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Número 511 - 29 de novembro de 2004

Celso Furtado, o último dos grandes
“explicadores” da realidade brasileira

Teórico e prático do desenvolvimentismo (crescimento econômico consistente com inclusão social), Celso Furtado morre desgostoso com os rumos tomados pelo governo Lula

 

Com a morte do economista Celso Furtado, desaparece o último dos cinco grandes “explicadores” do Brasil no século 20.Além de Celso, economista, paraibano da cidade de Pombal, nascido em 1920, que deixou como legado, além de inúmeras obras, o livro básico para a compreensão do país “Formação Econômica do Brasil”, publicado pela primeira vez em 1959, os outros quatro “explicadores” são: (1) Gilberto Freyre (1900-1987), sociólogo pernambucano, com o livro “Casa Grande & Senzala” (1933); (2) Sérgio Buarque (1902-1982), historiador paulista, com o livro “Raízes do Brasil” (1936); (3) Caio Prado Júnior (1907-1990), editor paulista, com o livro “Formação do Brasil Contemporâneo” (1942); e (4) Raymundo Faoro (1925-2003), advogado gaúcho, com o livro “Os Donos do Poder” (1958).Foram cinco gigantes do pensamento nacional que, com suas obras portentosas, tiveram como preocupação básica interpretar o Brasil e tentar explicar de onde viemos e porque somos o que somos hoje. Com isso, deram uma contribuição inestimável à nossa compreensão de país, fortalecendo a própria idéia de nação unificada.

“O Brasil é um país especial; é um país que foi fabricado. O Brasil foi fabricado por um projeto, um negócio português, uma feitoria. (…) No século 19, o Brasil não se espatifou como o resto da América do Sul porque tinha tradição de Estado, e de um estado unificador, como foi o português.”

Celso Furtado, revista Reportagem, outubro/1999

Além de intelectual respeitado internacionalmente, Celso Furtado foi bem mais além do que seus companheiros na execução de suas idéias como homem público. De autor do Plano de Metas do presidente JK até o cargo de ministro da Cultura no governo Sarney, passou pela criação e direção da Sudene, pelo ministério do Planejamento do presidente João Goulart, além da Cepal em Santiago do Chile. Sem falar nas universidades estrangeiras que freqüentou como professor reconhecido depois que teve que deixar o país expulso pelo golpe militar de 1964.Tinha a rara capacidade de juntar a sofisticação do pensamento complexo e da interpretação da realidade com a habilidade de formular proposições concretas e de executar políticas públicas.

“Foi um desbravador do conhecimento sobre a realidade brasileira e latino-americana, com fino senso de construção de um projeto nacional. Ele se definiu como um intelectual engajado, a serviço da ação. Foi um militante da causa desenvolvimentista, mas nunca um panfletário, sempre um acadêmico, um professor.”

Ricardo Bielschowsky, professor da UERJ

Foi um desenvolvimentista na idéia e na ação. Acreditava num crescimento econômico integrado, com redução das desigualdades. Pensou e trabalhou por um país diferente que não viu constituir-se.

“Celso representou para nós, brasileiros, ‘a’ consciência moral e intelectual de um ‘outro’ Brasil, que acreditava na ‘fantasia organizada’ de construir, com autonomia, um desenvolvimento autêntico e justo.”

Rubens Ricúpero, Folha de S. Paulo, 21.11.2004

Vai fazer falta, justamente neste momento em que crescimento econômico com inclusão social é um imperativo para a integridade do país. Oxalá seu exemplo inspire a orientação econômica do governo Lula que teve o seu apoio, mas com quem morreu desgostoso pelo descumprimento, até agora, da promessa desenvolvimentista.

Número 510 - 22 de novembro de 2004

A arte de contar uma história
que soe convincente e mobilizadora

De acordo com diversos especialistas, desenvolver a habilidade de mobilizar pessoas pelo ato de contar-lhes histórias boas e verdadeiras é uma das principais requisitos dos líderes atuais

 

É curioso como ultimamente têm aparecido referências diversas nos meios de divulgação especializados (livros, revistas e artigos) sobre a importância da narrativa de histórias como fonte de inspiração, mobilização e liderança de pessoas nas organizações.

“Em todas as esferas da vida, líderes de sucesso são capazes de articular, de traçar um cenário, de contar uma história sobre o lugar para onde todos estão indo. O que os torna líderes, e não apenas contadores de histórias, é que seus relatos são tão convincentes que as pessoas acabam se juntando a eles.”

