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Número 572 - 30 de janeiro de 2006

Contra o inevitável trabalho intenso é
indispensável a programação do descanso

De um modo geral, em razão do aumento da competição e da alta pressão por resultados, o trabalho tem aumentado muito, o que requer em contrapartida um aprendizado para o descanso

Depois que o GH/569 tratou da importância de programar pausas e desacelerar periodicamente para ter um controle mais adequado (e mais saudável) da agenda de trabalho, a revista Exame de 18.01.06 publicou uma reportagem de capa sobre o excesso de trabalho (”Por que Trabalhamos como Burros de Carga — e o que podemos fazer para mudar isso”). Citando uma pesquisa realizada com presidentes de 144 das 500 empresas listadas entre as Maiores e Melhores, a revista conclui o seguinte:

“Quase metade deles trabalha mais de 12 horas por dia. Apenas 10% não trabalham nos fins de semana. É quase unânime a opinião de que a carga de trabalho cresceu na última década — apenas 5% dizem não dedicar mais tempo à empresa hoje do que dedicava dez anos atrás.”

Marcelo Onaga, Exame, 18.01.06

As razões apontadas para isso são a globalização (que provocou o brutal aumento da concorrência), a tecnologia (que aumenta a conectividade e a quantidade de informação que precisa ser processada) e a pressão (por resultados). Como conseqüência, mais tempo de trabalho para dar conta de tudo e mais “estressamento” dos limites, inclusive os físicos.

“Todos têm um limite físico. Mas como ninguém sabe qual é o limite, muita gente testa até onde consegue chegar.”

Paulo Pegado, médico, Exame, 18.01.06

A observação da realidade empresarial mais ampla que a investigada na pesquisa realizada pela Exame identifica muitas similaridades entre os resultados encontrados pela revista e a vida empresarial moderna “como ela é”. Hoje em dia, sucesso empresarial e pessoal dependem criticamente do trabalho competente, não raro intenso, o que permite citar, sem culpa, a brincadeira atribuída a Einstein:

“O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.”

Albert Einstein, 1879-1955, cientista alemão

Diante desse quadro, ao que tudo indica inelutável, de trabalho intenso, o que parece essencial é aprender a não forçar em demasia os limites e a fazer pausas que permitam a recomposição das energias.

“Sem uma quantidade mínima de relaxamento verdadeiro, qualquer iniciativa começa mal. Os seres humanos simplesmente não foram feitos para permanecer em estado de estresse o tempo todo.”

David Kundtz, “A Essencial Arte de Parar”

Assim como saber trabalhar é uma necessidade imperiosa, caso contrário o desgaste será muito maior, saber descansar é também essencial.

“A arte do descanso é uma parte da arte de trabalhar.”

John Steinbeck, 1902-1968, escritor norte-americano

Sem uma boa programação de descanso, a pressão do trabalho intenso fica insuportável, comprometendo o desempenho, a saúde, a vida familiar e tudo mais. E o mais sério é que, de um modo geral, não há um preparo cultural nem educacional adequado para isso. Trata-se, portanto, muitas vezes, de um aprendizado que precisa ser feito.

“A escola e a família só nos preparam para o trabalho — não nos preparam para o tempo livre.”

Domenico De Masi, sociólogo italiano

Número 571 - 23 de janeiro de 2006

Mesmo com as dificuldades deixadas,
JK continua fazendo uma falta enorme ao país

50 anos depois do início do governo de Juscelino, o Brasil continua à espera de um presidente que saiba, como ele, industrializar a esperança e fazer o país retomar uma trajetória vitoriosa

Juscelino Kubitschek de Oliveira, o Nonô Pé de Valsa, o JK, o Presidente Bossa Nova foi, sem a menor sombra de dúvidas, o único genuíno clarão de sol no nublado céu da política nacional, desde o início do século passado. Antes dele, só Getúlio Vargas, com seus problemas. Depois, infelizmente, ninguém.

“Além de rimar crescimento econômico com liberdade, Juscelino tinha um compromisso com o sonho e com a imaginação.”

Cláudio Bojunga, jornalista e biógrafo de JK

Boa parte do sucesso de JK deveu-se, com certeza, às suas características pessoais (ver GH/570) mas também foi favorecido por uma série de acontecimentos positivos que funcionaram como alavancadores da auto-estima nacional.

