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Número 498 - 30 de agosto de 2004

Participação do Brasil nas olimpíadas
mostra o quanto ainda precisamos avançar

Apesar de ter obtido a sua melhor performance em jogos olímpicos, a atuação do país, quando comparada, deixa à mostra o quanto ainda precisa ser feito para sermos uma potência olímpica

Com o encerramento das Olimpíadas de Atenas, neste domingo, o Brasil contabiliza a sua melhor campanha em jogos olímpicos com a conquista da 18ª colocação alcançada com 4 medalhas de ouro, 3 de prata e 3 de bronze.

As medalhas de ouro foram ganhas pelo iatismo (duas) e pelo vôlei masculino (de praia e de quadra). As de prata pelo vôlei de praia feminino, pelo futebol feminino e pelo hipismo. As de bronze pelo judô e, surpresa geral, inclusive pelo inusitado incidente envolvendo o atleta brasileiro que liderava a prova, pelo desempenho na maratona.

Além dessas, o Brasil ainda deixou escapar, pelo menos, mais duas medalhas de bronze (basquete e vôlei feminino) e uma de ouro na vela (classe Mistral).

O que chama a atenção na análise das modalidades premiadas é a convivência de esportes de elite como o iatismo e hipismo e, de certa forma também, o judô, com esportes coletivos e populares como o vôlei e o futebol, ainda que feminino. A exceção fica por conta da maratona.

O iatismo, inclusive, já transformado numa tradição do esporte nacional ao se constituir na modalidade responsável pela maior quantidade de medalhas ganhas pelo Brasil em jogos olímpicos (12 ao todo). O próprio Torben Grael, com a conquista da medalha de ouro na classe Star em Atenas, tornou-se o maior velejador dos jogos olímpicos e o maior atleta olímpico brasileiro em número de medalhas (2 ouros, 1 prata e 2 bronzes).

Uma curiosidade: para conseguir este desempenho o Brasil levou a Atenas a sua mais numerosa delegação olímpica. Foram 246 atletas, 124 homens e 122 mulheres.

Embora essa performance na Grécia possa ser considerada um avanço, ainda é para lá de modesta quando comparada com o desempenho de países com os quais concorremos na categoria de potência econômica emergente: China (63 medalhas) e Rússia (92 medalhas), respectivamente segundo e terceiro lugar, atrás do EUA (103 medalhas), primeiro lugar disparado em Atenas.

Inclusive, como o maior país latino-americano, em termos econômicos e populacionais (mais de 170 milhões de habitantes), o Brasil ficou atrás de Cuba, uma ilha caribenha com 11 milhões de habitantes, que alcançou o 11° lugar com 27 medalhas conquistadas.

Essas comparações deixam evidente o quanto ainda precisa ser feito em termos de incentivo ao esporte no Brasil. O aspecto positivo é o misto de constatação e promessa feita pelo ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, que se diz imbuído da missão de transformar o Brasil numa potência olímpica:

“Uma potência olímpica não nasce do dia para a noite. Se constrói na escola, é fruto de uma política de estado, um planejamento voltado para milhares de pessoas e não uma parte da população somente. (…) Acredito que em três ciclos olímpicos, contando com este, o Brasil vai possuir uma equipe altamente competitiva.”

Agnelo Queiroz, Diário de Pernambuco, 29.08.2004

Enquanto essa promessa não se cumpre, inclusive precedida da execução de toda a política de incentivo a se iniciar já agora após as Olimpíadas, segundo o ministro, cabe-nos contentar com performances excepcionais como a do time de vôlei de quadra masculino e atentar para o que disse o capitão Nalbert sobre a relevância do trabalho em equipe, tão ou mais importante, no esporte e fora dele, do que os talentos individuais:

“Não sei se é o melhor time de todos os tempos mas é o melhor grupo de todos os tempos, com certeza.”

Nalbert, GloboNews, 29.08.2004

Número 497 - 23 de Agosto de 2004

Desconfie de quem “pensa” e fala
“complexo” demais e age de menos

Novidade importante da filosofia contemporânea, o pensamento complexo tem sido, infelizmente, usado por alguns como pretexto para confundir o ambiente das empresas e organizações

 

Sim, o mundo é complexo. A vida é supercomplexa. A mente humana é hipercomplexa (existem mais neurônios no cérebro, por exemplo, do que estrelas na Via Láctea e a quantidade de ligações entre eles, as chamadas sinapses que constituem a base do nosso pensamento, chegam aos trilhões). Mas a gestão empresarial e suas ações precisam ser, para terem conseqüência e eficácia, objetivas e simples. Essa contradição se traduz muito bem no binômio (ver a propósito o número 312):

“Complexidade do pensamento e simplicidade da ação.”

