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Número 559 - 31 de outubro de 2005

O referendo, apesar de inútil no mérito,
inicia a moderna democracia direta no Brasil

Poderosos instrumentos de consulta popular, referendos e plebiscitos, desde que para temas relevantes, devem ser regularmente utilizados para aperfeiçoar a democracia no país

Neste último número da trilogia sobre o referendo “do desarmamento”, vale a pena tecer algumas considerações sobre a importância da consulta como mecanismo de democracia direta. Isso, claro, independente do lamentável mérito desta a que fomos obrigados a nos submeter, conforme destaca o sociólogo da Universidade de São Paulo, Demétrio Magnoli.

“Nunca, na história conhecida, uma nação foi obrigada a responder uma pergunta tão idiota quanto neste referendo.”

Demétrio Magnoli, GloboNews Painel, 29.10.05

Não havia a menor necessidade do país gastar o tempo e o dinheiro que gastou (segundo o professor da UFRS, Denis Rosenfield, mais do que “o governo federal alocou efetivamente à segurança pública”) para responder a uma consulta cujo resultado, qualquer que fosse ele, em praticamente nada afetaria a realidade (já devidamente regulamentada pela Lei 10.826 de 23.12.2003, conhecida como Estatuto do Desarmamento). Sobre esse assunto não precisa perguntar nada a ninguém, basta cumprir a lei. Todavia, perguntar sobre questões, de fato, relevantes é não só desejável como necessário para o aperfeiçoamento da democracia no país. Quando bem utilizados, tanto o referendo (acerca de temas já legislados) quanto o plebiscito (acerca de temas a serem legislados), são ferramentas poderosas de participação popular.

“O referendo, desse modo, poderá ser o começo da transformação que a democracia participativa fará no Brasil.”

Paulo Bonavides, jurista, FSP, 29.10.05

Quanto mais referendos e plebiscitos forem feitos, desde que, claro, sobre temas de fato relevantes, melhor será o nível de desenvolvimento democrático no país.

“Se repetirmos mais vezes o espetáculo de cidadania (…), estamos fundando a escola superior da democracia.”

Paulo Bonavides, jurista, FSP, 29.10.05

Para isso, todavia, essas consultas, além do princípio da relevância devem respeitar, também, o princípio da economicidade. Deste modo, devem coincidir com as eleições regulares, legislativas e executivas, que acontecem a cada dois anos em todo o país.

“Basta contemplar uma periodicidade regular, não-obrigatória, quando, a cada dois ou quatro anos, os cidadãos seriam chamados a decidir, concomitantemente com as eleições, sobre temas específicos.”

Denis Rosenfield, filósofo, FSP, 29.10.05

Se isso for feito com a seriedade que merece, de par com a tecnologia da urna eletrônica desenvolvida pelo Brasil, sem similar no mundo, teremos a excelente oportunidade de aperfeiçoamento do processo democrático com a sistematização da consulta popular direta. A péssima experiência do referendo atual não deve servir de pretexto para não se usar o excelente instrumento da consulta popular direta e relevante.

“Em verdade, com a urna eletrônica, em plena idade da informática, é de todo possível passar da democracia direta de uma cidade, como fora a democracia de Atenas na Grécia, à democracia direta de um país como o nosso de oito milhões e meio de quilômetros quadrados e com mais de cem milhões de eleitores em pleno exercício da cidadania.”

Paulo Bonavides, jurista, FSP, 29.10.05

Número 558 - 24 de outubro de 2005

Vitória do Não sinaliza protesto duro
contra a insegurança pública vigente no país

Para uma pergunta mal feita e inoportuna foi dada uma resposta veemente contra a grave situação da segurança pública em todo o país que torna o desarmamento uma medida inócua

 

Depois da esmagadora vitória do “Não” no referendo sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munição no Brasil, muita coisa ainda se vai escrever a guisa de “interpretação” do porquê de uma diferença tão gritante. Antes da enxurrada de opiniões que virá, vale a pena registrar as lúcidas palavras do escritor pernambucano Paulo Gustavo no blog “O Olhar da Coruja” (oolhardacoruja.zip.net):

“… o Não reflete o momento de uma sociedade angustiada pela vulnerabilidade do seu direito à Segurança. Como o Estado vem falhando nessa missão constitucional, a sociedade, aproveitando a momentosa circunstância que lhe foi delegada, declara em letras maiúsculas a sua revolta e o seu protesto. É um grito desesperado que precisa ser ouvido. Pessoalmente, não acredito que a maioria dos eleitores do Não acreditem que violência se combate com violência. (…) Votar no Não, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, não é defender a violência, mas protestar contra ela.”

