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Número 476 - 29 de Março de 2004

Do jeito que está é melhor vender a
empresa e aplicar no mercado financeiro

Impostos e juros altos, além de demanda fraca, contribuem para que o investimento produtivo perca feio para as aplicações financeiras e o governo em crise nada faz para mudar o quadro

 

Conforme foi comentado no Gestão Hoje da semana passada (número 475), é muito árdua a luta pela sobrevivência empresarial no Brasil em razão, principalmente, da elevadíssima carga tributária (próxima de 40% do PIB, uma das maiores do mundo) e a maior taxa básica de juros do planeta.

Do ponto de vista competitivo essa mistura é explosiva e, em muitos casos, fatal. Sufocadas pelas dívidas com o governo e com os bancos, as empresas defrontam-se, hoje em dia, também, com forte desaquecimento da demanda provocado pela queda da renda dos consumidores (de 14% no último ano e de 25% entre 1997 e 2003) e pelo endividamento recorde das pessoas físicas, sobretudo as mais pobres.

“Os impostos devoram um terço da renda mensal, e o pessoal que é pobre vai para o mercado de crédito e paga 300% ao ano de juros. O pobre é quem mais paga impostos e juros no País.”

Joelmir Beting, IstoÉGente, 08.03.2004

Cortadas pela alta carga tributária, drenadas pelos juros abusivos e desnutridas pela demanda fraca, as empresas vêem-se diante da forte tentação da informalidade. De acordo com as informações do Censo de 2000, dos 66 milhões de pessoas empregadas naquele ano, apenas 34 milhões tinham carteira de trabalho assinada. Ou seja, praticamente, 50% da mão de obra empregada está na informalidade. Um índice, para se dizer o mínimo, alarmante.

E como se isso não bastasse, vem o novo ministro da Previdência (o senador Amir Lando) propor a elevação da alíquota do INSS como forma de tapar um novo rombo surgido no sistema estatal de aposentadorias.

O fato positivo foi que houve uma verdadeira onda de indignação ante a proposta indecente do ministro, o que mostra o nível de saturação que o problema já atingiu no âmbito da sociedade civil organizada.

A situação é tão crítica que estudo recente publicado pela Folha de S. Paulo dá conta de que é mais vantajoso para o empresariado, do ponto de vista financeiro, vender suas empresas e aplicar o dinheiro em juros.

“A rentabilidade média de grandes empresas brasileiras no último triênio perde para a dos títulos públicos. Os números mostram que as empresas analisadas (…) lucraram na média dos últimos três anos, 7,8% sobre o capital investido. No mesmo período, aplicar num papel do governo, que rende aproximadamente os juros pagos pelo CDI, garantiu uma média de retorno de 19,88% por ano.”

Folha de S. Paulo, 21.03.2004

Que futuro tem a livre iniciativa num país em que durante anos seguidos aplicar em papéis de baixo risco confere um ganho 2,5 vezes superior ao obtido com o investimento na produção? Uma coisa é certa: nenhuma sociedade resiste íntegra por muito tempo a uma elite constituída de rentistas e contraventores, desemprego recorde e um mercado de trabalho vicejando na informalidade. Explode mais cedo do que tarde.

O mais grave de tudo isso é que o governo Lula, eleito porque prometeu “mudar esse estado de coisas”, não só não está conseguindo como, nos últimos dias, anda mais perdido do que nunca, envolvido em crises e confusões de toda natureza.

Diminuir a carga tributária (e não aumentá-la como vem fazendo desde que iniciou), baixar os juros, promover a inclusão social, criar empregos e retomar o rumo do crescimento sustentado são tarefas bastante exigentes e não podem ser realizadas por governos fracos ou permanentemente em crise. Ou o governo reage e sai da letargia ou será atropelado pelos fatos, ficando a reboque de uma sociedade que já começa a dar sinais de exaustão. Torçamos pelo melhor.

Número 475 - 22 de Março de 2004

Impostos e juros mais altos do mundo
estimulam informalidade absoluta no país

A confissão do motorista de taxi foi testemunhada por Frederico Leal, Diretor Executivo da Câmara de Diretores Lojistas do Recife (CDL Recife), após um comentário sobre a proliferação incontrolável dos vendedores de CDs piratas no centro da cidade:

A confissão do motorista de taxi foi testemunhada por Frederico Leal, Diretor Executivo da Câmara de Diretores Lojistas do Recife (CDL Recife), após um comentário sobre a proliferação incontrolável dos vendedores de CDs piratas no centro da cidade:

“Doutor, se não fosse eles eu agora não poderia estar ouvindo esse CD que está tocando no taxi. Comprei por R$ 5,00. Eu trabalho o dia todo aqui dentro e tenho direito de ouvir a música que gosto. Se fosse comprar na loja tinha que pagar R$ 30,00 e minha renda não dá para isso.”

