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Número 489 - 28 de Junho de 2004

O legado de Leonel Brizola:
educação integral como direito de todos

Leonel Brizola deixa como legado de sua carreira política incomum uma preocupação efetiva com a educação básica de qualidade e em tempo integral para as crianças desfavorecidas

 

A morte de Leonel de Moura Brizola na semana passada encerra um longo ciclo da história política nacional. Como bem destaca a revista Veja desta semana, com ele,

“… morreram três ismos que convulsionaram a história brasileira: o caudilhismo, o populismo, o nacionalismo.”

Mario Sabino, revista Veja, 30.06.2004

Elio Gaspari, em sua coluna de 23.06.2003, chega, mesmo, a dizer que com Brizola acaba-se o século 20 no Brasil, assim como “o século 19 brasileiro terminou em 1891, com a morte de D. Pedro 2°…”

“… Brizola foi o último personagem da história de uma geração que viveu paixões e antagonismos a um só tempo insuperáveis e inúteis. Noves fora Juscelino Kubitschek, com seu enorme sorriso e sua fé no progresso, os principais personagens desse tempo escreveram páginas de rancores e ódios, para nada.”

Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 23.06.2004

E Brizola foi um dos principais protagonistas de escaramuças que vão desde a famosa “cadeia da legalidade”, formada por ele quando governador do Rio Grande do Sul, após a renúncia de Jânio Quadros, para garantir a posse do seu cunhado João Goulard, passando pela resistência ao golpe de 64, até uma fracassada tentativa de luta armada (Caparaó), apoiada por Cuba, com o objetivo de tomar o governo pela força.

Todavia, sua principal contribuição para a história do país não foi a coragem com que protagonizou os diversos incidentes políticos em que se envolveu. Nem mesmo foi a famosa argúcia que exercitou infinitas vezes em episódios menores, muitos deles anedóticos, em que se envolveu ou até provocou. Sua principal contribuição para a história do país deu-se no campo da educação.

“… Brizola carregou a bandeira da educação de nossas crianças como a cruzada de sua vida .”

Cristovam Buarque, Jornal do Commercio, 27.06.2004

Até hoje, segundo a palavra abalizada de ex-ministro da Educação, “o Rio Grande do Sul apresenta os melhores índices educacionais de todo o Brasil. Há muitas razões para isso, mas sem dúvida foram fundamentais as ações daquele prefeito e governador que, 50 anos atrás, deu prioridade às escolas, e investiu no futuro por meio da educação das crianças do seu estado.”

Essa contribuição no campo da educação, no entanto, foi mais conceitual do que, propriamente, física, apesar de ter executado a façanha de construir mais de 500 Cieps, os famosos “Brizolões” durante seus dois governos no estado do Rio de Janeiro.

Instrumentalizado pelo suporte intelectual do misto de genial/apaixonado/visionário/realizador Darcy Ribeiro, Brizola provou cabalmente que a educação básica de boa qualidade e em tempo integral é não só indispensável para a formação das crianças, sobretudo as mais carentes, como possível e realizável.

“Foi, principalmente, um combatente pelas crianças, nas quais ele via o futuro ser construído nas escolas. O Brasil não vai esquecê-lo.”

Cristovam Buarque

Não só não vai esquecê-lo como, até, minimizará alguns pecados graves de sua trajetória política como a insuficiente firmeza com que tratou a contravenção e o tráfico que marcaram seus mandatos à frente do poder Executivo do Rio de Janeiro e contribuíram para o agravamento, hoje gritante, da segurança no estado.

Número 488 - 21 de junho de 2004

Sob a Névoa da Guerra:
as 11 lições de Robert McNamara

Documentário baseado em entrevista do ex-secretário de defesa norte-americano enumera onze ensinamentos úteis para os atuais comandantes das batalhas empresariais, políticas e militares

Numa época especialmente turbulenta como a nossa, assistir ao filme The Fog of War: Eleven Lessons of Robert S. McNamara, traduzido para o português como “Sob a Névoa da Guerra”, é uma aula sobre os desafios do comando.

Vencedor do Oscar de melhor documentário, o filme se estrutura sobre uma entrevista de 20 horas do ex-secretário de Defesa dos EUA e ex-presidente do Banco Mundial, Robert McNamara, ao diretor Errol Morris.

Sua importância baseia-se no fato de “as lições” resultarem de um exame de consciência ocorrido depois dos acontecimentos. Depois que a névoa dissipou-se, portanto, já que durante as batalhas ela encarrega-se de turvar a visão de quem comanda.

