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Número 567 - 26 de dezembro de 2005

Que o Ano Novo, essa genial invenção
humana, seja bom para cada um e para o país

A invenção do Ano Novo é uma das mais notáveis do gênio humano e momento propício para refletir sobre o entrelaçamento entre nossos sonhos individuais e os destinos coletivos do país

Ao chegar o final do ano, mais do que em qualquer outra época, sentimos a força da divisão do tempo. Uma incrível invenção do gênio humano, como destaca com notável propriedade o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, em oportuna citação do secretário da Educação do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita (Folha de S. Paulo, 14.02.2005):

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,/ a que se deu o nome de ano,/ foi um indivíduo genial./ Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão./ Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos./ Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.”

Carlos Drummond de Andrade, “O Tempo”

De fato, a natureza marca os dias, com o nascer e o por do sol, e, a grosso modo, o ano, com a volta completa da Terra em sua órbita. A marcação do ano e o calendário preciso com 365 dias mais um a cada 4 anos foram invenções notáveis. Mais impressionante ainda é a invenção da semana e dos meses que, diferentemente do dia e do ano que têm marcações naturais, não possuem nenhuma evidência física que os permita marcar. São puras abstrações que comandam a vida de toda a humanidade e permitem todas as suas outras invenções.

“O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo.”

Machado de Assis, “Esaú e Jacó″

No que diz respeito ao Brasil, então, essa máxima se aplica com toda a propriedade. Um país que já avançou muito mas que ainda tem muito o que construir. Muito o que “bordar”. Sobretudo, no que diz respeito ao resgate da enorme dívida social “construída” ao longo da nossa história. A cada ano que “termina” devemos sempre lembrar disso e renovar a esperança e o empenho em melhorar a situação coletiva já que a nossa individual está com ela, mais do que nunca, intimamente implicada.

“O Ano Novo é um desses raros momentos em que nossa vida pessoal fica inexoravelmente entrelaçada com nossa vida conjunta.(…) Um momento propício para lembrar que, se descuidarmos das nossas circunstâncias - nosso mundo, nosso país, nossa época histórica -, são nossas chances pessoais que serão atingidas.”

Dulce Critelli, professora de filosofia da PUC-SP

Por conta, justamente, desta enorme dívida social, a insegurança e a violência têm avançado de forma célere, ameaçando não só nossas realizações pessoais como, cada vez mais, nossa própria integridade física. Muito ainda tem que ser feito e tudo piora com crescimento econômico baixo. Mas, temos a obrigação de torcer e trabalhar por melhoras, sempre com a esperança necessária e os sonhos renovados.

“Um Ano Novo é sempre o marco de um novo tempo. O começo de uma maneira nova de viver. Aponta para os sonhos e as possibilidades que estão por vir, mas que serão apenas ilusões sem nossas ações e nosso empenho.”

Dulce Critelli, professora de filosofia da PUC-SP

Número 566 - 19 de dezembro de 2005

Pesquisas apontam dificuldades
para cenário re-eleitoral do presidente Lula

Agora, começam a ficar evidentes os estragos que a crise política provocou na re-eleição do Presidente que, para recuperar as boas chances, terá que fazer a economia crescer bastante

Até meados do primeiro semestre de 2005, o presidente Lula era imbatível para sua própria sucessão. Todos os analistas davam a reeleição praticamente como favas contadas. Foi então que sobreveio a crise política e tudo mudou. As últimas pesquisas CNI e Datafolha mostram, com muita clareza, as conseqüências da crise detonada pelas denúncias do “mensalão” sobre as pretensões re-eleitorais do presidente Lula.

“Pela primeira vez desde que tomou posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa a liderança da disputa pela Presidência, num cenário eleitoral já no primeiro turno, se as eleições fossem hoje.”

Folha de S. Paulo, 15.12.05

De acordo com a pesquisa Datafolha, Lula teria 29% dos votos no cenário em que o rival tucano é José Serra que venceria o primeiro turno com 36% da preferência do eleitorado. No segundo turno, Lula seria batido por Serra que teria 50% dos votos contra 36% do presidente. O mais grave, todavia, é que, quando é considerado o cenário de uma disputa com Geraldo Alkmin, a pesquisa projeta um virtual empate técnico entre Lula e o governador de São Paulo no segundo turno (41% x 40% das intenções de voto, respectivamente).

“Eleição não se ganha de véspera, muito menos um ano antes. Mas a tendência verificadas pelos diferentes institutos já causa efeitos importantes. Um deles é o desânimo de aliados naturais e potenciais de Lula.”