Motorista de Taxi, centro do Recife

Esse pequeno caso verídico chama a atenção para um aspecto cruel da nossa realidade econômica e social: o avanço inexorável da informalidade (e de sua irmã gêmea, da pesada, a contravenção) como esdrúxula forma de “proteção” contra os custos exorbitantes da atividade produtiva formal.

Só para ficar no exemplo da música, reportagem da revista IstoÉ desta semana dá conta de que há seis anos o Brasil era o sexto colocado no ranking mundial de vendedores de CDs, arrecadando cerca de US$ 1,17 bilhão por ano. Hoje, o mercado despencou em decorrência do comércio ilegal e, a cada três CDs vendidos, dois são piratas. Com isso, o país caiu para a décima segunda colocação com uma renda anual, oficial, de apenas US$ 390 milhões.

Na revista Veja da semana passada, o articulista Stephen Kanitz, em artigo bastante comentado, faz algumas observações fundamentais sobre o tema.

“Até recentemente, as empresas médias sobreviviam sonegando um ou outro dos 46 impostos a pagar. Sonegavam o suficiente para se manterem vivas. Hoje não dá mais para sonegar. Ou se sonega tudo, devido aos excelentes controles e amarrações entre os órgãos arrecadadores, ou não se sonega nada.”

Stephen Kanitz, revista Veja, 17.03.2004

Como é evidente que a produção e a distribuição dos CDs piratas não é feita por aqueles que os comercializa no varejo, por trás do que se vê na rua existem organizações que resolveram partir para a informalidade total e, com isso, entrar com os dois pés na contravenção.

Claro que esse é um caso bem mais grave do que o exemplo citado pelo Kanitz mas a motivação básica é a mesma: livrar-se dos encargos da formalidade. Com uma diferença: quem não tem índole criminosa não agüentará o tranco por muito tempo e terminará fechando as portas.

“Como sonegar todos os impostos dá cadeia, e não sonegar nenhum significa falência em alguns anos, a saída é fechar a empresa assim que for possível.”

Stephen Kanitz, revista Veja, 17.03.2004

Kanitz, inclusive, avança no seu raciocínio prevendo, a continuarem as coisas no pé em que estão, a destruição das pequenas e médias empresa, assinalando que muitas delas não fecham imediatamente as portas porque não podem pagar, sequer, os elevados custos da demissão dos funcionários. É triste constatar isso, mas a elevadíssima carga tributária e a maior taxa de juros do mundo estão provocando uma realidade empresarial de terra arrasada, contra a qual todos temos que nos opor, vigorosamente, ou teremos um futuro negro pela frente.

 

Agradecimento

A TGI e a editoria do Gestão Hoje agradecem sensibilizados os inúmeros parabéns e manifestações de carinho recebidos dos leitores pela passagem dos 10 anos do informativo. Nosso compromisso pelos próximos 10 anos é, no mínimo, manter a disposição de continuar fazendo o melhor informativo do gênero no país, esperando continuar contando para isso, com a preferência dos leitores. Nosso muito obrigado a todos.

Número 474 - 15 de Março de 2004

Se é um problema fácil,
não devia ter chegado até o gerente

A complexidade da vida organizacional coloca o gerente numa posição de "resolvedor" de problemas complexos que deve desconfiar dos problemas simples que chegam até ele

Diante das grandes atribulações da vida moderna, as pessoas tendem a se queixar da quantidade e da qualidade dos problemas que têm que resolver. De qualquer pessoa pode-se ouvir sem contestar essas reclamações, menos do gerente, aquele que tem responsabilidade de liderança numa organização.

Não podem reclamar porque foram colocados na posição que ocupam, justamente, para resolverem problemas que outras pessoas não conseguem, como muito bem registra Tom Peters em frase já publicada no número 468:

“Faz uns 20 anos que um alto executivo da AT&T me disse que, se lhe apresentassem um problema que ele fosse capaz de resolver imediatamente, haveria algo de errado na organização. Esse problema deveria ter sido resolvido um ou dois níveis mais abaixo. ‘Eu sou pago para me ocupar de questões complexas’.”

