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Número 506 - 25 de outubro de 2004

Estudos mostram que o Brasil
derrapa na competitividade internacional

Instituições internacionais apontam carga tributária, juros, instabilidade das regras, corrupção e legislação trabalhista como fatores de perda de competitividade do país frente aos seus concorrentes

 

Nas últimas semanas foram publicados quatro estudos realizados por instituições estrangeiras (Banco Mundial; Fórum Econômico Mundial; A. T. Kearney; e Transparência Internacional) que mostram perda de posição relativa do Brasil frente aos seus concorrentes internacionais.

No estudo do Bird - Banco Mundial (Relatório para o Desenvolvimento Mundial 2005), o Brasil é considerado o pior país do mundo entre as 53 nações pobres e emergentes pesquisadas, em termos de atratividade para investimentos, em razão, sobretudo: (1) da alta carga tributária; (2) da instabilidade de regras e das políticas públicas; (3) do custo abusivo dos financiamentos para o setor produtivo; (4) do alto índice de corrupção; e (5) dos altos custos trabalhistas.

De acordo com o relatório de competitividade internacional de 2004 do Fórum Econômico Mundial (?ndice de Crescimento Competitivo), o Brasil recuou três posições em relação ao ranking do ano passado. Caiu do 54o. para 57o. lugar, ficando atrás de países como Botswana (45o.), Trinidad e Tobago (51o.) e Namíbia (52o.). Os principais fatores que prejudicaram o Brasil foram: (1) elevada carga tributária; e (2) altíssimos juros bancários.

Para a consultoria norte-americana A. T. Kearney, entre 25 nações avaliadas, o Brasil ocupa a 17a. colocação em termos de atratividade para investimentos externos. Com essa colocação, o país caiu oito posições em apenas um ano (estava em 9o. no relatório de 2003).

Já para a Transparência Internacional, no estudo ?ndice de Percepções de Corrupção 2004, o Brasil caiu do 53o. para 59o. lugar no ranking da transparência. O país obteve a nota 3,9 (numa escala de zero a dez) em termos de corrupção no setor público.

Não se pode negar que esses rankings têm seus defeitos e deixam a desejar. Por qualquer critério que seja utilizado, colocar Botswana à frente do Brasil é uma inadequação evidente. Como salienta o jornalista Elio Gaspari, em sua coluna de 17.10.2004, Botswana é um país africano onde 30% da população adulta está infectada pelo vírus do HIV e, por conta disso, o crescimento demográfico é negativo. Destacando o quanto são descabidas algumas dessas comparações, Gaspari lembra outro ranking inadequado.

“Outro ranking, de fevereiro, informou que, num grupo de 41 países, a capacidade de empreendimento da sociedade brasileira perdeu para a de Uganda, que ficou entre os melhores do mundo.”

Elio Gaspari, jornalista brasileiro

Além disso, praticamente em todos esses estudos, têm sido incluídos, a cada ano, novos países, o que faz com que a classificação se modifique só por causa disto.

Independente dessas flagrantes inadequações, todavia, as pesquisas e os estudos, devem ser encarados como importantes sinalizações para o país. Recentemente, numa solenidade pública, o presidente Lula previu a volta do país ao grupo das oito maiores economias do mundo, posição ocupada até 1995 quando o Brasil detinha a 7a. posição.

Nesse ano, o PIB do Brasil era calculado em US$ 704 bilhões, atrás dos EUA, do Japão, da Alemanha, da França, da Inglaterra e da Itália. Hoje, depois da desvalorização cambial e do baixo crescimento dos anos seguintes, o país ocupa a 15o. posição com um PIB de US$ 498 bilhões. Em menos de dez anos viu passarem à sua frente a China, o Canadá, a Espanha, o México, a Coréia do Sul, a ?ndia, a Holanda e a Austrália.

