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Número 528 - 28 de março de 2005

Tancredo Neves, um profissional
da política que deixou boas lições para o país

Como um dos poucos políticos que sobreviveram ao regime militar de 64 e tiveram atuação destaca na redemocratização, Tancredo deixou boas lições para a História política do país

Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Leonel Brizola talvez tenham sido os únicos políticos brasileiros que, tendo tido atuação importante no período anterior ao regime militar de 1964, desempenharam, também, papéis de relevo no processo de redemocratização pelo qual passou o país na década de 80.

Tancredo e Ulisses, além de figuras de proa do antigo PSD, foram, respectivamente, primeiro-ministro e ministro do Trabalho na década de 60. Depois, foram na década de 80, governador de Minas e presidente eleito do Brasil (Tancredo) e presidente da Câmara e da Assembléia Nacional Constituinte (Ulisses). Brizola, depois de deposto e exilado como governador do Rio Grande do Sul em 64, foi duas vezes governador do Rio de Janeiro e várias vezes candidato à presidência da República.

Dos três, Tancredo foi o que, de longe, aliou com maior maestria e eficácia, sem desprezo da competência dos demais contemporâneos, os dons do exercício da política como arte da negociação. Dele disse o adversário da UDN, descendente do conselheiro do Império, e ex-deputado por Minas Gerais:

“O Tancredo é um político capaz de tirar as meias sem tirar os sapatos.”

José Bonifácio de Andrada e Silva

Sua trajetória política é um exemplo eloqüente dessa competência que o levou, em 50 anos de vida pública pacientemente construída, da Câmara Municipal de São João Del-Rei à eleição indireta para a presidência da República, depois de ter conseguido capitalizar a extraordinária energia cívica liberada pelo movimento Diretas Já. Tudo, como ele mesmo destacava, conseguido pelo diálogo e pela construção de acordos políticos celebrados em níveis elevados (ver GH número 527).

Por ter praticado como poucos a arte da conversação política, preferindo, em larga medida, o cochicho privado à declaração pública, muitas das frases e casos que lhe são atribuídos, ficaram sem registro oficial, propagando-se mais pelo testemunho dos que viram e ouviram do que pelo registro oficial da imprensa. Dizem ser dele essa frase definidora de uma filosofia de atuação política:

“Em política não se deve estar tão distante do adversário que não se possa vir a tê-lo como aliado, nem tão próximo do aliado que não se possa vir a tê-lo como adversário.”

Tancredo Neves

São também atribuídas a Tancredo muitas histórias que ilustram sua forma típica de agir. Certa feita, procurado por um correligionário que queria fazê-lo refém de um segredo dizendo que só contaria mediante a condição de que “Dr. Tancredo não falasse para ninguém”, teria dito ao interlocutor:

“Meu filho, então não me conte. Se você que é dono do segredo não consegue guardá-lo, muito mais difícil será para mim que não tenho nada a ver com ele.”

Tancredo Neves

Outra vez, procurado por um correligionário que se dizia preocupado porque não sabia mais o que dizer às pessoas que lhe perguntavam se ia ocupar determinado cargo no governo de Tancredo, respondeu:

“Não se preocupe meu filho, diga que eu lhe convidei e você recusou.”

Tancredo Neves

Antes de ir ao colégio eleitoral, alguém lhe perguntou se não tinha medo da fama de imbatível de que gozava seu adversário Paulo Maluf nesse tipo de disputa. Respondeu de uma forma que soaria como uma espécie de confissão de imodéstia mas também como uma verdade inquestionável:

“Até agora ele só enfrentou amadores, não enfrentou ninguém profissional.”

Tancredo Neves

Número 527 - 21 de março de 2005

Tributo a Tancredo Neves, impedido pelo
destino de concluir sua notável obra política

Há exatos 20 anos, o País acompanhava perplexo a agonia do presidente eleito cuja trajetória política o destino impediu de ser coroado com a posse e o levou à morte no simbólico dia 21 de abril

14 de março de 1985, tarde da noite. Na TV, começam a aparecer as primeiras notícias dando conta de que o presidente eleito Tancredo Neves, que tomaria posse no dia seguinte, havia sido internado no Hospital de Base de Brasília para submeter-se a uma cirurgia de urgência.

Começava naquele momento uma agonia pessoal e uma comoção coletiva que se prolongaria por 39 intermináveis dias até a morte, aos 75 anos, por infecção generalizada. A cena indescritivelmente triste da subida do caixão pela rampa, carregado pelos Dragões da Independência, para o velório no salão nobre do Palácio do Planalto, ficou marcada de forma indelével na mente de todos os que viveram aqueles inacreditáveis dias.

