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Número 545 - 25 de julho de 2005

A democracia brasileira precisa
do PT como um partido político forte

Fortemente golpeado pela ação de seus antigos dirigentes, o Partido dos Trabalhadores carece de uma urgente ação saneadora para continuar ocupando seu lugar de destaque na política nacional

Numa das grandes enchentes do Rio Capibaribe que assolaram a cidade do Recife na década de 1970, o empresário do comércio de tecidos Luiz Gonzaga de Lima Borges, chamado por familiares e amigos de Dosa, transferido de sua casa térrea no bairro da Tamarineira para o primeiro andar de uma casa vizinha, impressionado com a força e altura das águas que invadiam a rua, ia freqüentemente à varanda, olhava a devastação, e repetia um chavão bem ao gosto da imprensa da época:

“O quadro é dantesco. As conseqüências são imprevisíveis. Os prejuízos são incalculáveis…”

Dosa de Lima Borges, empresário pernambucano

Trinta anos depois, esse mesmo chavão pode ser empregado, sem tirar nem por uma só palavra, à situação do governo e do Partido dos Trabalhadores, assolados por uma calamidade não natural mas que tem a força das águas de uma grande enchente ou das ondas sísmicas de um fortíssimo terremoto.

“No PT, a crise é da maior gravidade porque mexe com o patrimônio moral do partido e com o patrimônio da sua história (…) Aceitamos no partido comportamentos inadequados e aí demos razão ao que chamo de venalidade.”

Olívio Dutra, ex-ministro das Cidades, O Globo, 16.07.05

Foi, justamente, esse patrimônio moral que foi destacado durante anos como o grande diferenciador do partido em comparação com os demais. Num país em que todos os outros partidos eram colocados pelo Partido dos Trabalhadores no rol dos praticantes de irregularidades e de atos condenáveis, o PT se posicionava como o único partido ético da política nacional.

“É porque o PT apregoou a falsa idéia de que eram os únicos éticos da política brasileira, que alguns membros do PT passaram a ter comportamento de cometer atos ilícitos e ilegais. Essas pessoas se acreditavam acima da lei.”

Francisco Weffort, Folha de S. Paulo, 23.07.2005

Esse comentário do sociólogo, ex-ministro da Cultura e fundador do PT, chama a atenção para um vício de origem que terminou contaminando o partido: a soberba. Todavia, esse pecado não deve confundir a percepção da importância histórica do partido nos seus 25 anos de vida.

“O PT é uma construção vitoriosa. Nascido do casamento entre o movimento sindical e a Igreja Católica, recebeu a adesão entusiástica de intelectuais, estudantes, funcionários públicos. Cresceu, elegeu vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e finalmente conquistou a presidência da República.”

Lucia Hippolito, cientista política, CBN, 12.07.05

Desde a sua fundação que o PT tem cumprindo um papel fundamental na vida política do país ao ocupar uma posição de relevo e desaguadouro de um conjunto expressivo de forças que por ele se vêem representadas.

“Foi o surgimento do PT que permitiu que uma imensa legião de brasileiros participasse da política de forma democrática. Fez com que muitos que pensavam em se expressar politicamente pela luta armada viessem para o campo da política.”

Murillo de Aragão, cientista político, site do Noblat

“Refundar” o PT, como dizem alguns militantes e os novos dirigentes interinos, e evitar que ele venha a submergir pela ação deletéria de uma parcela que não é sua maioria, é um imperativo para a democracia brasileira. Para isso, certamente, precisará “cortar na própria carne” e se penitenciar do pecado da soberba, atuando sem abrir mão da utopia de uma sociedade melhor mas dentro das regras firmes da democracia e da prática da ética de fato, não apenas programática.