“Tudo parecia dar certo para o Brasil: ganhamos a Copa do Mundo, surgiu o cinema novo e a bossa nova, enfim, tudo era novo, tudo era festa.”

Marly Mota, historiadora do CPDOC-FGV

De fato, tudo parecia conspirar a favor do país. Vitórias, além do futebol (Copa de 1958 na Suécia), no tênis (Maria Esther Bueno), no boxe (Eder Jofre), no atletismo (Adhemar Ferreira da Silva). Palma de Ouro em Cannes e Oscar de melhor filme estrangeiro em 1958 para “Orfeu Negro”, uma adaptação francesa filmada no Rio de Janeiro da peça “Orfeu da Conceição” de Vinicius de Moraes. Sem falar da inauguração da moderna Brasília.

“Na segunda metade da década de 50, parecia que havíamos ‘chegado lá’, que tínhamos deixado para trás o estigma de ser uma nação rural, doente, analfabeta e condenada ao subdesenvolvimento e que estávamos prestes a conquistar uma cadeira no seleto clube dos países do Primeiro Mundo.”

Revista Aventuras na História, janeiro/2006

Isso tudo como reforço ao inédito crescimento da economia, com a industrialização acelerada e a construção de uma infra-estrutura portentosa, responsáveis por um crescimento médio de 8,1% ao ano no período. Sem capital para financiar todo esse esforço, JK recorreu ao endividamento externo e viu a inflação pular de 12,5% ao ano para 30,5% ao final de seu mandato.

“Retrospectivamente, JK parece maior hoje do que foi em vida. Em seu governo a inflação subiu e a construção de Brasília gerou acusações de corrupção. Em comparação ao que veio depois, porém, esses seriam apenas pecadilhos.”

História Viva, número 27

Certo de que iria voltar como presidente em 1965, JK deixou um conjunto de problemas para o sucessor que esperava retomar para solucionar no mandado seguinte.

“Juscelino acreditava que voltaria nos braços do povo, pois imaginava que Jânio,que pregava a austeridade financeira, iria provocar o arrocho econômico e, assim, fazer o Brasil sentir saudades do que perdera.”

Cláudio Bojunga, jornalista e biógrafo de JK

Como se sabe, não só não voltou como foi cassado, exilado e viria a morrer no ostracismo. Como presidente dinâmico e otimista deixou uma lacuna enorme, difícil de preencher. 12 presidentes e muitas loucuras depois, se tivessemos tido a sorte de ter pelo menos mais um JK, as coisas teriam sido, com certeza, diferentes.

Número 570 - 16 de janeiro de 2006

O que transformou o presidente
Juscelino Kubitschek de Oliveira no mito JK?

Juscelino Kubitschek, por suas características pessoais, políticas e executivas incomuns, pertence a uma muito pouco densa categoria de homens públicos brasileiros, daí o mito

Depois que a Rede Globo lançou, com a competência que lhe é peculiar, a minissérie JK, observou-se grande interesse pela figura do presidente que virou mito. Nenhum outro, como ele, na história recente do Brasil, atingiu tal grau de permanência no imaginário popular como representante de uma época de ouro do país.

“Depois dele, não houve presidente com o mesmo alto-astral político, a visão estratégica e a capacidade de pôr idéias em prática.”

Marcos Figueiredo, cientista político, Iuperj

Quando se procuram as causas dessa permanência de JK no imaginário popular, logo salta à vista sua responsabilidade pela elevação da auto-estima do brasileiro, numa época em que predominava o baixo astral cívico.

“O brasileiro de 1950 era um humilde de babar na gravata. Quando passava a carrocinha de cachorro, cada um de nós tinha medo de ser laçado também.”

Nelson Rodrigues, 1912-1980, dramaturgo brasileiro

Juscelino reunia características pessoais incomuns que se refletiram na atividade pública de forma inusitada na paisagem política nacional.

“Ele era um homem público que acreditava em planejamento, um espécime raro hoje, que está fora de moda no Brasil. É o tipo de personagem que cresce com o tempo.”

Maria Victoria Benevides, socióloga da USP

Affonso Heliodoro, amigo e auxiliar direto de JK desde o governo de Minas, quando exerceu a Chefia da Casa Militar, descreve no livro “JK - Exemplo e Desafio” (Tresaurus Editora, Brasília, 2005) a sua personalidade.