Por esta razão, apesar da falibilidade dos rankings e da apreciação do câmbio até 1995, é preciso atentar para a tendência que é de perda de competitividade, justamente, naquilo que já sabemos ruim: carga tributária; juros; estabilidade das regras; legislação trabalhista; e corrupção. E uma coisa é certa: sem competitividade internacional não há desenvolvimento que se sustente.

Número 505 - 18 de outubro de 2004

O planejamento estratégico como
meio de conquista dos corações e mentes

Mais do que a produção de um plano, o planejamento estratégico pode e deve ser usado como um instrumento de mobilização dos corações e das mentes das pessoas nas empresas

 

Com a chegada do final do ano, as empresas começam a pensar nas suas avaliações e a se prepararem para o próximo exercício. Uma ferramenta de grande utilidade para isso é o planejamento estratégico.

Em vista disso, talvez seja oportuno chamar a atenção para uma característica do planejamento estratégico, freqüentemente esquecida, que é o seu potencial mobilizador da intenção (da “mente”) e da emoção (do “coração”) das pessoas em relação ao futuro das organizações para a qual trabalham.

Michel Godet, especialista francês em prospectiva e estratégia, chega a falar em três capacidades estratégicas básicas a serem desenvolvidas pelas organizações competitivas: de antecipação; de realização; e de mobilização.

É, justamente, essa capacidade de mobilização das pessoas que pode e deve ser desenvolvida e potencializada pelo planejamento estratégico como um resultado tão ou, até mesmo, mais importante do que o próprio produto formal do processo que é o plano estratégico.

Quando se está realizando o planejamento estratégico de uma empresa, se está tratando, sobretudo, de estabelecer, reforçar ou revisar o seu direcionamento estratégico e não, apenas, fazer um plano, por mais brilhante e detalhado que seja.

“Mudar o direcionamento estratégico é principalmente um processo mental.”

Thomaz Wood Jr., professor da FGV/SP

E como processo mental, tanto mais consistente será quanto mais disseminado estiver no pensamento das pessoas na empresa.

A experiência com a gestão empresarial tem evidenciado, inclusive, que a “ancoragem” estratégica de uma organização é diretamente proporcional ao desenvolvimento do seu pensamento estratégico. Ou seja, quanto mais pessoas estiverem constantemente pensando estrategicamente em relação ao futuro da empresa, mais consistente será sua situação competitiva no mercado e menos arriscado será seu futuro.

Portanto, conquistar as “mentes” das pessoas é um objetivo que deve fazer parte de qualquer processo de planejamento estratégico que se preze. Mesmo porque, embora seja materialmente visível e consiga gerar produtos ou serviços palpáveis, uma empresa é, sobretudo, em sua essência, uma construção mental.

“Uma empresa é uma escultura do pensamento.”

Clemente Nóbrega, consultor carioca

Todavia, embora fundamental, isso só não basta. Tão importante quanto conquistar a mente das pessoas para a estratégia da empresa, essencial também é conquistar seus “corações”. Sem isso, a conquista da mente é precária. Sem a dimensão afetiva ou emocional, a dimensão racional ou “mental” fica incompleta, como bem destaca o escritor francês Saint-Exupéry.

“É apenas com o coração que se pode ver direito; o essencial é invisível aos olhos.”

Antoine de Saint-Exupéry, 1900-1944

Conquistar “o coração e as mentes” das pessoas para a estratégia e o futuro das empresas é, portanto, uma das tarefas mais relevantes da gestão contemporânea. Sem que isso seja feito, sem pessoas com o pensamento estratégico desenvolvido e alerta (com a “mente” conectada), bem como sem que estejam afetiva e emocionalmente envolvidas (com o “coração” conquistado), a fragilidade competitiva da organização será muito grande, por mais poderosa ou sólida que ela aparente momentaneamente ser.

Usar o planejamento estratégico também com esse foco é uma excelente oportunidade.