Paulo Gustavo, O Olhar da Coruja, 21.10.05

Ao que tudo indica, o que aconteceu foi isso: para uma pergunta mal formulada, num referendo inadequado e inócuo, respondeu-se outra coisa. Aproveitou-se a oportunidade para dar uma dura resposta de protesto. Por esse lado, um referendo inútil no mérito, ganhou sentido às avessas pelo protesto expressivo contra a insegurança em que terminou por se transformar.

Saudado pela imprensa como a maior consulta popular já realizada no mundo por meios eletrônicos, o referendo teve também o mérito, do ponto de vista exclusivamente formal, de ter sido um exercício de democracia direta, o terceiro da história do país (os dois anteriores foram plebiscitos sobre o sistema de governo, um em 1963 e o outro em 1993).

O ideal nas democracias modernas é que mecanismos deste tipo sejam usados com mais freqüência como vem acontecendo nos países europeus, desde que, claro, para questões relevantes e bem formuladas e, não, para equívocos como o ocorrido agora. Quem ainda tiver alguma dúvida acerca da absoluta inadequação do atual referendo deve ler a cristalina coluna de Roberto Pompeu de Toledo, na última página da revista Veja desta semana.

“Discutiram-se durante semanas, com paixão, questões já previamente resolvidas. Tomaram-se partidos que não vinham ao caso. Ninguém, em posição de fazê-lo, se dignou a esclarecer o fato singelo de que o que estava em jogo era nada.”

Roberto Pompeu de Toledo, Veja, 26.10.05

O que, ressaltado pelo resultado do referendo, está de fato em jogo é a questão da insegurança a que todos as pessoas de bem (a grande maioria do país) estão cotidianamente submetidas. A própria revista Veja fez, como reportagem de capa, uma boa matéria com sete soluções para a questão que aflige a cidadania, com o exemplo bem sucedido de Bogotá e o alerta do assessor de segurança da Polícia Nacional colombiana:

“Combate à criminalidade se faz com planejamento, investimento em polícia, presença do Estado nas regiões violentas e participação da sociedade civil. Sem essas medidas, o desarmamento é uma medida inócua.”

Hugo Acero, cientista político, Veja, 26.10.05

Número 557 - 17 de outubro de 2005

Um referendo inadequado,
mal planejado e mal executado

O referendo sobre a comercialização de armas de fogo no Brasil tenta reduzir um problema complexo como é a violência a uma questão simples e, por isso, deflagra um debate maniqueísta

 

No próximo domingo, 23.10, deveremos ir às urnas para responder à pergunta: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Parece uma coisa simples, responder “sim” ou “não”, mas não é. Trata-se, isto sim, de uma tentativa de simplificação de uma questão demasiado complexa e, o que é pior, sem tempo nem informação suficientes para esclarecimento dos votantes.

“As pessoas podem decidir sobre uma norma, mas não podem resolver questões complexas como o problema da violência apenas votando SIM ou NÃO.”

Mônica Herman Caggiano, USP, Veja, 12.10.05

Não fica suficientemente claro que o que está em questão não é o porte de armas, mas a comercialização. Hoje, o porte já está regulamentado pelo Estatuto do Desarmamento. Só é possível comprar oficialmente arma no Brasil até o calibre 38, quem for maior de 25 anos, sem antecedentes criminais, com teste psicológico que comprove equilíbrio emocional e certificado de curso de manuseio. Com isso, o comprador pode guardar a arma em casa, ou no trabalho. Só pode carregar a arma consigo quem exerce profissão de risco e está exposto a ameaça de vida (policiais, juízes, promotores, seguranças particulares, integrantes das forças armadas). A única exceção é para caça em zonas rurais.

“Se o ’sim’ ganhar (proibição da compra de armas), quem já tem armas legais e registradas poderá guardá-las, mas não poderá mais adquirir munições.”

Contardo Calligaris, psicanalista, FSP, 06.10.05

Fora os casos previstos, a compra e o porte já são proibidos, portanto. Da forma como a discussão está sendo feita, parece que o que vai ser votado é se as armas devem ou não ser banidas do Brasil e, com isso, banida também a violência. Nada mais enganoso. Carlos Heitor Cony, escritor e colunista da Folha de S. Paulo que, por conta da idade, não é mais obrigado a votar nos dá, mesmo assim, a sua opinião sobre o assunto:

“Se fosse obrigado ao voto, o anularia propositadamente, e lucidamente. Trata-se de um escapismo, uma forma que a tal sociedade ética e transparente encontrou para, mais uma vez, empurrar com a barriga um dos problemas mais agudos do nosso tempo: a violência. Com pequenas alterações, pode-se usar a comparação do termômetro. Proíba-se a compra dos termômetros e não haverá mais febre no país.”

