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Número 467 - 26 de janeiro de 2004

Para Peter Drucker, “a melhor
forma de prever o futuro é criá-lo”

A atuação conseqüente em relação ao futuro passa por uma boa construção de cenários e por um planejamento estratégico eficaz temperado por uma dose generosa de sonho possível

 

A frase de Peter Drucker nos remete para a finalidade do planejamento e do seu suporte que é a construção de cenários (conforme exposto nos dois números anteriores, 465 e 466). Ou seja, focaliza a ação concreta de fazer com que as coisas sonhadas e projetadas no presente aconteçam no futuro.

“Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã.”

Victor Hugo, 1802-1885, escritor francês

A dimensão do sonho, inclusive, no que diz respeito ao planejamento estratégico, é tão importante quanto não assumida em sua adequada dimensão. Ou tende a ser subdimensionada, mediocrizando o resultado do planejamento pela tirania da realidade apenas possível ou, por outro lado, a ser superdimensionada pelo delírio da impossibilidade, “detonando” o resultado do planejamento pelo excesso de pretensão. Ambas atitudes são, ao que parece, uma reação, ou tímida ou delirante, à incógnita que para nós o futuro representa.

“É por isso que somos obcecados pelo futuro. Temos medo dele.”

Clemente Nóbrega, físico e consultor brasileiro

Na sua justa medida, porém, o sonho possível nos leva para além do medo, para o campo da realização desafiante, da possibilidade de construir algo que vá além da mesmice ou da mediocridade do apenas provável, conforme a citação do polêmico político, jornalista e editor, depois de cassado pelo regime militar de 1964, Carlos Lacerda.

“O futuro não é o que a gente teme. O futuro é aquilo que a gente ousa.”

Carlos Lacerda, 1914-1977

A dimensão do sonho possível e desafiante é tão importante que, quando suficientemente consistente, transforma-se naquilo que o compositor Gonzaguinha conseguiu expressar de forma muito feliz em verso como sendo “a fé no que virá” e chega a suplantar, com sua força, o grande poder de moldagem que têm as certezas do passado.

“Vivemos mais dos sonhos do futuro do que dos planos do passado.”

Thomas Jefferson, 1743-1826, presidente dos EUA

A força do passado reside, justamente, em ser algo consolidado pelo qual passamos, julgando conhecer pela experiência e, portanto, poder reaplicar com segurança. Um tipo de engano muito comum nos processos de planejamento.

“Não devemos planejar o futuro pelas lições do passado. Nossa experiência humana é repetição e não sabedoria.”

Edmund Burke, 1729-1797, filósofo irlandês

Hyrum Smith, autor do livro “The 10 Natural Laws of Successful Time and Life Management” (New York, Warner Books, 1994), citado por Jaime Wagner em “A Arte de Planejar o Tempo” (Literalis Editora, Porto Alegre, 2003), faz uma interessante analogia ao dizer que a linha da vida é feita de concreto.

“O futuro é concreto mole, moldado pelos sonhos e desejos. O passado é concreto endurecido, onde estão inscritas as realizações. O problema é que a marca do hoje não cessa de avançar, solidificando, no passado, aquilo que se está fazendo agora em função de um desejo ou compromisso anterior.”

Jaime Wagner, consultor gaúcho

Para que o concreto endureça moldando a melhor estrutura possível, é essencial ter pensado no futuro de forma conseqüente (ter construído bons cenários) e ter feito um planejamento consistente (ter montado uma estratégia de qualidade), tudo temperado por uma dose generosa de sonho possível.

Número 466 - 19 de janeiro de 2004

Três cenários que “iluminam” o
futuro e qualificam a estratégia projetada

Os cenários de referência, mais a computação das probabilidades de ocorrência, ajudam a "lançar luz" em direção ao futuro e qualificar o planejamento estratégico e a estratégia projetada

 

Conforme antecipado no número anterior, são descritos a seguir três cenários para o Brasil em 2004, a partir da evolução provável de três dimensões críticas (econômica, política e social). Esses cenários foram construídos com a colaboração de mais de 100 executivos de empresas diversas.

1.Cenário Favorável

Dimensão Econômica: crescimento da economia > 4%, desafogo fiscal com inflação abaixo de um dígito e câmbio estabilizado em torno de R$ 3,00.

Dimensão Política: aprovação das reformas da Previdência e Tributária, e início da Trabalhista, com estabilidade da base política do governo.

Dimensão Social: paralisação da piora do quadro social com o sucesso da política governamental e controle das invasões no campo e nas cidades.
2.Cenário Livre de Surpresas

Dimensão Econômica: crescimento da economia @ 2%, com inflação estabilizada e o câmbio abaixo de R$ 3,00.

Dimensão Política: encaminhamento da reforma da Previdência, sem grandes concessões, impasse na Tributária, emperramento da Trabalhista e início de instabilidade na base política do governo.

Dimensão Social: manutenção da situação de pressão social com a indefinição da política governamental e continuação de invasões no meio rural e nas cidades.