Número 504 - 11 de outubro de 2004

Resultados finais da eleição apontam
avanço da sociedade à frente da política

Com a vitória do PT e do PSDB à frente do PMDB e do PFL, além da derrota de vários oligarcas e populistas regionais, a sociedade brasileira dá mostras de importantes avanços políticos

 

Com a apuração completa dos votos dados no primeiro turno das eleições municipais, fica evidente a reconfiguração do quadro político no país.

A distribuição dos 95.181.774 votos válidos para prefeito foi a seguinte: o PT teve 16.326.030 (17,15%); o PSDB teve 15.747.592 (16,54%); o PMDB teve 14.249.339 (14,97%); o PFL teve 11.234.656 (11,80%); e os menores partidos (PP, PDT, PTB, PL, PPS, PSB, PV PC do B, Prona, PSTU e outros) obtiveram 39,54%.

O PT, campeão em número de votos, teve um crescimento de 36,75% em relação à eleição municipal do ano 2000. O crescimento do PSDB foi de 16,49% e o do PMDB foi de 7,48%. Já o PFL teve uma queda de 13,40%.

Curiosamente, foram os partidos nanicos e pequenos que mais cresceram em termos percentuais da eleição de 2000 para a de 2004: o PC do B (que teve 0,93% do eleitorado e cresceu 132,24%); o PV (com 1,43% do eleitorado e crescimento de 111,83%); o PL (com 5,28% do eleitorado e crescimento de 97,70%); o PSTU (com 0,19% do eleitorado e crescimento de 86,57%); e o PPS (com 5,20% do eleitorado e 41,15% de crescimento).

Da observação do quadro pós eleitoral, podem ser tiradas algumas conclusões importantes. A primeira delas é que o PT e o PSDB, com essa eleição, se convertem nas duas principais forças políticas do país. A segunda é que os dois outros partidos grandes (PMDB e PFL), apesar de conservarem, ainda, grande número de prefeituras, com algumas poucas exceções (inclusive as que possam ser decorrentes dos resultados a se verificarem nas 44 cidades onde haverá segundo turno no próximo dia 31), foram empurrados dos grandes centros urbanos para o interior do país (para onde o jargão político convencionou chamar de “grotões”).

Além desse fortalecimento do PT e do PSDB, outro fenômeno interessantíssimo foi o enfraquecimento das oligarquias e das lideranças populistas regionais. A família Sarney foi derrotada no primeiro turno em São Luís; Antonio Carlos Magalhães escapou de ficar fora do segundo turno em Salvador por insignificantes 0,26% dos votos; Tasso Jereissati foi derrotado em Fortaleza; Antony Garotinho perdeu feio no Rio de Janeiro; e Paulo Maluf, ao que tudo indica, com os 11,94% dos votos obtidos, encerrou sua carreira política em São Paulo.

Esses resultados parecem indicar um avanço em termos de amadurecimento político do país, como destaca o professor da Universidade Federal de Pernambuco Michel Zaidan na última edição da revista Veja:

“Já que o Congresso não faz uma reforma política, o amadurecimento do eleitorado está fazendo-a na prática. (…) tirando espaço dos partidos clientelistas e oligarcas e priorizando siglas com programas mais definidos, em especial nos centros urbanos.”

Michel Zaidan, cientista político, UFPE

Uma mudança, portanto, patrocinada pelo eleitor, de forma ativa, apontando o rumo em direção ao qual a representação política deve trilhar.

“Talvez estejamos assistindo a uma redefinição, pelo eleitorado brasileiro, do campo político em que os partidos devem atuar: mais ao centro, mais previsíveis, com preocupações sociais que pareçam autênticas e um certo verniz ético. Hoje, PT e PSDB são, dentre os grandes partidos, aqueles cujas imagens mais se aproximam desses requisitos.”

Editorial, Folha de S. Paulo, 05.10.2004

Ao que tudo indica, a eleição atual evidenciou mais um avanço da sociedade à frente da política.

“A sociedade brasileira tem sabido se mostrar mais amadurecida do que suas elites políticas.”