Número 544 - 18 de julho de 2005

Ainda não é possível caracterizar o
cenário mais provável para o governo Lula

A extensão, a gravidade e o ritmo da crise política em curso não permitem ainda a caracterização do cenário mais provável para o restante do governo do presidente Lula

 

 

 

Quando o deputado Roberto Jefferson resolveu puxar, na tentativa de desviar a atenção das acusações que lhe estavam sendo feitas, o fio do “mensalão”, ninguém tinha idéia da dimensão do novelo que está sendo desenrolado à vista de todos. Um novelo cuja extensão, inclusive, ninguém ainda é capaz de prever.

“É cedo para se saber o desfecho da pior crise que o Brasil vive desde a redemocratização.”

Míriam Leitão, O Globo, 17.07.2005

O desdobramento dos fatos tem se dado de forma tão surpreendente que a vistosa história original do mensalão, contada pelo histriônico deputado petebista, passou a segundo plano. Assumiu a cena principal o contorno já razoavelmente delineado de um espantoso esquema de captura da máquina do governo federal, comandado pela cúpula deposta do partido do presidente da República. Tão espantoso que já provocou uma reorientação da estratégia da oposição.

“Há uma importante mudança de foco da oposição. Já mal se fala do mensalão que não dá o ar de suas provas. No alvo agora o projeto de poder petista, movido a dinheiro.”

Tereza Cruvinel, O Globo, 15.07.2005

À medida que o esquema está sendo desvendado, vai ficando claro o que aconteceu desde a eleição que levou Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República.

O Partido do Trabalhadores elaborou e executou, de forma brilhante, diga-se de passagem, um plano para ganhar a eleição mas, ao chegar ao poder, percebe-se hoje, não tinha um projeto para o país. Ou seja, tinha um projeto de poder mas não uma estratégia de governo. Resultado: na falta da estratégia, o projeto de poder transferiu-se da estrutura partidária para a máquina pública, sob o comando do então todo poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Dirceu assumiu o governo funcionando, na prática, como um primeiro ministro de um governo proto-parlamentarista, com o presidente atuando como um chefe de estado que não detinha, por estilo e falta de disposição, a chefia do governo.

Para ajudá-lo nesta exigente tarefa, José Dirceu montou uma verdadeira estrutura paralela na Casa Civil e, mais grave, montou um “estado maior” que coincidia com a direção do Partido dos Trabalhadores. Delúbio Soares (tesoureiro), Sílvio Pereira (secretário-geral) e Marcelo Sereno (secretário de comunicação), dirigentes do PT, passaram a operar, segundo testemunhas, de dentro do Palácio do Planalto na arrecadação e distribuição de fundos, na distribuição e nomeação dos cargos públicos de confiança na máquina federal e na relação com a base aliada no Congresso Nacional.

O esquema montado começou a fazer água com a eclosão do “Caso Waldomiro” que atingiu mas não abateu o ministro José Dirceu. Mais de um ano depois, porém, desentendimentos internos ao esquema levaram à mídia a ponta do novelo que passou a se desenrolar numa velocidade impressionante e terminou por derrubar José Dirceu, arrastando com ele toda a cúpula do partido. Com isso, o esquema que tinha dado certo por vários anos no PT ruiu, sobretudo porque a realidade do país é muitíssimo mais complexa que a de um partido político, por maior que ele seja, como bem observa o professor da Universidade Federal do Norte Fluminense, citado na coluna de Merval Pereira n’O Globo:

“No governo não funcionou, porque a complexidade dos desafios nacionais demandava resultados, que exigem definições que, por sua vez, pressupõem realismo, consistência, diálogo.”

Hamilton Garcia, sociólogo

Agora, não dá para saber o cenário mais provável dos três apresentados no número anterior (ver GH/543) dada a gravidade das denúncias e das confissões que já começam a acontecer. Só resta aguardar e torcer para que o novelo ao se desenrolar não faça um nó impossível de desatar.