Carlos Heitor Cony, FSP, 06.10.05

Grave também é a tentativa de radicalizar o pouco debate havido, entre os que são apontados como os do “bem” e os do “mal”, como bem destaca a fundadora do movimento antiviolência Basta!, do Rio de Janeiro:

“É lamentável reduzir essa questão a uma coisa entre os que são do bem e votam ’sim’ e os que são do mal e votam ‘não’. Essa decisão não pode ser encarada com essa primariedade.”

Beatriz Kuhn, psicanalista, FSP, 09.10.05

Conclusão: fomos colocados diante de um referendo inadequado, mal planejado e mal executado que tenta reduzir a uma questão simplista um problema complexo e, por conta disso, força um debate maniqueísta. Um desserviço à sociedade, portanto. Os R$ 250 milhões previstos para serem gastos na sua realização poderiam ser bem melhor utilizados. Quem vai votar, seja de que modo for, deve fazê-lo, portanto, sem nenhuma ilusão. Trata-se de uma formidável perda de tempo e de dinheiro.

Número 556 - 10 de outubro de 2005

País patina na competitividade com
uma das maiores desigualdades do mundo

Enquanto a crise política contribui para a perda de competitividade, o Brasil mantém uma das maiores taxas de desigualdade do mundo, à frente, apenas, de quatro países africanos

 

No número anterior (ver GH/555) foram enumerados os cinco principais entraves ao crescimento sustentado do Brasil, de acordo com reportagem da revista Exame/852 (28.09.05) que ouviu 120 das 500 maiores empresas do país: (1) Impostos Altos; (2) Dinheiro Caro; (3) Infra-estrutura Ruim; (4) Excesso de Burocracia; e (5) Lei Trabalhista Antiga.

Impostos Altos: “a carga tributária brasileira, de 36% do PIB, é muito maior do que a de outros países emergentes, como a Argentina (20%) e o México (19%).” Em dez anos (de 1995 a 2004), a carga tributária subiu 10 pontos percentuais do PIB (de 26 para 36%).

Dinheiro Caro: “apesar de ter sido reduzida pela metade de 1995 para cá, a taxa real de juro brasileira é a mais alta do mundo.” Enquanto a taxa do Brasil, descontada a inflação, está na casa dos 14% ao ano, a da Turquia e a do México é de 6% e a do Chile é de 1%.

Infra-estrutura Ruim: “os investimentos públicos em infra-estrutura estão em queda - passaram de 2,4% do PIB em 1988 para 0,6% do PIB em 2004.” 75% das rodovias do país estão em condições precárias e 25km/h é a velocidade média dos trens brasileiros, ante os 80 km/h dos norte-americanos.

Excesso de Burocracia: “o Brasil é um dos países mais burocráticos do mundo, segundo estudo do Banco Mundial. O excesso de burocracia rouba tempo e dinheiro das empresas brasileiras. 39 dias é quanto demora para embarcar um produto brasileiro. Na Dinamarca, o processo leva cinco dias. 2.600 horas por ano é quanto demora para uma empresa brasileira pagar impostos. Na Noruega gastam-se 87 horas”.

Lei Trabalhista Antiga: “criada em 1943, a legislação trabalhista brasileira é um dos principais freios do crescimento do país. O excesso de encargos sobre o salário dos funcionários encarece a mão-de-obra e favorece a informalidade”. No Brasil, segundo a Santista Têxtil, consultada pela Exame, os encargos sobre salários são de 101% contra 54% na Argentina e 9,5% no Chile.

Em recente relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil caiu, no último ano, da 57a. para a 65a. posição no ranking da competitividade entre os 117 países pesquisados.

De acordo com a revista IstoÉ, essa queda deve-se à turbulência política que se abateu sobre o país, uma vez que “as análises do Fórum, ao contrário daquelas realizadas por outras instituições internacionais, como o Banco Mundial (Bird), por exemplo, não levam em conta somente os dados macroenonômicos, mas também a impressão que os grandes empresários têm acerca das condições sociopolítico-econômicas de cada país. Por isso, as análises do Fórum têm forte componente político.”