3.Cenário Desfavorável

Dimensão Econômica: crescimento da economia < 2% (ou recessão), arrocho fiscal, inflação pressionada e câmbio instável.

Dimensão Política: dificuldades no encaminhamento da reforma da Previdência, paralisação da Tributária e da Trabalhista e desagregação acentuada da base política do governo.

Dimensão Social: piora do quadro de pressão social com emperramento da política governamental e descontrole das invasões no campo e nas cidades.

Na avaliação da probabilidade de ocorrência desses cenários, os mesmos executivos que colaboraram na sua construção indicaram aqueles que no seu sentimento tinham mais probabilidade de ocorrência.

O resultado a que se chegou foi a “eleição” do cenário Livre de Surpresas como sendo o mais provável, com os seguintes percentuais: 75% de probabilidade de ocorrência da Dimensão Econômica; 80% no que diz respeito à Dimensão Política; e 68% no que diz respeito à Dimensão Social.

As outras probabilidades computadas foram no Cenário Favorável: 15% de probabilidade de ocorrência da Dimensão Econômica; 10% de probabilidade de ocorrência da Dimensão Política; e 0% de probabilidade de ocorrência da Dimensão Social. E no Cenário Desfavorável: 10% de probabilidade de ocorrência da Dimensão Econômica; 5% de probabilidade de ocorrência da Dimensão Política; e 32% de probabilidade de ocorrência da Dimensão Social.

Evidentemente, apesar de, no fim do processo, o resultado se revestir de um aparente “rigor” estatístico, justamente por conta da ilusão propiciada pela matemática dos percentuais, é preciso não esquecer que, ao fim e ao cabo, tratam-se de percepções, como, aliás, tudo o mais que diz respeito ao futuro.

Em meio à inescapável incerteza sobre o que virá, o principal mérito da construção de cenários e da decorrente computação de probabilidade de ocorrência, é abrir com mais nitidez o leque de possibilidades e, com isso, lançar um pouco mais de luz em direção ao futuro.

Cabe a nós, planejadores, lançar mão dessa “iluminação” para dar mais qualidade às formulações e à estratégia que se pretende por em prática.

Número 465 - 12 de janeiro de 2004

Construção de cenários como
reforço para o planejamento estratégico

Diante das crescentes incertezas quanto ao futuro, o planejamento estratégico pode ser bastante beneficiado com o apoio da metodologia de construção de cenários de referência

 

O objetivo do planejamento, por mais competente que seja, não é, ao contrário do que pensa muita gente boa, prever o que vai acontecer no futuro. Por uma razão muito simples: é literalmente impossível prever o futuro. Quem diz o contrário está sendo enganado ou está tentando enganar alguém.

“Não é possível saber e não importa qual é o futuro. A única pergunta relevante é: o que faremos se tal cenário acontecer?”

Arie P. de Geus, planejador, ex-diretor da Shell

Isso porque a incerteza é um componente essencial do futuro e não pode ser eliminada quando se planeja. De acordo com a Macroplan - Prospectiva & Estratégia (http://www.macroplan.com.br/), empresa de consultoria que trabalha há mais de 20 anos na construção de cenários e prospecção de futuros: “A incerteza, a instabilidade e a imprevisibilidade das mudanças socioeconômicas, políticas, culturais e tecnológicas criam riscos e limitações que nem sempre são adequadamente identificados pelo processo de planejamento estratégico.”

Daí, a necessidade de utilização de técnicas que ajudem a organizar as incertezas para o planejamento. Dentre as metodologias disponíveis, a que apresenta melhores resultados é a construção de cenários.

“…o método de construção de cenários é atualmente o mais completo e rico processo de antecipação de futuros. Trabalhando sempre com mais de uma possibilidade, os cenários reduzem a inevitável incerteza frente ao futuro sem cair no determinismo.”

Macroplan, Cinco Cenários para o Brasil, Nórdica, 2001

Um exemplo bem marcante é o da Shell a partir do choque do petróleo de 1973. No início dos anos 70, sua equipe de planejamento construiu, dentre outros, um cenário que previa um choque para cima dos preços do petróleo, sem definir a data. Esse cenário foi amplamente debatido pelos executivos da empresa. Quando o choque veio, apenas a Shell (a menor das “sete irmãs”) estava emocionalmente preparada para a mudança. Hoje é a segunda e a mais rentável de todas elas.

Os cenários bem construídos, portanto, permitem: (1) preparar a organização para as crescentes incertezas do futuro; (2) apoiar a tomada de decisões para a formulação dos grandes objetivos e estratégias institucionais; (3) identificar oportunidades e ameaças decorrentes das mudanças do ambiente externo; e (4) construir um referencial para o plano estratégico da instituição.

Apesar de envolver um processo que pode ser bastante detalhado, há um procedimento mínimo que, embora sem a riqueza da metodologia completa, permite auxiliar a tomada de decisões nos processos de planejamento estratégico, sobretudo quando mais acelerados. Trata-se da construção de três cenários de referência (livre de surpresas, favorável e desfavorável), a partir dos principais fatores críticos de sucesso da situação em análise (econômicos, políticos, sociais, tecnológicos etc.).