Noel Tichy, consultor norte-americano

Por que isso se dá, por que as pessoas se identificam com os bons contadores de histórias, juntam-se a eles e se submetem à sua liderança, talvez seja um desses mistérios insondáveis da alma humana que admitem hipóteses e conjecturas mas nunca uma explicação definitiva. Uma dessas hipóteses é aventada pela especialista em ciências comportamentais Annette Simmons, no livro “The Story Factor”.

“As pessoas não querem mais informações. Querem ter fé: em você, em suas metas, em seu sucesso. A fé pode superar qualquer obstáculo. No entanto, para se sustentar, a fé necessita de uma história que inspire e desperte confiança. E elas só terão fé numa história que lhes pareça real.”

Annette Simmons, HSM Management, agosto/2004

Dentre os entusiastas do poder mobilizador das histórias bem contadas, há até os que colocam a habilidade como fator-chave da liderança, como é o caso do festejado guru da administração Tom Peters.

“A comunicação eficiente de uma história é uma chave - talvez seja a chave - da liderança. Se você quiser interessar os colegas no desempenho futuro da sua empresa, não apresente a eles somente números. Conte-lhes uma história. Números são aborrecidos. As histórias são pessoais, apaixonadas e preenchem um propósito.”

Tom Peters, Você S.A., maio/2004

Annette Simmons cita três tipos de histórias essenciais de serem contadas pelo líder para transmitir credibilidade: (1) histórias sobre “quem sou” (que ajudam a esclarecer sobre o tipo de pessoa que está contando a história e pretendendo exercer a liderança); (2) história sobre “por que estou aqui” (que permitem superar a desconfiança das pessoas sobre quais as reais intenções de quem conta a história); e (3) a história “de minha visão” (que permitem a mobilização das pessoas em torno de algo em que acreditar e perseguir).

Além dessas histórias “obrigatórias” para o líder, Annette cita também as histórias que ensinam e que transmitem valores. Dá um exemplo ilustrativo sobre o significado da valorização da integridade, um tema bastante importante e em evidência nesses tempos de responsabilidade social em alta.

“Dizer ‘valorizamos a integridade’ não significa nada. Mas, se você contar a história de um ex-empregado que escondeu um erro que custou a empresa milhares de dólares ou a de um vendedor que admitiu seu erro e ganhou a confiança do cliente, a tal ponto que este duplicou seus pedidos, estará ensinando ao seu pessoal o que significa integridade.”

Annette Simmons

Número 509 - 15 de novembro de 2004

Não há só aspectos negativos
na reeleição de George W. Bush

A vitória incontestável de George W. Bush para a Casa Branca tem aspectos positivos, sobretudo para o Brasil, mas, sem dúvidas, confirma uma ordem internacional bastante dura

 

Praticamente todas as análises do resultado da eleição presidencial norte-americana destacam o perfil conservador do eleitorado que deu a vitória ao republicano George W. Bush.

“A América que triunfou foi aquela representada pelos Estados do Sul, da região das Rochosas e de parte do Meio-Oeste - a América interiorana da ‘apple pie’ e dos rifles pendurados nas caminhonetes. Ficaram com Kerry a Costa Oeste, o Nordeste e a parte do Meio-Oeste - a América cosmopolita das universidades e dos centros urbanos sofisticados, como Nova York, Chicago e Los Angeles.”

Editorial da Folha de S. Paulo, 04.11.2004

Todavia, essas análises deram pouco destaque ao fato de que, ao contrário da eleição anterior, desta vez Bush saiu da disputa amplamente legitimado, com o maior número de votos em termos absolutos desde a eleição de Ronald Reagan em 1980.

Foi uma dianteira de mais de 3,5 milhões de votos diretos, vitória folgada no Colégio Eleitoral e maioria na Câmara e no Senado. Muito diferente de 2000 quando perdeu para Al Gore por 540 mil votos diretos. Sem falar na vitória no Colégio Eleitoral por um mísero voto, depois de uma inacreditável e suspeitíssima contenda de contagens e recontagens sucessivas na Flórida, providencialmente governada pelo irmão Jeb Bush.

Agora, quem está sentado na cadeira mais quente do planeta não é mais um presidente eleitoralmente fragilizado para quem o 11 de setembro surgiu como uma oportunidade ímpar de legitimação política pelo apelo ao patriotismo e ao belicismo mais desvairados. Não, agora quem está lá é um presidente que teve a aprovação plena de suas políticas e que mostrou bem mais segurança e clareza que seu fraco adversário.