“Enérgico, determinado. Mas, ao mesmo tempo, amigo atencioso, incapaz de uma grosseria. Se porventura deixava escapulir uma palavra dura ou um gesto menos delicado, procurava imediatamente demonstrar que nada havia de pessoal naquela atitude.”

Affonso Heliodoro, “JK - Exemplo e Desafio”

Juscelino chegou à Presidência da República pilotando uma campanha cujo slogan foi “50 anos de progresso em 5 de governo”, numa época politicamente bastante conturbada, depois de uma infância pobre na mineira Diamantina, dos estudos de medicina em Belo Horizonte e da passagem pela prefeitura de BH, pela Câmara Federal e pelo governo de Minas. Foi um democrata na acepção da palavra mas observou com rigor o princípio da autoridade. O sindicalista Dante Pelacani conta no excelente documentário “Os Anos JK”, do cineasta Sílvio Tendler, o que ouviu dele depois de dizer que faria uma greve contra decisão da Justiça.

“Olha, Dante, greve contra a Justiça não existe. O que existe é revolução. Se você e seus companheiros tiverem condições de fazer uma revolução e derrubar o governo, façam-na. Mas se não tiverem essa condição, não façam nada porque o pau vai cantar.”

JK, segundo Dante Pelacani, “Os Anos JK”

Além das qualidades pessoais, que incluíam o bom humor e o reconhecimento da falibilidade (segundo Elio Gaspari costumava repetir: “não tenho compromisso com o erro”), talvez as razões do mito sejam três características incomuns de homem público: (1) teve crença firme no Brasil e nos brasileiros; (2) prometeu esperança; (3) cumpriu o que prometeu. Coisas muito raras de serem encontradas juntas num país tão pobre de lideranças públicas como é o nosso caso.

Número 569 - 09 de janeiro de 2006

Saber fazer pausas e desacelerar é
também necessário ao controle da agenda

A boa administração do tempo e o conseqüente controle da agenda de trabalho requer um aprendizado sobre paradas estratégicas e diminuição da velocidade quando necessário

Comentando o Gestão Hoje anterior (ver GH 568), o jornalista e escritor Fábio Lucas reporta-se à necessidade de adotar “espaços em branco” na agenda

“A agenda precisa de brancos! De tempo para esquecer o tempo… (ou para lembrar dele, sem vê-lo passar entre as horas marcadas). E, já que Drummond foi citado: ‘A vida necessita de pausas’. A agenda também, para que nós não fiquemos com a errada impressão de que só há vida fora dela.”

Fábio Lucas

Ele chama a atenção para uma tendência que está em alta, seja em relação à necessidade de pausas ou de “parar” de vez em quando, seja em relação à recomendação de “desacelerar”. Sobre esses temas, dois livros recentemente publicados no Brasil merecem atenção. O primeiro deles é “A Essencial Arte de Parar - Um método revolucionário e simples para a paz e o encontro consigo mesmo” (Dr. David Kundtz, editora Sextante, Rio de Janeiro) e o segundo é “Devagar - Como um movimento está desafiando o culto da velocidade” (Carl Honoré, editora Record, Rio de Janeiro).

“Sem uma quantidade mínima de relaxamento verdadeiro, qualquer iniciativa começa mal. Os seres humanos simplesmente não foram feitos para permanecer em estado de estresse o tempo todo.”

David Kundtz, “A Essencial Arte de Parar”

A tese defendida no livro “A Essencial Arte de Parar” é a de que todos devemos programar pausas e ficar sem fazer nada por um período definido (de um segundo a um mês). O propósito é se tornar mais desperto e o essencial é não se deixar aprisionar pelo ativismo e promover paradas estratégicas, breves ou longas, dependendo da necessidade e da disponibilidade. Tanto podem ser várias pequenas paradas por dia quanto paradas de dias durante o mês ou durante o ano (as férias, por exemplo, são paradas do tipo preconizado).

Já a tese do segundo livro (”Devagar”), é mais radical. Trata ela de um movimento mundial de desaceleração que contrapõe-se ao culto da velocidade e do decorrente estresse que provoca, introduzidos na nossa cultura pela revolução industrial.

“O estresse do trabalho nem sempre é um fator negativo. Em doses limitadas, contribui para concentrar a mente e aumentar a produtividade. Mas em doses excessivas pode ser uma passagem de ida sem volta para o colapso físico e mental.”