“Foi um período em que o País parou, literalmente parou. O governo parou esperando a volta de Tancredo - e, a partir de certo momento, sua morte. Os negócios pararam. Os brasileiros acompanharam pela mídia cada nova operação (foram sete ao todo), cada novo boletim médico emitido, cada entrevista de que saísse do Hospital de Base e, depois, do Instituto do Coração em São Paulo para onde Tancredo fora transferido. Finalmente, no começo da noite do dia 22 de abril, o caixão com o corpo de Tancredo subiu a rampa do Palácio do Planalto.?

Ricardo Noblat, jornalista

Quem quiser conhecer ou recordar esse período quase surrealista da política nacional, pode consultar o excelente blog do jornalista Ricardo Noblat (noblat.blig.ig.com.br) onde é reconstituído, passo-a-passo, o desenrolar dos acontecimentos no final daquele fatídico dia 14, na madrugada e na manhã do dia 15, até a posse do vice-presidente eleito José Sarney.

A posse que não houve coroaria uma vida política que começou, aos 24 anos, como vereador da cidade mineira de São João Del-Rei, depois deputado estadual, deputado federal, ministro da Justiça de Getúlio Vargas, primeiro-ministro do regime parlamentarista sob a presidência de João Goulart, senador e governador de Minas Gerais.

Nessa respeitável trajetória, Tancredo esbanjou habilidade política, exercitando ao extremo a conversação e a articulação em níveis elevados. Definia-se como um moderado e esteve envolvido em todos os episódios relevantes da vida política do país, desde o suicídio de Vargas (que praticamente morreu em seus braços e nos da filha Alzira Vargas e de quem herdou a caneta-tinteiro que, diz a lenda, assinou a famosa carta-testamento), até a sua eleição indireta para a presidência da República pelo colégio eleitoral, cargo para o qual sempre deu a impressão de preparar-se durante a vida toda.

“Ele se preparara para aquele dia. Toda sua vida fora construída nessa direção. Ele ambicionava dirigir a nação, ele tinha a ambição dessa causa.”

José Sarney, ex-presidente do Brasil

De fato, a conquista da presidência foi uma obra de engenharia política construída com paciência e competência notáveis. Tancredo conseguiu capitalizar toda a energia do movimento Diretas Já a favor de sua candidatura, percorrendo o País como se fosse candidato direto, num pleito indireto. Fundou a Nova República e consegui tornar-se unanimidade nacional para conduzi-la. Quis o destino que morresse, justamente, em dia 21 de abril, dia consagrado ao seu conterrâneo Tiradentes a quem homenageou no discurso comemorativo da vitória no colégio eleitoral em 15 de janeiro de 1985:

“Se todos quisermos, dizia-nos há quase 200 anos, Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança, poderemos fazer deste País uma grande nação. Vamos fazê-la.”

Tancredo Neves, presidente eleito do Brasil

Número 526 - 14 de março de 2005

A ascensão profissional das mulheres
requer uma reengenharia social do tempo

A chegada das mulheres ao mercado de trabalho não foi acompanhada de uma reestruturação do tempo e das responsabilidades capaz de evitar a sobrecarga das tarefas profissionais e domésticas

 

Todo o avanço verificado ao longo das últimas décadas relativamente à participação das mulheres no consumo e na gestão empresarial (ver o Gestão Hoje anterior, número 525) não foi acompanhado de uma reorganização das responsabilidades privadas que permitissem a utilização social do tempo de um modo mais adequado à nova realidade feminina.

“O mundo público foi invadido pelas mulheres, mas a vida privada continuou estruturada, em termos de emprego de tempo e assunção de responsabilidades, como se as mulheres ainda vivessem como suas avós, como se nada estivesse acontecido (…) Definiu-se como igualitário um mundo em que as mulheres teriam ‘apenas’ que continuar a fazer o que sempre fizeram, adicionando às suas vidas afazeres até então reservado aos homens.”

Rosiska Darcy de Oliveira

A frase acima é do livro “Reengenharia do Tempo” de Rosiska Darcy de Oliveira (Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2003) que aborda de modo bem original a questão da reorganização do tempo diante da nova realidade social impactada pela ascensão das mulheres no mercado de trabalho.

De fato, junto ao desafio já expressivo de conquistar um lugar num mundo profissional moldado pelo padrão masculino, junta-se, em decorrência, um outro também não menos exigente: encontrar tempo para dedicar à família e à organização da vida doméstica. E, aí, não se trata só de redivisão de trabalho com os homens: a maternidade e suas decorrências, por razões óbvias, não pode ser delegada.

Esses desafios são de tal ordem expressivos que nem mesmo o mais empedernido dos machistas, em sã consciência, seria capaz de desconhecer.

A tese de Rosiska é que esses não são só desafios das mulheres mas de toda a sociedade, incluindo, sobretudo, os homens.