Número 543 - 11 de julho de 2005

Três cenários possíveis sobre a
evolução da grave crise política atual

Diante do inusitado desdobramento da crise política que atinge em cheio o governo Lula, é conveniente construir três cenários de curto prazo sobre o que pode acontecer com o presidente

William Waack, jornalista da Rede Globo e âncora do excelente GloboNews Painel, na abertura do programa do último final de semana, comentou que quando a atual crise política começou ela produzia fatos importantes a cada mês, depois passou para cada semana, depois para cada dia e, agora, dá a impressão de produzir fatos novos a cada hora.

De fato, pela profundidade e extensão, a crise política que atinge em cheio o governo, o partido do presidente e a base aliada, já se configura como uma das mais sérias da história recente do país. Diante deste quadro que ganha a cada momento contornos mais dramáticos, a pergunta que todos fazem é: em que isso tudo vai dar? Infelizmente, todavia, não é possível responder com certeza a essa pergunta por uma razão elementar.

“Simplesmente não é possível prever o futuro com um razoável grau de certeza. Um velho provérbio árabe diz: aquele que prevê o futuro mente, mesmo se disser a verdade.”

Peter Schwartz, presidente da Global Business Network

No livro de onde foi tirada a frase acima (”A Arte da Visão de Longo Prazo - Planejando o Futuro em um Mundo de Incertezas”, Editora Best Seller, 2003, São Paulo), o autor defende o planejamento por cenários para ajudar a responder perguntas como a que nos aflige no momento.

A propósito do tema, merece destaque o livro “Quatro Cenários para o Brasil 2005-2007″, de autoria de Cláudio Porto (org.), Elimar Nascimento, Enéas Aguiar, Rodrigo Ventura e Sérgio C. Buarque (Editora Garamond, 2004, Rio de Janeiro). Trata-se de um trabalho muito bem fundamentado sobre os futuros possíveis para o país no horizonte do atual governo e para além dele.

Todavia, no curtíssimo prazo, para responder à pergunta “em que vai dar tudo isso?”, podemos concentrar as alternativas em três cenários possíveis (otimista, livre de surpresas e pessimista), desdobrados a partir da crise atual até o fim do presente mandato, com o foco concentrado na figura do presidente. Nesta perspectiva, temos algo do seguinte tipo:

1.Presidente Forte (Cenário Otimista): apesar da gravidade das denúncias, o presidente consegue retomar o comando da ação política, restaurando a governabilidade, sem precisar fazer grandes concessões. As apurações são feitas e punidos os culpados sem que o presidente seja pessoalmente atingido. Com isso, preserva-se a sua capacidade de concorrer à reeleição com boas chances de vitória.

2.Presidente Fraco (Cenário Livre de Surpresas): dada a gravidade das denúncias e a acelerada deterioração da capacidade de controle da cena política por parte do governo, o presidente é levado a concordar com um acordo fechado com a oposição para evitar que a situação se deteriore a ponto de desaguar num impeachment. Com isso, a possibilidade do presidente ser bem sucedido na campanha eleitoral baixa significativamente. Isso se, como parte do acordo, ele não for obrigado a desistir da candidatura à reeleição.

3.Presidente Fora (Cenário Pessimista): o crescimento e o volume das denúncias e das investigações chegam a um nível tal que o governo perde completamente a capacidade de intervenção. O presidente é atingido pessoalmente e fica tão debilitado que é levado a renunciar para não ter aberto contra ele um processo de impeachment.

No momento, o ambiente está tão conturbado e é tão grande a incerteza sobre o que ainda há para ser revelado que, mesmo com a explicitação desses cenários possíveis, ainda é muito grande a dificuldade de opinar sobre a probabilidade de ocorrência de um ou dos outros. Ou seja, está muito difícil, ainda, caracterizar o Cenário Mais Provável. Para ajudar nessa reflexão, talvez valha a pena rememorar situação parecida, em termos de instabilidade, vivida pelo governo FHC, quando o real foi desvalorizado em 1999, ocasião em que o Gestão Hoje também construiu cenários possíveis (ver número 207).