“Com a crise política, o Brasil perdeu competitividade e despencou oito posições no ranking elaborado pelo organismo. (…) Afetado pelo ambiente político conturbado, o País ficou atrás de países díspares, como Namíbia, Botsuana, Colômbia e Tunísia.”

IstoÉ, 05.10.05

Tudo isso é particularmente danoso devido à altíssima taxa de desigualdade do país, o 125o. colocado num ranking de 129 países, de acordo com outro estudo recente (”Eqüidade e Desenvolvimento”), este feito pelo Bird. Nele, o Brasil só não é mais desigual do que Suazilândia, República Centro-africana, Botsuana e Namíbia, quatro países africanos.

“A diminuição das desigualdades é difícil e leva muito tempo. (…) No médio prazo, o principal fator de redução será o crescimento.”

Guilhermo Perry, economista do Bird, FSP, 26.09.05

Portanto, não há saída fora do crescimento sustentado e, para isso, os entraves precisam ser retirados. Uma tarefa essencialmente de governo.

Número 555 - 03 de outubro de 2005

Governo obtém vitória apertada
enquanto o país vai ficando para trás

Depois de sete meses acuado, o governo toma um certo fôlego político com a vitória de Aldo Rebelo enquanto sua ausência reforça a perda da oportunidade de crescimento econômico vigoroso

 

Depois de um longo período na defensiva, o governo Lula ganhou, usando a linguagem do boxe, um round da luta política com a eleição de Aldo Rebelo, por uma apertada margem de 15 votos, para a presidência da Câmara dos Deputados.

Desde a eleição de Severino Cavalcanti em fevereiro que o governo estava encurralado nas cordas e chegou muito perto de ser nocauteado no auge da crise política do mensalão.

Foram sete meses de quase completa paralisia do Executivo e do Legislativo. Só continuou funcionando, de fato, a área econômica, favorecida pelas excepcionais condições da economia internacional.

“Diminuiu a temperatura em Brasília. A política vai mal, mas a economia vai bem no curto prazo. A agenda do Congresso continua paralisada, mas o governo reconquistou um mínimo de margem de manobra. A enorme liquidez internacional dá tempo ao país. Mas a conta virá em futuro breve e com juros.”

Gesner de Oliveira, economista, FSP, 01.10.05

De fato, em meio à longa paralisia do governo, o que fica evidente é que o país continuou funcionando como se, na prática, não estivesse acontecendo nada. O que dá a falsa impressão de que o governo é dispensável e o país pode funcionar perfeitamente na sua ausência. O problema é que, enquanto isso acontece, o Brasil deixa de aproveitar a enorme janela de oportunidade que está aberta pela economia internacional, até não se sabe quando, para a retomada do crescimento sustentado, indispensável para o futuro do país.

A última revista Exame traz ilustrativa reportagem de capa sobre o tema: “O Mundo Cresce. E o Brasil fica para trás”.

“A taxa de expansão mundial no ano passado, de 5,1%, é a mais alta em décadas (…) Graças a um volume recorde no comércio global, os bons ventos têm soprado não apenas para as nações ricas, mas especialmente para as remediadas e até para as mais pobres. Estima-se que exista algo como 20 trilhões de dólares nas mãos dos bancos e investidores em circulação no mundo.”

Exame, 28.09.05

Entretanto, o Brasil não vem se beneficiando como poderia desse cenário favorável. Há dez anos cresce menos que a média mundial. De 1995 a 2005 o país acumulou crescimento de 25% contra uma expansão global de 45%. E, o que é pior, cresceu muito menos ainda que seus competidores diretos no contexto dos chamados países emergentes: China, ?ndia, Rússia que tiveram, respectivamente, crescimento de 9,5%, 7,3% e 7,1%, contra a “explosiva” e excepcional evolução de 5% do PIB brasileiro em 2004.

“Não é possível saber quando a bonança externa vai terminar. Mas a dimensão dos desequilíbrios da economia dos EUA sugere que o mundo dos juros reais próximos de zero vai acabar em futuro próximo. Nesse momento ficará claro o real custo da atual crise.”

Gesner de Oliveira, economista, FSP, 01.10.05

A reportagem da Exame, depois de ouvir 120 das 500 maiores empresas do país, chegou aos cinco principais problemas que impedem o Brasil de crescer sustentadamente a taxas maiores: (1) Impostos Altos; (2) Dinheiro Caro; (3) Infra-estrutura Ruim; (4) Excesso de Burocracia; e (5) Lei Trabalhista Antiga. É justamente para avançar na resolução deles que faz falta o governo.

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