Eliane Catanhêde, FSP, 15.12.05

Esse desânimo é justificado pela perda de 20 milhões dos 52 milhões de votos dados a Lula no segundo turno da eleição passada. Com isso, o candidato volta ao seu patamar histórico de 30 milhões de votos. Com eles disputou quatro eleições mas só ganhou aquela em que conseguiu agregar, justamente, os 20 milhões de votos que acaba de perder, preponderantemente dos formadores de opinião. Todavia, mesmo combalido, o presidente Lula, com 30 milhões de votos, é um candidato respeitável.

“Uma forma de ver a pesquisa é concluir que esse candidato [Lula] continua tendo uma força eleitoral e popular muito grande.”

Aldo Rebelo, presidente da Câmara dos Deputados

Para recuperar parcela importante dos votos perdidos e voltar a ter chances eleitorais consistentes, só parece restar uma alternativa ao presidente: fazer com que a economia volte a crescer a um ritmo vigoroso, semelhante ao verificado em 2004. Assim, alguns dos que, hoje, arrependeram-se do voto dado em 2002, poderiam pensar que, já que a economia estaria crescendo, talvez não valesse a pena correr o risco da mudança, uma vez que “todos os políticos são iguais mesmo”. É o voto do tipo “já que só tem tu, vai tu mesmo”. Um voto de má qualidade mas, afinal de contas, voto. Uma situação eleitoralmente desconfortável para o presidente.

“A situação de Lula não é confortável, mas sua história política e pessoal sugere que dificilmente jogará a toalha. Ao contrário, lutará com todos os seus meios.”

Eliane Catanhêde, FSP, 15.12.05

Com a recente divulgação pelo IBGE dos dados apontando queda recorde do PIB no terceiro trimestre de 2005 (ver GH/564), a alternativa eleitoral de crescimento acelerado em 2006 fica comprometida. Tudo indica que no próximo ano o crescimento da economia será maior do que o deste ano, mas menor do que 2004. Esse fato torna mais imprevisíveis, ainda, os desdobramentos político-eleitorais.

Número 565 - 12 de dezembro de 2005

A galinha brasileira ainda tem muito
o que voar para que o país atinja o mínimo

Ato terrorista de incêndio de um ônibus no Rio de Janeiro repleto de passageiros evidencia, a despeito dos avanços sociais conseguidos, o quanto é preciso ser feito para evitar o caos

 

O governo Lula está diante de um problema importante: precisa que haja crescimento econômico vigoroso em 2006 para aumentar suas chances re-eleitorais. Todavia, a profundidade da crise política ocorrida em 2005 fez com que o Banco Central aparentemente exagerasse na dose do remédio dos juros. Com isso, houve queda acentuada do PIB no terceiro trimestre de 2005, o que compromete o crescimento futuro. Se o crescimento vier pequeno, fica abalado o discurso do governo.

“Desse jeito, restará a Lula apenas o discurso da estabilidade monetária, uma conquista que não é do seu governo.”

Cristovam Buarque, senador DF, FSP, 01.12.05

Em meio a esse dilema, o governo nem viu direito os números divulgados pelo IBGE dando conta da queda da miséria e da desigualdade no país ao longo dos últimos 10 anos (ver a propósito o GH/564). Uma avanço importante, embora insuficiente.

Essa insuficiência ficou bastante evidente com o bárbaro crime praticado na noite do dia 29.12.05 no Rio de Janeiro. Um ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá) que transportava trabalhadores e estudantes de volta para casa foi incendiado por traficantes armados oriundos do Morro da Fé, na Penha, zona norte da cidade. Os passageiros foram impedidos de sair, foi jogada gasolina, ateado fogo e fechadas as portas. Resultado: cinco mortos - queimados vivos - e 14 feridos. Um ato francamente terrorista para vingar a morte de um traficante em confronto com a PM, ocorrida na tarde daquele dia.

“Mais do que uma novidade - que também é - o ato terrorista ilustra um quadro de progressiva, anunciada e já monótona deterioração social associada ao enraizamento do crime organizado no país - fenômeno que já se conta em décadas e que há pelo menos 20 anos assumiu dinâmica perversa e configuração alarmante.”

Fernando de Barros e Silva, FSP, 04.12.05

Não obstante a melhora dos indicadores, o passivo social no Brasil é muito grande. Tão grande que serve de caldo de cultura para episódios hediondos como o do incêndio do ônibus carioca. Uma adolescente de 13 anos, namorada de um dos traficantes, foi quem solicitou a parada do coletivo. Uma adolescente que num país sério estaria dormindo naquela hora para ir à escola cedo no dia seguinte.

“Não sei ler nem escrever. Mal assino meu nome.”

Adolescente entrevistada em off

Na ausência do poder público, o tráfico e a contravenção transformam-se no principal provedor de “segurança”, fonte de renda e “educação” de largas parcelas da população. Domina territórios extensos onde a polícia não entra a não ser em vastas operações de guerra em carros blindados. Por enquanto, essas áreas são delimitadas mas no ritmo em que a situação está se deteriorando, não é desprezível a hipótese de que se dê por aqui algo parecido com o que aconteceu na Colômbia onde o tráfico chegou a estabelecer em Medelin praticamente um estado paralelo. Sem falar da hegemonia das Farc sobre vastas parcelas do território colombiano.