Ocorre que a complexidade é um tema que tornou-se filosoficamente atual. A chamada Ciência da Complexidade tem, hoje em dia, pensadores sérios do porte, por exemplo, do sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, que se tem dedicado, há muitos anos, ao estudo do assunto, inclusive com implicações para a Ciência das Organizações.

“Ciência da Complexidade, uma nova disciplina que estuda a linha fina e cambiável que separa o caos da ordem e suas aplicações na administração.”

Marcelo Cherto, consultor paulista

Acontece, porém, que a complexidade tem servido, na atualidade, como um mais novo e sofisticado biombo usado por aquelas conhecidas figuras que “fazem número” nas organizações, sejam funcionários ou prestadores de serviço contratados. Vulgarmente falando, daqueles que estão “enrolando” e usam a conversa difícil para esconder que não sabem o que fazer.

Uma dica: desconfie de quem fala demais e age de menos, principalmente daqueles que usam o falatório travestindo-o de “pensamento complexo”. Geralmente é para lançar uma cortina de fumaça sobre suas verdadeiras intenções. Não por acaso, o falso ético (ver número anterior 496) é mestre nesse tipo de expediente.

“A característica de um homem de bom senso é falar pouco e dizer sempre coisas razoáveis.”

Josep A. Toussaint Dinouart, abade francês, em 1771

Por isso, não se pode ser condescendente com a “complexidade” despropositada ou mal intencionada. Se não entender o que está sendo dito, não se envergonhe de perguntar. Jack Trout no bom livro “O Poder da Simplicidade” (Makron Books) é enfático sobre a questão.

“Nunca tenha medo de dizer ‘não entendi’. É preciso ser intolerante com a arrogância intelectual.”

Jack Trout, publicitário norte-americano

A melhor forma de lidar com essas criaturas organizacionalmente perniciosas é exigir que transformem a sua sofisticação intelectual, na maioria das vezes apenas pretensiosa ou confusa (abordar de forma conseqüente a complexidade é tarefa que exige competência e é, portanto, para poucos), em algo objetivo, resumido e prático para que tenha desdobramentos concretos para a gestão. Jack Trout cita no seu livro uma frase de um executivo de uma empresa norte-americana:

“Se uma idéia não pode ser expressa em uma página, ela (ou seu autor) provavelmente está com defeito.”

Arte Ciocca, executivo da Wine Group

Se não tiver oportunidade ou poder para solicitar algo parecido, adote a ação prudente já recomendada: desconfie do fulano. A atitude dele pode denotar pouca competência, intenção equivocada ou mal entendimento dos problemas. Nos três casos, com efeitos nocivos para a boa gestão.

“Você nunca deve confiar numa pessoa que não consiga entender.”

Jack Trout, publicitário norte-americano

Número 496 - 16 de agosto de 2004

Uma nova forma de pirataria surge
no ambiente empresarial: a falsa ética

Inspirados pela nefasta propensão nacional à falsificação de produtos e idéias e pela emergência do conceito de responsabilidade social, os falsos éticos constituem uma nova forma de ameaça

 

O costume, infelizmente muito disseminado no país, de pirataria e plágio de produtos e idéias (ver a respeito os números 494 e 495), tem, com certeza, incentivado um outro tipo de falsificação: da ética.

Caricaturalmente apontado como um país onde a ética nunca foi um artigo de primeira linha, o Brasil e o brasileiro sempre padeceram da imagem de pouco éticos. País do “jeitinho” e da malandragem, onde imperava a “lei de Gerson”, o Brasil tem presenciado, nos dias atuais, uma espécie de fortalecimento da ética e da seriedade.

Evidência disto é o crescimento do espírito de responsabilidade social e da consciência de que é imprescindível a participação da sociedade na resolução dos grandes problemas do país e do resgate da enorme dívida social do Brasil. Sem falar do avanço da responsabilidade fiscal, inclusive com legislação específica em vigor.

Todavia, para não fugir à tradição, a despeito do sentimento e da prática emergentes e em ascensão da conduta ética e responsável, não é raro nos deparamos com um tipo novo: o falso ético. Aquele que, usando o disfarce da ética, como uma pele de cordeiro, potencializa sua ação perniciosa, não raro lançando mão de conceitos considerados “modernos” como é o caso da “fidelidade à carreira” em detrimento da “fidelidade à empresa” (ver a respeito o número 453).

Algumas pessoas valem-se da idéia, completamente equivocada, de que o mais importante é ser fiel à sua carreira para, usando da maior desfaçatez e alegando, por exemplo, “problemas pessoais”, desligarem-se de uma empresa para, em pouco tempo, passarem a trabalhar numa concorrente e ainda serem cúmplices no aliciamento de outras pessoas da antiga empresa.