Tom Peters, revista HSM Management nº 32

De fato, a principal razão de ser da função gerencial, além da liderança das pessoas, é, justamente, lidar com a inescapável complexidade da vida e do desenvolvimento organizacional, procurando dar-lhe sentido, em busca de soluções para os problemas que surgem quase que de forma ininterrupta. Se não fosse para isso, o gerente / dirigente / líder, em tese, seria dispensável porque outros teriam a capacidade de desempenhar o seu papel.

“…o desafio do desenvolvimento é muito complexo. Se desenvolvimento fosse fácil, todos o teríamos alcançado…”

José Maria Figueiras, diretor do Fórum Mundial

A questão da complexidade da organização e da liderança, embora suspeitada há muito tempo, só recentemente vem ganhando status de constatação científica (ver GH números 201 e 312). Nelson Rodrigues, o nosso genial dramaturgo e insuperável frasista já havia abordado, com seu jeito peremptório, o assunto há tempos.

“A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana.”

Nelson Rodrigues, Continente Multicultural, 07/2002

Desde a “simples” pelada rodrigueana ao macro contexto econômico, a complexidade funciona como uma espécie de constante, conforme nos lembra o festejado economista canadense Galbraith.

“A vida econômica é um processo de ajustes constantes a coisas complexas que nunca ocorreram antes.”

John Kenneth Galbraith

É esta realidade complexa que abomina simplificações ligeiras e que exige do gerente um tipo de aptidão diferenciada para lidar com situações inusitadas e “fora dos padrões”. Um tipo de aptidão que o coloca na posição de praticante e desenvolvedor do pensamento complexo.

“O pensamento complexo é essencialmente o pensamento que lida com a incerteza e é capaz de conceber organização.”

Edgar Morin, Jornal do Brasil, 05.09.1998

Quem ocupa, portanto, um cargo gerencial numa organização qualquer, não pode queixar-se da dificuldade dos problemas que tem que enfrentar. Pelo contrário: deve até desconfiar se eles não aparecerem complexos…

 

10 Anos Hoje

Com a publicação do presente número, o Gestão Hoje completa 10 anos de circulação ininterrupta. Publicado pela primeira vez em março de 1994, tem procurado cumprir o desafiador papel de veículo de síntese e atualização sobre o que está na ordem do dia da gestão empresarial. Na oportunidade, agradecemos aos leitores o estimulante apoio que nos têm dado.

Número 473 - 08 de Março de 2004

No final das contas,
sai mais barato dizer a verdade

O escândalo no qual se envolveu o governo federal, além de lançar luz sobre o financiamento das campanhas políticas no Brasil ainda possibilita discutir a importância de dizer a verdade

O principal aspecto positivo do último escândalo político envolvendo o governo federal foi o fato de ter trazido à luz dos holofotes da mídia um dos maiores segredos de polichinelo do país: o financiamento das campanhas políticas.

“… até o gramado em frente ao Congresso Nacional sabe aquilo que o país sabe e suas elites empresariais muito mais ainda: campanhas eleitorais são financiadas dentro e à margem da lei .”

Revista Carta Capital, 25.02.2004

Fonte inesgotável de corrução pelo que enseja antes e depois das doações, enquanto a questão não for rigidamente disciplinada, as chances de moralização são remotas.

“Para cada real que passa por cima da mesa, corre outro por baixo. Qualquer organização na qual metade do dinheiro em circulação é ilegal tende a virar um antro. (…) Na fase final das grandes campanhas, para cada R$ 3 que entram (por dentro ou por fora), um voa.”

Elio Gaspari, 07.03.2004

Além do benefício de lançar luz sobre essa obscura seara pública, o recente escândalo também dá margem a algumas considerações sobre a questão da verdade e da mentira no âmbito da política e, de um modo geral, nas relações sociais. Assunto, inclusive, recém abordado em artigo pelo prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia no qual comenta livro recente (”The New Prince”) do ex-assessor de imagem do presidente Clinton, Dick Morris, tratando do tema “como sobreviver a um escândalo”.

“Não há maneira de ‘ganhar’ na cobertura de um escândalo. A única maneira de sair vivo é dizer a verdade, agüentar o tranco e avançar. (…) Uma mentira leva a outra, e o que era uma incomodidade se aproxima da obstrução criminal da Justiça.”

Cesar Maia, Folha de S. Paulo, 05.03.2004

Não só na política mas na vida social, de uma modo geral, dizer a verdade, é não apenas moralmente necessário como, até, na maioria das vezes, prático.

“Dizer a verdade tem mais uma vantagem: não é preciso lembrar-se do que foi dito antes.”

Jorge Luiz Borges, 1899-1986, poeta argentino

Na política esse princípio, todavia, não é muito bem aceito porque a versão tende a predominar.