Número 542 - 04 de julho de 2005

“Choque de Gestão”: o mais novo
modismo político/administrativo do país

Inicialmente surgido como mote publicitário dos candidatos da oposição à próxima eleição presidencial, a expressão virou modismo e foi incorporada, em meio à Crise, pelo governo Lula

Em meio a uma das mais graves crises políticas da história recente do país, misturada na enxurrada de denúncias que brotam de todos os cantos, uma expressão vai se impondo na forma de uma idéia cuja hora, pelo que tudo indica, parece ter chegado.

“Mais forte do que todos os exércitos do mundo é uma idéia cuja hora tenha chegado.”

Victor Hugo, 1802-1885, escritor francês

A idéia é “Choque de Gestão”. Todo mundo começa a solicitar que o presidente Lula dê um “choque de gestão” no seu governo. Renan Calheiros, presidente do Senado Federal, visita o Palácio do Planalto para prestar solidariedade ao presidente da República e pede a ele para promover um “choque de gestão” no governo. O próprio presidente transfere a ministra Dilma Roussef do ministério da Minas e Energia para a chefia da Casa Civil e pede que ela promova um “choque de gestão” na administração federal. O deputado e economista Delfim Netto esboça um plano para zerar o déficit público nominal (aquele que surge depois do pagamento dos juros da dívida pública) e escreve na sua última coluna semanal:

“O governo tem dado sinais interessantes de que pretende mudar o ‘mix’ da política monetária e que o presidente Lula também está se preparando para dar um ‘choque de gestão’, com o duplo objetivo de se libertar da armadilha dos juros e pôr a administração a trabalhar na direção do crescimento.”

Delfim Netto, coluna de 29.06.2005

Jorge Gerdau Johannpeter, líder do grupo siderúrgico Gerdau, com dezesseis fábricas no exterior (EUA, Canadá, Chile, Colômbia, Argentina e Uruguai) e dez no Brasil, dá entrevista nas páginas amarelas da revista Veja e é apresentado do seguinte modo:

“O mais internacional dos empresários brasileiros diz que o país não avança sem que o Estado passe por um choque de gestão.”

Revista Veja, edição de 27.04.2005

Até o ministro da Previdência, Romero Jucá, ao tomar posse em meio a denúncias de ter dado fazendas inexistentes como garantia de empréstimos tomados a bancos públicos, promete, nada mais nada menos, que um “choque de gestão” no ministério.

Antes, todavia, destas manifestações recentes, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, pré-candidato à sucessão do presidente Lula, já havia incorporado a expressão à marca do seu governo. Nas propagandas veiculadas aparece a expressão: “Minas Gerais - o Estado do Choque de Gestão.” Lá o “choque” foi transformado em projeto de governo, com ações, metas, equipes de trabalho, seminários e tudo o mais que a imaginação publicitário-administrativa permite. Além dele, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também pré-candidato à sucessão do presidente Lula, incorporou a idéia ao seu governo e ao seu discurso, a ponto de fechar os olhos à distribuição de adesivos na cidade de São Paulo com a mensagem de duvidosa inspiração publicitária: ” O Brasil Precisa de um Gerente: Geraldo Presidente”.

É evidente que essa história de “choque de gestão” é parte de uma estratégia da oposição para contrapor-se ao governo Lula que, agora, no desespero da crise, passou a incorporar a idéia. Nada contra o tema, em si nobre, mas tudo contra a banalização que desgasta e ridiculariza assunto tão sério e importante. O risco é que com tanto choque, alguém termine eletrocutado pelo modismo.

“A razão de eu ser contra modismos é que eles fazem as pessoas pararem de pensar. Isso não significa que você não deve usá-os inteligentemente, adequando-os ao seu caso.”

Henry Mintzberg, professor de gestão canadense

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