“A reengenharia do tempo vai-se impondo como condição necessária à sobrevivência social e psíquica das mulheres, ao equilíbrio das famílias, à eqüidade nas relações de gênero e à melhor qualidade de vida da sociedade.(…) Não são as mulheres e tampouco a família que precisam se reorganizar em razão de um mundo do trabalho que permanece imutável. É o mundo do trabalho e a sociedade como um todo que precisam se reorganizar em razão da família que mudou.”

Rosiska Darcy de Oliveira

É claro que este não é um problema simples de resolver nem se restringe, apenas, à adoção de boas técnicas de administração do tempo. Trata-se de um desafio monumental, civilizatório mesmo, que não se esgota nos limites das diferenças de gênero nem de apenas uma geração. Mas é preciso ter consciência dele, falar dele, para começar a tratá-lo e não imaginar que diz respeito a um problema só das mulheres na sua luta contra os homens por espaço social e poder.

“Há trinta anos, a mídia mal informada difundiu a idéia de que as mulheres lutavam contra os homens, quando na verdade estavam lutando a seu próprio favor. Hoje é possível esperar que, a médio prazo, venham a ter os homens como os seus principais aliados, porque a pauta de transformações que estão apresentado à sociedade, empresas e poderes públicos é uma recuperação, para homens e mulheres, nada mais, nada menos, do que do tempo de viver.”

Rosiska Darcy de Oliveira

Número 525 - 07 de março de 2005

A ascensão irreversível da mulher
no consumo e na gestão empresarial

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o Gestão Hoje aborda o tema da ascensão feminina no mercado de consumo e na gestão empresarial como tendência irreversível

Duas propagandas atualmente veiculadas nos canais de TV aberta e por assinatura chamam a atenção para uma tendência de peso no consumo contemporâneo: mulheres anunciando carros.

Fernanda Tavares anuncia o C3 da Citröen, “pretinho” básico decorado pelo estilista Ocimar Versolato, e Ana Hickman, a modelo de “1,2 metro de pernas” (cujo axônio - prolongamento do neurônio, que vai do cérebro até as extremidades do corpo humano - mede “um metro e trinta”, segundo o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin), anuncia o Fox da Volkswagen.

“Você imaginaria uma década atrás a germânica Volkswagen recorrendo a Ana Hickman para vender um carro? A mulher é a grande comandante de compras da família e até o carro do marido tem que passar por ela.”

www.pythia.com.br

A citação acima é de um artigo muito interessante, “A Era da Mulherização”, de Darcio Oliveira, Eduardo Pincigher e Daniela Fernandes, publicado no site Pythia, que destaca estarmos vivendo a era da “mulherização” da economia.

“Talvez você não saiba, consumidora, mas o estofamento do banco de seu carro foi cuidadosamente escolhido para não desfiar meias-calças. Se você olhar bem, vai observar também que todos os veículos hoje em dia têm espelho de cortesia no quebra-sol do motorista - para aquela retocada básica no batom, enquanto o sinal está fechado. E se reparar ainda mais, verá que o vão entre a maçaneta e a porta do veículo está mais fundo e os botões do painel ficaram maiores. Tudo para que você não risque ou quebre as unhas.”

www.pythia.com.br

Se isso acontece com os carros, ícone máximo da supremacia masculina no consumo de bens duráveis, o que dizer dos outros itens? O Gestão Hoje, já tratou do assunto antes (ver números 318, 514 e 515).

Todavia, por sua importância e em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado essa semana (08.03.2005), vale a pena aprofundar mais um pouco o tema. Sobretudo no que diz respeito ao fenômeno que acompanha essa nova tendência de consumo: a importância crescente das mulheres na vida empresarial e, mais do que isto, na própria gestão (a propósito, ver também o Gestão Hoje número 320).

Tom Peters, o misto de guru da Administração, escritor e showman dos encontros festivos para homens (e mulheres!) de negócios, é um dos que já há alguns anos vêm tratando do assunto, como é do seu estilo, de modo enfático.

“O lema favorito do general americano Douglas MacArthur era: ‘nunca dê uma ordem que não possa ser obedecida’. As mulheres sabem disso e investem em relacionamentos - esse é um dos motivos pelos quais a primazia do talento de liderança disponível no mundo de hoje está com as mulheres!”

Tom Peters, Você S/A, maio/2001

De tudo isso pode-se concluir que a ascensão da mulher no consumo e na gestão é um fenômeno que, embora recente, veio para ficar.

Evidentemente que, como toda situação nova, essa realidade traz, para os (as) protagonistas, aspectos facilitadores ou positivos (influência, poder, prestígio etc.) e aspectos dificultadores ou negativos. Dentre esses últimos destaca-se a administração do tempo. Afinal, as novas conquistas vêm com uma espécie de sobreposição com antigas e intransferíveis responsabilidades. Mas isso já é assunto para um outro Gestão Hoje.

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