“John Kerry perdeu porque é insosso e não foi capaz de apresentar ao eleitorado um conjunto de idéias claras.”

Tales Alvarenga, revista Veja, 17.11.2004

Ao contrário, porém, do que possa parecer à primeira vista, a aprovação pode provocar um efeito contrário. Em vez do endurecimento das posições do governo norte-americano, agora legitimadas pelo voto, é bem possível que vejamos até um abrandamento dessas posições já que a necessidade de bravatas diminuiu muito.

No curto e médio prazos, inclusive, a vitória de Bush é melhor para o Brasil, não só pela boa relação pessoal que, curiosamente, estabeleceu com o presidente Lula (que, na brincadeira, chegou a chamá-lo de “companheiro” Bush) como por uma questão pragmaticamente comercial.

“… a vitória de Bush é paradoxalmente melhor para as economias européia e latino-americana: para obter o apoio dos sindicatos, Kerry prometeu mais medidas protecionistas.”

Slavoj Zizet, filósofo esloveno, Mais, 07.11.2004

Esses aspectos potencialmente favoráveis não devem, todavia, de forma nenhuma, entorpecer a constatação de que a legitimação pelo voto também remete à confirmação de tudo o que foi feito no primeiro mandato. O mundo é outro depois do 11 de setembro, coisa que a atual vitória de Bush confirma e fortalece.

“… ele tinha de vencer duas vezes para que os liberais percebessem que estamos todos entrando em uma nova era.”

Slavoj Zizet

Uma era onde segurança e maniqueísmo estão em alta. Onde a luta do “bem” contra o “mal” está fortemente disseminada nas relações internacionais, com as trágicas repercussões que vemos todos os dias pela televisão.

Número 508 - 08 de novembro de 2004

A vitória tem muitos pais
mas a derrota, por sua vez, é órfã

Em meio à busca de culpados pela derrota do PT em importantes capitais, fica evidente que sem crescimento e emprego em 2005 está comprometida a reeleição do presidente Lula em 2006

 

Se, já no rescaldo do primeiro turno, o espírito da frase do título pôde ser observado na argumentação de alguns responsáveis por campanhas derrotadas pelo Brasil afora, agora, depois da perda das prefeituras de São Paulo e Porto Alegre no segundo turno, pode ser visto claramente pairando sobre o debate interno do PT.

Embora tenha mais do que duplicado o número de prefeituras conquistadas em relação à eleição de 2000, a perda de importantes capitais para o PSDB, deixou um gosto amargo na boca do PT que já começa a perceber implicações relevantes para a eleição presidencial de 2006.

“O PSDB recebeu um mandato renovado e fortalecido para liderar a oposição. Com essas vitórias - São Paulo, Curitiba e Florianópolis - e a votação de conjunto, o PSDB restabelece uma dinâmica possível de uma frente de centro-esquerda que apareceu nitidamente fraca nas últimas eleições presidenciais.”

Juarez Guimarães, cientista político da UFMG

Ainda mais porque a “derrota” do PT deu-se num contexto de desprestígio junto à classe média que pareceu votar contra o partido, ao que tudo indica, como uma espécie de desencanto pelo não cumprimento das promessas eleitorais de mudança do país para melhor.

“… não conseguimos manter aqueles contingentes das classes médias que estavam nos apoiando, com encantamento político pelas propostas do PT.”

Tarso Genro, Ministro da Educação

Com essa perda de apoio, cresce, ainda mais, a importância do papel jogado pela retomada firme do crescimento econômico na eleição presidencial de 2006. Sem que fique evidente, ao longo do próximo ano, que a economia entrou numa rota inequívoca de crescimento sustentado, as chances de reeleição do presidente diminuem bastante.

“Se a economia melhorar, as chances de uma candidatura Lula podem ser muito boas. Se a economia permanecer como está ou piorar, 2004 passa a ter um peso muito grande porque o PT perdeu, e a base do governo vai ficar fraca.”

Francisco Weffort, cientista político

O abalo do resultados das urnas foi tão grande que já no início da semana iniciou-se uma troca de acusações entre a coordenação da campanha de Marta Suplicy e o senador Eduardo Suplicy sobre a responsabilidade do ex-marido na derrota da ex-mulher. O episódio culminou com o inusitado parlamentar do PT brandindo na Rede Globo o livro do marqueteiro responsável pela campanha de Marta, Duda Mendonça (”Casos e Coisas”), destacando o trecho onde ele afirma “quem bate perde”, dando a entender que a coordenação não seguiu os ensinamentos do guru.