O ideal é que dessa construção participem todos os envolvidos no processo de planejamento. Quanto mais participantes, mais ricas as conclusões. Ao final deve-se chegar a uma matriz de referência com as descrições sintéticas dos três cenários possíveis para cada um dos fatores críticos definidos e trabalhar-se naquele que deve ser escolhido, no entendimento dos participantes, como o cenário mais provável. Quando isso é feito, o processo básico do planejamento estratégico começa a partir daí (oportunidades, ameaças, forças, fraquezas…).

No próximo número do Gestão Hoje será apresentado um exemplo de cenários construídos considerando a realidade do país no horizonte 2004.

Um alerta, todavia, é importante: por melhor que seja o cenário construído, ele não elimina as incertezas. Apenas ajuda a dar-lhe uma ordem para que o processo decisório quanto ao futuro melhore de qualidade.

“Já que é impossível prever com exaltidão, a idéia deve ser: esteja preparado para qualquer futuro.”

Clemente Nóbrega, físico consultor brasileiro

Número 464 - 05 de janeiro de 2004

Que a janela de 2004 mantenha-se
aberta até a “sustentação” do crescimento

Entre prós e contras, abre-se uma janela para o crescimento econômico em 2004 que precisa ser mantida aberta para que a sombra da dívida social não obscureça o futuro do país

Não há nenhuma dúvida de que uma janela de oportunidade para o crescimento econômico se abrirá em 2004. Dez entre dez analistas, dos mais sérios aos sempre presentes palpiteiros, confirmam isso. Mesmo porque, a base de comparação (2003) é muito fraca. As últimas previsões falam em crescimento de 0,2%. Ou seja, zero ou, até mesmo com um pouco de azar, negativo.

A grande dúvida de todos é se essa retomada será duradoura ou não. Uma parte acha que sim, outra, ao que parece maior, acha que não. Os que acham que sim falam de uma conjugação inédita de condições favoráveis, não vista há, pelo menos, uma década (inflação controlada, dívida pública estabilizada, juros declinantes, câmbio comportado, governo policamente estável, economia mundial em crescimento, risco país em patamares mínimos). Os desconfiados, desfiam seus argumentos contrários (superávit primário excessivamente elevado, juros reais ainda muito altos, baixo nível da poupança interna e escassez da externa, renda deprimida, carga tributária elevada e de má qualidade, infra-estrutura sucateada, alta vulnerabilidade externa, risco acentuado de uma escalada altista dos juros internacionais).

A mera observação, inclusive, desse embate entre crédulos e incrédulos no crescimento sustentado, quando observamos os argumentos dos crédulos, faz lembrar o grande escritor argentino Luiz Borges:

“Somos todos, sim, a favor do desenvolvimento. Desde que possamos obtê-lo sem sofrimento.”

Jorge Luiz Borges, 1899-1986, escritor argentino

Isso porque é obvio que a retomada do desenvolvimento, impulsionado pelo crescimento sustentado, não se fará, depois de mais de duas décadas, sem uma dose considerável de esforço.

Um esforço, inclusive, que reconhecidamente não será pequeno, nem de fôlego curto, como atestam economistas de todas as tendências.

“O desenvolvimento econômico e social não se improvisa e não tem atalhos. É trabalho de duas ou mais gerações.”

Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia de 2000

Sobretudo no Brasil que há tanto tempo não sabe o que é crescimento econômico consistente e, por conta disso, com o agravo da elevada inflação crônica de mais de uma década, teve suas condições sociais significativamente deterioradas a ponto de, hoje, figurar na triste lista dos países mais socialmente injustos do mundo.

Uma condição, inclusive, que contribui decisivamente para minar a confiança de muitos, levando-os a duvidar da capacidade do país retomar o crescimento sustentado, dada a instabilidade social que paira como uma sombra negra sobre o nosso futuro. Uma sombra que, aliás, só se dissipará se o crescimento sustentado for retomado, não obstante todos os esforços, a boa vontade e as políticas compensatórias, tipo Fome Zero e equivalentes, que os governos se propuserem a colocar em prática.

“Assim como a estabilidade de preços é o melhor programa social, a recuperação dos investimentos e do crescimento econômico cria empregos e reduz a pobreza como nenhum outro programa de gastos do governo seria capaz.”

André Lara Resende, economista brasileiro

Façamos votos, pois, que a janela de crescimento aberta em 2004 não se feche tão cedo.

 

Desenvolvimento e Paz em 2004

A TGI aproveita a oportunidade do primeiro número do Gestão Hoje de 2004 para desejar aos clientes, amigos e leitores um ano novo repleto de paz e realizações profissionais e pessoais. E que essas realizações se dêem em meio à retomada do tão almejado crescimento sustentado do país, sem o qual, o objetivo de paz dificilmente se concretizará.

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