Logo no início, McNamara, que comandou na década de 1960 a fabulosa máquina de guerra norte-americana e foi considerado o principal arquiteto da guerra do Vietnã como secretário dos presidentes John Kennedy e Lindon Johnson, surpreende, aos 85 anos, os expectadores com um desconcertante misto de constatação e mea culpa:

“Todo comandante militar comete crimes de guerra.”

Robert S. McNamara, The Fog of War

Uma das mais polêmicas e influentes personalidades políticas de sua época, McNamara foi garoto prodígio, com MBA em Harvad aos 23 anos, serviu nas Forças Aéreas dos aliados na II Guerra, aposentou-se como tenente-coronel em 1946, quando ingressou como estatístico na Ford. Em 1961, apenas cinco semanas depois de ter se tornado o primeiro presidente da montadora não membro da família Ford, McNamara aceitou o convite do recém eleito presidente John Kennedy (1917-1963) para chefiar a Defesa. Foi secretário de 1961 a 1968, período em que viveu pessoalmente três momentos cruciais da geopolítica mundial no século 20: a crise cubana dos mísseis em 62, o assassinato de Kennedy em 63 e o início da guerra do Vietnã.

Em meio a várias declarações surpreendentes, McNamara contabiliza o resultado do bombardeio de Tóquio com bombas incendiárias em 1945.

McNamara participou, como estrategista, desse bombardeio que resultou em 100 mil civis japoneses mortos e metade da cidade, que na época era de madeira, destruída pelas chamas. Chega, mesmo, a insinuar que se os EUA não tivessem sido vencedores, os militares responsáveis pelo comando das operações seriam julgados por crime de guerra.

Além das declarações de valor histórico, o que é particularmente interessante do filme são os ensinamentos de McNamara. São 11 as “lições”:

1.Tenha empatia com o inimigo.

2.Proporcionalidade deveria ser uma regra na guerra.

3.Existe algo além de nós mesmos.

4.Acreditar e ver estão, ambos, freqüentemente errados.

5.Esteja preparado para reexaminar as suas razões.

6.Consiga dados.

7.A racionalidade não nos salvará.

8.Não se pode mudar a natureza humana.

9.Maximize a eficiência.

10.Para fazer o bem talvez você precise se aproximar do mal.

11.Nunca diga nunca.

As “lições” merecem reflexão ponderada para que a ética não seja subjugada pelo afã de vencer a qualquer custo e não se venha precisar de mea culpa, depois dos fatos acontecidos.

Com esse cuidado, são ensinamentos válidos tanto para quem comanda as modernas batalhas empresariais quanto para quem comanda as militares ou políticas, como é o caso do presidente Bush que, seguramente, desconsidera a maioria das lições, sobretudo as mais sensatas e dá particular ênfase à de número 10, justamente a mais discutível do ponto de vista ético.

Número 487 - 14 de Junho de 2004

Coragem é controle do medo,
não ter medo de nada é loucura

Bem ao contrário do senso comum, ter coragem não significa não ter medo mas, sim, controlar o medo, já que não ter medo pode colocar o indivíduo, ou a empresa, em situações perigosas

 

Vez por outra nos deparamos com situações cotidianas onde ficamos receosos, com medo mesmo, de tomar uma decisão por conta de suas possíveis conseqüências. O normal é nos recriminarmos intimamente por isso. Afinal, somos incitados, desde a mais tenra infância, a ser corajosos. A não temer as conseqüências das nossas decisões.

É atribuída ao presidente Juscelino Kubitschek uma frase bem característica dessa ideologia dominante:

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”

Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1902-1976

Essa frase de Juscelino, tem servido até para inspirar plágios de qualidade bastante duvidosa como o cometido pelo inacreditável político paulista Paulo Maluf:

“Medo foi uma palavra que papai do céu não escreveu no meu dicionário.”

Paulo Salim Maluf, candidato a prefeito de São Paulo

Independente da admiração que o ex-presidente merece, é razoável supor que sua frase contenha uma ampla dose de retórica, bem comum entre os políticos, mesmo entre aqueles de boa estirpe como ele. Por essa razão, não deixa de causar surpresa a resposta de um bem sucedido empresário à pergunta sobre qual o segredo do seu sucesso empresarial:

“Medo. Muito medo de fazer as coisas.”

Esse medo, corajosamente declarado, por certo; foi responsável pela cautela que inspirou a correção das decisões empresariais tomadas.

Isso porque, muito ao contrário da crença dominante, como já referido no GH 235, ter corarem não significa não ter medo.

“Coragem é resistência ao medo, domínio do medo e, não, ausência do medo.”

Mark Twain, 1835-1910, escritor norte-americano

Ausência do medo, por mais que se diga o contrário, é incapacidade de ver o perigo que pode, facilmente, levar à imprudência. Em última análise, é um tipo especial de loucura.