Carl Honoré, “Devagar”

Por isso, diz o autor, amparado em ampla pesquisa e em inúmeras entrevistas ao redor do mundo, é indispensável não se deixar dominar pela pressa irrefletida ou pela correria
desordenada e tomar o controle da agenda, diminuindo o ritmo quando se trata de fazer bem o que não se pode fazer correndo.

“As coisas que requerem uma certa lentidão - planejamento estratégico, pensamento criativo, cultivo de relacionamentos - se perdem na corrida ensandecida para manter o ritmo, ou simplesmente para parecer ocupado.”

Carl Honoré, “Devagar”

Seja por que método for, o que parece necessário, como destacam as observações dos autores citados, é não se deixar dominar completamente pela tirania dos horários e da velocidade e programar as pausas e as desacelerações necessárias, sem perda do controle da agenda e dos objetivos a serem atingidos.

Número 568 - 02 de janeiro de 2006

Sugestões para uma boa utilização
da agenda na organização semanal do tempo

Como nosso recurso mais escasso, o tempo é bem melhor aproveitado quando são observadas regras simples na utilização da agenda, o instrumento mais eficaz já inventado para esse fim

No primeiro Gestão Hoje do ano, em homenagem ao “milagre da renovação” de que fala Carlos Drummond de Andrade (ver GH/567), vale a pena tratar do tema da utilização da agenda, o instrumento mais eficaz já inventado para a adequada administração do tempo, nosso recurso mais escasso.

“Qual é o item mais restrito hoje, amanhã e depois de amanhã? O tempo.”

Tom Peters, consultor norte-americano

Como disse Peter Drucker, com muita propriedade, se o tempo “não for administrado, nada pode ser administrado”. Como recurso não renovável e fluido, o tempo não pode ser estendido ou adquirido. A única coisa que pode ser feita para aproveitá-lo em sua potencialidade é cuidar, da melhor forma possível, da sua organização.

“O tempo é a única coisa não negociável em nossas vidas! Você jamais poderá comprá-lo ou vendê-lo, e outras pessoas não podem dá-lo a você! Você apenas pode organizá-lo melhor!”

Roger Dawson, escritor norte-americano

E para organizá-lo bem, é indispensável a adequada utilização da agenda, de preferência dividida em semanas (ver, a propósito, o GH número 361). Eletrônica ou analógica, o importante é que sua utilização siga algumas regras básicas. Regras que possam ser utilizadas como uma espécie de método.

“O método vai lhe ensinar a ganhar tempo.”

Johann W. Von Goethe, 1749-1832, poeta alemão

1. Registrar Todos os Compromissos

A agenda deve ser o local onde todos os compromissos devem ser registrados, sejam profissionais ou não. Afinal, o tempo é um só e registrar compromissos em locais diferentes, ou não registrá-los, é ruim. O fundamental é registrar tudo, e num só lugar.

2. Desconfiar da Memória

É essencial consultar os compromissos registrados na agenda e, não, tentar lembrar deles. A memória deve ter um uso mais nobre do que guardar datas e horários; além do que, é traiçoeira para esse tipo de coisa.

3. Fazer Registros Provisórios

Os agendamentos devem ser feitos de modo a que possam ser remanejados. Se a agenda for de papel, os compromissos devem ser registrados a lápis para que, no caso de necessidade, possam ser apagados ou revisados.

4. Ser Realista

É fundamental ser realista na previsão dos tempos de cada compromisso, com adequado registro do horário de início e fim, inclusive com previsão da preparação e/ou dos deslocamentos necessários.

5. Destacar os Compromissos Importantes

É de grande valia destacar os compromissos mais importantes, vencimentos relevantes ou datas notáveis. Nas agendas de papel podem ser usados salientadores de texto coloridos para fazer os destaques necessários.

6. Evitar Entulhos

Os registros devem ser econômicos, só com os detalhes indispensáveis. Nas agendas analógicas, devem ser evitados os papéis avulsos, recibos, contas a pagar etc. A agenda deve ficar livre para cumprir melhor sua função principal que é organizar o tempo.

7. Manter Atualizada

Uma vez registrados os compromissos, mantê-los atualizados é fundamental. Tudo o que mudar deve ser registrado, assim que o fato acontecer. A memória não é boa nem para guardar compromissos nem, muito menos, para remanejá-los.

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