Para quebrar essa espiral de violência e colocar o país num ciclo de melhora acentuada do quadro social algumas coisas são indispensáveis: (1) crescimento econômico sustentado (para aumentar as oportunidades de emprego e renda); (2) políticas compensatórias abrangentes (para acelerar a retirada da miséria de grandes parcelas da população); (3) um mutirão educacional permanente (para educar bem todos os jovens); (4) segurança pública conseqüente (para retomar o domínio público sobre todo o território nacional). Até agora, mal conseguimos parte do 2o. Item.

Número 564 - 05 de dezembro de 2005

Semana de quedas deixa
evidente que a galinha brasileira voa

Numa semana especialmente agitada na política e na economia, estudo da FGV assinala a queda, ainda que bastante modesta, da pobreza e da concentração de renda no Brasil

A semana passada foi pródiga em fatos relevantes para o país, tanto do ponto de vista político, quanto econômico, quanto social. Foram quatro quedas recordes: a primeira, do deputado José Dirceu que teve o mandato cassado pela Câmara; a segunda, do PIB no terceiro trimestre/2005; a terceira do Risco Brasil no mercado internacional; e a quarta, mas não menos importante, da pobreza no país.

A cassação de José Dirceu na quarta-feira 31, por 239 votos contra 192, tem uma representação simbólica muito importante. Ex-líder estudantil nos idos de 1968, ex-preso político, ex-exilado em Cuba, ex-clandestino na luta contra o regime militar, ex-presidente do PT, ex-articulador-mor do governo petista, ex-ministro todo poderoso da Casa Civil, o ex-deputado transformou-se num emblema político. Com ele foi “cassada” uma parte fundamental do esquema de poder que assumiu os destinos do país em 2003 e, o que é pior, sem nenhuma garantia de arrefecimento da colossal crise política que se abateu sobre o governo Lula desde que o ex-deputado Roberto Jefferson denunciou o “mensalão”.

“Mas e a crise - arrefecerá? Muitos apostam que sim, mas há argumentos fortes para acreditar no contrário. O cadáver premiado será jogado na cara do presidente até outubro de 2006; a cassação do ‘chefe do mensalão’, além disso, praticamente define o destino dos demais mensaleiros. E, mais importante: eliminada a rainha, o rei fica só e mais exposto no tabuleiro. Dirceu se foi; a crise fica.”

Fernando de Barros e Silva, FSP, 02.12.05

Como se não bastasse esse sério revés político, o governo ainda amargou um outro, também grave: o IBGE divulgou que entre os meses de julho e setembro (terceiro trimestre), a economia brasileira encolheu 1,2% em relação ao trimestre anterior, sinalizando que, com esse resultado, o país não deve crescer mais que 2,5% em 2005, o pior desempenho entre todos os países emergentes (que crescem a taxas superiores a 5%).

“Isso quebra a perna do governo.”

Presidente Lula, segundo a revista Istoé, 07.12.05

Quebra porque, embora esses números ainda devam ser revistos pelo IBGE, se a tendência se confirmar, manda para o espaço o discurso do “espetáculo do crescimento” que estava sendo re-ensaiado para 2006 como a única alternativa para aumentar as chances re-eleitorais do presidente Lula, depois da crise política e da perda dos votos de opinião que garantiram a sua eleição em 2003. Sem crescimento expressivo em 2006, o governo Lula não se diferenciará do de FHC, confirmando a tese de que a economia brasileira continua presa à síndrome do “vôo da galinha” (ver a propósito GH/492).

A constatação da queda do PIB foi tão traumatizante para o governo que a notícia, vinda do exterior, de outra queda, essa benigna, passou quase sem ser percebida: o risco-país caiu a 328 pontos, seu nível mais baixo desde 1994. Do mesmo modo, outra queda importante quase não foi vista: um estudo da FGV apontou a diminuição da pobreza (passou de 35% em 1992 para 25% em 2004 a parcela da população abaixo da linha de pobreza) e da desigualdade (os 50% mais pobres aumentaram sua participação na renda de 12% em 1993 para 14% em 2004 e os 10% mais ricos diminuíram de 48% para 44%).

“O fato é inédito na história brasileira dos últimos 30 anos. Essa queda aconteceu (…) perpassando diferentes governos.”

Marcelo Neri, coordenador do estudo “Miséria em Queda”

Uma prova de que, apesar das crises políticas recorrentes e do crescimento insuficiente e irregular, pelo menos do ponto de vista social, a galinha brasileira aprendeu a voar. Baixo, mas voa.

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