Esse tipo de procedimento, cada vez mais comum, faz lembrar o lúcido alerta do filósofo e ensaísta francês, Roland Barthes (ver a respeito o número 290):

“Profissional de talento é aquele que soma 2 pontos de esforço, 3 pontos de talento e 5 pontos de caráter.”

Roland Barthes, 1915-1980

Quem tem responsabilidade gerencial deve estar sempre atento para não se deixar enganar pelo falso ético. Se não tomar cuidado será vítima dele mais cedo ou mais tarde. Na maioria dos casos, mais cedo do que tarde. Por uma razão muito simples: a falta de ética ou de caráter é definitiva.

Em todos os outros itens normalmente utilizados para a avaliação dos liderados (capacidade, disponibilidade, sintonia de valores, vontade etc.) se pode usar uma escala ampla. Em se tratando do caráter, não. É binário: ou se tem bom ou não se tem. Não se pode dizer que alguém tem “mais ou menos” caráter.

Essa constatação é especialmente importante porque é comum o falso ético ser também inteligente, intelectuamente bem dotado e, não raro, charmoso.

“O caráter, em sua acepção mais ampla, engloba a personalidade, e não apenas a parte ética. O caráter é mais importante que o intelecto.”

Roger Gould, psicólogo americano

Todo cuidado é pouco porque os danos que o falso ético pode causar são muito grandes, sobretudo quando assumem responsabilidades maiores, o que é normal dada a competência operacional que comumente tem.

Especial atenção deve ser dada ao disfarce da responsabilidade social que, por constituir-se num conceito atualmente em alta, cai como uma luva para o falso ético que o utiliza com a desenvoltura digna de um Oscar de efeitos especiais.

Portanto, todo cuidado para não cair nas malhas envolventes desse novo representante da aparentemente inesgotável capacidade nacional de falsificar produtos originais, por mais sofisticados que sejam.

Número 495 - 09 de Agosto de 2004

Esperteza e impunidade se aliam
para fazer do país um paraíso da pirataria

Incentivada pela escandalosa carga tributária, a pirataria de produtos e idéias se estabelece no país como uma verdadeira preferência nacional que pune severamente quem é original

Pressionadas por uma das maiores cargas tributárias do mundo, cada vez mais empresas no Brasil terminam fazendo a arriscada escolha pela informalidade (ver a respeito, o número anterior do GH, 494 e o número 475).

Se isso já é, por si só, ruim, torna-se pior em face de uma espécie de subproduto hiper danoso da informalidade que já assume contornos de calamidade social (é preciso sempre manter em mente que já se estima em 60% - sim, isso mesmo, 60% - o percentual da mão-de-obra nacional que não tem carteira assinada). Esse subproduto é a “pirataria”.

Do CD pirata, ao transporte público clandestino (kombis, vãs, bestas e, até, ônibus que circulam transportando pessoas sem autorização para isso), passando pela falsificação de remédios, roupas, eletrodomésticos, sapatos, relógios, combustíveis, enfim, tudo o que possa dar dinheiro pela diferença entre o preço do original e o falsificado ou clandestino.

No que diz respeito à sonegação fiscal, a situação evidencia uma grande injustiça para quem pretende agir dentro da lei.

“A sonegação fiscal é o maior atentado à livre competição. Ela diminui preços para fora e engorda lucros para dentro.”

Roberto Campos, 1917-2001, economista brasileiro

Quem procura andar na linha do ponto de vista fiscal, termina perdendo competitividade diante da sonegação e da pirataria enquanto vê os contraventores, na grande maioria das vezes impunes, ganharem dinheiro e, não raro, enriquecerem de forma despudorada.

Essa situação que não é de hoje, como se pode ver pela citação abaixo do ex-presidente eleito e morto antes da posse Tancredo Neves, mas que atualmente tem ganhado proporções alarmantes, justamente pelo estímulo da alta carga tributária.

“No Brasil teima-se em maltratar quem produz, gratificar quem especula e estimular quem sonega.”

Tancredo Neves, 1910-1985, político brasileiro

Além dessa situação grave de prêmio à pirataria de produtos e, até, estimulada por ela, tem aumentado, de forma exponencial no Brasil, uma outra forma tão ou mais danosa que ela que é a pirataria de idéias.

Hoje em dia é desconcertante a desfaçatez com que se copiam, sem qualquer remorso ou punição, idéias alheias. Do conceito original sobre um serviço inovador à idéia exposta em um artigo de jornal, passando pela obra de arte, o pirata copia na maior e não está nem aí.