A pessoa privada de suas faculdades mentais normais pode manifestar a ausência de medo como uma forma de patologia grave. Não sabe distinguir o perigo nas situações cotidianas e pode colocar, por qualquer besteira, a sua vida em perigo.

Essa patologia quando ocorrida no ambiente empresarial pode, facilmente, levar o risco de sobrevivência ao extremo. Há um dito quase popular que expressa bem esse risco: “dinheiro não aceita desaforo”. Nem loucura, poder-se-ia completar.

Diante disto, não é exagero falar-se numa espécie de “função estruturante” do medo.

“A virtude de toda grande e duradoura sociedade consiste não só na bondade e boa vontade mútua entre os homens, mas também no medo recíproco que eles têm uns dos outros.”

Thomas Hobbes, 1588-1679, filósofo inglês

Claro que, embora natural e “estruturante”, o medo não pode nem deve ser paralisante nem servir de pretexto para não se fazer o que precisa ser feito.

Mais do que ficar paralisado pelo medo, é fundamental, tanto do ponto de vista pessoal quanto empresarial, dominá-lo e evitar ficar refém dele.

“Dominar o medo é o início da sabedoria.”

Bertrand Russel, 1872-1970, filósofo inglês

Número 486 - 07 de junho de 2004

Não acredite em quem promete
mágica com um livro ou uma palestra

São cada dia mais abundantes os livros e as ofertas de palestras "motivacionais" que prometem a mudança fácil, seja no âmbito pessoal ou empresarial, o que só ocorre com muito trabalho

Uma das coisas mais impressionantes da gestão empresarial contemporânea é como se encontra disseminada a busca por soluções milagrosas e, conseqüentemente, a propensão que muitas pessoas têm de se deixar enganar por todo tipo de picaretagem travestida de coisa séria ou de cunho “motivacional”.

Clemente Nóbrega, físico nuclear, escritor de livros sobre conhecimento científico e gestão empresarial e ex-diretor de marketing da empresa de saúde Amil, chega a ser enfático sobre o tema:

“Um dia alguém ainda vai escrever sobre a incrível ingenuidade dos homens duros, escolados, bons negociadores, espertos, mas que nessas coisas ou caem em ‘contos-do-vigário’ supostamente sofisticados ou então ficam fazendo a apologia de livros cuja mensagem se resume a recomendações do tipo: ‘faça as coisas mais importantes primeiro’. Francamente…”

Clemente Nóbrega, revista Exame, 05.11.1997

De fato, uma simples vista de olhos sobre as estantes dedicadas à “administração de empresas” das livrarias, sobretudo as de aeroporto, é suficiente para deixar qualquer um impressionado com a profusão de títulos de livros prometendo receitas mágicas ou infalíveis para resolver os problemas das empresas e, também, os problemas de motivação dos próprios leitores.

Dentre os títulos, avultam aqueles de auto-ajuda do tipo, “você-quer-você-pode”. Sem falar dos que apresentam receitas seguras para resolver os problemas das empresas combalidas pelas mudanças aceleradas e carentes de “energia empreendedora”.

A prática, todavia, evidencia à exaustão que não existe receita mágica para tratar das mazelas organizacionais, muito menos para reestabelecer a motivação para quem supostamente a perdeu. Só uma coisa é capaz de operar mudanças efetivas: muito trabalho e muita determinação de quem é responsável por conduzir o processo.

Como se não bastasse toda a literatura enganosa, há os “mercadores” da motivação que saem pelo mundo corporativo afora “pregando” o otimismo e a salvação empreendedora.

“Por convicção e responsabilidade não acredito em discursos, palestras e seminários de conteúdo supostamente motivacional e transformador. Esses eventos não motivam ninguém; não passam de uma experiência duvidosa, ditada pelo modismo ou pela ousadia de quem sabe semear superficialidades para colher dividendos imediatos.”

Gutemberg de Macedo, consultor paulista 

Palestras “motivacionais” ou livros de auto-ajuda pessoal ou empresarial, quando fazem efeito, são momentâneos. “Funcionam” apenas o tempo necessário para permitir a saída de cena do ilusionista.

“Motivação não tem nada a ver com estímulo temporário, e o efeito dessas conferências motivacionais é similar ao do gás hilariante: dura apenas enquanto o conferencista está no palco.”

Gutemberg de Macedo, Você S/A, setembro/2003

Portanto, cuidado com as palestras, livros ou filmes “motivacionais” que abundam por aí. Deles, praticamente nada se aproveita. Mudança de atitude, sejam pessoais ou organizacionais, dependem de muito trabalho e não se consegue, nunca, por nenhum passe de mágica, por mais charmoso ou competente que seja o mágico.

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