo.

“Em nenhum lugar do mundo um empréstimo custa tão caro como no Brasil. (…) no segundo trimestre de 2005, já descontada a inflação acumulada (…) chegou-se à taxa real cobrada pelos bancos — 44,7% ao ano.”

Folha de S. Paulo, 16.02.06

A justificativa principal para os juros estarem neste nível estratosférico é, sobretudo, o tamanho da dívida interna pública brasileira que em dezembro de 2005 atingiu o inédito patamar de R$ 1 trilhão, equivalente a 51,6% do PIB.

“É muito, especialmente para um país em desenvolvimento. No México, esse índice é de 22%, e no Chile, de 10%. Além de alta, a dívida brasileira é cara e difícil de pagar. Os juros no país são os mais altos do mundo, o que eleva o valor da dívida exponencialmente. Além disso, os prazos de vencimento são muito curtos, em média 28 meses.”

Revista Veja, 08.02.06

Por aí se pode ter uma idéia da complexidade da relação juros x dívida: eles são altos porque a dívida é grande e a dívida é grande porque eles são altos. Uma típica situação do cachorro correndo atrás do rabo. Para enfrentá-la seriamente, dizem os especialistas, faz-se necessária uma dupla abordagem: (1) melhoria considerável do perfil da dívida (coisa que, aliás, o presente governo vem se esforçando em fazer); e (2) eficientização e redução dos gastos públicos. Só que mexer nos gastos é uma coisa bastante difícil de fazer e que requer seriedade, determinação e muita capacidade de negociação do governo e, também, da classe política como um todo.

“… essa não é uma questão apenas do governo, é de toda a sociedade. É um tema no qual o eleitor precisa pensar quando escolher o seu deputado.”

Joaquim Levy, secretário do Tesouro, Veja, 08.02.06

Num ano eleitoral, portanto, atentar para essa necessidade premente é uma questão de responsabilidade para com o futuro do Brasil. Não deve ser esquecido o alerta de Luciano Coutinho: um governo firme ainda levará pelo menos quatro anos para fazer o resto da arrumação necessária para recolocar o país no rumo do crescimento sustentado. É absolutamente indispensável pensar muito nisso na hora de votar.

Número 575 - 20 de fevereiro de 2006

Hoje, o problema estrutural do
Brasil é mais político do que econômico

Projeto aprovado no Congresso Nacional deixa evidente a defasagem entre os interesses da classe política e os da nação e isso requer atenção redobrada dos votantes em ano ele

 

A montanha pariu um rato. A “reforma política” votada no Congresso, que se mostrava indispensável depois do show de improbidade explícita exibido ao vivo, a cores e em cadeias nacionais de rádio e TV, pelas CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos e pelos Conselhos de Ética e Decoro Parlamentar do Congresso Nacional, parece uma brincadeira de mau gosto.

“É difícil acreditar que nove meses de escândalo do mensalão não tenham sido suficientes para que o Congresso Nacional produzisse uma resposta minimamente séria à crise. Em vez disso, concebeu-se um projeto pífio com a suposta intenção de combater o caixa dois — o que já é um desvio de foco.”

Revista Veja, 15.02.06

O projeto aprovado pela Câmara dos Deputados trata de coisas que têm sua importância mas são acessórias diante das necessidades e da gravidade do problema político no país que chega, mesmo, a ser considerado estrutural por gente que pensa sobre o assunto.

“No fundo, o problema estrutural do Brasil é político. Temos um regime presidencialista sem partidos fortes para dar apoio ao presidente. É um sistema que fragiliza a governabilidade e leva a um esquema de cooptação de aliados, que explica um pouco esses escândalos que estão aí.”

Luciano Coutinho, economista, IstoÉ, 15.02.06

O pior de tudo é que essa atitude de não tratar do principal, só do acessório, está na contramão dos reclamos da sociedade, impactada pelos escândalos recentes. Desconhecer isso é de uma insensibilidade estranha à classe política, sempre atenta aos movimentos da sociedade. Certamente, isso tem um preço a ser cobrado no futuro e esse preço pode ser, justamente, a entrega do governo para o exercício de mais uma aventura política de cunho populista, como vimos no início dos anos 1990 no Brasil.