Se não bastasse ser um crime, a pirataria é o apanágio dos medíocres e dos pobres de espírito, a despeito da esperteza da conduta. O grande músico brasileiro Antônio Carlos Jobim, o genial Tom, criador da bossa-nova, durante muito tempo acusado pelo xiitismo musical tupiniquim de plagiar músicas norte-americanas, reagia com a indignação dos autores originais:

“Copiar não tem graça nenhuma. O que é, de fato, estimulante é criar uma coisa nova, que ninguém ainda criou.”

Tom Jobim, 1927-1994, músico brasileiro

Com certeza não vai muito longe um país de “imitões” de produtos e idéias alheias, sobretudo se isso é feito de forma criminosa e impune. Por isso, não se pode fazer vista grossa a esse tipo de coisas nem tirar por menos. É preciso denunciar e exigir punição rigorosa.

Infelizmente, todavia, isso ainda parece distante. Para se ter uma idéia do descaso oficial para com o assunto, só no mês passado foi nomeado o presidente do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), órgão responsável pelo registro das marcas e patentes no país, sem titular desde o início do atual governo federal.

Número 494 - 02 de agosto de 2004

Sem uma reforma tributária séria é
muito difícil manter o crescimento sustentado

A altíssima carga tributária paga pelos contribuintes formais no Brasil transforma-se em grave obstáculo para o desenvolvimento na medida que impede a formação de poupança no país

 

Há duas semanas a sociedade brasileira obteve uma vitória marcante ao impedir que o governo federal promovesse mais um ataque ao bolso dos contribuintes e aumentasse os encargos sociais dos empregadores de 20 para 20,6% sobre a folha de salários (ver Gestão Hoje número 493).

Todavia, essa vitória apenas serviu para chamar a atenção sobre o descalabro que é a carga tributária no Brasil.

“Se alguém quiser fazer um sistema tributário que incentive ao máximo a informalidade na economia deve copiar o modelo brasileiro.”

José Alexandre Scheinkman, GloboNews, 26.07.2004

De fato, a carga, que no primeiro semestre/2004 atingiu a impressionante percentagem de 40% do PIB, é não só alta como injustamente distribuída. Se admitimos a hipótese, otimista, segundo nos afirmam especialistas, de que para cada real arrecadado, um outro não chega a sê-lo, concluímos que temos uma informalidade que alcança 50% do PIB. Essa hipótese não parece absurda se acreditamos nas estatísticas que projetam uma informalidade da mão-de-obra (trabalho sem carteira assinada) da ordem de 60%.

Ora, se só metade dos contribuintes devedores pagam impostos, quem paga, paga o dobro do que deveria. Ou seja, se todos pagassem o que deveriam, bastaria que pagassem a metade para manter o mesmo montante arrecadado. Em percentuais, poderíamos dizer que, se todos pagassem, bastaria pagar 20% da receita para manter a mesma arrecadação. Neste caso, a carga seria bem mais suportável.

Segundo levantamento feito por especialistas em tributação consultados pela revista Veja, uma família com renda mensal variando entre R$ 2.500,00 e R$ 10.000,00 mensais paga um percentual médio equivalente a 65% da sua renda a título de tributos, contribuições, impostos embutidos em bens e serviços como alimentação e telefone, além de gastos com educação, saúde e segurança (que deveriam ser providos pelo estado).

“A classe média arca com uma carga fiscal muito alta, porque paga imposto sobre a renda, sobre o consumo e tem de contratar serviços para suprir a ausência ou a precariedade do serviço público. Acaba pagando duas vezes.”

Eduardo Fleury, advogado, Veja, 28.07.2004

O deputado Delfim Netto diz, ironicamente, que o Brasil deveria se chamar Ingana, uma vez que cobra tributos como a Inglaterra e oferece serviços como Gana (país subdesenvolvido da ?frica). Ele mesmo, avança numa proposta de revisão constitucional que promova uma reforma, de fato, conseqüente.

“Talvez devêssemos deixar para a Constituição apenas a criação de novos tributos e impor um limite superior à carga tributária bruta e ao endividamento público. Nas disposições tributárias, imporíamos a sua volta ao patamar de 25% num prazo não maior do que dez anos. Isso seria obtido por uma combinação de cortes de gastos, radical simplificação tributária para reduzir a informalidade e crescimento econômico.”

Antonio Delfim Netto, FSP, 21.07.2004

Sem isso, a sociedade brasileira vê-se condenada à super taxação e a ter frustradas suas tentativas de retomada do crescimento, inclusive, por falta de poupança para financiamento do desenvolvimento, já que nada sobra para investimento nos orçamentos comprimidos pela tributação excessiva.

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