Denis Rosenfield, cientista político, UFRS

Número 503 - 04 de outubro de 2004

As duas faces de uma eleição:
consolidação da democracia e do ilícito

Ao fazer uma das mais democráticas eleições do mundo, o Brasil, ao mesmo tempo, consolida suas instituições e evidencia a prática perniciosa do financiamento ilícito das campanhas

 

Ao realizar o primeiro turno da sua décima terceira eleição após a redemocratização (depois do fim do governo militar), o Brasil contabiliza números que colocam seu processo eleitoral dentre os maiores do mundo.

Foram 120 milhões de eleitores aptos a votar em 15.781 candidatos disputando 5.562 prefeituras e em 346.373 candidatos disputando 51.802 vagas de vereador. Uma multidão que fez, em todos os centros urbanos importantes, nos quatro cantos do país, uma mobilização a que já se convencionou chamar de “festa cívica”.

De fato, uma “festa” majoritariamente pacífica, com raríssimos casos registrados de tumultos ou ocorrências policiais. Algo surpreendente dada a magnitude da mobilização e considerando que cerca de 70% da população saiu à rua para votar.

Digno de registro, também, é o sistema de votação e apuração que tem como peça chave a chamada “urna eletrônica”. Um verdadeiro fenômeno tecnológico, capaz de encerrar a apuração dos resultados do pleito em menos de 24h após o encerramento da votação, observado in loco por nações estrangeiras as mais diversas, interessadas em copiar o modelo em suas respectivas eleições.

Do ponto de vista político-partidário, o destaque desta eleição foi a vitória do PT que não só reelegeu em primeiro turno prefeitos em cidades importantes que já governava como tem a perspectiva concreta de mais do que dobrar, em termos numéricos, as 200 prefeituras que hoje detém pelo país afora.

Além do PT, saiu também fortalecido o PSDB, ao passo que, pelo menos de acordo com que indicam os números iniciais, o grande perdedor teria sido o PFL.

Tudo isso, inclusive a alternância do peso dos partidos na correlação das forças políticas, reforça o processo de aperfeiçoamento institucional no país. Uma vitória, portanto, da democracia brasileira.

Todavia, junto com todo esse avanço, um aspecto preocupa. Trata-se do velho e pernicioso processo de financiamento das campanhas, uma das principais fontes de desvios de parcelas significativas da vida pública brasileira.

A propósito do tema, tão indigesto quanto importante para o aperfeiçoamento do processo político brasileiro, foi recentemente lançado o livro “A Mentira das Urnas” (editora Record) do jornalista Maurício Dias. Nele, o autor defende a tese de que os ilícitos na arrecadação de recursos de campanha comprometem o resultado das eleições uma vez que o processo todo fica sob suspeita quando os partidos injetam nas campanhas muito mais dinheiro do que informam oficialmente.

“A prestação de contas é enviada à Justiça Eleitoral que finge acreditar nos números. É a ‘beatificação do ilícito’ como dizia o ex-ministro da Justiça Paulo Brossard.”

Maurício Dias, IstoÉ, 06.10.2004

Segundo Maurício Dias, esse processo obscuro faz com que o interesse alcance as máquinas governamentais e cargos-chave sejam reservados para figuras “talentosas” na arte de arrecadar. No governo federal esse vício, de acordo com o autor, “torna os cargos de segundo e terceiro escalões mais cobiçados do que até mesmo os ministérios”. Com isso, muitas administrações que emergem das eleições já iniciam contaminadas pelo vírus da suspeita, perpetuando o ciclo da improbidade.

Duplo processo de confirmação, portanto, o eleitoral brasileiro. De um lado, do fortalecimento cívico e institucional da democracia. Do outro, das práticas de financiamento de campanha que alimentam a corrupção administrativa e ajudam a colocar o Brasil no último lugar do ranking da competitividade por investimento entre as 53 nações emergentes do mundo, de acordo com recente estudo do Bird (assunto que será tema de um próximo Gestão Hoje).

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