Mais conseqüente, todavia, foi a reunião da cúpula do PT com o presidente Lula, no meio da semana passada, para avaliação “a quente” dos resultados do segundo turno.

“A conclusão geral foi de que o resultado das eleições tornou o caminho de Lula à reeleição um pouco mais espinhoso. Da reunião decidiu-se tentar reagrupar a base governista no Congresso e acelerar o crescimento econômico, afagando a classe média com mais emprego e mais renda.”

Revista Veja, 10.11.2004

Crescimento econômico e emprego, portanto, saíram mais fortalecidos ainda do segundo turno como pedras de toque em 2005 para a campanha da reeleição em 2006.

Número 507 - 01 de novembro de 2004

O papel da comunicação interna
na conquista dos corações e mentes

Uma comunicação interna bem feita é um complemento fundamental do planejamento estratégico para a conquista dos corações e mentes dos "trabalhadores de conhecimento"

 

No Gestão Hoje 505, foi tratado o tema do Planejamento Estratégico como meio privilegiado de conquista dos “corações e mentes” das pessoas que trabalham nas empresas e organizações de um modo geral.

Todavia, não foi tratada, por questão de espaço, a importância da comunicação interna como ferramenta essencial para a internalização dos conteúdos do Planejamento Estratégico por toda a organização.

Essa importância se dá pelo fato de hoje em dia, e cada vez mais, o trabalho organizacional caracterizar-se como “de conhecimento”. Peter Drucker, o guru dos gurus da administração, chega mesmo a dizer que os trabalhadores contemporâneos, todos nós em última instância, são “trabalhadores de conhecimento” que não podem ser “mandados” mas, sim, tratados como sócios.

“O trabalhador de conhecimento não pode ser administrado como subordinado: é um sócio. Pode ser sócio júnior ou sênior, mas não é subordinado ou superior.”

Peter Drucker, consultor austríaco, radicado nos EUA

Como sócios, portanto, que carregam seu trabalho na cabeça (na condição de “trabalhadores de conhecimento”), não podem deixar de participar da definição da estratégia da empresa nem, muito menos, deixar de serem bem informados dos rumos da organização. Caso contrário, se desinteressarão do “investimento” societário e procurarão direcionar seus interesses para “investimentos” que dêem melhor “retorno”.

Por conta, justamente, dessa crescente “intelectualização” do trabalho numa sociedade dita “da informação”, assolada, inclusive, por uma overdose de informações, a comunicação interna bem feita passa a ser uma necessidade capital. Passam a ser essenciais, deste modo, mais diálogo, mais debates e mais discussões para transmitir/gerar conhecimento, lidar com as incertezas e criar novas soluções para os desafios empresariais relevantes.

Hoje, na prática, a comunicação interna constitui-se numa importante ferramenta de gestão, imprescindível para a competitividade das empresas.

Mas, apesar de se terem desenvolvido, ao longo dos últimos tempos, toda uma gama de mídias internas de comunicação tais como jornais, murais, teleconferências, intranets etc., as pesquisas sérias têm demonstrado, com bastante ênfase, que a comunicação interna mais eficaz é a do gerente com a sua equipe, independente das parafernálias disponíveis.

“Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto.”

Millôr Fernandes, jornalista e humorista brasileiro

Por exemplo: só o gerente é capaz de contextualizar, na medida adequada, o impacto da estratégia adotada pela empresa para a sua área e quais as exigências decorrentes para a equipe.

Todavia, para que o gerente seja, efetivamente, um agente de comunicação competente, a área encarregada da comunicação interna (em muitas organizações, essa função é acumulada pela área de recursos humanos) deve mantê-lo bem assessorado e treinado para o exercício deste importante papel.

Nem sempre a área responsável atua deste modo, restringindo-se, em boa parte dos casos, à produção de jornais, campanhas internas, peças de comunicação e eventos para os empregados, esquecendo ou relegando a segundo plano, o assessoramento ao gerente.

Uma boa comunicação interna, pautada pelo gerente com os conteúdos básicos do planejamento estratégico, é, portanto, um fator indispensável de competitividade empresarial nos exigentes dias atuais.

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