“O escândalo do mensalão e outras coisinhas mais contaminaram a classe política. O campo ficou aberto para o aparecimento de alguma figura carismática que procure ascender com a demagogia do fim da corrupção.”

Leôncio Martins Rodrigues, Veja, 15.02.06

Neste cenário, o Brasil mais uma vez perderia tempo precioso em sua corrida já atrasada para o desenvolvimento sustentado. Claro que o país tem problemas estruturais na economia que precisam ser atacados com cuidado e determinação para a retomada do crescimento, capaz de ir além do “vôo da galinha” que tem marcado o nosso desempenho já lá se vão praticamente duas décadas. A indigência política dos representantes do povo é um sério entrave a isto.

“Eu vejo mais razões de preocupação com a política do que com a economia. Claro que qualquer um pode pôr a economia para desandar, adotar uma heterodoxia desastrada. Mas a margem de erro é menor na economia que na política.”

Luciano Coutinho, economista, IstoÉ, 15.02.06

Coragem e integridade política para fazer os ajustes estruturais necessários que recoloquem o Brasil no indispensável caminho do desenvolvimento são, portanto, requisitos que devem ser cuidadosamente observados neste ano eleitoral, tanto nas chapas majoritárias quanto nas listas proporcionais. Votar por bons representantes tanto no Executivo quanto no Legislativo é, portanto, mais do que nunca, questão de interesse nacional.

Número 574 - 06 de fevereiro de 2006

Governo e oposição preparam
show de populismo na campanha eleitoral

Se as coisas continuarem como prenunciado neste início de ano, teremos uma campanha eleitoral movimentada por atitudes populistas e pela tentativa de puxar o debate para baixo

Com a divulgação do resultado da última pesquisa Datafolha que aponta recuperação do presidente Lula nas intenções de voto do eleitorado, pode-se dizer que começou, de fato, a corrida eleitoral. Uma eleição que parece polarizada entre o PT e o PSDB mas que pode trazer surpresas.

“Enquanto a eleição está polarizada entre PT e PSDB a percepção é de que não haverá mudanças drásticas. Se o candidato do PMDB for Germano Rigotto, também não muda muito. O Anthony Garotinho é que parece ter uma agenda que poderia ser mais, digamos, heterodoxa.”

Luciano Coutinho, economista, Dinheiro, 15.02.06

Garotinho, um profissional da política, tem feito de tudo para ser escolhido o candidato do PMDB, inclusive, segundo dizem as fontes mais informadas, telefonando para cada um dos convencionais do partido e para suas respectivas esposas, recuperando uma tradicional prática malufista. Até políticos tarimbados como o deputado carioca Moreira Franco e o ex-presidente do BNDES, economista histórico do PMDB, Carlos Lessa, têm entrado na onda Garotinho. Carlos Lessa, inclusive, está formulando o programa do candidato a candidato na linha do “populismo nacionalista”, explicado pelo deputado carioca:

“É uma visão popular do governo e de afirmação da Nação. É o retorno ao crescimento econômico com substantiva redução das desigualdades sociais.”

Moreira Franco, IstoÉ, 15.02.06

O próprio presidente Lula, no afã de recuperar os votos perdidos com a crise política (ver a respeito o GH/566) tem enveredado pelo pantanoso caminho do populismo flertado por Garotinho e sua nova turma. Provas evidentes dessa postura recente são a operação “tapa-buracos”, o pacote para barateamento da construção e o novo salário mínimo. Todos necessários mas fortemente impregnados de motivação eleitoral. Além do reforço do tradicional discurso direto para os pobres (os que ganham até 5 salários mínimos e formam 82% do eleitorado total).

“Lula é um líder com um traço popular e populista muito forte, que se comunica muito bem com as classes C, D e E, tanto pelo discurso quanto pelos projetos.”

Denis Rosenfield, cientista político, Veja, 15.02.06

Por isso tudo, o que se pode antecipar até a eleição é o aumento de medidas de cunho populista para garantir o eleitorado básico. Todavia, como só os votos desse segmento não são suficientes para eleger um presidente, é razoável esperar, também, medidas que permitam a recuperar uma parte essencial dos votos perdidos nas classes A e B.