“Na política, às vezes, a versão vale mais do que a verdade.”

Gustavo Capanema, 1900-1985, político brasileiro

Uma coisa, todavia, é certa, não é bom mentir, seja por razões morais ou pragmáticas. Por outro lado, não se pode ser ingênuo (ingenuidade não rima nem com política nem com a vida produtiva, de um modo geral) e sair dizendo a verdade de qualquer jeito. A esse respeito, já em 1771, no livro “A Arte de Calar”, podia-se ler:

“O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas é preciso sempre ser sincero; podem-se reter alguns pensamentos, mas não se deve camuflar nenhum. Há maneiras de calar sem fechar o coração; de ser discreto sem ser sombrio e taciturno; de ocultar algumas verdades sem as cobrir.”

Josep Antoine Toussaint Dinouart, abade francês

Número 472 - 01 de Março de 2004

Governo no inferno astral:
escândalo político e PIB negativo

Atingido pelo golpe de um escândalo político de grandes proporções, o governo Lula, ainda zonzo, descobre que o país teve em 2003 o pior desempenho econômico dos últimos 12 anos

 

Nas últimas semanas, o governo parece que entrou numa espécie de inferno astral de onde não está fácil sair. Tudo começou quando surgiu nas telas um vídeo no qual um graúdo assessor parlamentar da Casa Civil (na época presidente da Loteria do Rio de Janeiro), homem de confiança do super ministro José Dirceu, pede a um declarado contraventor do jogo do bicho ajuda financeira para candidatos do PT e, de troco, uma parte para si mesmo. Em contrapartida, oferece facilidades numa concorrência pública.

O episódio expõe com toda clareza, pelo menos, duas coisas muito graves: (1) o esquema de financiamento de campanhas políticas, de todos conhecido mas por ninguém publicamente admitido; (2) a participação do PT num esquema do qual anunciava estar excluído, posando de reserva da moralidade nacional. Postura da qual, pela fala de alguns dos seus membros, parece começar a se arrepender.

“No passado fomos bem rigorosos. Diria até um pouco excessivos na fiscalização. Tudo em nome do nosso compromisso com a ética. O PT merece fazer um autocrítica e reconhecer que muitas vezes fomos precipitados.”

Patrus Ananias, Ministro do Combate à Fome

Agora, na condição de vitrine, o PT governista começa a aprender como tratar de questões que, antes, na cômoda posição de pedra, lidava de forma que beirava a irresponsabilidade, quando não a ultrapassava em nome da “moralidade”.

Não é fácil ser governo, como não é fácil governar um país com a magnitude dos problemas que tem o Brasil. O que a maioria do país esperava do partido ao colocá-lo no governo era algo diferente do que se acostumara a ver.

Infelizmente, na primeira grande prova de fogo política a qual foi submetido, o partido fraquejou.

“É lamentável que o PT, com sua história e sua tradição tão peculiares no cenário político nacional, se encontre agora enredado em escândalos tão iguais aos de outros partidos que viviam sob sua mira. O governo petista está, na prática, pagando pela escolha de agir, durante a crise, à imagem e semelhança de todos os outros governos.”

Revista Veja, 03.03.2004

Isso, com o agravante de não ter a experiência deles para lidar com os inevitáveis desdobramentos que uma crise dessa magnitude tem.

E como se não bastasse a queda provocada pelo escândalo da propina eleitoral, para completar o quadro de inferno astral, na sexta-feira passada o governo recebeu o coice da divulgação do crescimento do PIB em 2003: queda de 0,2% em relação a 2002. Algo que não se via desde 1992. Elio Gaspari informa, em sua coluna deste domingo, que nos últimos 60 anos só dois presidentes tiveram resultado pior: João Figueiredo e Fernando Collor.

Duas conseqüências podem ser vislumbradas desse mais recente escândalo: (1) possibilidade do início do tratamento sério do problema do financiamento das campanhas eleitorais; e (2) desgaste do ministro José Dirceu com o conseqüente fortalecimento da ortodoxia da equipe econômica e adiamento da retomada do desenvolvimento sustentado.

“O escândalo (…) já terá valido a pena se servir para o país finalmente atacar uma eterna e inesgotável fonte de corrupção de grosso calibre: o financiamento das campanhas eleitorais.”

Ricardo A. Setti, revista Exame, 03.03.2004

“Dirceu é o único em condições de ousar enfrentar a armadilha da atual política econômica sem entrar nos limites de irresponsabilidade populista.”

Luís Nassif, Folha de S. Paulo, 26.02.2004

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