“Não há na história recente um presidente que tenha sido eleito sem forte apoio na classe média. Caso o eleitorado de Lula se restrinja às camadas mais pobres, ele terá apoio suficiente para chegar ao segundo turno, mas dificilmente vencerá.”

Rogério Schmitt, cientista político, Veja, 15.02.06

O ano de 2006, já considerado curto (por conta da Copa do Mundo e da eleição), será, com certeza, marcado por uma campanha eleitoral movimentada. Do lado do governo, as medidas de proteção do eleitorado “cativo” e benesses para recuperar os votos perdidos. Do lado da oposição, artilharia pesada com a munição da crise política. Do lado de Garotinho, o neopopulismo com “substância”. Seria divertido se não fosse principalmente triste. É preciso elevar urgentemente o nível do debate. Hoje, o problema do país é mais político do que econômico.

Número 573 - 06 de fevereiro de 2006

Para o “trabalhador do conhecimento”
a programação do descanso é mais exigente

Com a intelectualização crescente do trabalho, vai ficando cada vez mais difícil separar os tempos dedicados ao trabalho propriamente dito ou ao lazer, daí a necessidade de cuidados especiais

Programar o descanso diante da realidade do trabalho intenso, conforme visto no número anterior (GH/572), é uma atitude essencial para uma boa qualidade de vida. Todavia, quando essa tarefa é feita por aqueles que trazem o “trabalho na cabeça”, necessário se fazem cuidados especiais.

“Chegará o dia em que 100% do trabalho humano será intelectual. Atividades perigosas, repetitivas e chatas serão feitas por máquinas. Quando o trabalho é executado com a cabeça, ele anda sempre com você, pode ser carregado para todos os lados e é possível fazê-lo no domingo à noite, na praia ou enquanto se lava a louça.”

Domenico De Masi, sociólogo italiano

De fato, embora esse dia antecipado pelo famoso sociólogo, criador do conceito do ócio criativo, pareça ainda um pouco longe, sobretudo em países em desenvolvimento como o Brasil, é preciso considerar que a transformação por ele antecipada está em pleno curso.

“A produtividade no trabalho não é mais medida pela fórmula tayloriana de quantidade de itens produzidos em relação ao tempo humano dedicado à sua execução, mas sim pelo volume de idéias úteis geradas. E idéias podem ser criadas em qualquer lugar: no escritório, no chuveiro, em um fim de semana no campo ou em um fim de tarde na praia.”

José Luiz Rossi, diretor da PWC Consulting

Peter Drucker, o guru dos gurus da administração de empresas, recentemente falecido, criou até o conceito de “trabalhadores do conhecimento” (knowledge workers) para caracterizar esse tipo de profissional. Segundo ele, esse é o grupo que mais cresce na população economicamente ativa, tanto nos países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento.

O trabalhador do conhecimento não tem como limitar o trabalho ao escritório e se depara com ele em qualquer lugar, inclusive naqueles momentos formalmente destinados ao lazer.

“Nos fins de semana, estou sempre ligado no que acontece. Se vou a um cinema, penso como esse filme pode ajudar em meu trabalho. Faço o mesmo em teatros, nos parques. É no dia-a-dia que vejo o que o consumidor quer, como ele vive, que me aproximo da realidade.”

Martin Sorrel, publicitário inglês

É, justamente, essa mistura inevitável que remete para o cuidado especial com a programação do descanso porque, se não, o trabalho, como um gás, ocupa todo o espaço à sua volta (não esquecer a famosa Lei de Parkinson: “o trabalho se expande até ocupar todo o tempo disponível”). Daí, a importância de programar o descanso como uma obrigação, conforme recomendado para o gerente (um trabalhador do conhecimento por excelência) pelo especialista Mintzberg, da Universidade McGill do Canadá:

“O gerente deve aprender a controlar seu tempo, tirando proveito de suas obrigações e transformando em obrigação tudo aquilo que deseja fazer (…) o tempo livre se faz, não se encontra. Há que introduzi-lo forçosamente no programa.”

Henry Mintzberg

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